O rinoceronte mais famoso do mundo

A ter de se eleger um rinoceronte mais famoso do mundo, essa poderá parecer-nos uma tarefa extremamente fácil. Os brasileiros até têm o seu Cacareco na competição, mas o animal de que falamos hoje é certamente capaz de colocar todos os possíveis outros na sua sombra. É até provável que já o tenham visto antes, num de incontáveis locais que insistem – justamente – em reproduzir a sua figura:

O rinoceronte mais famoso do mundo

Esta gravura de aquele que se tornaria depois o rinoceronte mais famoso do mundo foi desenhada por Albrecht Dürer em 1515, mas depois foi sendo reaproveitada em diversas obras – encontrámo-lo, para a reprodução acima, na Historia Animalium de Conrad Gessner. E quem é ele? Contamos hoje aqui a sua surpreendente história!

 

Se os Romanos da Antiguidade até conheciam animais como o rinoceronte e o elefante, após a queda do Império Romano eles foram sendo esquecidos e tornaram-se bastante incomuns na Europa. Depois, em 1515, Afonso de Albuquerque recebeu um destes animais em terras da Índia e enviou-o para Lisboa. É provável que o caminho marítimo tenha sido infernal tanto para o animal como para os navegadores que o acompanhavam, mas ele lá chegou à capital de Portugal – de onde veio a informação que levou à gravura de Albrecht Dürer e foi recebido pelo rei Dom Manuel I, que até tentou encenar uma batalha deste animal com o elefante que já possuía – segundo Plínio o Velho, os dois animais eram inimigos figadais, esperando-se uma gigantesca batalha entre eles – mas sem qualquer sucesso. Talvez pela desilusão, talvez por mera coincidência, o nosso monarca decidiu então oferecer este seu rinoceronte ao Papa Leão X, mas o barco que o transportava para Roma foi apanhado numa tempestade e o pobre animal veio a afogar-se…

Este rinoceronte na Torre de Belém

Mas a história do que foi este rinoceronte mais famoso do mundo ainda não fica por aqui, restando algo que pode ser resumido como mais dois capítulos. O primeiro deles é uma espécie de lenda, que nos diz que o corpo do animal foi recuperado das águas, empalhado e levado para outro local. Não sabemos se voltou para Lisboa, se foi para Roma, se foi guardado num qualquer terceiro lugar, ou se toda essa história não passou de um mero rumor, mas desconhece-se o seu paradeiro nos dias de hoje, se ainda existir.

O que sabemos, isso sim, é que o célebre animal não foi esquecido na sua época. Por exemplo, a Torre de Belém estava então a ser construída (a sua construção só terminou em 1520), e então optou-se por representar este rinoceronte abaixo de uma das guaritas. Ele pode ser visto ali na imagem, onde também é fácil reconhecer o resultado de séculos de influência marítima, cujas ondas maceraram o animal até ao corno quase já não o ser. Mas ele também foi repetido em algumas outras construções da época, e.g. o chamado “Rinoceronte de Alcobaça”, fazendo deste o rinoceronte mais famoso do mundo, também conhecido por “Rinoceronte de Lisboa”, por ter sido essa cidade a sua porta de entrada na Europa.

 

Será que já o conheciam? Será que, na vossa opinião, existe um que até possa ser considerado mais famoso do que este? Fica a pergunta no ar…

A lenda de Nossa Senhora dos Covões

Nossa Senhora dos Covões é (hoje) a designação dada a uma capela na zona de Alvaiázere, no distrito de Leiria, em Portugal. Iremos então contar a lenda que lhe costuma estar associada, antes de avançarmos para um pequeno segredo que alguns locais parecem desconhecer.

A Nossa Senhora dos Covões

Sobre a lenda que veio a originar esta capela, diz-se então que numa data desconhecida andava por estes montes e vales uma pastora com o seu rebanho. Já aí tinha passado muitas vezes antes, voltaria a fazê-lo tantas outras no futuro, mas nesse dia apercebeu-se da existência de um covão, i.e. uma espécie de gruta pequena, no local. Quando espreitou para o interior, encontrou aí uma imagem de Nossa Senhora, que tentou levar para sua casa. Porém, por muitas vezes que o tentasse, a imagem regressava sempre a este seu nicho natural. Ás tantas a pastora lá desistiu e falou com um padre local, que levou a que fosse erigida uma pequena capela no local.

