A lenda da origem da Sopa da Pedra

De entre as muitas que nos recordamos de ter ouvido nos nossos tempos de juventude conta-se a lenda da origem da Sopa da Pedra. Mas quando há alguns dias a comíamos em terras do Alentejo, mais precisamente em Almeirim, uma das nossas colegas desconhecia a história por detrás da estranha designação. Face a esse problema (e também para que ninguém se queixe do facto de ontem não termos contado mesmo uma lenda portuguesa), nada como recordarmos a história da origem deste prato:

Uma sopa da pedra?

Conta-se que um dado dia um monge se encontrou numa terra que desconhecia. Estava cheio de fome, mas não tinha qualquer dinheiro consigo. Pediu esmola aqui, ali, acolá, mas naquele triste dia ninguém estava interessado em ajudá-lo. Então, pegou numa qualquer pedra que viu no caminho e, aproximando-se de um popular que ainda não tinha interpelado antes, disse-lhe que estava a planear fazer uma sopa da pedra.

A expressão na cara do veraneante foi de grande confusão. “Sopa da pedra? Isso existe?” Por três vezes o monge lhe disse que sim, e por três vezes o homem se mostrou incrédulo. Então, o religioso ofereceu-se para cozinhar essa sopa, de forma a provar-lhe a completa veracidade da mesma. O homem, na maior das curiosidades, naturalmente que aceitou.

Então, o monge começou por aquecer uma panela com água e colocou a pedra no seu interior. Esperando alguns minutos, provou um pouco do caldo com uma colher de pau e disse “Hum… está muito boa, esta sopa que estou aqui a cozinhar, mas ficaria ainda melhor com um pouco de feijão.” O homem deu-lhe o feijão. Minutos depois a cena repetiu-se – “Sabe o que ficaria fantástico aqui? Uma orelha de porco.” Novamente, o homem concedeu-lhe esse sugestão. E assim se repetiram os pedidos, uma e outra vez, com o monge a pedir outros ingredientes – um pouco de chouriço, umas gramas de toucinho, cebolas e alho, umas batatinhas, fatias de pão, uma pitada de sal… e no final, o monge e o seu novo amigo deleitaram-se com um belo petisco!

 

Esta lenda da origem da Sopa da Pedra partilha de um conjunto de elementos comuns em outras histórias de todo o mundo, em que ao abrigo da ideia de cozinhar uma sopa “impossível” uma personagem vai conseguindo os ingredientes para cozinhar um prato bem real. Porém, se a sopa da história é verdadeiramente deliciosa, quem quiser prová-la sairá parcialmente gorado – são poucos os restaurantes que hoje em dia a servem com a famosa pedra. Se poderá parecer algo pouco importante – “a pedra não se come, não é?!” – de um ponto de vista simbólico poderia colocar-se uma na beira do prato, em memória da sua origem lendária…

 

 

P.S.- Nos Estados Unidos da América também existe uma lenda muito parecida com esta, mas que em vez de uma pedra utiliza um prego. Também fomos ouvindo outras semelhantes pelo mundo fora.

Em busca da lenda da Cruz de Popa

Para a última história portuguesa deste mês decidimos falar de algo muito pouco vulgar, a lenda da Cruz de Popa, na zona de Alcabideche (Cascais). Ou, para sermos mais correctos, uma não-lenda que tomaria esse nome. E temos de lhe chamar isso porque, infelizmente, o local até deve ter uma razão real para esse nome, mas já não conseguimos recontá-la por cá. Passe-se a explicar.

A lenda da Cruz de Popa?!

Há uns meses pássamos por um local chamado “Cruz de Popa”. Numa das ruas próximas encontrámos uma representação antiga de uma poupa – o pássaro, deixe-se claro – poisada próxima de uma fonte e de um edifício potencialmente religioso, mas já ninguém nos soube falar dessa história ou dizer de onde vinha o nome do local. Na verdade, pouco mais nos souberam informar do que “eu vivo aqui há mais de 80 anos e sempre conheci o local por esse nome”. Insistimos. “Sim, havia ali umas ruínas, mas a gente não ligava a nada disso”. Só isto.

