A Mitologia do Zodíaco

A Mitologia do Zodíaco

Qual é o teu signo? Hoje, ouvimos perguntas como essa com a maior das naturalidades, sem sequer pensar na Mitologia do Zodíaco que se esconde por detrás de cada uma das possibilidades, mas posso dizer que existem curiosas histórias escondidas em cada um dos seus signos. Claro que não são as histórias originais, as primeiras, as que estavam por detrás da criação inicial de cada signo (uma amiga que percebe mais destas coisas disse que essas remontariam aos Caldeus, ou seriam até anteriores a eles), mas nem por isso se tornam menos interessantes. Aqui ficam elas, essas histórias individuais da Mitologia do Zodíaco, numa forma sintetizada e conforme referidas não só no livro de Lúcio Ampélio, mas também em várias outras fontes. Além disso, para saber (muito) mais sobre cada um dos signos bastará carregar no respectivo nome:

 

Carneiro – o carneiro que transportou Frixo e Hele, mais conhecido pelo seu papel na história dos Argonautas. Porém, também pode ser um carneiro que ajudou Baco a encontrar água, numa incursão à Índia, e que viria a ser divinizado sob a forma de Júpiter Amon;

Touro – num dos mitos mais famoso, este seria o touro (seja enquanto transformação de Júpiter, ou um vero touro, mediante a fonte) que transportou Europa até Creta;

Gémeos – na versão mais famosa são Castor e Pólux, mas o autor também refere a possibilidade de serem Hércules e Teseu;

Caranguejo – um caranguejo que, a mando de Hera, ataca Hércules no seu segundo trabalho. Segundo algumas versões foi o próprio herói que o atirou aos céus, mas noutras ele foi morto por Hércules e colocado entre as estrelas pela mesma deusa que o tinha enviado;

Leão – o Leão da Nemeia, vencido e morto por Hércules no seu primeiro trabalho;

Virgem – a Justiça, colocada entre os céus por Júpiter. Também poderia ser Erígone, filha de Icário, ou Astreia;

Balança – uma balança “normal”, mas importante pela sua simbologia e relação com a Justiça;

Escorpião – o animal que matou Oríon (que, ironicamente, está colocado ao seu lado nos céus);

Sagitário – o centauro Quíron, colocado nos céus após abdicar da sua imortalidade;

Capricórnio – o deus Pã, ou a cabra Amalteia, que amamentou Júpiter na sua infância;

Aquário – Ganimedes, transportado para o Olimpo pelos deuses, de forma a servir bebidas nos festins. Também poderia ser Cécrope;

Peixes – uma das transformações de Vénus e Cupido durante a guerra contra os Gigantes, estando unidos para não se perderem um do outro.

 

Como qualquer leitor conseguirá notar, a forma mais comum de colocação entre as estrelas passava pela realização de feitos notáveis, eventualmente premiada pelos deuses. Claro que existem excepções, como no caso do Aquário ou da Balança, mas será que o mesmo se passa com as constelações? Infelizmente não as posso mencionar todas por cá (Ptolomeu mencionava 48), mas posso dizer que essa tendência da Mitologia do Zodíaco também se parece manter no caso das constelações… 

A formação dos quatro elementos segundo Pitágoras

O gerador universal é a mónade; as formas e os números da mónade constituem os elementos; e os elementos explicam-se da seguinte maneira. Junção de 24 triângulos rectângulos, o fogo ficará contido entre quatro lados iguais. Cada um desses lados consiste em seis triângulos; e daí a forma piramidal da chama. 48 triângulos rectângulos, limitados por oito lados iguais, aí está o ar: a sua imagem é um octaedro determinado por oito triângulos equiláteros, em que cada um se divide em seis triângulos rectângulos: no total, 48. Para a água, ela é composta por 120 triângulos: pensem na figura de um icosaedro, formado por seis vezes 20 triângulos com ângulos e lados iguais. Finalmente, entram 48 triângulos na composição da terra; seis quadrados desenham-nos: é um cubo. Dividam em oito triângulos cada superfície quadrangular de um corpo cúbico, para aí encontrar 48 no total.

 

Este extracto, retirado de uma obra de Hérmias (algo como “Escárnio dos filósofos pagãos”), permite-nos ver a formação dos quatros elementos segundo Pitágoras. Alguém poderia vir argumentar, e bem, que a obra é uma sátira da filosofia e portanto não nos permite ter uma visão real de qualquer opinião lá patente, mas o extracto aqui reproduzido não deixa de ser bastante curioso…

O mito de Mirra

Sobre o mito de Mirra, devo dizer que é um daqueles que tem múltiplas versões. Se, por um lado, existem detalhes comuns em todas elas, existe também uma grande diferença final. Veja-se então a versão básica do mito:

 

Mirra nutria uma enorme paixão pelo seu próprio pai. Com a ajuda de uma ama acabou por ter sexo com ele, e até engravidou dessa relação. Afastando-se do local onde vivia, foi eventualmente transformada pelos deuses na árvore a que veio a dar o nome. Quanto à criança, fruto desta infrequente e horrenda relação, acabaria por nascer da própria árvore.

