O mito de Édipo – o de Sófocles, o de Séneca, e os outros

Sobre o mito de Édipo, tive recentemente a oportunidade de reler as tragédias de Sófocles e de Séneca relativas a essa figura e achei que deveria escrever um pouco sobre a relação entre elas. Mas antes, vejamos um resumo deste famoso mito:

 

A história de Édipo começa quando seu pai, rei de Tebas, recebe uma terrível mensagem, emitida pelo Oráculo de Delfos: o filho iria matar o pai e casar com a própria mãe.
Quando a sua mulher, Jocasta, teve o primeiro filho, o casal optou por lhe furar os tornozelos, antes de o abandonar. O recém-nascido foi entregue a um servo que, com pena do bebé, e em detrimento da tarefa que lhe tinha sido atribuída,  o entregou a um pastor. Édipo foi, mas tarde, entregue a Pólibo, rei de Corinto, que o adoptou e criou como se fosse seu filho.

Anos mais tarde, Édipo soube, através de um companheiro bêbado, que não era filho do rei de Corinto. Confuso, o herói decidiu consultar o Oráculo de Delfos, que o aconselhou a não voltar à sua cidade natal, visto que “iria matar o seu pai e casar com a própria  mãe”, o mesmo presságio que o seu verdadeiro pai tinha recebido, anos antes. Ao pensar que tinha nascido em Corinto, tomou a estrada em direcção a Tebas, com a intenção de jamais voltar ao reino de Pólibo. No caminho, envolveu-se numa escaramuça e matou o seu opositor, sem saber que se tratava do seu verdadeiro pai, rei de Tebas, de seu nome Laio. Estava, assim, cumprida parte da profecia.
Nos limites da cidade de Tebas, Édipo cruza-se com a mítica Esfinge. Como lhe era costume, o terrível monstro pôs uma adivinha que, se não fosse respondida de forma correcta, conduziria à morte deste herói. Na sua mais conhecida versão, a questão consistiria em enunciar qual é a criatura que tem quatro pernas de manhã, duas durante a tarde e três à noite. Ao responder de forma correcta, este herói fez com que a esfinge se sentisse derrotada e, segundo conta o mito, se precipitasse para a própria morte, vinda do topo da Acrópole da cidade.

Ao livrar a cidade do terrível monstro, Édipo foi recebido como um verdadeiro herói, acabando por se tornar rei e, mais importante, casando com a mulher que era a sua própria mãe. Mais tarde, viria a ter com ela dois filhos e duas filhas.
Passado algum tempo, a cidade de Tebas é afectada por uma praga. Édipo, como rei da cidade, promete descobrir a razão deste infortúnio e punir o culpado. Ao consultar um oráculo, é informado que é necessário encontrar o assassino de Laio. Seja por intervenção divina, ou pelas palavras do profeta Tirésias, vem-se a saber que o assassino de Laio (bem como o causador da praga) era o próprio Édipo. Ao tomar consciência do crime, Jocasta, sua mãe e mulher, suicida-se. Quanto a Édipo, perfura os próprios olhos e é exilado da cidade.
Durante o exílio, Édipo é acolhido por Teseu, rei de Atenas, e será bem tratado para o resto da vida. O trono de Tebas deveria, na sua ausência, pertencer aos seus dois filhos, Eteócles e Polinices, que o teriam em anos alternados. Incapazes de uma tal partilha, entrariam em conflito, no qual ambos seriam mortos. Antígona viria a morrer devido a essa mesma guerra, se bem que indirectamente. Em relação a Édipo, sabe-se que morreu, anos mais tarde, perto de Atenas.

 

 

Tanto a tragédia de Sófocles como a de Séneca abordam a parte final desta história, a altura em que uma praga já afecta a cidade e em que urge a necessidade de descobrir o assassino de Laio. Agora, claro que os elementos essenciais estão patentes em ambas – Édipo nunca deixa de vencer a Esfinge, de matar o pai, ou de casar com a própria mãe – mas também existem alguns aspectos importantes que divergem entre elas.

 

Em primeiro lugar, o Édipo de Séneca mostra-se, desde o início, mais humano, já que nunca deixa de temer que possa ser o culpado pela praga. Já o de Sófocles, até ao momento em que deixa de existir dúvida razoável, nada teme, insistindo em que se procure o assassino de Laio.

