A lenda do Bom Jesus de Matosinhos

Terminam hoje as festas anuais do Bom Jesus de Matosinhos, com a sua famosa imagem de Cristo que, segundo a lenda, data do primeiro século da nossa era. Agora, se são muitos os nomes que lhe foram sendo associados ao longo dos séculos (como Senhor de Matosinhos), talvez poucos sejam mais famosos que o original, o “de Bouças”, em virtude de um concelho, hoje já desaparecido, na zona do Porto em que existiu um mosteiro em que esta famosa imagem foi guardada durante séculos, então sob o nome de São Salvador de Bouças. Conte-se, então, a história desta representação de Cristo, tão famosa que até é venerada em Congonhas, nas terras do Brasil!

O Bom Jesus de Matosinhos

Na fotografia acima pode ser visto o chamado Bom Jesus de Matosinhos. É uma representação um tanto ou quanto estranha, como é fácil constatar. Se as imagens que o acompanham são muito mais recentes (se a memória não nos engana terão cerca de quatro séculos), a principal, a do próprio Jesus Cristo, diz-se que data do primeiro século da nossa era. Isto porque, seguindo a lenda, ela foi feita pelas mãos de Nicodemos, um contemporâneo de Cristo que foi o responsável pela sepultura do filho de Deus. Depois, em tempo de perseguição e segundo uma versão da lenda, ela foi atirada aos mares, onde viria a dar à costa nesta cidade do norte de Portugal, dizendo parte da história que isso aconteceu por volta do dia 3 de Maio do ano 124. Na altura faltava-lhe um braço, o esquerdo, que foi encontrado na mesma praia a 25 de Maio de 174. Reconstruída então a totalidade da representação original, diz-se depois que a imagem foi escondida no tempo dos ataques muçulmanos, só tendo sido recuperada no século de Afonso Henriques, e assim se pode resumir o cerne de toda a sua história.

 

Mas… quem tiver mais interesse nestes temas poderá fazer-se uma questão bastante óbvia – como sabemos tudo isto? Que provas há de todas estas coisas? A verdade é que…. nenhumas, ou quase nenhumas, porque em dada altura os registos da chamada Igreja de Bouças foram destruídos num incêndio, e então nada de muito real e comprovável se pode afirmar sobre esta misteriosa imagem do Bom Jesus de Matosinhos. É provável que tudo isto se trate de pura lenda e nada mais, até porque Alexandre Manuel Viegas Maniés, na sua tese de mestrado O Crucificado Bom Jesus de Matosinhos: Estudo técnico – conservação e restauro de uma escultura medieval, demonstra um conjunto provas que atestam que a imagem foi produzida após o século VII da nossa era, sendo por isso medieval. A cruz é mais tardia.

 

Mas, por um momento esqueça-se isso. Suponha-se que apesar da imagem parecer um tanto ou quanto estranha (o que até pode atestar, de forma indirecta, a sua idade significativa), data mesmo do primeiro século da nossa era. Se assim o fosse, como explicar que a cruz, e Cristo crucificado, só se tenham tornado símbolos cristãos vários séculos mais tarde? Ou como explicar que, também nesse primeiro século da nossa era, já existissem crentes dessa nova religião em Portugal? Surpresa, surpresa (!), é também para explicar isso que surge uma outra lenda associada a esta!

 

Matosinhos e a Origem da Vieira de Santiago

Conta-se então que em meados do século I vivia na zona que é hoje Matosinhos um tal Gaio ou Caio Cárpio. Enquanto festejava o seu casamento numa zona próxima da praia avistou no mar uma estranha barca. Tentando aproximar-se dela, reparou que o seu cavalo conseguia correr miraculosamente sobre as águas, chegando até à embarcação que transportava o corpo de Santiago (famosa de uma lenda do norte de Espanha que já cá contámos antes). Ficou maravilhado com o prodígio, claro está, convertendo-se posteriormente ao Cristianismo, mas ainda nessa altura – presume-se que quando estava a voltar do local de barca… – caiu às águas e saiu delas “matizado” de vieiras (ou seja, coberto delas!), levando não só ao (então futuro) nome da cidade de Matosinhos, mas também à suposta introdução da religião cristã em Portugal, e ainda à subsequente associação dos famosos moluscos com as terras de Compostela!

