O mito da Fénix

Acaba por ser um pouco irónico que, em quase uma década, eu nunca me tenha lembrado de contar o mito da Fénix, que “só” é um dos mais famosos animais mitológicos de que me consigo lembrar.

Bem, o aspecto mais interessante da história da Fénix, por comparação com a de outros animais mitológicos, é o facto de não apresentar uma história totalmente fixa, mas sim todo um conjunto de elementos que parecem evoluir ao longo do tempo, e que até podem ser seguidos com uma relativa facilidade.

Segundo me recordo (sim, que eu nunca consulto bibliografia para estes posts), um dos relatos mais antigos é o de Heródoto. Nesse, a fénix é um animal avermelhado, do tamanho de uma águia, que enterrava o elemento paterno numa bola de mirra e o levava para um templo em Heliópolis, no Egipto, a cada 500 anos. O autor diz que nunca a viu, e que não considera a história sequer credível.
Em Ovídio, existem vários elementos comuns, mas um dos elementos adicionais de maior importância é o facto de o autor dizer que, do corpo da Fénix paterna, após a morte, nasce uma nova criatura da mesma espécie.
Plínio o Velho adiciona o facto de só existir uma única Fénix, com uma descrição um pouco diferente que a anterior.
Isidoro de Sevilha diz que o nome da Fénix vem da sua cor, e que esta renasce das próprias cinzas.
As descrições posteriores apresentam, sempre, alguns ou múltiplos destes elementos, até chegarmos à forma da Fénix que temos hoje, uma ave de fogo, que até renasce das próprias cinzas. Essa figura final é, então, uma fusão das várias tradições, com alguns aspectos mais enfatizados do que outros. Seria interessante traçar um perfil do nascimento e desaparecimento de cada um desses elementos, e as razões para tal, mas isso prefiro deixar para potenciais leitores.

O mito de Talos

Segundo o mito de Talos, especialmente famoso da história dos Argonautas, ele era um enorme gigante de bronze que protegia a ilha de Creta, que teria sido criado por Dédalo ou por Hefesto, e cujo único ponto fraco passava por uma veia que atravessava grande parte do seu corpo, e que era protegida por um único prego. Este é, contudo, um daqueles mitos assolados por diversas versões em vários pontos, mas todos eles parecem ter um curioso elemento em comum, a destruição final do gigante, independentemente da razão ou de quem a causa.

O mito de Talos

Nesse sentido, sempre me pareceu que este Talos poderia ter sido, originalmente, uma divindade local, como acontece a muitas das figuras que surgem apenas para serem derrotadas por este ou aquele herói (podemos pensar, por exemplo, no caso da destruição de Anteu por Hércules), sendo ambas as figuras representativas da conquista da civilização dos primeiros por parte da desses segundos.

Mas se, por um lado, o material de que é feito Talos pode ser um vestígio de uma idade já há muito passada, ao mesmo tempo é curiosa a fraqueza da figura… é uma das poucas de que me recordo (a outra sendo Aquiles, em algumas das versões do mito) com uma fraqueza tão singular, e da qual os opositores conseguem acabar por tirar partido. Porquê um prego, e porquê essa uma tão singular veia? Pensando em toda a relação da ilha por ele protegida, Creta, com os touros, é até provável que, originalmente, se tratasse de um corno e não de um prego, mas seria o prego de Talos, como o corno do touro, um símbolo do seu poder, da sua coragem e força, que quando removido acabaria não só com a gigântica força, mas, e até, com toda a própria figura? Claro que é possível, é uma hipótese tão boa como qualquer outra, mas certezas sobre estas coisas são muito difíceis de ter…

O mito do Rapto de Proserpina

O mito do Rapto de Proserpina, conhecida entre os Gregos como Perséfone, conta-nos um dos eventos mais famosos da Mitologia Grega e Romana, que todos aqueles que gostam de mitos e lendas deveriam conhecer. Por isso, segue-se uma descrição simples, muito simples, de toda a história:

O Rapto de Proserpina

Quando Proserpina se encontrava a apanhar algumas flores num prado, juntamente com algumas ninfas, Plutão apareceu e, cativado pela sua beleza, raptou-a, levando-a para o seu submundo.

Ceres, sua mãe, desconhecia o que se tinha passado, e então decidiu procurar a filha. Tanto procurou que a natureza e as culturas, que tutelava, foram apodrecendo, o Inverno instalou-se, e pouco ou nada crescia. Entretanto, com a ajuda de um outro deus (Sol), veio a saber o que se tinha passado, e decidiu pedir a Júpiter ajuda para ter a sua filha de volta.

Quando contactado pelo deus Mercúrio, enviado de Júpiter, Plutão acedeu ao desejo de Ceres de ter a filha de volta, mas somente de uma forma parcial… visto que esta tinha, no submundo, comido seis sementes de romã, teria então de permanecer esses tantos meses por ano no outro mundo, voltando à companhia da mãe nos restantes. E assim foi, a partir desse momento.

(Quem preferir os deuses gregos pode substituir o nome da heroína por Perséfone, Plutão por Hades, Ceres por Deméter, Sol por Hélio, Mercúrio por Hermes, e Júpiter por Zeus)

 

Considerando este mito do Rapto de Proserpina como uma história urdida para explicar algo, torna-se simples compreendê-lo como uma explicação para a existência das estações do ano, para o facto das culturas dos campos crescerem em alguns meses mas não em outros. Porém, ver este mito dessa forma também é demasiado redutor, por escapar a essa interpretação todo um conjunto de aspectos que faziam deste mito algo tão importante ao ponto de ter todo um importante culto a si associado, os Mistérios de Elêusis.