 

Não sabemos até que ponto toda esta história será verdade – a capela parece datar-se do século XVIII – mas podemos apontar que ela já teve outro nome, o de Nossa Senhora da Apresentação dos Covões, talvez por ter sido pela sua influência que foi possível encontrar todo o local. Depois, ao longo do tempo, por simplificação, é que o seu nome se tornou somente o de Nossa Senhora dos Covões, em virtude do local em que a sua padroeira foi encontrada.

 

Até aqui tudo bem, este tipo de lenda é extremamente frequente em Portugal – relembrem-se, por exemplo, os casos da Peninha, de Matacães ou de Nossa Senhora da Piedade da Merceana, entre infindáveis outros que existem até pelo mundo fora – mas parecem ser relativamente poucos os casos em que o próprio local onde se diz que a imagem foi encontrada continua a ser motivo de culto. Agora, se os habitantes locais dizem que tendem a encontrar sempre esta capela encerrada – e, infelizmente, também nós não conseguimos visitar o seu interior em tempo útil – pelo menos existe uma fotografia que mostra uma imagem da santa no seu contexto, e que foi tirada por Dias dos Reis no ano de 2008:

Imagem da Nossa Senhora dos Covões

Desconhecemos se esta será a imagem original, aquela que se diz que a pastora encontrou nos agora famosos covões, até porque tem aqui o nome de “Nossa Senhora da Memória”, possivelmente – e passamos a expressão – em memória dos eventos que a lenda diz que tomaram lugar no local. A fotografia permite-nos ver como é que o espaço original, que ainda existe, foi readaptado para conciliar uma espécie de caverna com um recanto religioso, permitindo-nos pelo menos imaginar como poderia ter sido antes, nos tempos da suposta descoberta desta imagem da mãe de Cristo. Por isso, se neste caso a lenda nem tem muito de único, o facto de este pequeno recanto continuar a existir é certamente digno de nota.

A lenda de Almofala

No município de Figueira de Castelo Rodrigo existe uma freguesia que tem o nome de Almofala. Hoje, e como informa uma espécie de site oficial, sabe-se que é provável que o seu nome tenha vindo do árabe almohala, i.e. “acampamento”, mas em outros tempos as populações locais contavam uma lenda para tentar explicar o nome da sua povoação. E é dela que aqui falamos hoje!

A lenda de Almofala

Numa data que o tempo já há muito fez esquecer parece ter ocorrido um homicídio nesta povoação, então com um nome agora desconhecido. Procurou-se o culpado, voltou-se a procurar, mas acabou por ser julgado – e condenado – pelo crime um homem que se dizia inocente. Muito protestou a sua inocência, mas o juíz local declarou-o culpado e condendou-o à morte na forca. Uns dias depois, quando estava a ser levado para cumprir a pena capital, começou a ouvir-se uma estranha voz a afirmar a inocência do homem. Procurou-se o responsável, apenas para todos os presentes se aperceberem que a voz vinha de uma árvore próxima do local – um álamo, choupo ou olmo. Totalmente incrédulo, o carrasco gritou “o Álamo fala!”, assim dando nome à povoação e salvando miraculosamente o homem que tinha sido condenado por erro do juíz.

 

Não conseguimos descobrir o que aconteceu à árvore falante desta lenda de Almofala (terá sido destruída pelos Espanhóis em 1642, como pode fazer subentender o site oficial?), nem se o verdadeiro culpado do tal homicídio alguma vez foi apanhado, mas esta história – que até nos poderá recordar, em parte, uma muito mais famosa, a do Galo de Barcelos – foi muito naturalmente criada para tentar explicar o nome da povoação numa altura em que os habitantes locais já tinham esquecido o seu sentido original. É difícil que tenha algum fundo de verdade, até porque mesmo em relatos miraculosos do nosso país as árvores muito poucas vezes falam aos seres humanos, mas não deixa de ser um relato delicioso de uma história associável a uma pequena povoação nacional.

