O mito do reencontro de Helena e Menelau

Ainda a celebrar um pouco do amor, falamos hoje de outro mito em que este sentimento também tinha um papel principal.

Bastará que se tenha lido a Ilíada para se saber que a grande razão de todo o conflito entre Gregos e Troianos foi o rapto de Helena, vulgarmente até conhecida como “Helena de Tróia”. Existem diversos momentos durante essa guerra em que os Troianos consideraram devolvê-la ao seu marido, quase sempre com o objectivo de conseguirem salvar a sua cidade. Mas, afinal de contas, como acabou toda essa sequência da história?

 

Após a morte de Páris, que a tinha como que raptado dos braços do marido, Helena foi dada em casamento a um irmão deste, Deifobo. Mais tarde, aquando da conquista de Tróia, Menelau esquartejou-o com enorme violência, antes de perseguir a sua esposa, que também pretendia vir a matar. E teve então lugar a cena que pode ser vista neste vaso, e que também aparece repetida em muitos outros:

O reencontro de Helena e Menelau

Do lado esquerdo está Menelau, quase próximo de Helena, com uma espada na sua mão, que aqui já parece cair (um elemento muitíssimo frequente nos vasos que têm esta cena pintada). Do lado direito está a sua esposa, numa clara pose de fuga, a buscar refúgio num altar de alguma figura divina. O que quer tudo isto dizer?

 

Segundo o mito, quando Menelau se preparava para alcançar a sua esposa e matá-la, por influência da deusa Afrodite sentiu um amor infindável. Em vez de dar um golpe mortal com a sua espada, deixou-a cair e abraçou Helena ternamente, enquanto chorava. Desculpou-a de tudo o que se tinha passado, tornando a amá-la como 10 anos antes.

Que isto se deveu a uma intervenção da deusa do amor está bem presente em outros vasos que mostram o episódio. Por vezes Helena mostra-lhe os seios nus, em outros casos Eros sobrevoa a cena, e frequentemente a própria deusa do amor até é representada no local. Veja-se outro belíssimo exemplo neste pequeno vídeo:

Esta parece ter sido a versão mais popular do episódio do reencontro (e, possivelmente, até a mais bela). Porém, não era a única – tanto Eurípides como Estesícoro (entre outros possíveis autores perdidos), apresentavam uma hipótese segundo a qual Helena nunca tinha estado em Tróia, como já cá falámos antes, e em que o reencontro das duas figuras é bem menos impressionante…

O mito de Narciso em resumo

De entre os muitos que nos chegaram da Antiguidade e da Mitologia Grega, o mito de Narciso, de que aqui falamos hoje, é ainda um dos mais famosos dos nossos dias de hoje. De facto, ainda se fala bastante de “narcisismo” – aquela infame característica de alguém que gosta exageradamente da sua própria imagem física – por uma evidente relação com a agora-famosa história desta curiosa figura dos tempos da Antiguidade. Por isso, e para quem ainda não a conhecer, nada como recordar aqui esse famoso mito, de uma forma bastante resumida e muito fácil de ler:

O mito grego de Narciso

Narciso é – ou melhor, era – um jovem de incrível beleza. Porém, por muitas que fossem as mulheres a se apaixonarem por ele, ele rapidamente se dizia incapaz de amar qualquer uma delas. Até que um dia, farta de todas essas rejeições contínuas, uma dada jovem – ou seria ela, na verdade, uma ninfa? – lhe desejou que este se viesse a apaixonar por si próprio. E, por intervenção divina, assim veio mesmo a acontecer – um dado dia, enquanto bebia água de um pequeno ribeiro, este herói olhou para a sua imagem refletida nas águas, estacou por um breve momento, e… vendo esse seu próprio reflexo, apaixonou-se. Não por outra mulher, ou por um simples homem, ou mesmo por uma deusa do Olimpo, mas somente pela figura de si próprio. Completamente apaixonado, este herói foi então incapaz de afastar o olhar dessa imagem por um só segundo que fosse, deixou-se ficar nesse local durante horas, dias, semanas… até falecer de fome e de cansaço, mas num “júbilo” constante de se amar a si próprio.

 

Este é o cerne de todo o mito. Se as diversas versões lhe adicionam um ou outro elemento – por exemplo, a das Metamorfoses de Ovídio, a mais famosa de todas elas, funde-o com o mito da ninfa Eco, e metamorfoseia-o numa nova flor após a morte – tende sempre a ser um aspecto comum que este herói seja levado à sua destruição pela sua húbris, pelo facto de se considerar inapaixonável, independentemente de quem se lhe cruze. E é esse amor desmesurado por si próprio, seja o deste Narciso ou o de cada um de nós, que o mito nos tenta instar a temer, numa espécie de moral da história.

 

Diga-se mais, até. No tempo de agora, das mais distintas redes sociais, de vários “likes” a cada nova imagem que se vai publicando, talvez seja sempre uma óptima ideia relembrar aquela grande lição que o jovem Narciso, cujas acção aqui resumimos, só aprendeu com a sua própria morte… gostarmos de nós mesmos não tem absolutamente nada de mal, até bem pelo contrário, mas o problema começa é quando essa paixão se torna tão grande que interfere na nossa relação com os outros, não vos parece? E é essa a grande lição que este mito nos tenta passar, hoje, tal como nos tempos da Antiguidade…

Os breves mitos dos dois Ascálafos

Este mês de Fevereiro de 2020 decidimos tentar algo de novo – ás segundas feiras iremos publicar um mito grego, ás quartas um mito ou lenda de Portugal, e ás sextas uma surpresa completamente inesperada. Nesse contexto, começamos hoje com os breves mitos de duas figuras, ambas chamadas “Ascálafo”.