 

 

Claro que também tudo isto é pura lenda, da qual não existem quaisquer provas reais, mas falar-se do Bom Jesus de Matosinhos é, talvez mais que tudo, falar-se de uma constelação de lendas que foram sendo contadas, recontadas e adaptadas ao longo dos séculos, quase sempre sem provas reais. Por exemplo, os mais atentos poderão ter notado que se passaram cerca de 50 anos entre o momento em que foi encontrada a imagem de Cristo e a recuperação do seu braço; como se soube disto, tantos séculos mais tarde? Um autor da primeira metade do século XVIII, António Cerqueira Pinto, explicou-o dizendo que foram encontradas nas antigas ruínas de São Salvador de Bouças um monumento com dois números inscritos, um 124 bem visível e um 50 quase apagado… e que apesar da ausência de qualquer contexto para a numeração, se tomou então estes números como os do ano descoberta da representação cristã e do respectivo braço, o que soa quase a uma absurda brincadeira!

 

Hoje, fruto de estudos como os de Alexandre Manuel Viegas Maniés, sabe-se que esta representação de Jesus Cristo é medieval, precedendo em alguns séculos a cruz que ainda a acompanha. Como tal, não pode ser do primeiro século da nossa era, não pode ter sido feita por Nicodemos, ou pelo menos não sem que se tentem inventar todo um conjunto de absurdos para, na senda do tal António Cerqueira Pinto, se tentar descartar – ou evitar miraculosamente – as provas que agora temos. Em pior caso, pode sempre recorrer-se à infame ideia de “o Diabo falsificou todos os testes e provas para iludir os crentes”, o que é sempre muito triste…

Mas, mesmo que as histórias de hoje se tratem de meras lendas, continuam a ser importantes na cultura portuguesa, sendo celebradas (quase) todos os anos nos locais em que se crê que aconteceram. E isso não é mau, desde que se saiba reconhecer onde termina a pura lenda e começa o culto religioso propriamente dito. Talvez seja a essa reflexão, mais que tudo o resto, que nos dias de hoje nos convida este Bom Jesus de Matosinhos, aquele antigo São Salvador de Bouças que já era bem conhecido nos longínquos tempos do nosso primeiro rei…

A História das Sete Parvoíces

A história ou conto das Sete Parvoíces, sob a sua forma oral, parece ter sido, em tempos já passados, de alguma popularidade nos territórios de Portugal. Contudo, e provavelmente em virtude de conter uma associação entre sete pequenos relatos totalmente independentes uns dos outros, foi-se perdendo progressivamente ao longo do tempo. Hoje, parece ser pouco mais do que um nome – não o encontramos em compilações de histórias infantis, nem foi possível localizar uma versão totalmente completa de toda a trama – que mal aparece em pesquisas na internet, pelo que achámos que, associando diversos relatos recolhidos por José Leite de Vasconcelos (entre outros), deveríamos tentar recuperar e apresentar aos leitores a sua sequência. Isto, até para celebrar este Dia Mundial da Criança, que é sempre uma boa desculpa para se contar histórias de outros tempos!

Será esta uma das Sete Parvoíces?

 

O princípio da história das Sete Parvoíces

Conta-se então que em outros tempos um jovem e uma jovem estavam para se casar. Um dia, quando até já estavam para marcar a data do evento, a segunda decidiu ir à adega buscar “algo”, possivelmente algum vinho. Quando estava no local, notou um local perfeito para vir a colocar o berço de um bebé, mas depressa se apercebeu que estavam colocados um machado e uma enxada aí por cima. Com medo, pôs-se então a gritar algo como “Aiiiiiii, e se a enxada e o machado caem? Lá se vai o meu bebé!!!” Fez tanto barulho que também a sua mãe desceu à adega… e esta, quando viu a filha a chorar, pôs-se também a gritar “Aiiiii o meu netinho, coitadinho dele, que vai morrer!!!” Ambas fizeram tanto barulho que depois também o pai/marido desceu ao recinto, pondo-se também ele a gritar “O que há-de ser do neto dos meus olhos? Aiiiii aiiii aiiii, que tristeza!”