 

Um outro detalhe interessante na tragédia de Séneca é o facto desta ser bastante detalhada em alguns elementos que podem ser considerados secundários. Por exemplo, existe uma extensa descrição de um sacrifício destinado a invocar o espectro de Laio, e o momento em que Édipo se cega é retratado com detalhe avassalador, quase assustador nessa forma tão realista como é pintado.

 

Se, na versão de Séneca, o espectro de Laio é invocado, e é através dele que se sabe a identidade do assassino, já na peça de Sófocles esta vai sendo tornada mais clara à medida que a trama avança, e que se vão sabendo mais detalhes.

 

Na versão de Sófocles, Édipo só se cega após encontrar o cadáver da sua esposa/mãe, enquanto que o de Séneca é ainda visto por Jocasta, cego, antes desta morrer. Isto tem especial importância se tivermos em conta que, no segundo caso, o cegamento da personagem titular pode ser visto como um catalista da morte de Jocasta. Além disso, a forma como Jocasta morre também diverge em ambas as tragédias. Enforca-se, fora do palco, na de Sófocles, mas na de Séneca mata-se com a própria espada de Édipo, podendo (parece-me que o texto não é totalmente claro nesse ponto) até ter sido o próprio herói, já cego, a dar o golpe fatal.

 

Finalmente, na versão de Sófocles parece-me que é dada pouca importância ao Destino, no sentido que este é referido mas, a meu ver, pouco pensado. Já na de Séneca o Destino, tal como a possível culpa de Édipo no desenrolar da história, é abordado pelo próprio coro. Pessoalmente, achei interessantes as seguintes linhas, que também nos permitem ver a forma como essa força motora é vista nos mitos gregos:

Whate’er we mortals bear, whate’er we do, comes from on high; and Lachesis maintains the decrees of her distaff which by no hand may be reversed. All things move on in an appointed path, and our first day fixed our last. (…) To each his established life goes on, unmovable by any prayer. To many their very fear is bane; for many have come upon their doom while shunning doom.

Fonte: link

 

Estas discrepâncias permitem-nos também constatar que, apesar de existir uma base comum em todo este mito (já Homero, no livro XI da Odisseia, falava de uma Epicasta que casou com o próprio filho), alguns elementos vão sendo alterados (no mesmo relato de Homero, é dito que o Édipo de Epicasta continuou a reinar após a morte desta), baseando-se simplesmente em tradições diferentes, não fazendo sentido considerar nenhuma das versões como apócrifa ou menos correcta que as outras.

 

Para terminar, falta-me referir a extrema importância do Destino no mito de Édipo. Já muito falei desse tema no passado (é questão de usarem ali a opção de procura para descobrir essas linhas), mas pelo facto de considerar esse tema interessante faço-lhe aqui nova alusão: se, desde o momento do seu nascimento, Édipo estava já destinado a matar o pai e a casar com a própria mãe, seria ele culpado de ambos esses crimes? Ou, qual fantoche, só os cometeu por já a eles estar destinado, sem ter qualquer controlo real sobre os seus actos? Ficam as perguntas, essas perguntas que ao longo dos tempos tanto entreteram os mais diversos autores…

O mito de Tício

Tício era filho de Zeus e da princesa Elara. Instigado por Hera, tentou violar uma deusa e foi morto (tanto a deusa, como a forma da morte, depende da fonte consultada). Após a morte, Tício foi então aprisionado no Tártaro, onde dois abutres receberam a tarefa de comerem constantemente o fígado deste herói até ao final dos tempos.

 

Este mito de Tício, relativamente simples, é aqui mencionado para mostrar dois elementos que considero interessantes: em primeiro lugar, tanto a deusa que sofre a tentativa de violação, como o deus que mata Tício, mudam dependendo da versão, o que nos permite constatar que não existe aqui uma versão canónica, mas sim múltiplas versões com um dado tronco comum. Isto ocorre em relação a muitos outros mitos, mas esse será um bom tema para o futuro. Em segundo lugar, compare-se o castigo deste gigante com o do titã Prometeu, cujo fígado era comido diariamente por um abutre, para ver que este tipo de castigo não era assim tão singular como se poderia pensar, apesar do mito de Tício – por oposição ao do titã – ser muito menos conhecido.

