Porque se diz que as aranhas dão sorte ou dinheiro?

Aranha e dinheiro

Em Portugal é comum dizer-se que as aranhas não devem ser mortas, porque estão associadas a uma crença simbólica em que elas dão sorte e/ou dinheiro, ou que matar aranhas dá azar. Mas de onde vem essa ideia?

 

Sobre a origem deste crença, contaram-nos esta história há já alguns anos, que supostamente vem da região de Bragança. Quando Herodes desejou matar todos os recém-nascidos, a família de Jesus Cristo fugiu para o Egipto – e esse é um momento que está no Novo Testamento. Contudo, a história seguinte já é completamente apócrifa:

 

No seguimento do episódio bíblico, através de um delator judeu alguns soldados romanos foram informados da fuga e decidiram perseguir Maria, José e Jesus a cavalo. Então, para poderem escapar aos perseguidores, esta família escondeu-se no interior de uma caverna. Nesse momento teve então lugar um pequeno milagre – uma aranha que habitava o local apressou-se a tecer uma enorme teia que cobriu toda a entrada. Assim, quando os soldados lá chegaram e a viram coberta por teias de aranha, foram levados a pensar que seria impossível que alguém aí tivesse entrado recentemente, e continuaram então a sua busca para outro sítio.

Como agradecimento por esta ajuda, Deus depois recompensou as aranhas, dando sorte, felicidade e dinheiro a todos aqueles lugares em que elas decidam construir as suas teias.

 

Esta é uma tradição popular que une o sagrado e o profano, como também acontecia na história de Nossa Senhora e o Linguado. Como esta existem muitas outras, histórias que procuram unir tradições populares a momentos bíblicos; na verdade, já existiam no tempo da Grécia Antiga – recorde-se, a título de exemplo, o mito de Aracne – e provavelmente continuarão a existir no futuro. O que não se sabe é o que terá existido primeiro, se a tradição popular ou uma história que possa servir para a justificar…

Uma lenda brasileira de Dom Sebastião

Como parte da cultura portuguesa já todos ouvimos falar dessa grande lenda, daquela ideia, hoje já demasiado simplificada, de que o rei D. Sebastião irá voltar numa manhã de nevoeiro para salvar o país. Ela aparece significativamente em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, e na Mensagem de Fernando Pessoa, entre muitas outras obras literárias, e ainda hoje é muito mencionada nos media. Mas o que já raramente nos contam é que existem muitas lendas – com princípio, meio e fim – por detrás dessa ideia do Sebastianismo e do Quinto Império. O que hoje aqui trazemos é um breve exemplo disso mesmo, uma lenda provinda de terras do Brasil chamada Dom Sebastião e o Touro Encantado:

Na praia dos Lençóis, entre os municípios de Turiaçu e Cururupu, no Maranhão [i.e. Brasil], nas noites de sexta-feira, não havendo luar, aparece um grande touro negro com uma estrela resplandecente na testa. Quem estiver na praia será tomado de um pânico irresistível. Quem estiver no mar ouvirá o canto das açafatas, entoado do fundo das águas, onde está a cidade encantada de EI-Rei Dom Sebastião. Quem tiver a coragem de ferir o touro na estrela radiante vê-lo-á desencantar-se e aparecer El-Rei D. Sebastião. A Cidade de São Luis do Maranhão submergir-se-á totalmente, e diante da praia dos Lençóis emergirá a Cidade Encantada, onde o rei espera o momento de sua libertação. Na praia dos Lençóis é proibido pelos pescadores levar-se qualquer recordação local (…). Tudo pertence a este rei e é sagrada a sua posse.

