Luísa de Jesus, a primeira serial killer de Portugal

Quem decidir inquirir sobre quem foi o primeiro serial killer português poderá encontrar as mais diversas referências a um Diogo Alves, que viveu na primeira metade do século XIX. Porém, quase meio século antes já uma tal Luísa de Jesus podia ser classificada como serial killer. E na verdade, se Diogo Alves era galego, já esta figura feminina nasceu, viveu, casou, matou, foi condenada à morte e faleceu, tudo isso no distrito de Coimbra, constituindo, por isso e de uma forma muito bem justificada, a primeira serial killer portuguesa.

 

A Igreja Matriz de Figueira do Lorvão, onde Luísa de Jesus nasceu

 

Então, e o que fez ela, perguntam? Os seus crimes aparecem detalhados num documento de 1772 – ou seja, quase 40 anos antes do nascimento de Diogo Alves – com o nome Sentença proferida na Casa da Suppliçacaõ contra a ré Luiza de Jesus. Segundo essa fonte, Luiza de Jesus, nascida em Figueira de Lorvão e casada com um tal Manoel Gomes, apenas foi buscar bebés a uma roda dos enjeitados, pretendendo adoptá-las para si mesma e, dizia, para outras pessoas que conhecia.

 

Isto nada teria de censurável, bem pelo contrário, não fosse o facto de ela, aos 22 anos de idade, ter adoptado 34 bebés, 33 dos quais foram encontrados mortos, tendo ela confessado “apenas” 28 dos crimes e admitido que os estrangulou brutalmente. E porque o fez? Pura e simplesmente porque, por cada uma dessas adopções, o Estado oferecia seiscentos reis (não sabemos quanto será em 2020, mas não seria pouco dinheiro), um berço e 0.66m de lã.

 

 

Face a tais actos, o documento que lemos define, justificadamente, esta Luísa de Jesus como “um monstro de coração tão perverso, e corrompido, de que não haverá facilmente exemplo no presente século” – nem no século XVIII, nem nos nossos dias, acrescente-se.

 

Sobre a sua punição, deixamos as palavras do documento original falar por si mesmas – “[Que a ré] seja atenazada, e levada ao lugar da forca; e nele lhe sejam decepadas as suas mãos. Depois do que, morra morte natural de garrote. E dado este, seja o seu corpo queimado, e reduzido a cinzas, para que nunca mais haja memória de semelhante monstro.” E esta sua punição parece-nos bem merecida, para aquela que terá sido a primeira serial killer de Portugal.

Como é que Luís de Camões perdeu o olho?

Nunca pensaram como é que Luís de Camões perdeu o olho? Há alguns dias fomos almoçar a um restaurante que partilhava o nome do poeta e numa das suas paredes estava uma típica representação do autor dos Lusíadas, como tendemos a imaginá-lo, com uma pala no olho. Essa imagem já é tão comum que poucos parecem ser aqueles que a questionam como potencialmente inverdadeira. Mas de onde vem ela, ou porque achamos que este famoso autor era cego de um dos olhos?

Camões com uma pala no olho

Por mera curiosidade, não pudemos deixar de fazer essa pergunta ao dono do restaurante, que rapidamente nos respondeu que Luís Vaz de Camões foi ferido numa das vistas em Lisboa, durante uma disputa amorosa, por se ter envolvido com uma mulher casada. Seria verdade, ou era apenas mais uma daquelas lendas que se vão associando aos poetas, como quando se pensa que Homero era cego ou que Virgílio tinha poderes mágicos?

 

Partimos em busca de respostas, mas, inesperadamente, todas as fontes primárias que consultámos dizem precisamente o mesmo – que Camões, por volta do ano de 1549, ficou cego do seu olho direito em combate pela praça de Ceuta, e então passou a usar a tal pala no olho.

Alguns dizem, sem provas de maior, que foi atingido pelo ricochete de uma bala, mas não podemos afirmar se é mesmo verdade – infelizmente, nenhum autor da época parece ter preservado uma verdadeira biografia do poeta, no seguimento daquela ideia tão portuguesa de menosprezar o que é nosso. Terá sido essa falta de informação real que levou a uma necessidade de romancear a sua vida com base no conteúdo dos seus poemas… e, verdadeiramente, também lemos de uma forma muito repetida que Luís de Camões foi desterrado para Ceuta, onde viria a perder esse olho, precisamente porque andava a causar demasiadas disputas amorosas em Lisboa, sendo por isso possível que o dono do restaurante estivesse apenas a repetir um sincretismo de… lendas, digamos, que ao longo dos séculos se foram atribuindo a este autor dos Lusíadas.

