A lenda da Torre de Dom Sapo

A história de hoje, esta lenda da Torre de Dom Sapo, também conhecida como Torre de Moure, vem-nos de Cardielos, na região de Viana do Castelo (Portugal). O seu local original ainda existe – é hoje chamado a “Quinta Dom Sapo” – mas a torre, essa, já foi demolida há mais de um século. O que até acaba por ser um pouco curioso, na medida em que o recinto tinha pouca ligação com a própria lenda, como iremos ver, que por isso também pode ser simplesmente conhecida como a Lenda de D. Sapo.

Uma torre antiga, não é a Torre de Dom Sapo

Existiu, então, em outros tempos da Idade Média uma torre que tomou o estranho nome de Dom Sapo. Quem tivesse a curiosidade de inquirir sobre esta designação viria a saber a história de um antigo nobre, de seu nome Florentim Barreto, alcunha “O Sapo”, que tinha vivido nessa antiga torre e cometido as maiores vilanias, entre as quais exigia o seu direito de prima nocte, ou seja, de dormir com todas as novas esposas antes do recém-casado marido o fazer. Ás tantas, certamente fartos dos constantes actos maldosos deste seu senhor, o povo foi pedir ao rei autorização para se matar “um sapo que violava muitas jovens mulheres”. O rei poderá até ter estranhado um tal pedido, mas não vendo qualquer impedimento real para o conceder, fê-lo, levando, por um acidente de pura ignorância, à morte de um nobre da sua corte (que até bem mereceu o seu castigo), que se veio a acreditar que viveu nesta Torre de Dom Sapo.

 

Será esta história verdade? Não podemos ter a certeza, mas é provável que, como em outras lendas semelhantes, também esta tenha pelo menos um fundo vago de verdade. Existia mesmo uma tal Torre de Dom Sapo, isso está atestado em documentos do século XVIII, ela foi demolida posteriormente, mas onde terminam estes factos e onde começa a verdade por detrás de Florentim Barreto, vulgo D. Sapo, parece ser algo que se perdeu nas areias do tempo… e mesmo esta sua lenda já parece ser pouco conhecida, talvez pelo desaparecimento do espaço a que um dia esteve associada. Que não se perca.

A lenda da Palmeira de Cascais

Falar desta invulgar lenda da Palmeira de Cascais implica contar uma história um tanto ou quanto triste, mas que também dará o mote para os primeiros cinco dias deste novo ano – iremos agora apresentar cinco histórias, hoje já quase esquecidas, mas que um dia estiveram bem fincadas na memória colectiva de cinco localidades portuguesas.

A lenda da Palmeira de Cascais na ficção

Há já muitos anos, ainda em tempos de escola, tivemos de ler um livro de Alice Vieira, Promontório da Lua, em que uma palmeira de Cascais conta a sua longa história. É, obviamente, um conto ficcional, direccionado para um público mais jovem, mas aqueles que, até a título de grande curiosidade, decidissem ir tentar visitar esta heroína acabariam muito desapontados – quem fosse, nessa mesma altura, visitar a Rua da Palmeira, em Cascais, onde ela vivia no conto desta autora portuguesa, já não a encontrava… Entretanto lá foi plantada uma no local, possivelmente para corrigir o absurdo de um topónimo agora incompleto, mas dada a sua altura é muito fácil perceber que não se trata da planta original.

 

Tudo isto teria pouco interesse para as nossas linhas de hoje, não fosse o facto da palmeira original ser uma figura lendária e famosa na história de Portugal. Segundo conta a pequena lenda, ela já estava no seu local aquando da reconquista cristã, e Dom Afonso Henriques terá até descansado e almoçado à sua sombra, em meados do século XII, quando fazia o caminho entre Sintra e Lisboa num sentido agora incerto.