Pouco depois, o futuro noivo lá se apercebeu do que estava a acontecer, mostrou-se estupefacto – quer dizer, bastaria mover o machado e a enxada para evitar todo o problema… – e possivelmente disse que casava com esta jovem, sim, mas apenas quando conseguisse encontrar pelo mundo fora seis outras grandes parvoíces como esta.

 

Em busca das outras Sete Parvoíces

É aqui que a história se complica, já que a progressão da narrativa implica necessariamente o herói pelo menos conseguir encontrar seis outras coisas muito parvas, potencialmente em que até intervém directamente para as resolver, mas – e como já referido antes – não foi possível descobrir nem a sua sequência original, nem quais sempre fizeram parte da história. Assim, as seis que reproduzimos aqui são aquelas em que não só foi possível encontrar um problema para ser resolvido, mas em que a personagem principal também intervém para o fazer.

 

  1. Uma mulher estava a entrar e a sair de casa com uma caixa, já que queria tentar guardar um pouco de sol para o Inverno. O viajante subiu ao telhado, abriu um buraco nas telhas, e quando a mulher viu alguns raios de sol no interior da caixa, fechou-a muito depressa, para guardar o sol.
  2. Numa terra encontrou os porcos cheios de brincos, colares, pulseiras, e outros acessórios. Quando comentou que na sua terra eram as mulheres que usavam tudo isso, os cidadãos locais depressa removeram tudo e o colocaram nas suas mulheres.
  3. Encontrou várias pessoas todas em monte, talvez até no interior de um carro, que diziam não poder sair porque não sabiam quais eram as suas pernas. Então, começou a bater em cada perna, vendo que pessoa sentia essa dor, e assim os presentes lá puderam sair do local.
  4. Foi a uma hospedaria e pediram-lhe que fizesse pouco barulho, porque uma mãe tinha tido um filho e a criança nascida há 30 anos estava a dormir no quarto. O viajante disse ao proprietário que na terra dele bastava uma semana, e então eles foram ao quarto e fizeram sair dele a mãe e o filho.
  5. Viu uma igreja em grande polvorosa, porque a noiva, a montar um burro, não conseguia entrar no recinto. Os locais sugeriram cortar as pernas do burro ou a cabeça da noiva, mas o viajante decidiu bater com um pau na cabeça para ela se curvar – ou apenas lhe pediu para se baixar – e ela lá conseguiu entrar no local.
  6. Encontrou várias pessoas a tentarem construir uma casa, mas as traves principais, sempre coladas com sebo, caíam sempre. O viajante sugeriu unir as duas metades com argolas e corda, e todo o problema depressa ficou resolvido.

 

O final(?) da história das Sete Parvoíces

É possível que o viajante tenha voltado a casa, retirado o machado e a enxada do local em que estavam e tenha decidido que, afinal de contas, já não queria casar com esta singular jovem, até pela parvoíce da respectiva família. Contudo, as palavras-chave devem aqui ser mesmo “é possível”, já que não foi possível encontrar qualquer relato contínuo de toda a narrativa, não parecendo existir (agora) qualquer vestígio de uma versão em que o par tenha mesmo acabado por casar.

 

Mais sobre esta História das Sete Parvoíces

Por isso, o que se pode concluir sobre esta jocosa história das sete parvoíces? É absolutamente claro que o cerne da trama era o confronto de um herói com seis ou sete completas tolices, que depois ele conseguia normalizar, mas não pode deixar de ser curioso que algumas das sequências acima também possam ser encontradas como relatos independentes. É, hoje, quase impossível descobrir a sua origem – será que já vinham desta história, ou eram independentes e só depois se foram associando à narrativa principal? – mas é possível que numa versão antiga o herói tenha resolvido essas seis ou sete situações de forma a obter uma espécie de inspiração para a resolução do problema original. Isso possibilitaria a realização do tal casamento, mas… como explicar esse potencial desejo de (ainda) casar quando o herói já conhecia a enorme tolice da futura esposa?

