O mito das Danaides

Duas Danaides a irem buscar água

O mito das Danaides é relativamente simples, como estas breves linhas irão demonstrar.

 

O rei Danau (ou Dánao) tinha 50 filhas, enquanto que o seu irmão, também ele rei mas de nome Egipto (ou Egito), tinha 50 filhos do sexo masculino. Dado que seria muitíssimo difícil organizar casamentos para essa gente toda, Egipto decidiu que poderia poupar imenso trabalho casando a sua prole com a do irmão. Então, Danau até aceitou esse estranho casamento, mas fê-lo somente com um horrendo plano em vista.

Combinou então com as 50 filhas, colectivamente conhecidas como “Danaides” (i.e. filhas de Danau), que deveriam matar os respectivos maridos na noite do casamento. Todas elas aceitaram o plano, mas apenas 49 mataram os respectivos esposos.

O que aconteceu à última? De seu nome Hipermnestra, a mais velha das filhas do rei decidiu poupar o seu esposo, Linceu (também ele o mais velho de seus irmãos), porque este a tinha tratado muito bem na noite de núpcias.

 

Este é o cerne de todo o mito, mas algumas versões acrescentam dois elementos importantes – por vezes é dito que, anos mais tarde, Linceu viria a matar Danau, vingando-se de todo este horrendo esquema.

Outra versão comum diz que após as suas mortes as Danaides (se 49 delas, ou todas as 50, já não é totalmente claro) foram condenadas a um castigo exemplar no reino de Hades – tinham de retirar água de uma fonte fazendo uso de uma jarra furada. Se esse castigo nos pareceria muito injusto para Hipermnestra, deve ser acrescentado que alguns autores a colocam nos céus, entre as estrelas, sob a forma da constelação do Aquário, em alternativa a Ganímedes.

 

Uma última curiosidade sobre este mito das Danaides. Ainda hoje se vêem muitas fontes neoclássicas em que uma figura humana transporta uma jarra; se essa figura for masculina tende a ser Ganímedes, enquanto que na forma feminina é frequentemente Hipermnestra, podendo ela estar sozinha ou com algumas das suas irmãs.

Três mitos gregos de doenças e pragas, um deles pouco conhecido

Em tempo de Coronavírus, e parcialmente inspirado pelo que já foi feito em outros locais, decidimos tentar publicar um novo tema a cada dia até ao final do mês. Por agora, achámos que podíamos contar três pequenas histórias gregas que envolvem doenças e pragas.

A Praga da Ilíada

Na verdade, existe um número bastante grande de mitos gregos que envolvem estes temas. Têm, normalmente, um primeiro aspecto comum, que passa pelo facto de um determinado herói, quando confrontado com uma situação dessa natureza, ir consultar um oráculo, que lhe diz que tem de realizar um dado feito para que a doença seja afastada da população. Mas, dito apenas assim, isto teria pouco interesse. Por isso, três casos específicos:

 

Um dos exemplos mais famosos é o caso de Édipo. Após ter morto o seu pai e casado com a sua verdadeira mãe, o herói tornou-se rei de Tebas. Quando a cidade foi afectada por uma praga, ele jurou que faria tudo o possível para a resolver. Com a ajuda de um profeta (ou, noutras versões, de um Oráculo de Apolo), lá veio a descobrir que o culpado era ele próprio. Ups!

 

Um segundo exemplo é igualmente famoso – no primeiro canto da Ilíada o acampamento dos Gregos é afectado por uma praga enviada pelo deus Apolo. Essa praga foi resolvida quando Crises foi devolvida ao seu pai, que era um sacerdote do deus. A cena pode ser vista na pintura acima, mas é curioso que outras versões do mito tenham atribuído uma origem diferente a esta doença, dizendo que os deuses estavam descontentes com a morte de Palamedes. Em ambos os casos, as entidades divinas andavam metidas ao barulho.

 

Mas o terceiro exemplo de hoje é… algo mais inesperado. Os Gregos da Antiguidade acreditavam verdadeiramente nestas histórias. Então, quando no ano de 430 a.C. a cidade de Atenas foi atacada por uma praga desconhecida, alguns dos habitantes locais decidiram pedir a ajuda do Oráculo de Delfos, aumentar os sacrifícios aos deuses, e outras coisas que tais. Não temos uma completa certeza se isso terá ajudado de alguma forma, mas… tendo em conta que a praga voltou nos anos seguintes, é provável que os deuses estivessem mesmo bastante descontentes.

 

Esse aspecto miraculoso, essa ligação ao divino, tão presente em diversos mitos gregos, tinha, no seu cerne, um elemento de verdade significativa. Talvez não fosse tanto a necessidade de se sacrificar aos deuses, mas de saber aceitar que existem algumas coisas nas nossas vidas que, enquanto seres humanos, não podemos controlar. Escapam completamente às nossas mãos. E, por isso, como não somos Édipo ou algum outro herói dos seus tempos, talvez o melhor seja mesmo ficar em casa, por agora. Deixamos esse convite.

Quem era o deus da morte na Mitologia Grega?

Na Mitologia Grega, como na dos Romanos, existiam deuses para tudo e mais alguma coisa. Zeus, por exemplo, era pai dos deuses mas também o responsável pelas trovoadas; Ares era deus da guerra; Artémis deusa da caça; e assim por diante. Porém, isto pode suscitar uma questão – quem era o deus da morte na Mitologia Grega, e/ou o deus grego da morte?

O deus da morte dos Gregos?

Bem… a resposta não é tão óbvia como poderia parecer, porque os Gregos tinham um deus dos mortos e um deus da morte, cada um desses dois com a sua tarefa específica.