 

Será, então, completamente verdade que Camões perdeu um olho, fosse ele o direito ou o esquerdo (também não se parece ter a certeza), numa batalha de Ceuta? Não sabemos, mas pelo menos as poucas fontes que temos hoje disponíveis parecem indicar que sim, e tentar afirmar algo que vá muito além disso parece assentar, como os verdadeiros detalhes da morte do poeta, mais na ficção do que em alguma realidade palpável.

A lenda do Boto Cor-de-rosa, e o “filho de boto”

A lenda deste Boto Cor-de-rosa, e a expressão que dela deriva (i.e. filho de boto), deve começar com uma breve explicação para os Portugueses – um boto não é senão um golfinho, apesar do seu nome menos vulgar. O vocábulo é mais frequente no Brasil, apesar do dicionário português da Priberam nos informar que ambas as palavras significam uma e a mesma coisa.

Agora, passando ao que interessa, em certas zonas do Rio Amazonas vive uma espécie de boto que é cor-de-rosa, distinguindo-se facilmente do “tucuxi” cinzento. Mas ele não parece ser muito frequente, o que poderá ter gerado a seguinte lenda:

Um boto cor-de-rosa

Segundo ela, nas noites de lua cheia – ou nas de Santo António, São João e São Pedro, segundo outra versão – este boto cor-de-rosa tem a capacidade de se transformar num homem belíssimo. É uma metamorfose quase total, com a excepção da narina que ele tem – como os golfinhos que tão bem conhecemos – no topo da sua cabeça. Para suprir essa falha, ele usa sempre um chapéu durante as suas aventuras noturnas.

Com essa sua beleza em forma humana, este boto cor-de-rosa, introduz-se em algumas aldeias e finge ser nada mais que um homem vulgar, apesar de lindíssimo. Depois, seduz alguma jovem e engravida-a na beira de um curso de água, antes de desaparecer de uma forma tão misteriosa como surgiu. E a jovem, essa, confrontada com uma gravidez não planeada e misteriosa, fica sem saber o que fazer…

 

A origem desta lenda do Boto Cor-de-rosa é muito fácil de compreender, mas é também desta mesma história que surge a expressão “filho de boto”, desconhecida em Portugal, que é dada a um filho de pai incógnito, ou até potencialmente de uma violação. Desconhece-se se alguém ainda diz mesmo que foi engravidada por um boto com poderes mágicos (quem estiver no Brasil e souber responder a isto, por favor deixe um comentário abaixo!), ou se alguém ainda acredita nisso, mas esta expressão chegou aos nossos dias no sentido mais geral de apresentar alguém que tem um filho cujo pai é desconhecido.

E, se ficaram curiosos sobre a origem e significado de outras expressões mitológicas que ainda são usadas em Portugal e no Brasil nos nossos dias, podem encontrar mais na nossa secção de expressões.

A lenda da Gruta da Moeda

A lenda da Gruta da Moeda remete-nos para um espaço muito próximo da cidade portuguesa de Fátima. É, como o respectivo site nos informa, uma gruta com extensão visitável de cerca de 350 metros, cuja beleza nos pode ser apresentada parcialmente nesta fotografia panorâmica tirada por um dos seus visitantes:

Porém, o que nos interessa particularmente é a sua lenda. O site já mencionado acima relata a seguinte:

Em tempos idos, um homem abastado destas redondezas ao passar por um bosque, em torno de um algar, foi assaltado por um bando de malfeitores que lhe tentaram saquear a bolsa de moedas que trazia à cintura. Com a confusão do assalto, o homem caiu para dentro do algar, levando consigo a bolsa de moedas tão cobiçada pelos assaltantes. Pelo precipício se espalharam e perderam irremediavelmente as moedas, dando ao algar o nome pelo qual ainda hoje é conhecido – Algar da Moeda.

 

Contudo, há já alguns anos contaram-nos uma versão popular significativamente diferente. Segundo ela, a “Gruta da Moeda” tinha esse nome porque quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, numa das viagens para o seu encontro com os Três Pastorinhos deixou cair a sua carteira numa gruta próxima do local, onde viria a ser encontrada alguns anos mais tarde.

 

É possível que esta segunda versão se trate de um mero mito, ou de uma versão um tanto ou quanto satírica da outra lenda da Gruta da Moeda, mas o que ambas nos mostram é um aspecto das lendas e mitos que foi sendo repetido ao longo dos séculos – um local tem um determinado nome (ou característica), a razão original perdeu-se com o tempo, e então surgem tentativas de justificar o nome conhecido de diversas formas, algumas mais naturais do que outras.

