A cabeça de um Rei Mago em Portugal?!

Se alguém nos viesse perguntar sobre a existência da cabeça de um Rei Mago em Portugal, certamente que o suporíamos uma pura ficção. Uma relíquia tão espampanante só poderia, supõe-se, ser uma pura ficção medieval, como quando tantos outros locais de culto dizem ter em sua posse o bastão de Moisés, o manto de José, ou o corpo incorrupto de São Torcato, entre outros objectos milagrosos. Mas, depois, ouvimos a lenda de que aqui falamos hoje, que é digna de nota não por essa quase-evidente falsidade da relíquia, mas pela sua própria história em si mesma.

O local onde esteve uma cabeça de um Rei Mago em Portugal?!

Na imagem acima pode ser vista o Convento de Nossa Senhora da Piedade, também conhecido como Convento de São Francisco, em Viana do Alentejo. Foi aqui que esteve, segundo a história de hoje, a cabeça de um Rei Mago até ao século XIX. Desconhecemos o que lhe aconteceu depois, face à expulsão das ordens religiosas, mas o importante é como essa cabeça veio parar a este convento.

Diz-se então que ela foi uma oferta de um Papa – possivelmente Pio V ou Gregório XIII ? – ao nosso rei Dom Sebastião. Depois, quando o rei preparava os combates em África, decidiu entregar esta curiosa relíquia a Dona Inês Pimentel, que tinha sido sua ama de leite. Em seguida, esta legou-a a… lemos duas versões – a Dona Filipa Pimentel ou a Manuel Mendes Pimentel, seus filhos – que depois a parecem ter oferecido a este convento, talvez com a intenção de proporem serem sepultados no local. E, finalmente, no dia da Epifania – 6 de Janeiro – ela era mostrada ao crentes locais, que até a beijavam num acto de adoração.

 

É naturalmente de duvidar que esta tenha sido a verdadeira cabeça de um Rei Mago, até porque se desconhece o que lhes aconteceu após terem conhecido o infante Jesus (apesar de algumas lendas tardias falarem disso), mas é notável que nenhuma das fontes literárias por nós consultadas digam de qual – de entre os três que a tradição ocidental diz que visitaram o filho de Maria – visitante se tratava, o que certamente deve contribuir muito para afiançar a sua falta de veracidade…

As lendas do Castelo de Almourol

Sobre estas lendas do Castelo de Almourol, importa começar por esclarecer que Almourol é o nome do próprio castelo, como acontece em casos como o de Avalon ou Camelot, e não o da localidade em que ele se insere, como acontece no caso dos castelos de Sintra. Não existe e nunca existiu, tanto quanto foi possível averiguar, uma povoação com esse nome nas proximidades. E, por isso, afirme-se firmemente que é o próprio castelo que tem esse nome… e é sobre ele que contamos as lendas de hoje!

O Castelo de Almourol e suas lendas

Uma primeira diz-nos que, aquando da reconquista cristã, vivia em Almourol um rei mouro com um nome como Al-molrolan. Tinha uma filha lindíssima, que se apaixonou por um cavaleiro cristão. Esta, morrendo de amores por aquele que praticava uma religião diferente da sua, deixava-o entrar no castelo durante a noite. E assim viveram as suas muitas paixões, até que um dia o cavaleiro traiu a sua confiança, reabrindo as portas para os seus companheiros e possibilitando, assim, a fácil conquista de um local que à primeira vista poderia parecer inconquistável.

 

Mas não é a única. Outra lenda, cronologicamente mais recente, fala-nos de um tal Dom Ramiro, que viveu neste castelo de Almourol enquanto combatia os Mouros. Uma dia, regressando a casa, viu uma jovem moura, a quem pediu água; assustada, esta quebrou a sua cantarinha, irritando o fidalgo e levando-o a matar mãe e filha, antes de capturar um menino mouro que viu próximo do local – ainda o desconhecia, mas este era um irmão da jovem que matou, e que jurou tremenda vingança no seu coração.

Os tempos passaram e a esposa de Dom Ramiro acabou por falecer, vítima dos venenos do jovem mouro. Depois, a filha deste fidalgo apaixonou-se pelo jovem e ambos fugiram juntos, procurando escapar ao evidente ódio do monarca. Mas, ao longo do tempo, esse seu sentimento deu lugar a uma enorme tristeza… e, talvez por solidão, talvez por arrependimento, começou a ver um espectro da sua desaparecida filha e do seu amado mouro, sendo levado a um desespero tão grande que acabou por falecer ou por se suicidar, mediante a versão da lenda.