 

Mais do que uma simples explicação, o mito do Rapto de Proserpina é quase uma certeza da vida eterna, porque como a Perséfone grega voltaria ano após ano, tal como as culturas voltariam repetidamente após cada espaço de tempo, também todos aqueles que aceitavam e apoiavam a mensagem do culto teriam esse mesmo acesso a uma renovada vida, (talvez) depois da de agora. Como a dupla viagem de Orfeu, também a continuada e repetida viagem de Perséfone seria uma certeza eterna de uma nova vida, e seguindo e exemplo da deusa também nós estaríamos como que condenados a, uma e outra vez, “escapar” deste mundo e a ele regressar.

 

Contudo, a enorme importância deste mito não se resume nem se esgota nestes breves comentários. Podemos, por exemplo, pensar na simbologia das seis sementes da romã, ou na existência do prado de onde a deusa foi raptada (se não me engano, alguns autores referiam até a existência de um culto nesse lugar, portanto conhecido e identificado), e muitas outras coisas que tais. Pense-se nisso, porque este é um daqueles mitos que, para seguir uma expressão poupar, “dá pano para mangas”…

Um mito de Epimenides, e o dos Sete Dormentes de Éfeso

Segundo, por exemplo, Diogenes Laércio, Epimenides foi, algures no seu tempo de vida, enviado pelo pai para procurar uma ovelha que se tinha perdido, e ao anoitecer acabou por se ir deitar numa caverna. Acordou 57 anos depois e voltou a procurar a ovelha. Incapaz de a encontrar, retornou à quinta onde vivia, onde a viu totalmente diferente e até já pertencente a um novo proprietário. Visitou a cidade, que também encontrou bastante diferente, e ao voltar à sua própria casa encontrou, eventualmente, o seu irmão, agora já velho, que lhe contou o que se tinha passado.

 

Um mito muito semelhante a este é o dos Sete Dormentes de Éfeso (se bem que, em tradução, este nome me soe bastante estranho). Aí, sete jovens – algumas versões dão-lhes os nomes de Constantino, Dionísio, Malco, João, Maximiano, Marciano e Serápion – acusados de serem cristãos venderam as suas posses, deram o dinheiro aos pobres, e foram esconder-se numa caverna. Um emperador pagão, qualquer que fosse o da altura, decidiu então fechar a entrada dessa mesma caverna. Mais de 100 anos depois, alguém decidiu abrir a cavena e encontrou os sete jovens lá dentro. Um deles foi enviado à cidade para comprar comida, e encontrou-a totalmente diferente. Eventualmente, os jovens contaram a alguém o que se tinha passado, e a caverna foi preservada (pode ser vista aqui).

 

Como estes dois, existem vários outros mitos que seguem esta mesma ideia, de alguém que adormece numa caverna e acorda um certo tempo depois, num mundo muito diferente. É possível que a ideia parta de uma visão das cavernas como locais místicos, mágicos, onde tudo (ou quase…) poderia acontecer, sendo que as pessoas envolvidas neste tipo de mitos passam, também eles, por uma transformação pessoal. Epimenides passa a ser visto como um sábio, enquanto que os Sete Dormentes passaram de um mundo onde eram perseguidos para um onde eram aceites, e até considerados como especiais perante Deus.

Uma interpretação de parte do mito de Belerofonte

Num dos textos da Moralia, de Plutarco, é eventualmente feita uma alusão ao mito de Belerofonte, mito esse que parece ser de especial interesse para diversos mitógrafos. O autor diz então o seguinte:

 

Some unriddle the fabulous part of this story, by telling us that it was not by execrations that he brought up the sea; but the fattest part of the plain lying lower than the sea, and a certain ridge extending itself all along the shore which beat off the sea, Bellerophon broke through this, so that the sea forcibly flowed in and overwhelmed the plain; and when the men by their humble addresses obtained nothing, the women assembling about him in multitudes gained respect from him and pacified his wrath. Some tell us that the celebrated Chimaera was a mountain opposite to the sun, which caused reflections of the sun’s beams, and in summer ardent and fiery heats, which spread over the plain and withered the fruits; and Bellerophon, finding out the reason of the mischief, cut through the smoothest part of the cliff, which especially caused these reflections. But on seeing that he was treated ungratefully, his indignation was excited to take vengeance on the Lycians, but was appeased by the women. The reason which Nymphis (in the fourth book concerning Heraclea) doth assign is to me not at all fabulous; for he saith, when Bellerophon slew a certain wild boar, which destroyed the cattle and fruits in the province of the Xanthians, and received no due reward of his service, he prayed to Neptune for vengeance, and obtained that all the fields should cast forth a salt dew and be universally corrupted, the soil becoming bitter; which continued till he, condescendingly regarding the women suppliants, prayed to Neptune, and removed his wrath from them.

fonte

 

 

 

(P.S.-> Um problema recente neste espaço fez com que alguns posts e comentários se perdessem; portanto, caso alguma referência neste blog esteja cortada e notem o problema, por favor avisem-me!)