 

Enfim, discutimos bastante o problema, acabando por concluir – e frise-se que é uma mera questão de opinião… – que seis das parvoíces foram potencialmente adicionadas à trama num período mais tardio que a sua composição, sendo possível que tenha existido uma versão em que o herói apenas remove o machado e a enxada da adega, casando depois com a amada, mas já nada se sabe sobre essa potencial versão original. A “nova” versão, aquela que relatamos acima, poderá ter nascido de uma necessidade de explicar porque casaria – ou não… – o herói com uma mulher tão tola. Quer dizer, se toda esta história era originalmente oral, cada pessoa podia contá-la à sua maneira, o que poderá e deverá ter originado um sem-número de versões para o seu desenvolvimento. E, depois, essa multiplicidade de versões tornou difícil recolhê-la, não só pelo esquecimento de cada uma das parvoíces individuais – como já atestava a recolha de José Leite de Vasconcelos – mas porque cada pessoa a poderia contar com um desenvolvimento significativamente diferente.

 

E, para quem quiser mais histórias para o dia de hoje, também já aqui contámos a da famosa Carochinha, na versão escrita mais antiga a que ainda se tem acesso (entre incontáveis outras). Também essa foi sendo simplificada ao longo do tempo, sendo provável que o mesmo tenha acontecido com a de hoje, o que, feliz ou infelizmente, tornou mais difícil saber-se os contornos exactos da história original, agora quase esquecida…

Sobre a Nossa Senhora do Milagre da Cera

Entre os muitos nomes que Nossa Senhora já tomou no nosso país, alguns deles remetem-nos de forma indúbia para um determinado evento, e este milagre da cera é um deles. Mesmo que pouco ou nada se saiba sobre a figura, ou sobre a cidade de Évora em que estes eventos tomaram lugar, sem qualquer dificuldade se depreende que a santa obteve esse nome através de uma ocorrência miraculosa no local… mas o que se passou, então?! Até porque já lhe existem muito poucas referências online ou nos nossos dias de hoje, recorde-se uma história que tomou lugar no tempo do rei Dom Fernando, i.e. segunda metade do século XIV:

Imagem ilustrativa do Milagre da Cera de Évora

Conta-se então que no ano de 1372 a cidade portuguesa de Évora foi assolada por uma enorme tempestade, chovendo continuamente durante vários dias, o que poderia levar à perda completa das culturas que existiam nos campos em redor da cidade. Assustado, e talvez por pedido dos seus concidadãos, o bispo da cidade, que na altura era um tal D. Martim Gil de Britto, decidiu organizar uma procissão, talvez como forma de pedir o apoio divino, e todos os cidadãos locais foram à catedral da cidade. Aí, foram acesos 12 círios no altar, em honra do mesmo número de apóstolos de Cristo, e durante o sermão a chuva finalmente cessou, possibilitando a saída de uma procissão, em honra de Nossa Senhora, para o exterior do espaço religioso.

O que tem tudo isto de especial? Não terá já acontecido em muitas outras igrejas ao longo dos séculos? É certo que sim, nem isto seria digno de nota, não fosse o facto dos círios (uma espécie de velas grandes, que podem ainda hoje ser vistos nos altares de muitas igrejas), por milagre também terem durado muito mais tempo que o habitual e se terem tornado muito mais pesados, levando a que fossem preservados no local, em memória da ocorrência, pelo menos até ao século XVII, em que este “Milagre da Cera”, bem como a santa que lhe tomou o nome, ainda eram conhecidos no local.