 

Para quem preferir versões mais literárias, alguns dos episódios do Palmeirim de Inglaterra, um dos mais famosos romances de cavalaria nacional (a par do grande Amadis de Gaula), também têm lugar neste mesmo Castelo de Almourol. Era aí, nesse castelo num margem do Tejo, que vivia um poderoso gigante de nome Almourol, mas também uma belíssima dama, Miraguarda, que suscitou uma infinidade de combates em virtude da sua linda figura – o (suposto) local ainda pode ser visto em redor do castelo, mas os escudos dos combatentes, famosos na história, já há muito que desapareceram… Mas esse já é um desenvolvimento que ficará para outra altura, até porque se trata de uma obra demasiado extensa para tratar de forma tão breve – por agora, resuma-se apenas que alguns dos seus episódios (ficcionais) tomam lugar neste belo local, e que quando lerem lendas associadas a este castelo que mencionem os nomes de Polinarda e Miraguarda, eles não se tratam de “lendas reais”, mas sim de episódios retirados desta obra de ficção, que já teve uma enorme fama, ao ponto de até o grande Dom Quixote a ter lido.

 

Deixando de lado essas histórias, hoje este local, agora conhecido sob o nome de Castelo de Almourol, é um belo recinto no meio do Tejo. É quase mágico, ainda mais se for visto numa manhã de nevoeiro, pelo que terá sido, provavelmente, essa magia perpétua que inspirou incontáveis histórias, de que recontámos acima as mais famosas. Talvez um dia as possamos voltar a contar com o próprio castelo à vista, e com os nossos pés nas margens do Tejo a ele próximas… até lá, fiquemo-nos por este vídeo sobre o local!

Freixo de Espada à Cinta, Peso da Régua – lenda e origem dos nomes

De entre as muitas povoações de Portugal, é provável que Freixo de Espada à Cinta e Peso da Régua sejam duas das que têm um nome mais estranho.

 

A primeira, Freixo de Espada à Cinta, conjura quase automaticamente a ideia de um freixo, um tipo de árvore, com uma espada, até que o leitor se aperceba de um “pequenino” problema, que é o facto de uma árvore não ter cinta/cintura e, como tal, não poder portar uma arma por lá. Ao mesmo tempo, quem quiser argumentar que o nome correcto era “Espada-cinta” mete-se num problema ainda maior, que é o facto de um tal conceito nem sequer existir. Assim, dada a dificuldade de compreender toda a origem do nome, parecem existir pelo menos duas lendas antigas que tentam explicá-lo.

A lenda e origem do nome de Freixo de Espada à Cinta

Uma diz que o nome deriva de um fidalgo que tinha por armas um freixo e uma espada, alguém de apelido Feijão, que era irmão de São Rosendo e faleceu no ano de 977. Ora bem, como ele tinha essas armas, elas foram associadas à vila que nos dizem que fundou. O que seria uma boa possibilidade, claro, não fosse o facto de se desconhecer o verdadeiro nome do fundador nem se saber onde entra a “cinta” em toda esta história.

Já a segunda refere um tal Espadacinta, de data convenientemente incerta, que se diz que numa dada altura descansou encostado a um freixo dessa vila. Por essa acção tão comum – relembre-se até a lenda da Palmeira de Cascais – foi dado todo o nome à vila, e até se diz que a famosa árvore ainda existia no século XVIII. O que, novamente, funcionaria para explicar o nome, não fosse o facto de não se saber absolutamente nada mais sobre uma figura com um nome tão invulgar quanto misteriosamente conveniente.

 

Portanto, se existem lendas que tentam explicar a origem do nome de Freixo de Espada à Cinta, elas são pura e simplesmente mitos, na medida em que não têm qualquer espécie de fidelidade digna de crédito por detrás delas. De onde veio este nome é hoje pura e simplesmente desconhecido, como evidenciam as várias versões que o brasão teve ao longo do tempo – ás vezes a espada está colocada na “cinta” do freio, outras vezes está ao lado da árvore, por vezes esse primeiro elemento até se multiplica, etc.

A lenda e origem do nome de Peso da Régua

Por contraste, podemos apontar a origem do nome de Peso da Régua. O seu brasão tem dois cachos de uvas e um rabelo, denotado evidentemente a sua ligação ao Douro e ao Vinho do Porto, mas nenhuma lenda se esconde por detrás desta iconografia ou do nome da cidade (os cachos, para quem tiver essa curiosidade, são comuns nos brasões de regiões em que existe muito vinho e vinha). Em vez disso, a sua designação actual resulta da fusão de duas localidades, “Peso” e “Régua”, que pelo desenvolvimento que sofreram no século XVIII acabaram por se tornar uma só – porquê Peso da Régua, e não Régua do Peso ou algum outro nome, parece ter-se devido apenas ao facto da mais significativa ou desenvolvida das duas povoações ter sido a Régua – ainda hoje muitas pessoas dizem “Vou à Régua”, mas nunca ouvimos, mesmo na região, alguém a dizer que vai “ao Peso”…

 

Assim, ficam aqui os exemplos da origem dos nomes de mais duas povoações de Portugal, e respectivas lendas. Escolhemos estas duas, e até as associámos aqui, porque para uma delas desconhecemos a origem do nome mas temos algumas das suas lendas, enquanto que para a outra até conhecemos muito bem a origem do nome mas não existe qualquer lenda real que lhe possa ser atribuída. Mistérios das muitas povoações de Portugal…

A lenda dos Paços de Leonor

A lenda dos Paços de Leonor remete-nos para um local perto de Peniche, das Berlengas e do Cabo Carvoeiro, cuja história recordamos aqui hoje.

