A história de Atlas na Mitologia Grega

Atlas é uma daquelas figuras da Mitologia Grega cujo papel original nem era muito significativo, mas que ainda assim o tempo não permitiu esquecer. Porquê? Não é fácil sabê-lo, mas talvez tenha a ver com o seu papel significativo no mito dos Trabalhos de Hércules. Mas estamos a adiantar-nos um pouco demais, e esta história merece ser contada quase desde o seu início:

O mito de Atlas na Mitologia Grega

Segundo as principais versões do mito de Atlas, esta figura foi um dos intervenientes numa guerra entre os deuses do Olimpo e os Titãs ou os Gigantes. Pouco se sabe, hoje, sobre qualquer um desses dois confrontos, mas um elemento inegável da sua história é que no final os deuses ganharam e os seus atacantes foram punidos com os mais diversos castigos. O poderoso Tífon, por exemplo, foi colocado debaixo do Etna, onde dizem as histórias que ainda hoje cospe o seu fogo, enquanto que a personagem a quem dedicamos as linhas de hoje foi incubido da difícil tarefa de suportar os céus sobre as suas costas, sugerindo que ela possa ter cometido, durante a guerra contra os deuses, algum crime bastante grande.

Depois, o tempo foi passando. Não é fácil saber durante quantos anos, décadas ou séculos Atlas fez esse seu trabalho sem ser perturbado, mas um dado dia Hércules aproximou-se dele e perguntou-lhe se sabia onde era o Jardim das Hespérides. Ele respondeu que sim, mas que esse local era muito longe, e portanto seria melhor ele ir buscar as maçãs procuradas pelo famoso herói, em vez de deixar que este o fizesse. O mais famoso filho de Zeus aceitou, mas visto que alguém tinha de segurar nos céus até ao retorno do titã, ele ofereceu-se para tal – é nesse seu papel que ele pode ser visto na imagem ali em cima, o herói com a sua característica pele de leão às costas, a segurar o céu enquanto, do lado esquerdo, o titã se aproxima novamente dele, já com uma maçã na mão.

Mas, nessa altura, Atlas apercebeu-se de uma coisa muito importante… porquê continuar a carregar os céus? Porque não deixar essa tarefa eterna para Hércules? Quis ir-se embora, quis esquecer o seu eterno dever, mas o filho de Zeus enganou-o de alguma forma, e conseguiu que este voltasse a ocupar o lugar que lhe pertencia por castigo.

 

Depois, passaram mais uns quantos anos. É novamente difícil precisar quantos foram, mas diz-nos um outro mito, mais tardio, que quando Perseu passou por esta mesma zona usou a cabeça decepada da Medusa para transformar este Atlas em pedra, tornando-o de um titã, ou um gigante, num mero monte de pedra, um conjunto de montanhas que ainda hoje podem ser vistas no norte de África.

E uma terceira lenda, tipicamente cristã (mas que poderá ter tido a sua origem em obras como a de Evémero), diz que Atlas não era sequer um gigante ou um titã, mas sim o nome do primeiro dos homems que descobriu a Astronomia (ou Astrologia, segundo outros), ficando conhecido por “segurar os céus”, ou mesmo “conhecer os segredos das estrelas”, em virtude dessas suas descobertas.

 

São talvez estas as três maiores histórias associadas a Atlas, a figura da Mitologia Grega. Ele cruza-se com outros heróis apenas duas ou três vezes, mas parece ser, efectivamente, a sua ligação a Hércules, bem como o estranho papel que lhe coube aquando da derrota do seu grupo na guerra contra os deuses, que o fizeram chegar até aos nossos dias de hoje…

Qual o verdadeiro símbolo da Medicina?

À partida, falar sobre um verdadeiro símbolo da Medicina não deveria ter muito para dizer. Basta, por exemplo, abrir o site na internet da Ordem dos Médicos e aí pode ser encontrado, de uma forma mais ou menos estilizada, um bastão com uma cobra em seu redor. Mas depois, ao abrirmos um recurso como o site da Ordem dos Farmacêuticos, também aí pode ser encontrada uma representação semelhante, uma árvore com uma cobra em volta. E, em outros lugares, pode ser encontrado algo de muito parecido, mas com a presença de duas cobras… portanto, qual é o correcto? Aquele que pensamos ser ou, como no caso do Juramento de Hipócrates, andamos é todos a ser enganados?