É muito provável que tenha sido esse episódio, um notável misto de história e lenda, que inspirou Alice Vieira a escrever o seu conto, mas que também tornou essa antiga palmeira de Cascais a mais famosa da história do nosso país, até àquele fatídico dia, numa qualquer data hoje já muito incerta, em que desapareceu do seu lugar original – provavelmente até a bem do progresso, diriam alguns, mas pelo menos hoje a rua já tem uma nova palmeira no local da anterior, desapontando assim menos crianças que venham a ler este Promontório da Lua

“Obras de Santa Engrácia”, origem e significado

Falando das famosas Obras de Santa Engrácia, há alguns dias podia ser visto um pequeno anúncio nesta página, criado por uma companhia de seguros, que dizia que “encontrar um seguro para a casa não tem de ser uma…” Infelizmente não fomos pagos para lhes fazer esta publicidade adicional, nem sabemos de que companhia se tratava, mas o seu uso da expressão não poderia senão inspirar-nos a escrever estas linhas. Portanto explique-se, em que consistiram essas famosas obras? Qual a origem e significado dessa conhecida expressão? Tratando-se de uma das mais famosas expressões e lendas portuguesas, achámos que poderíamos contar a sua origem e significado, bem como a sua história essencial:

Obras de Santa Engrácia

Entre as muitas freguesias da cidade de Lisboa contava-se, anteriormente, uma chamada “Santa Engrácia”. Tinha esse nome porque aí estava localizada uma pequena igreja à mártir do mesmo nome, onde supostamente estavam alojadas as suas relíquias. Depois, ao longo dos anos esse espaço religioso foi caindo no esquecimento, até que em 1681 já estava muito degradado. Por isso, no ano seguinte decidiu-se construir uma nova igreja para a santa, e a sua primeira pedra foi lançada logo em 1682. Porém, naquele que será talvez o mais clássico de todos os exemplos do “adiar, adiar, adiar” sempre tão presente no povo português, a sua construção só foi terminada em 1966, ou seja, quase 300 anos depois!

Porque demorou tanto tempo? Como é comum no povo português, existiram desculpas de todo o tamanho e feitio. Desde maldições lendárias* até ao terramoto de 1755, passando por mudanças políticas, foram surgindo sucessivamente um conjunto de razões que pura e simplesmente levaram ao adiamento da sua conclusão. E então, tudo foi sendo adiado, adiado e adiado, uma e outra vez…

 

Hoje, a Igreja de Santa Engrácia já pode ser visitada em Lisboa, mas é mais conhecida sob outro nome, o de Panteão Nacional. Não é, na nossa opinião (fomos visitá-la há já uns anos), um local muito interessante para visita – o Mosteiro de São Vicente de Fora, localizado relativamente perto, é muito melhor, apesar de ser, hoje, muito menos conhecido. Mas estamos a escapar um pouco ao tema – quem nunca tiver visto esta igreja pode agora visitá-la, de uma forma completamente virtual, abaixo (o 4º piso, por exemplo, permite uma bela panorâmica sobre parte da cidade):

Mas volte-se é ao tema principal de hoje. A expressão “Obras de Santa Engrácia” teve a sua origem, naturalmente, no tempo quase infindável que levou à sua conclusão. E o seu significado parte da mesma razão, sendo a expressão normalmente utilizada quando nos queremos referir a algo que ou é muito difícil de terminar, ou demora muito tempo (como no anúncio que referimos acima). Esperemos, no entanto, que já ninguém a utilize com o significado de se demorar os literais 300 anos a concluir algo…

 

 

*- Para quem tiver essa curiosidade, podemos também contar aqui essa pequena lenda, outrora famosa, através da inesperada voz da mãe do mitologista Consiglieri Pedroso:

No século passado [i.e. XVII] existia uma freira – de nome Violante – no convento que ficava junto ao edifício então em construção para a igreja matriz de Santa Engrácia. Namorou-se essa freira de um rapaz – de nome Simão Pires Solis – e conseguiu que ele lhe fosse falar ao convento, deitando para isso todas as noites uma corda de seda pelo muro da cerca, por onde ele às escondidas subia. Vinha o mancebo a cavalo e para não ser pressentido envolvia as patas do animal em algodão em rama. Aconteceu que por essa ocasião houve na igreja do convento um desacato. Foi roubado o sacrário com as sagradas partículas, e ao outro dia um carro ia a passar pelo Campo de Santa Clara, os bois recusaram-se a andar num certo sítio, chegando mesmo a ajoelhar. Descoberta a causa disto viu-se que eram as hóstias, que os ladrões tinham roubado, que estavam ali enterradas. Foram novamente recolhidas à igreja, e houve uma procissão de desagravo, (nome que depois ficou ao convento) e outras cerimónias expiatórias. Os vizinhos, porém, que tinham descoberto os amores do mancebo com a freira, foram denunciá-lo ao Santo Ofício, e uma noite, quando vinha segundo o seu costume a descer pelo muro da cerca, foi preso e conduzido ao cárcere, tendo-se-lhe encontrado as patas do cavalo forradas de algodão. A freira apenas soube da prisão do seu namorado, e aflita com medo de alguma indiscrição que causaria a sua perda, mandou-lhe dois melões, um inteiro e outro «calado» (com uma pequena abertura que se costuma fazer para a prova) dizendo-lhe ao mesmo tempo que “o calado era o melhor”. O mancebo compreendeu a advertência e guardou um silêncio absoluto a todos os interrogatórios. Foi por isso condenado a morrer pelo crime do desacato e profanação da igreja. No momento porém de ir para o suplício, voltando-se para a igreja então em construção, disse: «Morro inocente! E é tão certa a minha inocência como é certo que nunca se hão-de acabar aquelas obras por mais que façam!» Dito isto foi a morrer sem proferir mais uma palavra. Desde então nunca mais foi possível acabar as ditas obras. Sempre um incidente imprevisto as tem vindo suspender. A igreja não se fez, e hoje as obras de Santa Engrácia, ainda por acabar, são um depósito de material de guerra [ou eram, no século XVIII]. Cumpriu-se a maldição do inocente!

Mas… falta ainda aqui uma pequena curiosidade sobre estas “Obras de Santa Engrácia” – uns anos mais tarde foi apanhado um homem por roubo, e se o tempo já parece ter esquecido o seu nome, crê-se que terá sido ele o verdadeiro ladrão das tais hóstias, isentando postumamente este Simão Pires Solis, cristão-novo, das culpas que outrora lhe tinham sido imputadas!

A lenda do Cavalum

Falando sobre esta incomum lenda do Cavalum, por todo o território de Portugal existem locais com nomes pouco vulgares e certamente intrigantes. Já cá falámos de alguns, mas talvez poucos sejam tão curiosos como as “Furnas do Cavalum”, na Madeira, até porque nos instam a perguntar de onde virá um tão singular nome. Um nome, note-se, que nem sequer aparece nos dicionários portugueses. Portanto, como é a sua história?

Lenda do Cavalum

Conta-se que a 9 de Outubro de 1803 a ilha da Madeira sofreu uma das maiores cheias da sua história. Isso é completamente factual, mas segundo esta lenda a tragédia deveu-se a um monstro como nunca visto até então. O seu nome era Cavalum, e ele era essencialmente um enorme cavalo negro, a que o povo depois foi adicionando outras características – asas de morcego, um corno no meio da cabeça ou até a temível capacidade de cospir fogo. Então, numa confiança inabalável, a monstruosa criatura até destruiu uma igreja local (que na altura tinha o nome de “Capela de Cristo”), atirando a imagem de Jesus para os mares próximos, como que desafiando Deus a que o parasse.

Mais tarde, Deus lá decidiu intervir e fê-lo capturando o monstro, que encerrou no interior de umas cavernas próximas, onde este deixou de poder causar mais problemas – mas ainda hoje não deixa de o tentar fazer, e então os seus relinchos furiosos podem ser ouvidos no local nas manhãs de tempestade. Quanto à imagem de Jesus, essa, foi recuperada e levada para aquela que é agora conhecida como a Capela do Senhor Bom Jesus dos Milagres.

 

O local em que, segundo a lenda, este monstro foi encerrado é, naturalmente, o das furnas que tomaram o seu nome de Cavalum. Mas este desfecho, apesar de pouco vulgar, não é um caso único – recorde-se, por exemplo, o mito grego de Tífon, em que Zeus prendeu esse seu opositor debaixo de um famoso vulcão. Será que esse mito grego, ou um outro semelhante a ele, inspirou toda esta lenda nacional? Não podemos ter a certeza, mas mitos e lendas como estas, que existem igualmente por todo o mundo, servem para explicar um elemento místico e misterioso muito presente nesses locais, que certamente não podiam deixar de causar um grande espanto aos visitantes de outros tempos.