 

O mistério desta Cruz de Popa, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar bastante. A representação próxima do local deixa clara a existência de um pássaro (com a penugem acima da cabeça que é bem característica à poupa), por oposição a uma “popa” de qualquer outro tipo (e.g. a parte frontal de um navio, como no caso de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa). Deixa igualmente clara a existência de um cruzeiro, talvez até inserido num espaço religioso maior, que ainda hoje está presente no local. E deixa ainda clara a presença de uma fonte, mas que já não existe, e da qual nem parecem existir, hoje, quaisquer vestígios.

 

Esta seria, normalmente, a altura em que contávamos como descobrimos a resposta, e qual era, afinal de contas, esta lenda oculta da Cruz de Popa, mas neste caso especifico não foi mesmo possível encontrá-la. Segundo apurámos, em inícios do século XX o cruzeiro estava parcialmente destruído, mas ainda existia uma mina de água no local, onde os habitantes locais tinham por hábito apanhar agriões, levantando a possibilidade da existência anterior de uma fonte, desaparecida em data incerta. Se a lenda original unia, de alguma forma muito significativa, o pássaro à cruz e à fonte, é possível que o desaparecimento parcial destes últimos elementos tenha levado ao esquecimento progressivo de toda a trama. O que, para nós, é muito triste, porque representa a perda de um património cultural irrecuperável, como aquele que algumas vezes ainda tentamos preservar por cá, e que em casos como o da Arranca-Pregos também já se perdeu…

A lenda de São Torcato

A lenda de São Torcato é, como a de Santo Ovídio, uma daquelas histórias, supostamente reais, que são muito famosas na região em que tiveram lugar mas igualmente pouco conhecidas em outros locais. Isso faz até um certo sentido, na medida em que esta figura pode ter nascido em Toledo (Espanha), mas foi bispo da cidade de Braga e tornou-se mártir mais ou menos no mesmo local, estando por isso muito naturalmente associado ao norte de Portugal, em particular à freguesia de São Torcato, perto de Guimarães. Mas qual é a sua história?

Lenda de São Torcato

Sobre esta lenda de São Torcato, apenas fomos capazes de encontrar um relato muito geral, que diz que na segunda década do século VIII da nossa era (a data precisa é hoje incerta, mas o dia terá sido provavelmente 26-28 de Fevereiro), um general islâmico, de nome Muça, invadiu parte do norte de Portugal. S. Torcato recebeu-o, juntamente com alguns companheiros, talvez com intenção de lhe pedir que poupasse os habitantes locais (outras versões dizem que o futuro santo pretendia combatê-lo, mas perdeu a batalha), mas todos eles foram mortos – ou decepados, segundo outra versão – por este seu inimigo muçulmano. Pouco depois o corpo incorrupto do mártir foi encontrado no meio da floresta, tendo também brotado uma fonte miraculosa no local da descoberta, onde ainda hoje pode ser encontrada uma pequena capela, cujo recinto pitoresco mostramos abaixo.

O corpo de S. Torcato – padroeiro das dores e problemas de cabeça, que se supõe ter feito muitos milagres nessas áreas, mas hoje muito mais conhecido pelo seu corpo ainda incorrupto – não está agora neste local, como seria naturalmente de esperar, mas sim no Santuário de São Torcato, em Guimarães. Diz-se – confessamos que não fomos verificar pessoalmente – que por milagre divino o corpo do santo continua tão incorrupto e perfeito como no dia em que faleceu, há já mais de um milénio. Será verdade? Quem vir uma fotografia do santo, tal como se encontra hoje (por exemplo, nesta página), poderá facilmente ver que ele tem uma forma completamente humana, parecendo estar como que petrificado na sua morte. O que se terá passado? Será mesmo um milagre? Essa já é uma resposta que ficará para o leitor destas linhas…

Porque está um tritão representado no Palácio da Pena?

Tritão  do Palácio da Pena

Quem visitar o chamado “Pórtico do Tritão”, no Palácio da Pena, em Sintra, poderá ver uma belíssima representação de um tritão, um deus marinho menor, por cima de uma das portas. Mas o que faz esse monstro marinho no local? Bem, se consultarmos um site “oficial” do local, aqui, podemos ler o seguinte:

Há duas possíveis origens para este Tritão, ambas literárias. Uma é a obra de Damião de Góis de 1554, onde é mencionado um Tritão que tinha sido avistado a cantar com uma concha numa praia perto de Colares. Mas também Luís de Camões menciona um Tritão no Canto IV dos Lusíadas, cuja descrição lembra o monstro [do Palácio] da Pena.