O verdadeiro símbolo da Medicina

Na imagem acima, muito relevante para este tema do verdadeiro símbolo da Medicina, podem ser encontradas essas duas representações essenciais – uma espécie de bastão com asas no topo e duas serpentes em seu redor; e um simples bordão com uma só serpente aí enrolada. Variam não só na presença de asas, mas também no próprio número de répteis, como é óbvio… e são precisamente esses elementos que nos permitem descobrir o significado de cada um deles. Para o primeiro, as tais asas são um atributo do deus Hermes (o Mercúrio dos Romanos), que também as tem nas suas sapatilhas, enquanto que as duas serpentes são, em muitos mitos da Antiguidade, um símbolo da vida e da morte, como nos casos do mito de Tirésias, ou de um Glauco que foi trazido de volta à vida pelo poder de uma erva que apenas dois destes animais conheciam.

Para o segundo, a rudeza do bordão permite compreender que ele era utilizado para andar – não para esvoaçar, ou coisas semelhantes, como o anterior – enquanto que a serpente é aqui um símbolo para os venenos e suas curas, como no caso dos mitos de Orfeu e Eurídice ou Filoctetes. É, por isso, um símbolo do deus Asclépio (o Esculápio dos Romanos).

 

Os símbolos são parecidos, tanto ao nível das representações como da sua simbologia, mas se recordarmos que Hermes era o deus encarregado de levar os mortos para a sua morada eterna, o seu bastão com asas poderia sugerir, de uma forma tão errónea quanto assustadora, que os médicos têm completo poder sobre a vida e a morte. Por contraste, se o verdadeiro símbolo da Medicina for o segundo, o normalmente associado com Asclépio, sugere-se apenas a ideia do uso de drogas curativas, com poder limitado, até porque esta mesma figura, quando ainda era um mero ser humano, foi morta por Zeus por ter tentado trazer de volta à vida um falecido – Capaneu, Órion, as opiniões divergem.

 

Portanto, se os dois símbolos acima são mesmo muito parecidos, o verdadeiro símbolo da Medicina só pode ser o segundo, não só por ter estado associado desde o início a um deus desta área de conhecimento – Asclépio / Esculápio – mas por toda a simbologia mitológica de uma serpente VS duas serpentes. Desacompanhado, este réptil é um símbolo da preservação da vida pelas drogas (legais, acrescente-se hoje), enquanto que acompanhado e neste contexto ele é… estranhamente, um puro símbolo da divindade Hermes / Mercúrio, mais conhecido hoje na sua faceta de deus do Comércio, já que a sua tarefa de psicopompo – transportador das almas dos falecidos, se preferirem – já foi esquecida há muitos séculos atrás.

 

Mas, de uma vez por todas, simplifique-se tudo isto muito mais – se nada perceberem, nem quiserem vir a perceber, de Mitologia Grega ou Romana, como podem saber qual é o verdadeiro símbolo da Medicina? Basta que pensem na presença – ou ausência – das pequenas “asinhas” nessa representação. Se o símbolo as tiver, ele não é o da Medicina, mas sim o de um antigo deus hoje ligado quase exclusivamente ao Comércio, e que em representações na cultura popular dos nossos dias até tem sempre consigo umas sandálias ou sapatos alados!

Dioniso e o mito da origem do vinho

Que Dioniso era o deus grego do vinho e da vinha é provável que já todos os leitores saibam. Ele tem diversos mitos associados – já aqui contámos, por exemplo, as histórias que o unem a Penteu, aos piratas, a Prosimno, e até ao seu simbólico antecessor, o estranho Zagreu, entre outras – mas a sua sequência mitológica mais evidente e mais significativa é, como nunca poderia deixar de ser, a do mito da origem do vinho. E é essa história que aqui decidimos contar hoje, de forma breve, mas também com uma citação tão bela que achámos que tinha mesmo de ser apresentada aqui.

Dioniso e o mito da origem do vinho

Conta-se, portanto, que em dado momento das suas muitas aventuras o deus Dioniso conheceu um jovem por quem se apaixonou. Ele chamava-se Âmpelo, e ambos nutriam uma enorme paixão um pelo outro, mas este acabou por falecer em virtude de um acidente (ou de uma vingança de outro deus)… os detalhes variam mediante a versão da história, mas todas elas dizem que o famoso filho de Zeus, na sequência dessa morte, depois criou a vinha e o vinho para homenagear eternamente aquele que tanto amava. E toda essa ideia é captada de uma forma belíssima na Dionísiaca de Nono de Panópolis; já cá citámos pelo menos duas vezes essa enorme obra – falando sobre a vida e a morte e de um episódio jocoso – mas esta sequência é de tal forma notável que achámos que a deveríamos apresentar aqui na sua forma completa. Para contexto, é um monólogo do deus Dioniso imediatamente após a criação dos dois elementos que o tornaram famoso – i.e. o vinho e a vinha:

Ó Âmpelo! Este é o néctar e a ambrósia do meu Zeus que criaste! Apolo tem duas plantas favoritas, mas ele nunca comeu o fruto de louro ou bebeu do lírio! O trigo não produz uma bebida doce, com a tua licença, Deméter! Eu fornecerei não apenas a bebida, mas também a comida para os homens mortais! O teu destino também é invejável, ó Âmpelo! Verdadeiramente, até os fios da Moira foram transformados em femininos para ti e para a tua beleza; para ti, o próprio Hades se tornou misericordioso; para ti, a própria Perséfone mudou o seu temperamento duro e te salvou vivo na morte para o irmão Baco. Não morreste como Atimnio está morto; não viste a água do Estige, o fogo de Tisífone, o olho de Megera! Ainda estás vivo, meu rapaz, mesmo se morreste. A água do Letes não te cobriu, nem o túmulo que é comum a todos, mas a própria terra encolheu-se de cobrir a tua forma! Não, o meu pai fez de ti uma planta em honra ao seu filho; o senhor filho de Cronos transformou o teu corpo em doce néctar. A Natureza não gravou aí nas tuas folhas sem lágrimas, como nos cachos inscritos de Terapne. Guardas a tua cor, meu rapaz, mesmo nos teus brotos. O teu fim proclama o brilho dos teus membros; o teu corpo corado ainda não te deixou. Mas eu nunca deixarei de vingar a tua morte; derramarei o teu vinho em libação ao teu assassino, o vinho de sua vítima! As suas belas pétalas envergonham as Hamadríades; o sumo dos teus cachos perfumados trazem-me um sopro do teu amor. Conseguirei alguma vez misturar a maçã na taça? Conseguirei deixar cair o sumo de figo na taça de néctar? O Figo e a maçã têm a sua graça até onde os dentes alcançam; mas nenhuma outra planta pode rivalizar com as tuas uvas – nem a rosa, nem o narciso tingido, nem a anémona, nem o lírio, nem o lírio-dos-vales, é igual à planta de Baco! Pois, com as novas correntes de tua frutificação esmagada, a tua bebida conterá todas as flores: essa única bebida será uma mistura de todas, ela combinará num só o perfume de todas as flores que sopram, as tuas flores enfeitarão todas as ervas da Primavera e a relva do prado!

 

Dá-me o melhor, Senhor da Arquearia, porque tu entrelaçaste o teu cabelo imutável com a tua grinalda de pétalas dolorosas! Ai, ai, está gravado nessas tuas folhas; e se o Senhor da Arquearia usa a sua grinalda no jardim, eu sirvo o meu vinho doce, eu ponho uma bela grinalda, eu absorvo Âmpelo para que esteja em casa no meu coração por esse delicioso gole. Brilhante, dá lugar a “Uvasfinas”! O sangrento derrama sangue para Ares, o Vinífero derrama para Dionísio o orvalho rubro da uva encharcada de vinho!

 

Deméter, foste derrotada com Palas! Pois as azeitonas não produzem alegria no coração, o trigo não enfeitiça um homem! A pêra tem uma fruta melada, a murta cresce em flores fragrantes, mas elas não têm uma fruta que encante o coração para afastar as preocupações do Homem! Eu sou melhor do que todos vocês; pois sem o meu vinho não há prazer na mesa, sem o meu vinho a dança não tem encanto. Deusa dos olhos brilhantes, bebe o fruto da tua oliveira, se puderes! A minha frutificação com os seus gloriosos presentes venceu a tua árvore. Com a tua oleosa oliveira, os atletas esfregam os seus corpos, sem deleite; mas o tristemente afligido que deu uma esposa ou uma filha ao destino comum, o homem que chora os filhos mortos, uma mãe ou um pai, quando provar do vinho delicioso, sacudirá o odioso fardo da dor sempre crescente.

