A história dos três idosos

Esta história dos três idosos foi-nos contada por uma idosa que vive em Aveiro, quando lhe contámos uma história de um livro de que aqui falaremos daqui a alguns dias. O que tem de particularmente interessante é o facto de ser muito semelhante a uma junção de histórias presentes nessa obra, sem que a idosa nos soubesse explicar o porquê. “Sempre a ouvi contada assim”, respondeu-nos, pelo que não temos qualquer razão para duvidar que a tenha aprendido de forma diferente, apesar de ela já não ter a certeza do nome original que era dado a esta trama. Por isso, iremos contá-la por cá:

A história dos três idosos

Conta-se que há muito tempo atrás um agricultor encontrou algo de estranho nos seus campos. Levando-o ao rei da sua terra, este também não sabia de que se tratava, e então pediu-lhe que averiguasse numa aldeia próxima. Lá, também parecia não existir ninguém que soubesse o que era, até que se lembraram de uma casa onde viviam três idosos muito velhinhos. Indo lá, viram o mais novo dos três a chorar. Perguntando-lhe o que se passava, este idoso, com pelo menos 80 anos, disse “O meu pai bateu-me!”, gerando um burburinho geral. Ele também não sabia o que era, aquela estranha coisa encontrada pelo agricultor, e então dirigiram-se ao interior da casa.

Aí, um segundo idoso, com pelo menos uma centena de anos, disse que também não sabia de que se tratava, reencaminhando os viajantes para o interior de um quarto. Aí, um terceiro idoso, já com mais de 150 anos, que até era o pai do anterior, disse-lhes que também não sabia de que se tratava, mas que na casa ao lado da dele vivia um padre que o baptizou e que era capaz de saber.

Assim, dirigindo-se toda esta multidão à casa do padre, já esse com 200 anos, soube identificar a estranha descoberta – era uma orelha de milho antiquíssima, tal como ele as tinha conhecido nos tempos da sua juventude!

 

Interessante, não é? Esta história dos três idosos, que parece ter tido por objectivo fazer rir um pouco, é na verdade uma fusão de duas histórias originalmente diferentes, mas que aqui foram associadas de uma forma em que se torna até difícil conseguir separá-las. Desconhecemos o que se terá passado, mas mesmo nesta forma ela não deixa de ser digna de recordação nas nossas linhas de hoje.

O mito de José Sócrates

Não foi só na Grécia Antiga que existiram grandes histórias. O mito de José Sócrates, que quase que partilhou o seu nome com uma outra grande figura dos tempos da Antiguidade, também ela igualmente perseguida pelos seus muitos abomináveis opositores, tem muito que se lhe diga. Esse mais casto, puro, justo, heróico e santo de todos os homens nada fica a dever a figuras heróicas da Antiguidade – possuindo a força de Hércules, a paixão pela justiça de Antígona e a honestidade de Sísifo, só tememos não ser capazes de contar todas as suas muitas aventuras numa só publicação, não só por se tratarem cada uma delas de tarefas mais difíceis do que as do filho de Alcmena, mas até pela extensão e falta de espaço actuais. Assim, hoje contamos apenas aqui duas delas.

O mito de José Sócrates

Conta-se que, durante séculos, a família em que nasceu José Sócrates possuiu um cofre mágico, originalmente dado pelo deus Hefesto ao Rei Midas, quando este último foi vilificado por ter ousado admitir, com toda a justiça do universo, que Pã tocava flauta melhor que o deus Apolo. Todos os juízes do concurso estavam notavelmente subornados pelos poderes instituídos, mas só Midas ousou dizer a verdade, sendo assim recompensado pela sua mais pura honestidade. Em seguida, esse cofre foi passado de mão em mão – entre os seus anteriores possuidores contam-se figuras tão ilustres e digníssimas do maior crédito na história da humanidade como Heródoto, João de Mandeville, o Barão Munchausen, o filho de um tal “Gepeto”, ou mesmo Richard Nixon – até chegar aos nossos dias. Conta-se que este modelo ideal do homem perfeito, as quatro virtudes cardeais tornadas homem, ainda hoje guarda esse cofre mágico em sua casa.

Poderão, então e por óbvia curiosidade, perguntar o que de mágico tem esse acessório, o mais famoso que chegou ao nosso país dos tempos da Antiguidade. É simples – tudo o que for colocado no seu interior é instantaneamente transformado nas coisas mais preciosas do mundo. Se, por exemplo, lá colocassem antigas notas de escudos, saíriam elas depois magicamente convertidas em euros, à taxa cambial de 1 escudo = 777 euros, que José Sócrates sempre declarou ao Fisco, mesmo que – por se tratarem, naturalmente, de oferendas místicas provindas exclusivamente dos mais divinos deuses – não tivesse de o fazer, de todo. Fê-lo, e sempre, com toda a mais recta honestidade do universo, estando mais acima de qualquer suspeita que Vishnu, Sidarta Gautama ou Jesus Cristo.