 

 

P.S.- Posteriormente, foi-nos perguntado qual a fonte literária para esta lenda madeirense. Se originalmente ela era apenas oral, a mais antiga versão escrita que encontrámos é a de Alfredo de Freitas Branco e foi recolhida na Madeira, entre muitas outras da mesma ilha, possivelmente entre os anos de 1924 e 1955. Desconhecemos, contudo e no seguimento desta lenda, que nome tinham as furnas antes do ano de 1803, ou se já existia, anteriormente às cheias, uma outra lenda associada a esta criatura lendária.

P.P.S.- Alguns parecem chamar a esta criatura “o Cavalo do Pensamento”. Não encontrámos nenhuma relação real entre os dois, podendo a associação dever-se apenas ao facto de ambos serem cavalos; exisem, no entanto, histórias ficcionais em que o herói é instado a escolher entre “o Cavalo do Vento e o Cavalo do Pensamento”, e o nome em questão poderá vir daí.

Em busca da Bruxa Évora

Há algum tempo vieram-nos pedir mais informação sobre uma tal Bruxa Évora. Não é uma figura simples, até porque à primeira vista nem é totalmente claro se Évora era o seu nome ou a sua origem (i.e. “Bruxa de Évora”), mas por muito que procurássemos só encontrámos informação pouco fidedigna e muito inconsistente. E isso, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar mais e mais. Portanto, decidimos partir em busca da verdadeira origem dessa figura, hoje ainda famosa no Brasil mas pouco conhecida em Portugal.

Será um deles a Bruxa Évora?

Relembre-se que mesmo no tempo da perseguição das bruxas por toda a Europa nunca foram muitas as figuras culpadas desse crime em Portugal. Mas, curiosamente, entre as poucas condenadas à fogueira contou-se, no ano de 1626, uma pessoa da cidade de Évora, de seu nome… Luís de La Penha – ou seja, não era uma mulher, mas sim um homem, este condenado eborense por bruxaria e feitiçaria.

E que fez ele, para que merecesse um tal castigo? Segundo as sentenças da Inquisição que nos chegaram, essencialmente este homem previa o futuro e fazia feitiços, todos eles com intervenção do Diabo ou de uma figura feminina muito bonita (cuja identificação não é clara nos documentos que lemos). Face a essas ideias anti-cristãs, ele foi condenado uma primeira vez e, eventualmente, perdoado. Mas depois, possivelmente até porque não tinha outra forma de fazer dinheiro, voltou a insistir no mesmo, foi denunciado múltiplas vezes, e voltou a ser preso, sendo desta vez condenado mesmo à fogueira.

Assinatura de Luís de La Penha

Neste contexto, se é possível que tenham existido outras figuras famosas da arte da feitiçaria em Évora, Luís de La Penha é certamente o mais famoso, até em consequência do seu destino. Mas será ele quem está por detrás da figura que procuramos? É muito provável que sim – a figura é famosa no Brasil mas está hoje quase esquecida em Portugal. Se a sua história tiver sido levada para o Brasil no século XVII, é provável que os nativos desconhecessem a cidade de Évora, transformando as menções que ouviam a um famoso “bruxo de Évora” num “bruxo Évora”, que depressa se poderá ter tornado uma “Bruxa Évora” pelo simples facto da feitiçaria ser mais associada ao género feminino.

Ao mesmo tempo, isto poderá explicar o porquê de pouco ou nada se saber sobre a figura da Bruxa Évora – se ela nasceu de um mero nome com uma existência quase fantasmagórica, de uma compreensão incorrecta de algumas palavras, não é possível que tenha por base alguma história real, abrindo caminho a que possam ter sido geradas múltiplas histórias apócrifas associadas a ela, que terão de diferir quase por completo face ao facto de lhes faltar qualquer fundamento de realidade em que se possam basear.

 

Podemos estar errados nesta possibilidade para uma identidade da chamada “Bruxa Évora”, mas frise-se que o nome não é comum – de facto, só existe uma cidade de Évora em Portugal, nenhuma no Brasil, e existiu uma Evora em Queensland (Austrália). Enquanto nome próprio, também é muitíssimo raro – não conhecemos qualquer exemplo do seu uso, além da cidade dos eborenses. Por isso, se a figura existe e é popular no Brasil, terá vindo de Portugal, sendo por isso possível que se tenha baseado em eventos ou figuras do nosso país. E, na ligação entre a bruxaria e a cidade alentejana, Luís de La Penha é certamente o seu exponente mais famoso, podendo ter dado lugar a esta figura numa forma como a que já discutimos acima.