Os mitos de Niceia e Aura, violadas por Dioniso

Se falar de violações nunca é bom, pelo menos aquelas que tiveram lugar com Aura e Niceia no contexto dos mitos dos Gregos e Romanos são dignas de nota. E são-no porque, quando falamos deste acto horrendo na senda das histórias da Antiguidade, a figura que tendemos a associar-lhe é quase sempre Zeus / Júpiter. Foi ele que tomou as mais diversas formas para seduzir diversas mulheres, com algumas relações sexuais mais consentidas do que outras. Aqui e ali, lá surgem mais alguns exemplos de actos semelhantes – por exemplo, os casos de Pítis ou de Dafne – mas quando se trata de falar de deuses violadores, Dioniso não é habitualmente uma das figuras em que se tende a pensar. Portanto, dada a raridade dessas histórias, decidimos que hoje poderíamos abordar ambas numa só sequência textual.

Os mitos que ligam Niceia e Aura a Dioniso

Primeiro, Aura era uma ninfa companheira da deusa Ártemis. Um dia, enquanto estas duas e as suas outras companheiras tomavam banho num curso de água, a jovem olhou para os seus próprios seios, fitou os da divina companheira, e não pôde senão rir-se – quão maiores, quão mais femininos, eram os da deusa face aos seus próprios! Claro que este pode parecer um “insulto” um tanto estranho, nos dias de hoje, mas devemos é recordar que Ártemis era uma deusa da caça, para quem a beleza física pouco importava, e portanto ela considerou as palavras da ninfa como muitíssimo ofensivas.

O que lhe aconteceu? Por influência indirecta da deusa, Dioniso apaixonou-se por Aura, mas esta sempre lhe recusou todo e qualquer amor. Então, o deus do vinho e da vinha drogou-a com a sua bebida encantada e aproveitou-se dela, roubando-lhe a preciosa virgindade. Dessa relação nasceram uma ou duas crianças, mas a ninfa, humilhada, acabou por se afogar propositadamente, sendo então transformada numa fonte de água, que curiosamente brotou dos seus próprios seios.

 

Também Niceia era uma jovem devota da deusa Ártemis. Um pastor apaixonou-se por ela, mas ela sempre rejeitou os seus amores, levando o jovem a pedir-lhe que o matasse com uma das suas flechas. Estranhamente, ela concedeu-lhe esse desejo, mas os deuses não podiam ter ficado menos satisfeitos com essa morte. E assim, por influência do deus do amor, Dioniso foi feito apaixonar-se por ela… mas ela também o rejeitou a ele, uma e outra vez!

Depois, um dia, quando Niceia andava nas suas caças pelos bosques, sentiu sede e bebeu de uma fonte que encontrou. O que ela não sabia, no entanto, é que o deus do vinho e da vinha tinha “envenenado” o local com a sua bebida. Bêbada, ela decidiu descansar um pouco no local. Adormeceu. E vendo-a assim, só e desprotegida, Dioniso tomou-a para si, engravidando-a até – como era sempre comum no caso das violações divinas. E, à semelhança da figura de que falámos acima, depois teve uma filha dessa primeira e única relação sexual… e foi ela, de facto, que deu o nome à outrora famosa cidade de Niceia!

 

Talvez tenham existido, em outros tempos, mais casos de jovens violadas pelo deus Dioniso, mas o que estas histórias de Aura e Niceia têm de particularmente digno de nota é a ausência de qualquer transformação divina. Poderiam tentar encontrar-se diversas razões para tal, mas é mais importante notar a constância do vinho do deus na sua perpetração destes actos. Casos como esses ainda são bastante frequentes nos dias de hoje, e apareciam até em muitos outros mitos da Antiguidade (e.g. o mito dos Centauros e Lápitas), o que nos poderá levar a pensar que a lição que os Antigos nos tentaram transmitir nunca foi bem aprendida…

O mito de Cálamo e Carpo

A história de Cálamo e Carpo, a que dedicamos as nossas linhas de hoje, não é muito conhecida, mas conta-se entre os muitos mitos gregos e romanos da Antiguidade de que faz parte uma transformação. Se a maior parte delas nos foram legadas por autores como Ovídio ou Antonino Liberal, existem muitas outras obras que nos preservaram, aqui e ali, relatos muito menos famosos, e este é certamente um deles, já que apenas nos chegou por intermédio de uma das obras de Nono de Panópolis, a Dionisíaca.