O mito de José Sócrates

Conta-se igualmente este mito de José Sócrates que ele tinha um amigo fidelíssimo, um Pirítoo para o seu Teseu, que tudo faria por ele e com ele, sem nunca jamais lhe pedir fosse o que fosse em troca. E então, as forças das trevas conspiraram contra os dois eternos amigos, procurando separá-los, urdindo conspirações e tentando conspurcar esta genuína e tão terna amizade com um véu de maldade. Amicorum communia omnia, diziam os Antigos, e só alguém muito mal intencionado poderia sequer pretender imaginar algo de errado numa amizade tão claramente unida pela carne e pelo usufruto plenamente fraternal de um só património – não há um término do que é de um e do que pertence ao outro, como qualquer amizade verdadeira deve sentir.

 

Quantas outras histórias poderíamos aqui contar, deste homem mais santo que o mais santíssimo de todos os seres humanos que já existiram? Como é possível que, em mais de 4300 anos de história, tenhamos a excelsa oportunidade de viver num país e num mesmo tempo que um homem como estes, que nada fica a dever ao divino Cícero? Devemos considerar-nos os mais sortudos dos homens e das mulheres por vivermos em Portugal neste tempo de agora, porque uma figura tão perfeita só parecia existir nos mitos do passado…

 

[Editado posteriormente: Para quem não tiver notado, esta foi uma brincadeira do Primeiro de Abril, reeditada e republicada após os eventos da segunda semana deste mês.]

 

P.S.- Obtivemos, posteriormente e por empréstimo de uma biblioteca nacional, uma cópia de um novo livro de José Sócrates, de título Só Agora Começou. É uma obra quase hilariante, uma espécie de Apologia de Sócrates ao contrário, em que se tenta convencer o leitor de que a personagem principal é mesmo o mais santíssimo de todos os homens que já viveram neste mundo, e que até apresenta frases tão ironicamente hilariantes como “Nunca gostei de códigos ou de regulamentos (…)” Não comprem a obra, mas se a virem numa qualquer plataforma de ficheiros ilegais, aproveitem… e riam-se muito!

Os Chineses comem carne humana?

Uma curiosa lenda urbana, com menos de umas décadas de existência, diz que os Chineses comem carne humana. Supostamente, e segundo dizem essas más-línguas, eles pegam nos membros mais velhos das suas famílias e, quando estes acabam por falecer, cozinham-nos. Uma variante, com uma notória intenção de difamar os restaurantes chineses, dizem que eles são mais baratos porque cozinham cão, gato, baratas, lagartixas, etc. Mas será que tudo isto tem algum fundo de verdade?

Os Chineses comem carne humana?

Em relação ao primeiro ponto, já cá contámos uma história de antepassados chineses. Caso não tenha ficado totalmente claro nessa altura, a cultura chinesa ainda pratica, de uma forma significativa, um culto dos antepassados, pelo que a ideia de consumirem o corpo de um avôzinho seria, para eles até muito mais do que para nós, completamente abominável.

Deixando então e já de lado essa estranha possibilidade sugerido pela lenda urbana, será que os Chineses comem carne humana, como se sabe – é verdade – que consomem a carne de muitos outros animais?

 

Responder a isso implica explicar um aspecto importante da cultura chinesa. Se sabemos, sem qualquer dúvida, que os Chineses tendem a comer carnes exóticas – bastará recordar-se até um dos mitos sobre a origem/criação do Coronavírus – há que esclarecer que normalmente não o fazem pelo sabor das mesmas, mas por todo um conjunto de características que na sua cultura são associadas a esses animais. Como em Portugal se pensa, por exemplo, que comer cenouras faz os olhos bonitos, ou que o porco é um animal sujo, também em terras da China existem um conjunto de associações aos diversos animais, tanto reais como mitológicos, que podem ser vistas em obras como o Clássico das Montanhas e dos Mares (山海经), uma obra muito interessante que é um misto de Geografia e bestiário. Nesse sentido, mesmo que comessem toda a espécie de animais para nós estranhos, só o fariam porque, na sua cultura, esse animal tem alguma conotação positiva – o que não é, tanto quanto conseguimos apurar, o caso das baratas ou dos seres humanos.

 

Mas, relembre-se, não é isso que diz a lenda urbana. Diz é que os Chineses podem servir nos seus restaurantes essas comidas, consideradas para nós “exóticas”. O que é certamente possível, admita-se que sim, mas também é possível que qualquer outro restaurante, independentemente da sua nacionalidade, o faça. Ainda há poucos anos foi encerrado um restaurante (português) na zona de Sintra porque servia MESMO o proverbial “gato por lebre”. Nesse sentido, não há qualquer prova real de que os restaurantes chineses o façam mais, ou menos, do que quaisquer outros.

 

Tudo isto se tratam, então e somente, de puras lendas urbanas, sem qualquer dúvida. Não é correcto afirmar que os Chineses comem carne humana, tal como não é absolutamente certo que os restaurantes de Portugal não sirvam, igualmente a bem do vil metal, carne humana ou de animais menos próprios. Tudo depende dos escrúpulos dos seus proprietários, independentemente da sua nacionalidade.