Hades era o deus dos mortos, por ser aquele a quem calhou o reino dos mortos para governar, como Zeus recebeu os céus e Poseidon os mares, aquando da divisão do mundo entre esses três irmãos divinos. Portanto, tudo o que existia depois desta vida era da sua competência, e ele é que administrava o submundo e tudo o que diz respeito a esse domínio. Ele não tem uma presença muito assídua nos mitos, mas uma excepção bastante notável pode ser encontrada na história de Orfeu e Eurídice.

Porém, o deus da morte na Mitologia Grega era Tânato, na medida em que essa figura – que era, deixe-se muito claro, um dos muitos subalternos de Hades, rei do submundo – é que tirava a vida ás pessoas, sendo uma das principais encarregadas – juntamente com o deus Hermes – de transportar os seus espíritos até ao estranho reino onde habitavam todos os mortos. Também esta figura não aparece em muitos mitos, mas Sísifo capturou-a numa dada altura, naquele que é provavelmente a aventura mais famosa associada a este deus.

 

Ou seja, simplificando, Tânato era quem levava as pessoas para o reino dos mortos, que era administrado por Hades (e, mais tarde, pela sua nova rainha, Perséfone/Proserpina). O primeiro era o deus da morte, enquanto que o segundo era o deus dos mortos, não devendo as duas figuras ser confundidas – o deus da morte na Mitologia Grega era Tânato!

O mito do Rapto de Europa

O mito de Europa, também conhecido como o mito do Rapto de Europa, é possível que seja, de um ponto de vista cultural e artístico, um dos mais famosos mitos da Grécia Antiga, estando muito bem representado nos mais diversos lugares – de facto, clicando na imagem abaixo, até podem comprar, a um preço muito razoável, um mosaico com esta cena mitológica para vossa casa (e convém deixar claro que, infelizmente, não fomos pagos para dizer isto). Recorde-se então o mito:

Rapto de Europa em mosaico

O mito de Europa fala-nos de uma jovem de grande beleza. Um dia, enquanto apanhava flores numa área próxima de uma praia, ela e as companheiras viram um touro de enorme beleza. Curiosas, afagaram-lhe a face, cobriram-no de carinhos, mas somente Europa teve a coragem de subir para o seu dorso. E, quando o fez, o touro rapidamente se pôs em corrida, chegando até a passar pelo próprio mar, como se de um simples prado se tratasse.

Levando-a para a ilha de Creta, o touro revelou-lhe então a sua verdadeira identidade – era Zeus, que queria consumar a sua paixão pela jovem! Dessa relação viriam a nascer diversos rebentos, os mais famosos de entre eles provavelmente Sarpédon e Minos.

 

Normalmente, este mito de Europa, ou do Rapto de Europa, termina por aqui. Algumas fontes até dizem que esta jovem casou com um Astério, rei de Creta, mas ninguém parece ter dedicado muito tempo ao destino final da heroína. Sabemos, pelo menos, que Cadmo, cujo pai comum encarregou de procurar o paradeiro da irmã, jamais a tornaria a reencontrar em vida, e terá sido pelos seus constantes gritos pela sua irmã desaparecida que, em termos de pura lenda, o nosso continente ficou conhecido por esse nome. Dificilmente terá sido verdade, toda essa ideia, mas… é uma bela história da Mitologia Grega para justificar o nome do nosso continente, não é?

Porque está um tritão representado no Palácio da Pena?

Tritão  do Palácio da Pena

Quem visitar o chamado “Pórtico do Tritão”, no Palácio da Pena, em Sintra, poderá ver uma belíssima representação de um tritão, um deus marinho menor, por cima de uma das portas. Mas o que faz esse monstro marinho no local? Bem, se consultarmos um site “oficial” do local, aqui, podemos ler o seguinte:

Há duas possíveis origens para este Tritão, ambas literárias. Uma é a obra de Damião de Góis de 1554, onde é mencionado um Tritão que tinha sido avistado a cantar com uma concha numa praia perto de Colares. Mas também Luís de Camões menciona um Tritão no Canto IV dos Lusíadas, cuja descrição lembra o monstro [do Palácio] da Pena.

Esta informação sempre nos pareceu enganadora, na medida que poderá dar ao leitor a sensação de que a associação de um tritão à cultura portuguesa nasceu no século XVI. Quando tanto Damião de Góis como Camões se referem a um tritão, fazem-no quase certamente porque em diversas fontes da Antiguidade (nomeadamente Plínio e Cláudio Eliano, se a memória não nos engana) existiam referências à existência de uma caverna próxima de Lisboa em que podia ser ouvido o canto de um tritão.

Esses autores nunca nos falam da região de Colares (essa identificação parece provir de Damião de Góis), nem são muito específicos no local do acontecimento, dizendo-nos exclusivamente que era próximo da cidade que viria a ter o nome de Lisboa. Mas o que esta menção tem de notável é o facto de ser um dos mais antigos mitos associados à futura capital de Portugal, juntamente com o dos cavalos lusitanos, o da suposta fundação da cidade por Ulisses e o do Tejo (de que falaremos algum outro dia).

 

Dada a fama dos mitos, é natural que tanto Damião de Góis como Camões tenham decidido torná-los parte das suas obras, imortalizando-os entre uma nova audiência. E, nesse seguimento, se o tritão do Palácio da Pena é mesmo o referido nestas duas obras (algo de que não temos a certeza…), faz todo o sentido que tenha sido representado no local pela sua relação com os antigos mitos, os mais antigos associados ao nosso país e, por isso, um digno exemplo da história mitológica de Portugal.