O mito de Cálamo e Carpo

Resumindo então o que essa obra nos conta sobre Cálamo e Carpo, eles eram dois jovens e amantes homossexuais. Claro que não eram caso único – já cá contámos antes o mito de Tâmiris, que a mesma cultura pensava ter sido o primeiro homem a amar outro – mas o que a sua história tem de notável é que um dia, quando ambos estavam a fazer uma pequena competição de natação num rio, Carpo afogou-se. Depois, Cálamo, testemunhando na primeira pessoa o que tinha acontecido com o seu amado, decidiu deixar-se também morrer nesse mesmo rio… e foi transformado pelos deuses no primeiro dos canaviais desse curso de água, perpetuando assim e eternamente, pelo som que estes ainda produzem nos dias de hoje (o saberá dizer quem viver ao pé de canaviais), o gemido doloroso da dor que o jovem outrora sentiu.

 

Claro que não é um mito muito longo, este de Carpo e Cálamo, mas não deixa de ser notável para nós pelo facto de apenas nos ter chegado pela breve referência que Nono, o autor, lhe faz na sua longa Dionisíaca. Não é fácil saber até que ponto terá sido uma completa invenção do próprio nato em Panópolis, mas, no mínimo dos mínimos, parece corresponder no seu espírito a muitos outros mitos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade…

Tideu e Melanipo, um horrendo mito grego

Melanipo é uma de aquelas figuras da Mitologia Grega que poucos conhecem. O que, se por um lado, pode parecer um pouco estranho – uma consulta rápida a um dicionário do tema denota terem existido pelo menos 12 figuras com este nome – por outro, poderá dar a entender que nunca existiu uma figura suficientemente famosa com esse nome. Por exemplo, conhecemos apenas um Édipo ou uma Ônfale, mas já a personagem a que dedicamos as linhas de hoje é uma particularmente conhecida por um instante horrendo do Ciclo de Tebas a que até existe uma breve alusão nos Poemas Homéricos. E se ele parece ter sido pouco representado na arte da Antiguidade, este belíssimo exemplo de uma representação etrusca é aqui muito digna de nota:

O mito de Melanipo

No lado esquerdo pode aqui ser visto Melanipo, caído, enquanto que um outro combatente – que pode ser identificado como Tideu, a que já cá fizémos uma breve alusão antes – se lhe aproxima da parte traseira da cabeça. O que está verdadeiramente a acontecer? Conta-nos então este mito que os dois heróis se envolveram em combate; o primeiro foi derrotado pelo segundo, mas por razões que já não são claras o vencedor depois decidiu cometer um acto horrendo – quis comer o cérebro do derrotado. Repita-se, não sabemos bem porque quis ele fazer uma coisa tão estranha, até porque este acto parece ser completamente único nos mitos gregos da Antiguidade, mas sabemos que o fez em virtude de uma outra figura que interveio neste mesmo episódio…

Assim sendo, no canto direito da imagem pode ser vista uma figura vagamente feminina com um pequeno recipiente na sua mão direita. A égide ao peito permite identificá-la como a deusa Atena. Segundo a mesma história, quando tudo isto teve lugar ela preparava-se para dar a Tideu – pai de Diomedes, uma figura muito famosa da Ilíada – um licor da imortalidade, mas face ao que presenciou com os seus próprios olhos depressa desistiu de toda a ideia… com alguns autores a dizerem, depois, que aquilo que ela aqui negou ao pai, acabou posteriormente por oferecer ao respectivo filho.

 

Este breve fragmento de um mito maior é francamente estranho. Ele parece preservar um conjunto de elementos mitológicos cujo real significado se foi perdendo com o tempo, levando a que mesmo na Antiguidade já não se soubesse muito bem de onde vieram. Qual seria a razão do mais que evidente ódio de Tideu por este Melanipo? Se os deuses necessitavam de uma bebida para dar a imortalidade aos seres humanos – provavelmente a sua amada ambrósia – porque é esse elemento também tão incomum em mitos mais tardios? Não sabemos responder a essas questões, porque, infelizmente, os textos iniciais que continham este estranho mito estão hoje quase perdidos e nunca explicam os verdadeiros contornos de toda a história. E, assim, resta-nos apenas esta breve alusão ao que parece ter sido um dos mais horrendos mitos da Grécia Antiga…

O mito de Timetes

Falar da obscura figura de Timetes é falar, imperativamente, da Guerra de Tróia. Isto porque se, em relação a essa famosa trama da Antiguidade cada novo autor parece ter sentido a necessidade de ir adicionando novos pontos e contrapontos, aqueles que melhor serviam a narrativa que queriam construir, entre eles foram também surgindo todo um conjunto de oportunidades para criar algo de diferente. Os casos de Quinto de Esmirna, Dares Frígio ou Díctis de Creta são os mais evidentes, mas outros autores também foram adicionando, aqui e ali, novas partes da história.