Esta informação sempre nos pareceu enganadora, na medida que poderá dar ao leitor a sensação de que a associação de um tritão à cultura portuguesa nasceu no século XVI. Quando tanto Damião de Góis como Camões se referem a um tritão, fazem-no quase certamente porque em diversas fontes da Antiguidade (nomeadamente Plínio e Cláudio Eliano, se a memória não nos engana) existiam referências à existência de uma caverna próxima de Lisboa em que podia ser ouvido o canto de um tritão.

Esses autores nunca nos falam da região de Colares (essa identificação parece provir de Damião de Góis), nem são muito específicos no local do acontecimento, dizendo-nos exclusivamente que era próximo da cidade que viria a ter o nome de Lisboa. Mas o que esta menção tem de notável é o facto de ser um dos mais antigos mitos associados à futura capital de Portugal, juntamente com o dos cavalos lusitanos, o da suposta fundação da cidade por Ulisses e o do Tejo (de que falaremos algum outro dia).

 

Dada a fama dos mitos, é natural que tanto Damião de Góis como Camões tenham decidido torná-los parte das suas obras, imortalizando-os entre uma nova audiência. E, nesse seguimento, se o tritão do Palácio da Pena é mesmo o referido nestas duas obras (algo de que não temos a certeza…), faz todo o sentido que tenha sido representado no local pela sua relação com os antigos mitos, os mais antigos associados ao nosso país e, por isso, um digno exemplo da história mitológica de Portugal.

A lenda da Bezerra de Monsanto

A lenda da Bezerra de Monsanto, que aqui contamos hoje, tem de começar com uma pequena história a ela acessória – quem viver perto de Lisboa certamente que conhece o parque florestal com o nome de Monsanto. Porém, quando há uns anos inquirimos sobre uma possível origem do nome, foi-nos contada uma lenda de outro Monsanto, uma pequena vila próxima de Idanha-a-Nova. É essa segunda lenda que aqui recordamos hoje, a primeira ficará para outro dia.

A Bezerra de Monsanto?

Conta o povo que há muitos, muitos séculos atrás, o local que se tornaria a aldeia de Monsanto foi cercado pelos Romanos. Durante quase uma década que estes cercaram o castro, enquanto que os habitantes locais se tentavam aguentar como podiam. Numa dada altura, já quase sem qualquer espécie de alimento, consideraram capitular. Discutiram essa possibilidade uma e outra vez. Enquanto que alguns queriam desistir, outros queriam resistir até à sua própria morte.

Foi nesse contexto que uma jovem sugeriu tentar-se algo de muito pouco vulgar – quis pegar na última bezerra que tinham, enchê-la da comida ainda restante e depois oferecê-la aos Romanos. Assim o pensou, de semelhante forma o sugeriu, e ainda melhor o fizeram os habitantes da localidade.

Os atacantes, vendo então uma bezerra tão gorda, que os futuros Portugueses tão gentilmente lhes ofereceram após tantos anos de cerco, acreditaram que estes ainda tinham comida e bebida para muitos mais anos, e como tal decidiram retirar-se, desistindo de conquistar o local.

 

É uma bela lenda, esta conhecida sob o nome da Bezerra de Monsanto, mas não é totalmente original. Histórias semelhantes já eram contadas na Antiguidade, em que uma povoação era salva da destruição de um cerco tomando partido de um derradeiro gesto semelhante a este… seria mera coincidência, ou estaria a jovem de Monsanto também familiarizada com esses outros exemplos, usando-os em seu proveito na situação em que se encontrava? Só ela saberia responder…

 

 

P.S.- E, afinal de contas, qual é a verdadeira origem do nome da Serra de Monsanto lisboeta? Se nunca ouvimos qualquer lenda associada a ela, parece que o nome vem do tempo de Dom Dinis, altura em que esse rei atribuiu a posse das terras em questão a um conde, supostamente de apelido Castro, que tinha a posse das mesmas terras de onde era originária a famosa bezerra. É, portanto, uma origem semelhante à do nome da Quinta do Anjo, já que o facto de um determinado conde ser mais famoso por uma posse de outra terra levou a um nome semelhante nesta que está mesmo às portas de Lisboa!