 

Ó Âmpelo, alegras o coração de Baco mesmo após a morte! Vou embeber a tua bebida por todo o meu corpo. Todas as árvores da floresta inclinam a cabeça em volta, como alguém em oração curva o pescoço. A antiga palmeira inclina as suas folhas ascendentes, tu estendes os teus pés em torno da macieira, agarras as tuas mãos na figueira e seguras; elas sustentam a tua frutificação como escravas a sua senhora, enquanto escalas o ombro de tuas servas com as tuas gavinhas se empurrando e enrolando e tremendo, enquanto os ventos sopram no teu rosto as delicadas folhas multicoloridas de tantas árvores vizinhas com seus cachos espalhados, como se dormisses e eles te refrescassem com um sopro suave. Assim, a criada agita um leque leve, como é seu dever, e faz um vento fresco para o seu rei. Se trouxeres contigo as ameaças do meio-dia de Faetonte, ainda assim o vento etésio vem antes das tuas uvas, acalmando a sede da estrela sedenta da ardente Maira, quando o curso da temporada de verão aquece o teu suco maduro com o vapor de Sírio.

 

Assim se conta não só o mito da origem do vinho, tal como ele existia na Grécia Antiga, mas também a sua interrelação com o próprio deus Dioniso e a sua respectiva história, contada de uma forma bastante bonita. Esperamos, portanto, que gostem de conhecer este momento de uma obra da Antiguidade que ainda hoje é muito pouco lida!

A Lua Nova e a Lua Velha – três origens surpreendentes!

Claro que já todos ouvimos falar de uma Lua Nova, mas de onde vem esse nome, que supõe também a existência de uma Lua Velha? Não é algo em que muita gente pense, considerando-se o primeiro como apenas e somente um mero nome de um fase lunar. Mas, realisticamente, a existência e ainda utilização desse primeiro nome levanta algumas questões… às quais não saberíamos responder, não fosse o facto de termos encontrado, há umas semanas atrás, um fragmento de Gemisto Pléton, autor bizantino nascido no século XIV, que permite revelar a resposta por detrás de todo o mistério.

A Lua Velha e a Lua Nova

Segundo Gemisto Pléton, e certamente seguindo uma das fontes literárias de que tomou proveito (já lá voltaremos…), em outros tempos existiu, de facto, uma fase lunar conhecida por Lua Velha. Segundo o autor, ela era consagrada ao deus Plutão (o deus dos mortos, conhecido como Hades entre os Gregos), cujos ritos tomavam sempre lugar nessa altura. O que até explica, de uma vez por todas, a associação (posterior?) do mesmo astro a Hécate e à Feitiçaria, que se foi prolongando até aos nossos dias de hoje. Mas porquê essa referência a uma espécie de suposta “idade” no astro lunar? É aqui que as coisas se tornam muito interessantes, ao ponto de termos de fazer uma breve introdução adicional para o explicar!

Diagrama do Mundo no Maniqueísmo?

Há uns dias atrás falámos aqui sobre o Maniqueísmo. Na altura não pudemos falar de toda a sua teologia, mas mostrámos um diagrama do mundo tal como os Maniqueístas o representavam, na forma que voltávamos a apresentar acima. Não é nada fácil explicar cada um dos elementos que ele contém, mas quem prestar atenção poderá ver que na parte superior ele apresenta duas esferas. Supostamente, essa secção da pintura é uma representação da sua crença na transmigração das almas – trocando por miúdos, os Maniqueístas pensavam que quando as pessoas morriam as suas almas eram enviadas para a Lua, sendo depois pontualmente reenviadas para outro local.

 

Como também foi dito na altura, para criar estas suas ideias Mani utilizou um conjunto de fontes religiosas que o antecediam, entre elas a religião do Zoroastrianismo. Também Gemisto Pléton recorreu a essa mesma fonte, o que permite, finalmente e depois de toda esta não-tão-breve introdução, o porquê de ter outrora existido uma Lua Nova e uma Lua Velha. E de onde vem mesmo tudo isto?

 

Segundo um conjunto de ideias que na sua forma derradeira parecem ter vindo das doutrinas de Zoroastro (o “criador de toda a religião”, como lhe chama o autor bizantino), a Lua Nova era completamente invisível nos céus por estar vazia. Depois, à medida da passagem do tempo, ela ia-se enchendo das almas dos falecidos, como que “envelhecendo” e tornando-se, eventualmente, uma Lua Velha, ou Lua Cheia (de almas). Depois, lá tinha lugar a tal transmigração de todas elas para um outro lugar, como que a rejuvenescendo e levando-a de volta à sua forma “invisível”, renascendo e falecendo metaforicamente a cada novo mês.