A lenda de São Frei Gil (e o épico “Egidéa”)

Se Frei Gil foi uma de aquelas figuras nacionais que em outros tempos eram muito famosas, hoje também está quase esquecido. E é pena, porque a grande aventura por que passou, segundo nos dizem as lendas, fazem dele uma espécie de Fausto nacional, numa história que parece ter fascinado tantos públicos ao longo dos séculos que há menos de 300 anos até lhe foi dedicado um poema épico, a Egidéa, que em versos de autoria anónima recontam a respectiva história. Agora, é provável que ele ainda seja um pouco conhecido em terras de Santarém, onde viria a falecer, mas para todos aqueles leitores que nunca ouviram falar dele – é Frei Gil, sim, mas também “São …”, “… de Valadares” (o apelido de seu pai), “… de Portugal”, “… de Vouzela” (onde nasceu), etc. – iremos aqui recontar a sua lenda de uma forma sucinta.

Frei Gil e a Egidéa

Nascido Gil Rodrigues de Valadares em 1190, após alguns anos decidiu ir estudar Medicina na Universidade em Paris. Este elemento é factual, mas tudo o resto poderá tratar-se de uma estranha mistela de lenda e realidade, onde nem sempre é possível reconhecer onde termina um e começa o outro, sendo essa uma informação crucial a ter em conta nas linhas que se seguem.

Conta-se que este Gil, enquanto viajava para Paris, passou pela cidade espanhola de Toledo, em que um misterioso homem o convenceu que existia um curso para ele melhor que aquele que tinha escolhido – o da Necromancia ou Magia Negra. Primeiro intrigado, mas depois já convencido, o herói assinou um contracto em sangue e dedicou-se sete anos ao estudo das artes mágicas, antes de se dedicar a todo o tipo de maldades e concluir muito facilmente o curso que tinha planeado tirar em Paris, até dados os seus conhecimentos etéreos. Mas depois, um dia, quando estava fechado a estudar, surgiu-lhe em casa um cavaleiro misterioso, que lhe disse “Ó homem, muda a vida, muda a vida!”; ignorando-o, continuou os seus estudos, até que o misterioso cavaleiro lhe apareceu uma segunda vez e lhe disse “Ó homem, muda, muda a tua vida, senão com esta lança a tens perdida!”… e, meio por temor de um ferimento que pareceu sofrer, meio por arrependimento, Gil decidiu que tinha mesmo de mudar a sua vida.

 

Andou de terra em terra até dar por si em Palência (Espanha), em que se juntou a uma ordem religiosa, a dos Pregadores. Posteriormente viria para Portugal, vivendo numa casa de outra ordem (a dominicana?), em Santarém. Mas, por muitas penitências que realizasse, nunca deixou de se lembrar que os demónios ainda tinham o contracto da sua alma… até que um dia, enquanto rezava e contemplava uma estátua da Virgem Maria, lhe pediu a sua intercessão e – diz a lenda, repita-se bem isso – com a ajuda dessa famosa advogada acabou por ser capaz de se livrar, de uma vez por todas, da influência demoníaca que tantos anos o aterrorizou. Viria a morrer alguns anos mais tarde, a 14 de Maio de 1265, mas deixou-nos uma cinta de ferro que usava para sentir na carne o peso dos pecados que anteriormente tinha cometido (se ela ainda existe hoje, não conseguimos encontrar uma fotografia).

 

Esta é a lenda de Frei Gil, tal como tende a ser recontada e como foi adaptada para o poema épico Egidéa. É difícil saber onde estão os elementos lendários e a pura verdade em tudo isto – por exemplo, poderá ter sido o seu jeito para a Medicina que inspirou a ideia do pacto demoníaco – mas todas as versões que consultámos são peremptórias tanto em afirmar a existência de um pacto com o Diabo, como em proclamar que, depois, o herói veio a renegar a essa influência diabólica. É esse elemento, tão incomum em hagiografias nacionais (e até estrangeiras!), que o tornou especialmente famoso e o manteve nessa estranha posição ao longo dos séculos, ao ponto de o podermos resumir como o santo português que fez um facto com o demónio.