Dom Sebastião, o nevoeiro e o Sebastianismo

Estas linhas vêm do Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo, preservando por isso uma lenda que vem do outro lado do oceano. Será uma lenda portuguesa que foi levada por navegadores e adaptada no Brasil? Ou, por outro lado, uma lenda que foi totalmente criada na imaginação brasileira? Não sabemos, mas é um tema que nos deixou com imensa curiosidade…

 

Falando então do que foi o Sebastianismo, já todos conhecemos aquela ideia de que o rei voltará numa manhã de nevoeiro, mas a ideia-base por detrás dessa mini-lenda levanta muitas questões – onde está ele escondido? Em que data voltará? Quem acompanhará o seu regresso? Ou, se o texto acima diz que ele está aprisionado, quem lhe fez isso? Na verdade, uma lenda como esta não pode deixar de nos fazer pensar que existe mais por detrás de tudo isto que um mero “ele voltará numa manhã de nevoeiro”. Deverá existir uma lenda muito mais completa, hoje já significativamente olvidada, que nos seus momentos finais refere que um dia o rei regressará (como acontece com o Rei Artur ou Jesus Cristo, entre outras figuras messiânicas). Face à informação reproduzida acima parece-nos provável que tenha existido todo um imaginário lendário, muito mais completo do que hoje imaginamos,  em torno da figura de Dom Sebastião.

 

Nesse sentido, posteriormente fomos então investigar mais sobre Dom Sebastião, o nevoeiro e o Sebastianismo, e nesse sentido esta publicação de hoje continua na página sobre As Profecias do Bandarra, o mito do Encoberto e o Quinto Império.

A “Torre de Pedro Sem” e a respectiva lenda

A breve viagem de hoje leva-nos ao Porto, mais precisamente à Rua da Boa Nova, número 52, em que existe uma tal Torre de Pedro Sem – uma pequena torre acastelada, semelhante a uma torre de menagem (), que nos nossos dias continua a ser associada ao nome desta figura lendária, mas que também é conhecida pelo nome de Torre da Marca:

A Torre de Pedro Sem

A existência deste local, e da própria personagem a que se ficou a dever o nome de Torre de Pedro Sem, poderiam levar-nos a um caminho em que lenda e realidade se entrecruzam repetidamente, mas o que nos interessa hoje e aqui é somente a breve história portuense que se associa a ela. Vamos a isso.

 

Pedro Sem – ou Petersen (?) – era uma personagem portuense, possivelmente do século XVII, que ganhava muito dinheiro a não fazer quase nada – tinha bastantes propriedades alugadas, emprestava dinheiro a juros elevados e possuía navios que lhe traziam muitas riquezas de terras do ultramar. Um dia, estando no topo da sua torre com a esposa e alguns amigos, viu ao de longe os seus navios prestes a chegarem à cidade. Risonho e sem qualquer pudor, por três vezes repetiu que agora nem mesmo Deus o poderia tornar pobre.

Porém, certamente que Deus não deixaria passar um tal ultraje sem punição. Momentos depois, o dono da Torre de Pedro Sem viu os seus navios afundarem-se no Douro; passados alguns dias as suas muitas propriedades arderam sem explicação; e, finalmente, as riquezas que guardava nesta sua – agora famosa – torre foram roubadas durante a noite. As estas grandes punições se seguiram outras, mais pequenas mas igualmente causadoras de sofrimento, até que o herói caiu na mais completa ruína. E então, nesse seu tempo podia ser visto pelas ruas do Porto, pedindo esmola a quem passava e repetindo, como um louco, sempre e somente a mesma frase – “Dai uma esmola a Pedro Sem, que tudo tinha e agora nada tem…”

A casa assombrada mais famosa de Portugal, e o Castelo do Estoril

Há alguns dias, quando falámos de um mito urbano português, na brincadeira uma leitora levantou a possibilidade de se tratar de um esquema maluco de alguma agência imobiliária. Até é possível que sim, mas aproveitamos essa deixa e contamos o mito por detrás daquela que será provavelmente a casa assombrada mais famosa de Portugal.