O mito de Timetes

Por exemplo, da história geral de toda a guerra sabemos que quando o Cavalo de Tróia foi oferecido aos Troianos, teve lugar um pequeno debate relativo à possibilidade de o admitir na cidade. Fazê-lo poderá, hoje, parecer-nos completamente absurdo, não fosse o facto de alguns autores explicarem que nem todos os habitantes da cidade estavam contra os Gregos. Um desses casos, o que nos interessa particularmente hoje, era o de Timetes.

 

Quando Alexandre Páris nasceu, a sua mãe teve um sonho profético relativo ao futuro da cidade em que todos viviam. Ao leitor desse mito, poderá parecer evidente que a figura profetizada para causar toda essa destruição era o próprio Páris, mas com a intenção de poupar a vida deste seu filho Príamo e Hécuba tentaram disfarçar todo o caso, vendendo aos outros habitantes a (falsa) sugestão de que o futuro destruidor não era o seu recém-nascido, mas sim o de um homem chamado Timetes. E isto levou a que a mulher e o filho deste fossem rapidamente mortos, sem qualquer dó ou piedade.

Depois os anos foram passando, mas parece que Timetes nunca conseguiu superar esta perda da sua família directa. É provável que qualquer outra pessoa também sentisse dificuldade em fazê-lo. E então, quando o Cavalo de Tróia foi levado para as redondezas da cidade, este homem apercebeu-se do que se estava a passar e sentiu que, finalmente, tinha uma oportunidade para a sua vingança. Votou em favor da entrada do enorme Cavalo… e o resto, como se costuma dizer, é história!

 

Hoje, Timetes não consta entre os maiores heróis da guerra que opôs Gregos a Troianos. Talvez até nem esteja entre as 100 figuras mais importantes do conflito. Sabemos, isso sim, é que pelo menos um autor da Antiguidade, um tal Euforión, utilizou esta história, entre diversas outras, para justificar como foi possível que os cidadão de Tróia fossem enganados com um estratagema tão evidente.

O mito etrusco de Charun (?)

Hoje falamos de um mito etrusco, o de Charun, para demonstrar um aspecto curioso da Mitologia Grega e Romana que muito poucos parecem conhecer. A uma primeira vista, ambas parecem referir as mesmas histórias apenas com alguns nomes diferentes – relembrem-se, por exemplo, os casos de Caco ou de Héracles/Hércules – quase como se os Romanos tivessem decidido roubar todo o património mitológico dos seus antecessores, o que é mais ou menos verdade. Contudo, um passo intermédio desse processo pode ser visto na cultura etrusca. Infelizmente, os mitos que os Etruscos contavam não nos chegaram directamente, mas podemos encontrar alguns deles representados na arte da dua época. E, entre eles, conta-se uma estranha figura que tem o nome de Charun.

O mito etrusco de Charun

Pelo contexto em que ele é representado podemos depreender que se tratava de um deus, ou de uma espécie de demónio do submundo (muitas vezes até é representado com asas), e depressa somos levados a Caronte, o barqueiro dos Gregos, mas o que esta outra figura tem frequentemente na mão não parece ser um remo, como seria de esperar, mas sim um martelo, com o qual ele podia ser visto ocasionalmente a atingir alguém, e que tende a transportar como o faríamos para aquilo que agora chamamos uma marreta. Acreditando que isto não é somente uma coincidência, como se explica que o remo original se tenha tornado um martelo, ou que este Charun nunca seja visto no interior de uma barca? Se, por outro lado, preferirmos atribuir a semelhança de nomes a um puro acaso, porque é que as duas figuras nunca são representadas em conjunto, quando ambas se tratavam claramente de divindades do submundo?

 

É difícil responder a este tipo de questões porque quase nada sabemos sobre a Mitologia Etrusca. Sim, claro que ela tem evidentes semelhanças com a dos Gregos e dos Romanos, nessa sua espécie de passo intermédio de inspiração, mas visto que não nos chegou de uma forma escrita, é hoje quase impossível compreender as alterações que ela foi sofrendo com o tempo. É muito fácil e simples acreditar que na sua forma original Caronte e Charun eram uma só figura, mas como é que o seu remo – e era, originalmente, mesmo um remo, que o deus utilizava para conduzir a barca dos infernos – depois se tornou um martelo parece ser um mistério que já não se consegue desvendar. Teorias, poderiam apresentar-se aqui mais que muitas, mas as certezas, essas, provavelmente já nem existiam nos primeiros séculos da nossa era…