As Profecias do Bandarra, o mito do Encoberto e o Quinto Império

As Trovas ou Profecias do Bandarra

O que dizer sobre as Profecias (ou trovas) do Bandarra? Supostamente foram escritas na primeira metade do século XVI por um sapateiro de Trancoso, chamado António Gonçalves Annes Bandarra ou Gonçalo Annes Bandarra, que nos ficou conhecido só pelo seu apelido de “Bandarra” e que fez profecias em verso. De um ponto de vista puramente literário, os versos nesta obra não parecem ter nada de muito digno de nota – na verdade, até admitimos que nem teríamos perdido qualquer tempo a lê-los se não fosse o impacto significativo que tiveram num dado momento da história de Portugal.

 

Explique-se. Numa data já pouco precisa este sapateiro começou a escrever versos supostamente proféticos, que – de acordo com o seu conteúdo – lhe parecem ter sido divulgados em sonhos. E, por razões que não são totalmente claras, esses versos tornaram-se muito populares entre o povo. Se, e como já foi dito acima, de um ponto de vista literário ou académico não têm nada de especial, as trovas de Bandarra também prometem um conjunto de fantásticos eventos futuros associados a uma figura nacional a que o autor chama o “Rei Encoberto”, um monarca que seria então capaz de levar Portugal a tornar-se o Quinto Império, aquele que hoje tão bem conhecemos de alguns poemas de Fernando Pessoa.

 

Agora, o seu autor nunca diz, de uma forma totalmente clara e indiscutível, quem viria a ser esse rei, mas passado algumas décadas um acidente do destino trouxe essa figura lendária de volta à ribalta – o desaparecimento de D. Sebastião em Ceuta, no ano de 1578. Na ausência de um corpo, naquele inesperado choque pela perda de um monarca, e confrontado com um novo domínio de Espanha, gerou-se um problema entre a população – ou as famosas Trovas de Bandarra eram falsas, ou o rei desaparecido teria de voltar a Portugal para cumprir o seu destino e se tornar a figura profetizada em versos como os seguintes:

Ja o Leaõ he experto
Mui alerto.
Ja acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto,
Do Leaõ, e seu bramido,
Demostra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

 

Até a um leitor dos nossos dias, que queira acreditar minimamente em profecias, poderá ver nestes versos uma ténue alusão ao que aconteceu a Dom Sebastião. E, por isso, algumas pessoas pensavam mesmo que o rei ia voltar um dia. Já outros, algumas décadas depois, pensavam que essa profecia se aplicava era a D. João IV, o primeiro monarca após o domínio filipino, com base nos seguintes versos:

Saia, saia esse Infante
Bem andante,
O seu nome he D. Fuão [ou D. João, mediante a edição consultada],
Tire, e leve o pendão,
E o guião
Poderoso, e tryunfante.

 

Se a suposta profecia se devia aplicar a Dom Sebastião, a Dom João IV, a outro monarca futuro, ou até se tratava de uma mera ficção do sapateiro-poeta, é algo que já não podemos ter a certeza, mas o povo parecia acreditar que as profecias compostas por Bandarra, como tantas outras da mesma época, eram completamente verdadeiras e, como tal, algum monarca teria de vir a transformar Portugal num Quinto Império. Primeiro pensou-se no Sebastião desaparecido; após a ocupação castelhana em João IV; mas à medida que os anos foram passando voltou-se à ideia de um D. Sebastião… não do rei desaparecido em Ceuta, visto que ele já só poderia estar morto, mas numa versão puramente lendária dessa figura. E assim se criou, em parte, aquela grande lenda de que ele voltaria numa manhã de nevoeiro, para conduzir o país ao ideal do Quinto Império…

 

Para terminar, o grande sapateiro por detrás de toda esta história, para quem tiver essa curiosidade, após a morte foi sucessivamente visto como um grande herói ou como uma figura muito negativa, mediante o tempo e a quem fossem pergutando. No melhor dos seus tempos após ter falecido, esteve enterrado na Igreja de São Pedro, em Trancoso, e fez-se-lhe homenagem uma lápide com o seguinte texto:

Aqui jaz Gonçalo Annes Bandarra, que em seu tempo profetizou a restauração deste reino, e D. Álvares de Abranches lha mandou fazer sendo General da Beira, ano de mil seiscentos e quarenta e um.