Forte das Berlengas, onde Rodrigo viveu

Em finais do século XV viviam em Peniche duas famílias que nutriam um infinito ódio uma pela outra. Mas, por ironia do Destino – que mais podemos evocar em circunstâncias como essas? – um filho de uma delas, Rodrigo, apaixonou-se por uma filha da outra, Leonor. Naturalmente que as duas famílias desaprovavam completamente este romance, e então o pai de Rodrigo enviou-o para o mosteiro da Berlenga, para noviço da Ordem de São Jerónimo (no local que hoje é o famoso Forte das Berlengas). Mas o jovem não esqueceu a mulher que dizia amar, e então em dadas noites tomava um barco e visitava Leonor num caverna que, em virtude desta sua presença, ficou conhecida como Paços de Leonor. Estando aí e chegando sempre primeiro, a jovem, para indicar a sua presença e o local onde o amado devia atracar, acendia uma candeia.

 

Tudo corria bem, até que um dia Rodrigo se aproximou da costa e não viu qualquer candeia acesa, mas somente o manto da sua amada entre as ondas do oceano. O que lhe teria acontecido? A lenda diz-nos que Leonor, nessa noite, ao chegar à caverna encontrou a sua família no local, e procurando não ser descoberta caiu de um penhasco – o seu corpo foi encontrado no dia seguinte. E se Rodrigo até desconhecia tudo isto, não pôde deixar de temer o pior e atirou-se ao mar, procurando partilhar uma morte que já antevia. O seu corpo foi, também ele, encontrado no dia seguinte, num local que ficou então conhecido como Sítio de Frei Rodrigo.

 

Esta lenda dos Paços de Leonor, que ainda parece ser conhecida entre os locais, é então uma espécie de Romeu e Julieta nacionais. Não sabemos até que ponto será verdade, mas pelo menos parte da sua história terá um fundamento real, que foi sendo preservado nos nomes dos principais locais apresentados em toda a trama.

A história de Guiomar Nunes

A história de Guiomar Nunes, que é a de um episódio totalmente real da nossa história de Portugal, teve lugar em Coimbra algures na década de 1570. Hoje muito esquecido, foi nesse seu tempo tão popular que até motivou a criação de versos jocosos entre os locais. Recorde-se, portanto, essa sua história conimbricense:

O pai de Guiomar Nunes

No derradeiro quarto do século XVI viveu na cidade de Coimbra um professor de nome Pedro Nunes, mais conhecido como o inventor do nónio. Enquanto vivia com uma das suas filhas na Rua da Calçada [actual Rua Ferreira Borges], esta Guiomar apaixonou-se por Heitor de Sá, que vivia na Rua das Fangas [actual Rua de Fernandes Thomas]. Pouco mais de 200 metros os separavam. E então apaixonaram-se, foram-se conhecendo mais e mais, e supostamente este homem acabou por prometer, formalmente, casamento a Guiomar. Mas depois, por razões que não são claras nas fontes que nos chegaram, ele decidiu não cumprir essa promessa.

Guiomar Nunes, então rejeitada, atacou Heitor de Sá com uma espécie de canivete, ferindo o antigo amado numa das bochechas. Primeiro até foi presa, mas depois foi ocultada de algum forma, para evitar a vingança da família Sá, e levada para o Mosteiro de Santa Clara [a Nova], onde se tornou freira. E enquanto tudo isso tomava lugar, os populares cantavam versos jocosos como os seguintes:

Senhora Dona Guiomar
Moradora na Calçada
Que destes a cutiliada.
Senhora Dona Guiomar
Que moraveis na Calçada;
Mereceis tença d’El-Rei
Pois destes a cutiliada.

 

O grande problema em contar a história de Guiomar Nunes, conhecida como “a da cutilada” graças a todo este evento, é conseguir discernir onde terminam os factos históricos e começa a ficção. Contamos aqui só os factos bem assentes, mas as diversas versões da história também acrescentam, aqui e ali, outros elementos. Uma versão diz que esta heroína estava grávida aquando do famoso episódio; outra diz que toda a sequência tomou lugar num tribunal eclesiástico; uma terceira já diz que o seu amado a deixou porque tinha ouvido que o seu pai, anteriormente rico, tinha agora caído na miséria…

Que todo o caso aconteceu, sabemos que sim; mas depois, obras como Portugal de Cabeleira, de finais do século XIX, acrescentam toda uma história romanceada em seu redor, como era comum na época (bastará relembrar-se, por exemplo, o caso de Henriqueta Emília da Conceição e Sousa). E, face a esse problema, talvez seja difícil, hoje, saber-se quem foi verdadeiramente Guiomar Nunes, e o que a levou a um desespero como este, levando-a a dar a metafórica cutilada em Heitor de Sá, que um dia a tornou famosa na cidade de Coimbra…