Sobre a interpretação dos mitos

Relativo à interpretação dos mitos, aqui fica um momento da obra Contra Celso, de Orígenes, que achei interessante:

 

Suppose that some one were to assert that there never had been any Trojan War, chiefly on account of the impossible narrative interwoven therewith, about a certain Achilles being the son of a sea-goddess Thetis and of a man Peleus, or Sarpedon being the son of Zeus, or Ascalaphus and Ialmenus the sons of Ares, or AEneas that of Aphrodite, how should we prove that such was the case, especially under the weight of the fiction attached, I know not how, to the universally prevalent opinion that there was really a war in Ilium between Greeks and Trojans? And suppose, also, that some one disbelieved the story of OEdipus and Jocasta, and of their two sons Eteocles and Polynices, because the sphinx, a kind of half-virgin, was introduced into the narrative, how should we demonstrate the reality of such a thing? And in like manner also with the history of the Epigoni, although there is no such marvellous event interwoven with it, or with the return of the Heracleidae, or countless other historical events. But he who deals candidly with histories, and would wish to keep himself also from being imposed upon by them, will exercise his judgment as to what statements he will give his assent to, and what he will accept figuratively, seeking to discover the meaning of the authors of such inventions, and from what statements he will withhold his belief, as having been written for the gratification of certain individuals.

Sobre os anjos e os demónios

Hoje, ao ler uma das obras de Fílon de Alexandria, encontrei um segmento muito curioso sobre os anjos e os demónios:

 

Those beings, whom other philosophers call demons, Moses usually calls angels; and they are souls hovering in the air. And let no one suppose, that what is here stated is a fable, for it is necessarily true that the universe must be filled with living things in all its parts, since every one of its primary and elementary portions contains its appropriate animals and such as are consistent with its nature

fonte: Sobre os Gigantes, de Fílon de Alexandria

 

Claro que Fílon é um autor contemporâneo dos inícios do Cristianismo, mas esta admissão de que os demónios são (quase) o mesmo que os anjos é extremamente interessante, ao demonstrar que, originalmente, não existia uma conotação tão negativa para os primeiros, ou tão positiva para o segundos, como já por cá mencionei uma vez…

As várias cosmogonias gregas

Infelizmente já não me recordo de onde vem este extracto que tinha por cá guardado, sobre as várias cosmogonias gregas (se alguém o reconhecer, por favor mencione o título da obra ali nos comentários), mas é extremamente importante e interessante no sentido de permitir a um qualquer leitor ter um acesso rápido e sucinto às diversas cosmogonias dos autores gregos da Antiguidade, umas bem mais conhecidas que outras. Aqui fica então este curiosa sequência, para quem quiser saber mais sobre a forma como as diversas opiniões de cada um desses pensadores contrastava com as restantes:

O Caos

While the Homeric cosmogony is confined merely to the mention of ‘‘Oceanus, the father of the gods, and Tethys, their mother’’ (Iliad 14:201), Hesiod presents an elaborate account that may be summarized as follows: First came Chaos, and next Earth, then Tartarus, and Eros. From Chaos came Erebus and Night, and of Night were born Aether and Day. Earth bore Heaven and the great sea, Pontus. Then, impelled by Eros, she united at one time with Heaven, at another with the sea, giving birth thus to different lines and generations of divine beings. Hesiod relates their theogonic conflicts in detail (Theog. 116 to the end). According to Pherecydes of Syros ( c. 550 B.C.), the three original gods, Zeus, Chronos, and Chthonius, always existed; the other gods descended from these three in five successive waves. Zeus, transforming himself into Eros, created the Earth and the Ocean, despite the opposition of the Titan Ophioneus. The most original contribution of the cosmogonic myths of Orphism is their account of the origin of man. He was created from the ashes of the Titans who were destroyed by the thunderbolts of Zeus after they had devoured the infant Dionysos. Man, accordingly, bears within him the germs of evil as well as particles of divinity. The Cosmic Egg (mentioned by Epimenides of Crete, seventh century B.C.) is also an Orphic myth. From the Egg came Heaven and Earth, following the intervention of Phanes, the Orphic pendent of Hesiod’s Eros. The Ionian philosophers, in seeking to give a scientific explanation of the world’s origin, replaced mythical forces by original physical principles (ßrcaà), but did not thereby escape the influence of the old cosmogonies. Later, despite the attractive Platonic theory of the Demiurge responsible for transforming Chaos into Kosmos, the image of the scientific world, as it was projected by Aristotle and completed by Ptolemy the Geographer, imposed itself to such a degree that neither the conceptions of popular belief (see, e.g., Ovid’s Metam 1:5–451) nor the mythical cosmogonies of the Hermetic writings (the speculations of the Poimandres, especially) and of Mithraism could prevail.