 

Mas, deixando agora de lado a lenda para nos focarmos no poema épico Egidéa, será que ainda vale a pena lê-lo? Apesar da presença de uma meia dúzia de estrofes com alusões mitológicas, a construção poética, em si mesma, não nos pareceu particularmente agradável. Se, por um lado, reconta toda a lenda de Frei Gil de uma forma relativamente simples, por outro, a forma como o faz tem pouco de belo, quase como se apenas se tivesse tentado fazer rimar uma história em prosa. E, na verdade, não encontrámos nos seus nove cantos uma única estrofe que sentíssemos que fosse particularmente bela, só merecendo a abaixo – retirada de um instante em que os demónios torturam o herói – uma referência pela alusão mitológica:

Tisífone aumentava a enfermidade
Que já desde Paris o perseguia.
Alecto mais perversa na verdade
Muito mais dura guerra lhe faria.
Dizendo que a Divina Piedade
Inexorável sempre lhe seria.
Mas a terceira irmão não dava a morte
Por ver se o concluía de outra sorte.

Por isso, a Egidéa merece ser recordada nestas linhas por se tratar de um dos poucos poemas épicos sobre as desventuras de um futuro santo, e por ter como seu tema uma lenda que, feliz ou infelizmente, parece estar mais e mais esquecida. Não é uma obra fácil de encontrar, mas talvez nem valha a pena o trabalho de tentar reencontrá-la, excepto para alguém que tenha um enorme interesse no tema. Para os outros, prefiram antes a mais-risonha Gaticanea!

 

E uma última curiosidade – se este São Frei Gil foi contemporâneo do Santíssimo Milagre e até parece ter vivido na mesma cidade de Santarém nessa altura, nenhuma versão da lenda parece fazer cruzar as duas ocorrências, o que pode fazer levantar algumas questões muito curiosas…

A lenda do Barbadão

No norte de Portugal, mais precisamente na zona de Barcelos, pode ser encontrado o chamado Solar dos Pinheiros, em que está representada uma figura muito conhecida sob o nome de Barbadão. Que ela está, de alguma forma, relacionada com o fundador da casa (Pedro Esteves, em 1448), ou com o seu filho deste (Alvaro Pires Pinheiro Lobo, que ergueu as respectivas torres), parece-nos quase óbvio, mas que lenda se esconde neste local?

A lenda do Barbadão e o Palácio dos Pinheiros

Neste caso específico o problema não se prende tanto com encontrar uma lenda associada ao local, uma que possamos recontar aqui, mas com a existência de diversas histórias que lhe estão associadas, sendo difícil saber qual, se alguma, era a original, a “verdadeira”, por detrás da famosa representação. Como tal, contamos aqui duas breves lendas que aparecem associadas ao local, e que parecem contar-se entre as mais famosas.

 

A primeira diz que o homem aqui representado era o fundador desta casa, que queria construir enormes torres no local, nem que para isso tivesse de “empenhar as suas barbas“. Porém, o primeiro Duque de Bragança, Dom Afonso, não permitiu que isso fosse feito, por razões desconhecidas, e então as torres passaram a ter uma representação alusiva à expressão, como que a dizer “eu até teria empenhado as minhas barbas para as ter construído maiores”.

 

Uma segunda diz que o Rei Dom João I se apaixonou por uma Inês Pires [Esteves?], que era desta família, no que poderá ter sido uma de muitas infidelidades do monarca. A relação extraconjugal manchou bastante a honra do pai dela, levando-o a proclamar que, em detrimento de vingar toda a afronta matando o novo monarca, jamais tornaria a cortar as suas barbas, que eram então um símbolo de honra. Depois, o rei lá veio a admitir a relação extraconjugal, e a dar nome ao filho nascido dela, mas o avô da criança jamais tornou a cortar as suas barbas, fruto da promessa que um dia tinha feito, ficando com o nome de Barbadão e tornando-se uma espécie de símbolo que depois viria a ser representado neste local.

 

Não sabemos, repita-se, qual destas duas lendas terá sido a “verdadeira”, aquela que gerou a representação que hoje ainda pode ser vista no Solar dos Pinheiros. Poderá ter sido uma delas, ou o busto poderá ter ido parar ao local por uma qualquer outra razão que o tempo fez esquecer. Porém, o que sabemos é que esta representação de um homem com longas barbas, numa pose em que parece quase querer arrancá-las, ou terá inspirado diversas lendas, ou terá de alguma forma obtido a sua inspiração por elas. É uma de aquelas situações do ovo e da galinha, em que é muito difícil saber-se se a representação veio de alguma lenda do Barbadão ou vice-versa, só restando concluir que existe, sem quaisquer dúvidas, uma relação palpável entre ambas, mesmo que já não se consiga (agora) ter a certeza de qual é ela…