“O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”, de Monteiro Lobato

O Saci de volta!

Há pouco mais de um ano que aqui falámos do Saci (ou Sacy), uma criatura lendária muito famosa no Brasil. Na altura, um dos grandes problemas que sentimos em sintetizar a sua história foi o facto de lhe serem associadas muitas crenças divergentes nas diversas regiões do país.

 

Monteiro Lobato parece ter sentido a mesma dificuldade, e por volta do ano de 1917 tentou fazer um inquérito sobre o tema, que depois publicou directamente nesta obra, O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito. Nela são apresentados as opiniões e histórias dos diversos participantes que deram as suas respostas. O que é curioso é que a mesma criatura parece apresentar, para os vários leitores, diversas características, por vezes até contraditórias – alguns dizem que ele anda nu, outros que usa calções vermelhos; uns dizem que por detrás desta figura se escondiam escravos fugitivos, outros que era um pássaro com um canto muito singular; uma reencarnação do Diabo, ou uma criatura puramente inofensiva; um ser quase omnipotente, ou uma mera invenção de uma mente medrosa; uns falam de um só Saci, outros de uma espécie com esse nome comum; etc.

 

No final, o que se pode concluir verdadeiramente sobre o chamado “Saci-Pererê”? Mais que tudo, talvez o facto da figura não ser apenas uma, mas sim assemelhar-se a diversas, que partilham um nome muito semelhante, mas cujos contornos essenciais se aproximam em alguns momentos e divergem em outros. Mas uma coisa é certa – quem tiver interesse nesta lenda brasileira tem obrigatoriamente de ler esta obra, porque ela preserva – como o próprio autor nos diz – um momento da sua história que ficou cristalizado no tempo.

A verdadeira história da Carochinha e do João Ratão

A história da Carochinha e do João Ratão faz parte da cultura popular portuguesa e é um contos que todos conhecemos mais ou menos bem. Porém – e isto já poucos parecem saber – a verdade é que nos dias de hoje ela é sempre contada de uma forma incompleta. Já lá iremos, já contaremos a verdadeira e original, mas para quem já não se recordar bem da trama principal, podemos então relembrá-la aqui na versão de Ana de Castro Osório, de inícios do século XX:

A Carochinha e o João Ratão

A Carochinha achou cinco réis ao varrer a cozinha e, doida de alegria, foi a correr pôr-se à janela a gritar:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passa um cavalo e diz:
— Quero eu, quero eu!
— Como falas tu?
— Falo assim (e começou a relinchar).
— Ai, Deus me livre, que me acordas a vizinhança.
O cavalo foi-se embora, e ela continuou:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passou um burro:
— Quero eu, quero eu, quero eu!
— Como falas tu?
— Falo assim (e começou a zurrar).
— Deus me livre, acordarias a vizinhança!
O burro foi-se, de orelha murcha.
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu (disse o porco).
— Então como é a tua fala?
O porco grunhiu tão desafinadamente que a Carochinha pôs as mãos na cabeça, gritando:
— Deus me livre, acordarias toda a vizinhança!
E continuou, muito esperta, à sua janela:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passa um gato:
— Quero eu, quero eu!
— Então como falas tu?
— Falo assim: miau, miau, miau!
— Credo! Acordarias a vizinhança!
E continuava:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu, quero eu (disse o carneiro, que passava).
— Como é a tua fala?
— É assim: mé, méé, mééé…
— Não te quero, acordarias a vizinhança.
E tornou a bradar, da janela abaixo:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu, quero eu!… (disse um ratinho esperto, que passava pela rua).
— Então como é a tua voz?
— Chii! Chii! Chii!…
— Quero-te a ti, quero-te a ti, que não incomodas ninguém.
Casaram, fizeram uma grande boda e estavam muito satisfeitos. Um dia, de manhã, a Carochinha tinha que ir ao mercado, e disse ao seu João Ratão:

— Fica tu em casa a tratar do almoço, que eu já venho.
O João-Ratão ficou; e, para se tornar prestável, foi deitar uma casca de cebola na panela, caindo de cabeça para baixo. Chiou, chiou, mas, como a querida Carochinha não estava em casa, lá morreu o João Ratão, cozido e assado no caldeirão. Ora a Carochinha demorou-se muito, a tratar das suas compras, a falar com os conhecimentos e a dar parte às amigas do seu novo estado. Quando, já tarde, chegou a casa, não viu o marido, e ficou em cuidado, procurando às vizinhas se o tinham visto. Como lhe não davam notícias dele, foi para casa, e resolveu almoçar. Mas quando foi levantar a tampa da panela e viu o marido, já morto, a boiar no cimo do caldo, ficou varada, e, no maior desespero, desgrenhou-se e arrepelou-se, chorando em altos gritos.

