Os Mistérios de Elêusis revelados

Revelar o verdadeiro conteúdo dos Mistérios de Elêusis seria, para os autores pagãos da Antiguidade, algo impensável. Diz-se que Ésquilo quase que o fez, como que por acidente, numa das suas peças perdidas, mas salvo essa menção extraordinária quase nada se sabe sobre eles. Pelo seu contexto, depreende-se que a mitologia de Elêusis estivesse de alguma forma ligado com o mito grego do rapto de Perséfone, mas não fosse a actividade de um autor cristão e esta tratar-se-ia de uma mera hipótese. Porém, Clemente de Alexandria, na sua Exortação aos Gregos, faz o que teria sido impensável até então e revela os grandes segredos deste culto. Fá-lo nas seguintes palavras, que aqui citamos de uma tradução inglesa:

Os Mistérios de Elêusis revelados?

And the following is the token of the Eleusinian mysteries: I have fasted, I have drunk the cup; I have received from the box; having done, I put it into the basket, and out of the basket into the chest.

(…)

What are these mystic chests?—for I must expose their sacred things, and divulge things not fit for speech. Are they not sesame cakes, and pyramidal cakes, and globular and flat cakes, embossed all over, and lumps of salt, and a serpent the symbol of Dionysus Bassareus? And besides these, are they not pomegranates, and branches, and rods, and ivy leaves? And besides, round cakes and poppy seeds? And further, there are the unmentionable symbols of Themis, marjoram, a lamp, a sword, a woman’s comb, which is a euphemism and mystic expression for the muliebria.

 

Estas linhas do autor cristão do segundo século da nossa era permitem-nos compreender dois aspectos importantes dos Mistérios de Elêusis.

Primeiro, o seu processo religioso implicava um período de jejum, seguido pelo acto de beber “algo” de um copo. Depois, recebia-se “algo” de uma caixa, que era posteriomente colocado num cesto e finalmente numa arca.

Em segundo lugar, o seu ritual envolvia diferentes tipos de bolos (presume-se que cada um com a sua simbologia individual), vários símbolos do deus Dioniso, sementes de diversas frutas e até alusões metafóricas ao sexo feminino.

 

O que quer tudo isto dizer? Se as palavras do autor cristão tornam os Mistérios de Elêusis revelados, também nos explicam pouco sobre o que tudo isto simbolizava. As referências a símbolos do deus Dioniso, às sementes, às romãs e aos elementos femininos permitem teorizar uma potencial ligação a Proserpina e a Zagreu, enquanto figuras divinas ligadas a uma espécie de reencarnação após a morte, mas pouco mais. Cabe, por isso, ao leitor imaginar, talvez sonhar, como é que todos estes elementos se intersectavam para fazer parte de um ritual que tanto os Gregos, como os Romanos pagãos, nunca se atreveram a divulgar-nos…

O mistério do Bucentauro

Hoje, trazemos cá o estranho mistério de uma criatura chamada Bucentauro. Nesse sentido, ao procurar-se algo num dicionário de língua portuguesa encontrámos, completamente sem querer, algo de muito inesperado:

Bucentauro – “centauro com corpo de touro”

 

Esta definição de uma criatura chamada Bucentauro deixou-nos curioso, como cremos que também deixaria qualquer interessado por esses temas. Não existe, tanto quanto sabemos, qualquer menção explícita a estes seres nos mitos – Nono menciona centauros com cornos na sua Dionisíaca, mas mesmo ele fá-lo de uma forma velada e dá-lhes o seu nome usual. A própria definição do dicionário não é muito conclusiva… que combinação de touro, equídeo e/ou ser humano fariam parte deste misterioso ser chamado Bucentauro? Fica a questão, que por agora não tem resolução real… e por isso, na imagem abaixo pode ser visto em alternativa um Onocentauro – metade homem, metade burro – para compensar a ausência de imagens da criatura de hoje.

Um Onocentauro, diferente de Bucentauro

O mito de Alectrion

O mito de Alectrion (ou Alectrião, se preferirem…) pode ser breve, mas nem por isso é menos importante, ao ponto de até aparecer representado em algumas tapeçarias tardias, como esta que está presente no Museu Machado de Castro, em Coimbra, cujos pormenores recordamos antes de aqui recontarmos o mito que lhes está associado:

O sono de Aléctrion

Quando Ares andava envolvido com Afrodite, pedia a um jovem, Alectrion, que vigiasse a entrada. Um dia, o jovem adormeceu e o ilícito casal foi descoberto por Hélio. Então, como punição, Ares transformou o jovem num galo, de forma a que este nunca mais se esquecesse de anunciar a chegada do sol em cada manhã.

 

Lida então esta breve história do mito de Alectrion, podemos revisitar a tapeçaria cima. Do lado direito – que optámos por ocultar – poderiam ser vistos os dois amantes a serem descobertos por Hélio, mas neste lado esquerdo pode ser visto o jovem Alectrion a dormir. Mais acima, pode ser visto o sol a nascer, juntamente com um galo, numa sequência que nos remete sucintamente para tudo o que vai acontecendo com este herói no seu respectivo mito. É breve o mito, é igualmente breve a referência iconográfica, mas existe um certo charme em toda a história, não vos parece?

As histórias de Aio Locúcio e de Redículo Tutano

Hoje, queria cá deixar duas pequenas histórias, a de Aio Locúcio e de Redículo Tutano.

 

Por volta de 391 a.C. , um cidadão caminhava perto do Monte Palatino, em Roma, quando ouviu uma misteriosa voz que o avisou de um ataque iminente por parte dos Gauleses. Este cidadão tentou passar a mensagem a quem poderia fazer algo em relação a isso, mas foi ignorado. Então, após o ataque, foi construído no local onde a voz foi ouvida um templo, mas esta nunca mais voltou a ser ouvida. O seu nome, “Aio Locúcio”, vem da acção perpetrada pela voz.

 

A segunda história passou-se por volta de 211 a.C. . Quando Aníbal se preparava para invadir Roma, algo o fez, de alguma forma, voltar para trás. O relato do que se passou, em específico, difere de autor para autor, mas para comemorar a salvação da cidade foi erigido nesse local um templo a “Redículo Tutano”, cujo nome vem, novamente, da acção da misteriosa figura.

 

Serão estas histórias de Aio Locúcio e de Redículo Tutano verdade? Será que realmente ocorreram da forma retratada pelos vários autores? Nunca o iremos saber, mas isso não nos impede de ter algumas opiniões sobre o tema…

Prometeu e a águia que lhe devorava o fígado

Apesar de toda a história de Prometeu ser extremamente conhecida, algo em que eu nunca tinha pensado (e presumo que o mesmo se passe com os possíveis leitores) era a razão do castigo que lhe foi dado por Zeus. Sim, claro, Prometeu deu o fogo aos Homens, enganou Zeus na questão dos sacrifícios, mas porquê este castigo de ter o seu fígado devorado diariamente, e não um qualquer outro?

 

Aparentemente a razão é revelada em Dos Rios, de (Pseudo-)Plutarco, quando este cita uma (hoje perdida) Teomaquia de Cleantes. Segundo este autor, após a guerra dos deuses contra os gigantes Cronus transformou-se num crocodilo, matou um pastor (de nome Cáucaso) e usou as suas entranhas para adivinhar o futuro. Foi-lhe revelado que os deuses estavam por perto, e o titã foi rapidamente capturado por Zeus, que o prendeu no Tártaro. Depois, o falecido pastor foi honrado por Zeus dando o nome ao monte onde estes eventos tomaram lugar, provindo o castigo de Prometeu do macabro acto aí perpetrado.