 

Esta teoria sobre a origem da Lua Nova e da Lua Velha – ou Lua Cheia, se preferirem – é profundamente fascinante. Na tradição ocidental, diz-se que Zoroastro foi o criador da primeira religião (ou, pelo menos, dos primeiros grandes textos religiosos sistemáticos). Não é fácil calcular quando ele viveu, mas fala-se de ter sido há 2500-3500 anos atrás. Mas, mesmo assim, apesar dessa imensa idade, algumas das ideias que formulou foram sendo passadas de boca em boca para as religiões posteriores, tendo-se em muitos casos perdido o seu significado original.

E é isso que parece ter acontecido no caso da origem da Lua Nova e da Lua Velha – é particularmente curioso constatar que ainda hoje falamos dela como estando “cheia”, numa das suas quatro fases, mas sem que absolutamente ninguém pergunte… “Cheia? Mas cheia de quê?” Esta teoria explica não só isso, mas também a questão da sua suposta “idade”, da razão pela qual ela vai envelhecendo e rejuvenescendo ao longo dos dias do mês! Que vos parece, sabiam de tudo isto?

“João, ou Das Guerras Líbicas”, de Coripo

Coripo é um de aqueles autores que foi ficando perdido no tempo, uma figura do século VI, tardia demais para quem se interessa pela Antiguidade e imemorial para quem estuda a Idade Média. Por isso, se nos chegaram pelo menos dois dos seus livros, a obra João, ou Das Guerras Líbicas merece ser mencionada por cá não pela natureza do seu conteúdo – ele relata-nos as aventuras de João Troglita, um general bizantino do mesmo século – mas porque nos permite notar um momento evolutivo muito específico da Mitologia Grega.

João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo

Ao longo desta sua obra, Coripo vai, ocasionalmente, mencionando algumas figuras e eventos da Mitologia Grega, mas fá-lo sempre de uma forma muitíssimo breve e simples, usando ambas como um termo de comparação muito geral para o que pretende descrever, e.g. “nunca se viu um ajuntamento tão grande de homens desde o tempo em que os Gregos se prepararam para invadir Tróia”. É sempre tudo muito simples, qualquer estudante mediano de Mitologia Grega não teria dificuldade em compreender as ideias que o autor pretendia veicular. Mas depois, surge uma única ideia menos comum:

Dizem que um dia Dis [ou Plutão] organizou um concílio, quando se preparava para organizar uma guerra contra os deuses, e um milhar de monstros vieram das largas estradas do Inferno. A Hidra e a sinistra Mégara correram para lá, e o velho Caronte deixou o seu barco para trás. Tisífone rugiu num frenesim, abanando a sua tocha de pinho, que é poderosa na chama e no peso, e com ela a furiosa Alecto, com as suas cobras retorcidas, e todas as outras formas que aparecem no vasto Averno.

Toda esta estranha ideia não parece corresponder a nenhum mito dos Gregos ou Romanos que nos tenha chegado. Portanto, de onde vem ela? Ou Coripo pura e simplesmente a inventou para o seu poema, ou ele refere-se a algum mito oral do seu próprio tempo. A resposta correcta, entre estas duas, não é clara, já que mitos que envolvam Mégara, Tisífone e Alecto enquanto figuras individuais não abundam (uma excepção já cá foi mencionada, há mais de uma década), mas parecem ter sido mais notáveis nos últimos séculos da Antiguidade Clássica, com este mesmo autor até a atribuir, aqui e ali, algumas características individuais a cada uma delas.

 

Não sabemos, admita-se de forma frontal, de onde veio este mito incompleto mencionado em João, ou Das Guerras Líbicas, mas o que a obra nos permite apreciar, sem qualquer dúvida, é um estágio do desenvolvimento da Mitologia Grega em que ela já não era uma religião, mas um grupo de ideias que alguns autores escolhiam usar para dar aos seus leitores um termo de comparação, e.g. “este combatente é tão feroz como Aquiles”, “nem Hércules, quando atacou Tróia, fez tantos estragos”, etc. São uma espécie de referências mitológicas quase sem alma… o que é curioso, já que na mesma obra o autor até apresenta diversas sequências poeticamente belas, mas nunca as conjuga com os mitos que vai referindo.

 

Em suma, a obra João, ou Das Guerras Líbicas, de Coripo, tem alguns “momentinhos” interessantes para quem se interessa pela Mitologia Grega, mas eles não são, na verdade, suficientes para justificar toda a leitura da obra, ainda para mais quando esta não é uma obra muito fácil de encontrar.