 

A tripeça da história da Carochinha e do João Ratão, numa edição dos nossos dias

Normalmente a história da Carochinha e do João Ratão termina por aqui. Contudo, uma edição de contos populares datada de 1879 associa-a à região de Coimbra e continua a história de uma forma surpreendente (que também aparece, com algumas censuras, na versão de Ana de Castro Osório) – após este pseudo-final, uma tripeça, uma espécie de banco com três pés (como o da imagem acima), pergunta algo à heroína, levando a uma sequência que já quase ninguém conhece:

«Que tens, Carochinha,
Que estás aí a chorar?»
«Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar»
«E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.»

Diz dali uma porta:
«Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.»
«E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.»

Diz dali uma trave:
«Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.»
«E eu que sou trave
Quebro-me.»

Diz dali um pinheiro:
«Que tens, trave,
Que te quebraste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.»
«E eu que sou pinheiro
Arranco-me.»

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:
«Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.»
«E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.»

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhes a fonte:
«Porque foi passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tirámos os olhinhos.»
«E eu que sou fonte
Seco-me.»

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:
«Que tens, fonte,
Que secaste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.»
«E nós quebramos os cantarinhos.»

Foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:
«Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebrámos os cantarinhos.»
«Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.»

Diz dali o rei:
«E eu vou arrastar o cu
Pelas brasas.»

 

É fácil compreender a razão pela qual a história dos nossos dias termina com a morte do João Ratão. A ladainha que se seguia, muito secundária para toda esta trama desta história da Carochinha e do João Ratão, mas característica de muitas histórias de génese oral (que continham muitas vezes sequências como estas), não é de fácil memorização, apresenta alguns elementos claramente satíricos, outros impróprios para crianças, e até alguns bem críticos da nobreza da altura. Mas, ainda assim, esta história não deixa de ser uma que ainda hoje nos põe a todos um sorriso nos lábios!

A lenda(?) de Beatriz Burgos

Lemos esta lenda(?) de Beatriz Burgos num qualquer livro há muito, muito tempo. Recordar-nos onde foi parece-nos agora difícil, mas há um elemento curioso – a escritora do livro assegurava o leitor, uma e outra vez, de que esta era uma história bem real, de um homem de quem ela tinha ouvido falar, mas que tinha falecido uns anos antes.

 

Pedro Pinto tinha dois filhos. Um deles, o mais velho, apaixonou-se por Beatriz Burgos, mas o seu pai disse-lhe que jamais permitira esse casamento, porque a amada nada tinha para oferecer excepto a sua beleza física. Desiludido, esse filho chorou durante dias e dias, mas depois lá aceitou a derrota.

Beatriz apaixonou-se, depois, por outro homem. Um homem que era, nem mais nem menos, o filho mais novo de Pedro. Pensava amá-lo mais que tudo neste mundo. E então, um dia, acabou por dizer ao irmão deste que estava loucamente apaixonada, e que a não ser que algo acontecesse ao seu amado, jamais poderia vir a amar outro homem neste mundo.

Então, louco de raiva e de ciume, o filho mais velho de Pedro Pinto foi a casa e matou o irmão mais novo com um punhal, pensando que assim Beatriz o voltaria a amar a ele, e somente a ele. Mas esta, quando soube o que aconteceu, suicidou-se, e o seu corpo deu à costa em Oeiras. Já o homicida, esse, juntou-se a um mosteiro, onde viria a falecer em inícios do século XIX.

 

Terá isto sido mesmo verdade? Nunca conseguimos descobri-lo; se tem um conjunto de elementos muito comuns nas tragédias de amores, existem igualmente histórias semelhantes mesmo nos nossos dias. É uma história tristemente verosímil, mas as nossas buscas pelo nome de Beatriz Burgos não nos levaram a nenhuma conclusão muito palpável.

“O Conto Tradicional Português no Séc. XXI”, Dionísio, e a razão da cara feia do Linguado

Capa do livro

Enquanto pesquisávamos um pouco mais relativamente a um tema anterior encontrámos este livro (gratuito), publicado o ano passado. É uma colectânea interessantíssima, que até pode ser acedida legalmente carregando na imagem acima, e que não podemos deixar de recomendar a quem tiver interesse no tema, ou àqueles que queiram recordar aos seus filhos as histórias de outros tempos. E algumas delas são, admita-se, muito dignas de nota.

 

Existem alguns contos que estão directamente ligados a episódios de romances medievais e, inesperadamente, até à Antiguidade. Um exemplo curioso, provindo de Armação de Pêra, é dado na sequência 227:

Há muitos milhares de anos, um homem que passou a vida na Grécia, quando se sentiu velho regressou à sua velha pátria, a Itália. E resolveu levar consigo uma linda videirinha, pois não se lembrava de ter visto tal plantinha na sua terra natal. Como não tinha vaso para a transportar, utilizou o que tinha à mão: um osso de galo. Esvaziou-o e meteu dentro as raízes, com um pouco de terra.
Ora como se deslocara a pé, demorou tempo a fazer a viagem e a videira cresceu, não teve outro remédio senão mudá-la para um osso de leão, que encontrou pelo caminho. Mas como a planta continuava a crescer, o Dionísio deparou-se com um osso de burro e para lá mudou a planta.
Consta que daquela videira se fizeram muitas outras e por ter ela crescido em tão estranhos vasos, quem beber um pouco desse vinho fica alegre como o galo, quem bebe mais fica forte como o leão e quem muito abusa do vinho perde as ideias e fica estúpido como um burro.