 

Para além destes detalhes muito básicos, as múltiplas versões do mito adicionam alguns elementos extra. Por exemplo, um autor refere que a paixão de Mirra foi causada por Vénus, que invejava a sua beleza. Outro refere que o auxílio da ama surgiu na sequência de uma tentativa de suicídio. Se alguns autores não dão nome ao filho de Mirra, outros referem que foi daí que nasceu Adónis. O local e circunstâncias da transformação em árvore, bem como do nascimento do filho, também varia bastante. Ainda assim, nenhum deles se afasta realmente dos elementos mencionados acima, razão pela qual preferi cingir-me a esses elementos, se bem que muitos pobres, na referência ao mito.

 

Agora, qual é o objectivo, a razão de ser, deste mito? Como muitos dos mitos que envolvem transformações, parece-me aconselhar os leitores a não violarem alguns tabus sociais (neste caso o incesto), sob pena de serem punidos pelos deuses. Numa leitura menos aprofundada, poderemos aqui extrair a razão pela qual uma dada árvore parece chorar.

A origem dos ídolos

Escrita perto do final do século V, a obra Mitologias, de Fulgêncio, pouco mais explica que as obras de mitógrafos anteriores. Contudo, um dos 50 capítulos da obra, o primeiro de todos eles, apresenta um mito mais obscuro, o da origem dos ídolos, os tais que era venerados na Antiguidade:

A origem dos ídolos

Sírofanes tinha um filho, que amava mais que tudo. Quando, por um golpe do destino, o perdeu, entrou em desespero, já que toda a sua fortuna de nada lhe servia nessas circunstâncias. Decidiu então pôr uma efígie do seu filho em casa, com esperança de que isso lhe trouxesse menos dor, mas esse acto acabou por ter um efeito contrário, já que lhe renovava a dor de diariamente (daí a semelhança do nome com a função latina, “idos dolu”). Então, para cair nas boas graças do mestre, os escravos começaram a depositar oferendas em frente dessa éfigie, a usá-la quase como protecção contra possíveis castigos.

 

Este mito, depois apoiado com citações de Petrónio e Mintanor, leva-nos indirectamente a uma opinião partilhada por muitos outros mitógrafos, segundo os quais os deuses gregos eram essencialmente mortais deíficados. Contudo, é-nos aqui também mostrado um intemporal interesse da humanidade, o do tornar a sua figura imortal, fazendo-a perdurar após os limites da morte. Finalmente, podemos ainda daqui extraír uma última lição; tal como Fulgêncio escreve, foram o medo e dor que criaram os deuses, uma tendência que perdurou até aos dias de hoje, em que a religião tem um papel fulcral nas (agora poucas) situações limite da nossa vida.

Jesus, o deus com cabeça de burro

A ideia até poderá parecer estranha, mas existiu uma altura em que se pensava que Jesus era um deus com cabeça de burro, como pode ser visto neste grafito de outros tempos, conhecido normalmente como Grafite de Alexamenos:

Jesus, o deus com cabeça de burro

Além de um pequeno texto que diz algo como “Alexamenos venera o seu deus”, o grafito mostra uma pessoa (presumivelmente o mesmo Alexamenos nomeado no texto) a venerar um deus com cabeça de animal, possivelmente de um burro. Será a cena aqui mostrada a da crucificação de Jesus Cristo, com algumas liberdades artísticas e religiosas? Não podemos ter uma total certeza para nenhum dos lados, mas sempre me pareceu curioso o facto de uma das figuras ter cabeça de burro, uma singular characterística mais frequente no Egipto, em que muitos dos deuses apresentavam cabeça de animal (apesar de este deus, em específico, estar ausente do panteão egípcio, numa altura em que a sua presença poderia aqui levar a outras questões).

 

Se este facto, dos Cristãos venerarem um deus com cabeça de burro, é referido por muitos autores, nenhum deles parece esclarecer totalmente a questão, ou sequer referir a existência de um qualquer mito por detrás dessa aparência. Porém, Tertuliano parece levar-nos a algumas curiosidades, já que refere estes elementos por duas vezes no livro III de Às Nações:

 

– No capítulo XI refere que foi Tácito (veja-se Histórias, V.3-4) que inventou tal tolice, e reconta partes das palavras desse autor. Depois, diz que os seus pagãos é que veneram burros, não só em cabeça (ou seja, antropomórficos) mas com um corpo completo de burro, ou seja, que veneram toda a espécie de gado, juntamente com Epona (deusa protectora dos cavalos, burros e mulas) e os estábulos que lhes estão associados.

 

– No capítulo XIV, refere a história de um antigo judeu que apresentava uma caricatura dos cristãos a que dava o nome de Onocoetes. Sobre isto, Tertuliano diz que os seus opositores veneram deuses com cabeça de vaca, cabra, etc., pelo que têm vários Onocoetes entre eles.

 

Então, de onde viria toda esta história? Sendo que Tácito era um dos mais importantes historiadores latinos, é muito provável que pelas suas palavras esta figura inicialmente associada ao Judaísmo tenha então passado a ser associada aos Cristãos, de que ainda se sabia muito pouco nessa altura. Então, mais do que um mito, esta crença era fruto de um equívoco, seja somente da parte de Tácito ou até das representações sociais dos judeus (e, mais tarde, dos próprios cristãos) vigentes na altura. Assim, é muito provável que o Alexamenos do grafito fosse Cristão (mais do que Judeu, já que se apresenta na imagem algo semelhante a uma cruz), e alguém se quisesse referir a ele de uma forma pejorativa, satirizando parte das suas crenças religiosas.