 

Um primeiro Ascálafo era filho de Ares e rei da cidade de Orcómeno. Foi um dos Argonautas, mas não parece ter tido um papel muito grande nessa aventura. Posteriormente, foi também um dos pretendentes de Helena, e acabou por falecer durante a Guerra de Tróia.

 

O segundo Ascálafo parece ter sido uma figura tardia, até porque não conseguimos encontrar qualquer representação dele na arte grega. Filho de Aqueronte, era ele quem cuidava das árvores que (supostamente?) existiam no reino de Hades. Foi ele quem testemunhou que Perséfone tinha comido as sementes de uma romã e, por punição divina, foi depois colocado debaixo de uma enorme rocha. Mais tarde, quando Héracles passou pelo reino dos mortos, libertou-o desse tenebroso local, mas esta figura acabou então por ser transformada em coruja, pássaro cuja relação com o reino dos mortos pode ser facilmente percebida pelas suas muitas aventuras nocturnas.

O mito de Erictónio, filho de Atena

Atena e Erictónio

O mito de Erictónio é muito invulgar. Se há um atributo que bem caracteriza a deusa Atena é a sua virgindade perpétua. Tanto no seu caso, como no de Ártemis, são incontáveis os mitos que referem essa ausência de maternidade. Mas, ainda assim, os Gregos consideravam que a deusa era virgem mas tinha tido um “filho” – Erictónio. Recordamos então o que aconteceu nesse seu mito:

 

Um dia, o deus Hefesto encontrou-se a sós com Atena. Cheio de desejo amoroso, tentou violá-la, mas falhou no seu propósito – não conseguiu penetrar a deusa, caindo a sua semente somente na pele desta filha de Zeus. Naturalmente incomodada, a deusa limpou-se rapidamente, atirando a substância geradora para o chão… e daí nasceu Erictónio!

Estonteada com uma tão invulgar ocorrência, Atena colocou o “filho” dentro de uma enorme jarra e deu-a às filhas de Cécrope, rei de Atenas, deixando-lhes claro que nunca deveriam olhar para o seu interior. Mas, como já é comum em mitos como estes, as jovens não conseguiram suster a sua curiosidade – vendo Erictónio, foram conduzidas à loucura e atiraram-se da Acrópole. E, mais tarde, este Erictónio tornar-se-ia rei de Atenas…

 

Este é um mito curioso, que não pode deixar de suscitar diversas questões. A mais óbvia é, quase certamente, o que terão as jovens visto no interior da jarra? O que as terá conduzido à loucura? Se a imagem acima até mostra Atena com o “filho”, a resposta está aí parcialmente oculta – segundo algumas versões do mito, da cintura para baixo Erictónio tinha o corpo de uma serpente, o que poderá ter traumatizado quem viu essa forma tão grotesca.

Muito mais poderia ser dito sobre este mito, mas ele parece ter tido, essencialmente, a função de unir a deusa com a monarquia ateniense, legitimizando o poder através de uma figura divina que, de outra forma, não poderia ter sido matriarca de uma sequência de reis.

O mito da Porca de Cromion (e a Porca Camoniana)

Quando, há já algumas semanas atrás, discutimos a lenda da “Porca” de Murça, um elemento fulcral da lenda prendia-se com a verdadeira identidade do animal que atacava as aldeias. Porém, no mito grego de hoje, o mito da Porca de Cromion, não há esse problema – a criatura em destaque é, sem qualquer dúvida, uma porca, como até pode ser visto na imagem abaixo!

Porca de Cromion em combate com Teseu

Esta porca, filha de Tífon e Equidna, aterrorizava as populações da aldeia de Cromion, sendo chamada de “Phaia” (que pode ser traduzido do Grego como “Cinzenta”) em virtude da idosa que a tinha criado. Quando um jovem Teseu passou na região derrotou definitivamente a criatura, mas não há registo do que fez ele com a dona.

O momento do confronto pode ser visto na imagem acima, com a idosa (e respectiva bengala) e a Porca de Cromion no lado esquerdo, enquanto que o herói, do lado direito e ainda sem barba dada a sua juventude, se prepara para aquele que seria um dos seus primeiros confrontos com uma criatura mitológica. Será que existiu, na Antiguidade, um poema sobre esta batalha? É bem possível que sim, mas já não nos chegou, apesar do momento inicial desta batalha ainda estar bem representado em diversos vasos.

 

Resta aqui uma última questão – estará esta figura de alguma forma relacionada com uma tal “porca camoniana” – ou, no original inglês, Clazmonian Sow, que rapidamente revela que ela nada tem a ver com o nosso Camões – que aparece nas histórias do herói ficcional Percy Jackson? Apesar da semelhança de nomes, essa porca camoniana nada tem a ver com os mitos e histórias da Antiguidade, sendo apenas uma invenção dos nossos dias, até porque, como já aqui referido anteriormente, se os javalis são raros nos mitos da Grécia Antiga, os porcos são quase inexistentes, com a excepção que aqui abordámos hoje.