 

Infelizmente, não fomos capazes de encontrar qualquer vestígio real deste antigo milagre nos dias de hoje, sendo provável que toda esta breve história tenha sido esquecida ao longo dos séculos, contrariamente a ocorrências, quase da mesma época, como o do famoso Santíssimo Milagre de Santarém. Por isso, se alguém que leia estas linhas for de Évora, ou souber algo mais sobre o que aconteceu a estes vestígios da Nossa Senhora do Milagre da Cera, por favor deixe-nos um comentário, ou envie-nos um e-mail, e conte-nos mais!

Quem foi Maria do Carmo de Mello?

Hoje falamos de Maria do Carmo de Mello, cujo nome já teria sido esquecido não fosse a existência de um pequeno cruzeiro no Pai do Vento, Cascais. E não seria caso único – como o Sal da História mostrou há já uns anos, casos parecidos existem por todo o país, em que toda a vida de um ser humano, normalmente jovem, acaba, por mero acaso das circunstâncias, resumida na berma de uma qualquer estrada do nosso país. Assim, quem passar pela cascalense “Avenida de Sintra” poderá ver, muito próxima de duas bombas de gasolina, um pequeno cruzeiro circundado por uma pequena vedação, hoje quase abandonado e esquecido pelo tempo:

O Cruzeiro de Maria do Carmo de Mello

Este cruzeiro, como é aqui fácil de ver, dá-nos muito pouca informação. Contém apenas um nome – Maria do Carmo de Mello – e uma data, escrita como 20-9-1902, talvez porque quem o mandou erguer tenha pensado que não eram sequer necessárias mais explicações. E talvez nem o fossem, não fosse aquele eterno acaso do progresso alterar toda a zona circundante – onde outrora apenas existiam árvores, montes e vales, agora está tudo repleto de casas, como que fazendo esquecer o desastre de outros tempos.

Quem já tiver visto esta zona do Pai do Vento, em Alcabideche, tal como a região era há mais de 100 anos atrás, vê-la-ia quase completamente vazia de ocupação humana. Havia, no entanto, uma pequena estrada de terra batida, onde ocasionalmente passavam carroças, dirigindo-se quase certamente para a zona de Cascais, tendo por isso de suportar os enormes ventos que deram nome ao local – e ele ainda hoje é ventoso, mas talvez agora menos pelas casas que circundam o local.

 

Nesse contexto, a 20-9-1902 passava esta Maria do Carmo de Melo pelo local, acompanhando o pai numa viagem de charrete, quando um enorme vento se levantou e causou um acidente. O pai, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, que até era o nono Conde de Sabugosa, sobreviveu, apenas macerado na carne, mas a sua filha faleceu no local – e o seu elemento paterno, com uma óbvia e notória tristeza, depois erigiu este pequeno monumento, hoje já quase esquecido, no local em que tinha visto a sua amada filha a perder a vida. Hoje, talvez seja relembrada por ele e por pouco mais.

 

Talvez esta espécie de tradição se tenha perdido ao longo dos anos, talvez as pessoas já não sintam o sofrimento como em outros tempos, mas quantos mais monumentos semelhantes existirão, ainda, pelo país fora? Quantos deles já terão sido esquecidos e feitos perder pela crueldade do tempo? Como nos casos da Cruz da Popa e da Arranca-Pregos, também geograficamente próximos da história e hoje, é provável que também esta pequena história acabe esquecida mais tarde ou mais cedo…

A Batalha de Guadalete e o destino do Rei Rodrigo

Falar sobre a Batalha de Guadalete é, primeiro que tudo, admitir que a visão da História que todos recebemos em tempos de escola é muito incompleta. Pelo menos para quem viver em Portugal, para os períodos mais antigos ela representa a Península Ibérica como um local de passagem de diversos povos antigos, sem que se saiba muito bem quem fez o quê e quando, salvo excepções como a das lendas de Viriato, tão reaproveitadas mais tarde na cultura portuguesa. Por essa razão, alguns instantes da história ibérica estão envoltos num misto de história e lenda, sendo difícil reconhecer onde verdadeiramente termina um e começa o outro… e a história de hoje é precisamente sobre isso, sobre como um mesmo evento, supostamente histórico, pode fomentar lendas muito diferentes em países distintos.