Três breves lendas – a Praia do Guincho, a Praia das Maçãs e a Praia do Tamariz

Com o tempo a melhorar recordamos hoje três breves lendas, associadas à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz – afinal, porque tem cada uma delas esse seu nome individual? E de onde vêm eles? Na verdade, confesse-se que nem todas as três têm lendas associadas, com uma trama real e bem definida, mas existem explicações que podemos oferecer e que estão por detrás de cada um dos seus nomes. Assim, decidimos recordá-las aqui hoje, num triplo conjunto, dada a sua grande fama e relativa proximidade.

A Lenda da Praia do Guincho

Em relação a uma lenda da Praia do Guincho, ela está intimamente ligada com a da Boca do Inferno, que já cá contámos anteriormente. Essencialmente, e a acreditar no que contámos nessa altura, quando o cavalo que transportava dois amantes caiu de forma inesperada – tenha sido para o Inferno, ou para um qualquer outro lugar desconhecido – soltou um derradeiro guincho de desespero, que até pôde ser ouvido à distância de sete quilómetros que separa os dois lugares. Terá sido verdade? Tendo em conta o vento – frequente e ruidoso – de toda a zona, isto parece-nos pouco verosímil, mas é essa a história que aparece quase sempre associada ao local.

A lenda da Praia das Maçãs

Sobre uma possível lenda da Praia das Maçãs, a razão do nome é relativamente simples e diz-nos que, há já muitos anos atrás, a Ribeira de Colares (que se junta ao Oceano Atlântico nesta mesma praia), trazia em algumas alturas do ano muitas maçãs na sua corrente, que depois acabavam impreterivelmente por dar à costa aqui. Nunca o vimos a acontecer, mas segundo um habitante local, na casa dos seus 80 anos, “eu ainda vi isso… mas entretanto as coisas mudaram”. Será mito ou será lenda? Não sabemos, mas a acreditar no que nos foi contado isto até faz algum sentido, tal como faz igualmente sentido que as maçãs, fruto do corte crescente das suas árvores, tenham deixado de aparecer por esta bela praia, tendo-se perdido parte da razão para o seu nome.

A lenda da Praia do Tamariz

Finalmente, sobre uma potencial lenda da Praia do Tamariz, não tem muito que se lhe diga – o nome tem pouco mais de um século e parece vir do facto de existirem tamarizes, também conhecidos como tamargueiras, no forte próximo do local, visto do lado esquerdo na imagem. Não sabemos se ainda lá estão, nestes dias de hoje, mas já lá estiveram e, na verdade, foi mesmo daí que toda esta praia da Costa do Estoril tomou o seu nome, alterando aquele que tinha anteriormente!

 

Estas três espécies de lendas, associáveis à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz, não têm muito que se lhe diga, salvo um certo grau de incerteza por detrás das origens dos seus nomes (e isto, apenas nos primeiros dois casos). Quando se falam deles, normalmente contam-se pequenas histórias como as que hoje aqui reproduzimos, e a ter existido alguma história mais complexa por detrás destas explicações, as actuais terão nascido ou por sua simplificação, ou por mero esquecimento das suas verdadeiras origens. A segunda destas possibilidades é particularmente notável num outro caso, o da chamada “Praia do Anjo”, na mesma região que as três anteriores, mas de que, hoje em dia, já quase não há memória, tanto ao nível da sua localização original como das razões que levaram ao seu singular nome…

O mistério do Cantchal das Letras

Há cerca de 100 anos o etnógrafo Jaime Lopes Dias visitou um local a que chamou o Cantchal das Letras ou a Pedra do Gato. Localizou-o quase em frente da localidade (portuguesa) de Segura, mas do lado espanhol do Rio Erges. Ou seja, tendo por referência estas indicações (que são relativamente vagas), talvez algures no local mostrado nesta fotografia:

O mistério do Cantchal das Letras

Segundo ele, este tal Cantchal das Letras era uma espécie de “grande penedo” em que se encontravam inscritas muitas letras. Algumas eram antigas, outras eram mero fruto de brincadeiras do século XX, mas o mais curioso é que, admitidamente, alguns habitantes locais admitiram que tinham feito novas inscrições no local, mas que ao fazê-lo degradaram as verdadeiras inscrições que já lá existiam antes, que continham caracteres que, aparentemente, ninguém sabia decifrar… o que parece ter levado, em alguma altura, a uma lenda local, segundo a qual quem conseguisse ler essa mensagem poderia encontrar enormes tesouros nas redondezas!

 

Será verdade? Que antigas inscrições eram essas? Será que verdadeiramente escondiam o local de algum tesouro? Gostaríamos bastante de o vir a saber, mas parece que já ninguém sabe onde ficava esse tal Cantchal das Letras. Terá sido destruído? Será que a sua degradação progressiva, ao longo do último século, levou a que o penedo perdesse todo o seu interesse? São perguntas que terão de ficar mesmo sem resposta, porque já não conseguimos encontrar o local em questão, nem Jaime Lopes Dias preservou as antigas letras a que se referia a lenda… por isso, se algum dia alguém vir estas linhas e tiver mais alguma informação para oferecer sobre o tema, por favor deixe-a nos comentários ou envie-a para nós ali por e-mail!