 

Quem viver na zona de Lisboa e cruzar a Avenida Marginal no sentido Cascais -> Oeiras poderá encontrar, entre as zonas de São João e São Pedro do Estoril, uma pequena casa amarela, vulgarmente conhecida como o Castelinho de São João do Estoril. Diz o mito que é assombrado – por perto existia uma escola de cegos (o edifício entretanto já foi reconvertido), e é então dito que numa dada altura uma estudante desse local caiu ao mar e agora assombra o belo castelinho que se encontra por perto. Será verdade? Há uns anos considerámos comprar o local, e aquando de uma visita inquirimos sobre essa história; a funcionária da imobiliária riu-se, disse que era uma questão de crença, mas nunca confirmou – ou desmentiu – os episódios fantasmagóricos. Por isso, quem tiver curiosidade poderá ler toda a história do local aqui, antes de tentar formar a sua própria opinião.

 

Entretanto, já que estamos com a proverbial mão na massa, achámos que podíamos contar a história de outro “castelo” na mesma zona.

O "castelo" do Estoril

Quando se pretende promover a região da Costa do Estoril é usada frequentemente uma imagem do local acima, uma espécie de castelo que pode ser encontrado próximo da praia. Conhecido como Palacete Barros, foi construído sobre as ruínas de um antigo forte por um pai que queria que a sua jovem filha, doente, frequentasse umas termas que na altura existiam por perto. Porém, o preço desta construção acabaria por se revelar tão elevado que o seu dono foi levado à falência… e o que aconteceu à sua filha? Será que também ela hoje assombra o local…? Seria preferível que o fizesse, face à utilização actual do espaço…

A lenda da Cuca, Coca e Coco

A figura conhecida em Portugal e no Brasil como Cuca, Coca ou Coco é tudo menos simples. Na verdade, há meses e meses que pretendemos falar da sua lenda, mas deparámo-nos repetidamente com um problema, que é o facto de existirem diversas criaturas com este nome, que nem sempre são fáceis de sintetizar ou interligar. Por isso, já que agora estamos a falar de alguns temas da Mitologia do Brasil, achámos que esta figura seria perfeita para uma breve referência ao tema. Pergunte-se então – quem é a figura conhecida sob estes vários nomes?

Uma Cuca, Coca ou Coco

Uma primeira versão da lenda da Cuca, ou Coca, faz dela uma mulher misteriosa com que os pais assustavam os filhos, uma espécie de “papão”. E, como este, também não parece ter qualquer lenda associada, sendo uma figura quase fantasmagórica, sobre a qual absolutamente nada se sabe. Porém, podemos deixar uma curiosidade – quando usamos a expressão “estar à coca”, essa é uma referência ao acto principal desta figura, que se escondia e espreitava pelas crianças, aguardando que estas adormecessem.

A segunda Cuca é uma espécie de dragão associada ao norte de Portugal e de Espanha, que segundo a lenda foi derrotada pelo próprio São Jorge ou pelos populares de uma qualquer vila nortenha. Esta versão está hoje imortalizada, por exemplo, na festa portuguesa de Monção que pode ser vista no vídeo acima.

Uma Cuca, Coca ou Coco

A terceira lenda da Coca, ou Cuca, é a de uma figura brasileira que nos chegou especialmente atrás da obra de Monteiro Lobato, uma espécie de feiticeira nocturna que tem cara de jacaré e rapta crianças, bem conhecida dos leitores ou espectadores do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Os mais atentos poderão ver na terceira figura uma espécie de fusão das duas anteriores, mas poderá tratar-se de uma mera coincidência. Que a figura brasileira deriva de alguma antiga lenda portuguesa é claro, mas infelizmente já pouco se sabe sobre os limites das outras duas para que se possa concluir algo de muito fiável – seriam elas originalmente uma só? Será que o dragão resulta de uma conflação de vários mitos anteriores, de uma possível tentativa de associar uma nova lenda a uma figura que ainda não tinha nenhuma? Será que eram, originalmente, figuras completamente distintas, que se foram fundindo em virtude da evidente semelhança dos seus nomes?

Não sabemos, sendo até possível que tenham existido outras figuras que partilhem este nome (ou algum outro semelhante a ele), e que entretanto foram sendo sendo esquecidas pelas pessoas – de facto, aquando da escrita destas linhas confrontámos várias pessoas em Portugal com o nome da Cuca (ou Coca, ou Coco), e nenhuma delas parecia saber do que falavamos…