 

A referência à Grécia e Itália, a presença de um osso de leão em terras europeias, e até a referência ao nome de Dionísio, dão-nos a supor uma possível fonte da Antiguidade, mas esta história foi recolhida, oralmente, em Novembro de 2005 em território português, como este livro nos indica.

 

Outro exemplo… algumas histórias aludem à razão pela qual o linguado tem uma boca “ao lado”. E que justificação dão a essa característica?

Cara do Linguado

Contam-nos que, dado dia, um Linguado e Nossa Senhora se encontraram num qualquer curso de água. A mãe de Cristo perguntou-lhe “Ó Linguado, a maré desce ou sobe?” Este, gozando-a, pôs cara feia – como na imagem – e limitou-se a repetir a pergunta de volta. Então Maria castigou-o, condenando-o a ficar com essa mesma cara para toda a eternidade.

 

Estes elementos essenciais da história são contados por diversas vezes no livro, mas em versões que lhe dão locais e circunstâncias significativamente distintas*. Esse é, de facto, um aspecto interessante da obra, já que até repete algumas histórias mas em versões diferentes, que nos fazem pensar bastante no cerne comum da própria trama. E, por isso, temos de repetir o que já foi dito acima – “é uma colectânea interessantíssima (…) que não podemos deixar de recomendar a quem tiver interesse no tema”.

 

*- Curiosamente, esta mesma história também parece ser contada no Brasil, mas com uma ligeira alteração dos intervenientes – o peixe é uma Maraçapeba, enquanto que os heróis são Jesus e São Pedro.

A história de Pincho de Benaciate

É provável que nunca tenham ouvido falar de Pincho de Benaciate, também conhecido como Bartolomeu Vaz Pincho (como um comentador gentilmente nos informou). Ele seria uma pessoa como tantas outras que já viveram na aldeia de Benaciate, na freguesia de São Bartolomeu de Messines (no Algarve), não fosse uma sequência de estranhos episódios que tiveram lugar com ele por volta do já-distante ano de 1656.

 

Ainda criança, este Pincho tinha por hábito ir apanhar ninhos de pássaros na região de Benaciate, uma brincadeira muito comum no nosso país até meados do século XX. Mas, depois, um dos pequenos passarinhos que foi encontrando falou com ele. Sim, leram bem, supostamente um avezita falou com ele em voz humana e revelou-lhe as muitas coisas que iriam tomar lugar no futuro, entre elas a data de falecimento do rei Afonso VI e a do regresso de Dom Sebastião. Supostamente, e segundo foi informado dessa forma tão singular, o estranho evento desse retorno iria ter lugar em 1666, quando o famoso rei iria voltar a Portugal, recuperar as suas armas místicas de um palácio mágico localizado no Cabo de São Vicente, viajar para Lisboa numa manhã de nevoeiro e reconquistar o trono que ainda era seu por direito.

 

Hoje, sabemos que nada disso acabou por tomar lugar, mas o importante nesta lenda de Pincho de Benaciate é que não só ele acreditava nas palavras que dizia, como essa sua sinceridade foi atestada e reconhecida por religiosos de Faro, que acreditaram tanto nas suas palavras como em toda a situação em que se viram envolvidos. Não sabemos o que lhe aconteceu depois das suas previsões não terem tomado lugar, já em 1666, mas é provável que, como tantos outros falsos profetas do passado, tenha caído no esquecimento, até porque nada mais conseguimos descobrir sobre alguns deles… até que um comentador gentilmente nos deu esta informação adicional:

Bartolomeu Vaz Pincho não é lenda [como dizíamos no título anterior, entretanto corrigido], existiu mesmo. Fazia profecias na sua terra, S. Bartolomeu de Messines, e uma vez terá falado com um pássaro branco que lhe apareceu ao pé dos bois quando estava lavrando. Como a sua religião não era muito ortodoxa e as profecias eram de tipo sebastianista e suspeitas, foi preso e levado para Lisboa, para a cadeia do Limoeiro, em 1659, onde respondeu a um interrogatório em que, à cautela, negou ter falado com o tal pássaro. Tinha então 51 anos. Dali passou ao cárcere da Inquisição, no Rossio, em 1659. Foi interrogado de novo, mas os inquisidores acharam-no pessoa simples, sincera e sem malícia. Deram-lhe uma repreensão e ele prometeu não espalhar mais profecias. Mandaram-no de volta para o Limoeiro, donde deve ter regressado à sua terra. Está tudo no processo 4794 da Inquisição de Lisboa, que se pode ler online. O romance “Um ano na corte”, de Andrade Corvo, também fala da conversa do Pincho com o pássaro.