O Rei Rodrigo e a Batalha de Guadalete

Nessa sequência, em Espanha a Batalha de Guadalete é, de um modo muito geral, a de um último monarca e cristão visigodo, que ficou conhecido apenas por Rei Rodrigo e que foi derrotado pelos Muçulmanos aquando da sua invasão inicial da Península Ibérica, no ano de 711. Diz-se ainda que o rei desapareceu em combate, sendo possível que tenha fugido da batalha sem ter sido morto, para um local incerto…

Porém, na versão portuguesa da lenda da Batalha de Guadalete, são acrescentados alguns elementos muito curiosos. Segundo ela, o tal Rei Rodrigo sobreviveu a essa batalha e depois fugiu por mar para uma localização incerta (alguns autores referem uma ilha que ficou conhecida por “Antilha”), juntamente com os muitos bispos que existiam nos seus domínios. Depois, ao longo dos séculos, foram sendo adicionados muitos novos elementos a toda a história – em particular, que esse monarca, os seus bispos e a respectiva corte ainda estavam vivos numa ilha mágica coberta por nevoeiro.

 

O que tem tudo isto de especial, de digno de nota, para ter inspirado a escrita das linhas de hoje? Existem, na realidade, um conjunto de lendas nacionais que podem ser ligadas à deste desaparecimento do Rei Rodrigo e dos seus Cristãos. Por exemplo, na famosa lenda de Dom Fuas Roupinho e da Nazaré, algumas versões dizem que a imagem de Nossa Senhora posteriormente encontrada por esse herói do tempo de Afonso Henriques foi deixada em Portugal,em inícios do século VIII, por um monge que também fugiu com o famoso monarca aqui em questão.

Mas… provavelmente a mais famosa e notável das lendas nacionais associadas a este Rei Rodrigo diz que a ilha em que ele agora vive é a mesma em que o nosso Dom Sebastião se esconde, aquela tal Ilha Encoberta de que nos falava o Sebastianismo e que hoje já está quase esquecida. Assim, quando o nosso rei voltasse para salvar Portugal, iria fazê-lo acompanhado por esse seu companheiro real e pelos bispos outrora desaparecidos, para instituir um novo reino cristão mundial, de que falam muitas lendas nacionais hoje completamente esquecidas, mas que até podem ser vistas em profecias do século XVI, e seguintes, que ainda nos chegaram em pequenos registos de diversos arquivos nacionais, como a que pode ser lida carregando na imagem abaixo.

Profecia do regresso do rei

Contudo, não sabemos onde acaba a verdade e começa a pura lenda em tudo isto. Será que a Batalha de Guadalete teve mesmo lugar? Será que o Rei Rodrigo existiu? Será que morreu em batalha, ou desapareceu para parte incerta? Será que foi acompanhado por outros Cristãos nessa possível viagem? Não sabemos, de todo, nem nos é possível sabê-lo com base nas provas que ainda temos neste momento. É tudo um misto de lenda e realidade, sem que se saiba, efectivamente, os contornos de cada um desses dois pólos.

 

Mas… uma última curiosidade sobre todo este tema. No Algarve existe um bolo chamado “Dom Rodrigo”, que se apresenta hoje como uma espécie de fios de ovos cobertos por uma folha de prata colorida e disposta numa forma que pode fazer relembrar uma ilha. Se o nome do bolo, originalmente, não se devia a este monarca, mas sim a outro Rodrigo do século XVIII, será esta sua nova forma, que foi sendo adoptada ao longo dos anos mas não era a original, uma alusão velada à lenda da tal Ilha Encoberta, com suas areias douradas, do Sebastianismo e deste outrora-famoso monarca ibérico, que igualmente se pensava que lá vivia? Não conseguimos, neste momento, ainda responder a essa questão, mas não deixa de ser intrigante pensar nessa grande possibilidade…