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Mitologia em Português

05 de Junho, 2021

A lenda da Padeira de Aljubarrota

A lenda da Padeira de Aljubarrota é uma de aquelas que toda a gente em Portugal - e provavelmente até no Brasil - conhece pelo menos em nome, fazendo parte integrante da Mitologia Portuguesa. Na sua forma mais simples, diz-nos que na Batalha de Aljubarrota, em 1386, que opôs Portugueses a Castelhanos, os combatentes locais se mostraram tão bravos face aos invasores que até uma padeira local, de nome Brites de Almeida, se juntou ao combate e acabou por matar, à cacetada, sete invasores que se tinham escondido no interior do seu forno. Mas terá sido verdade?

A lenda da Padeira de Aljubarrota

Nunca encontrámos provas concretas da sua existência real, mas ao longo dos séculos foram adicionados novos episódios a toda esta lenda da Padeira de Aljubarrota. De facto, à medida que o tempo foi passando até foi criado toda uma história por detrás de Brites de Almeida, que enriqueceu esta versão simples de trama. Por exemplo, se prestarem muita atenção à imagem acima, irão notar que ela tem seis dedos em cada mão, que é um elemento que provém dessa versão expandida da tradição, e que nos chegou por obras como Auto Novo e Curioso da Forneira de Aljubarrota, de Diogo da Costa (século XVIII). E então, o que é acrescentado a toda a história?

 

Segundo essa versão expandida da lenda da Padeira de Aljubarrota, ela nasceu no Algarve e os seus pais faleceram quando ela ainda era muito nova. Brava desde tenra idade, assustava os seus colegas, estudou esgrima, e até matou em combate um cavaleiro que ousou pedi-la em casamento*. Foi raptada por Mouros, levada para África e obrigada a fazer tarefas femininas, que tanto odiava. Escapou, matando os seus captores, e voltou a Portugal. Ajudou um homem que tinha sido raptado por ladrões, derrotando-os a todos, e às tantas lá deu por si na vila de Aljubarrota, em que uma padeira idosa lhe deu trabalho. Aquando da famosa batalha, os Castelhanos estavam a passar fome e tentar roubar o pão que estava a ser cozido no interior do famoso forno, levando a que esta famosa figura os matasse. E, finalmente e sem que seja dada demasiada ênfase a esse famoso episódio, por volta dos 40 anos ela casou com um Agricultor local e tiveram uma filha, que parece ter ficado conhecida sob o nome de "Velha de Diu"**.

 

Como é fácil constatar, esta versão tardia da história da Padeira de Aljubarrota é pura ficção, até porque contém todos os elementos característicos da literatura de aventuras da sua época, como um rapto por estrangeiros, elementos fantásticos, ou uma figura heróica (quase) invencível. É uma trama que nasceu de uma necessidade de explicar o carácter muito único da sua figura principal, dizendo aos leitores que ela não era uma mulher vulgar, mas sim uma cujo carácter guerreiro, e força, vinha de uma tenra idade. E não é de coisas como essas que nascem as lendas? De uma expansão de uma possível verdade primordial, cujos contornos reais se foram esquecendo ao longo dos séculos?!

 

Não sabemos, admita-se, se esta Padeira de Aljubarrota até existiu mesmo, ou se terá tido aquela mesma função na batalha que a tradição lhe atribui, mas o que podemos ter a certeza é que ela é uma das mais famosas heroínas da história de Portugal, cuja fama, como já referido anteriormente, nos chegou até mesmo aos dias de hoje. E, para o resumo desta lenda de hoje, isso basta-nos.

 

 

*- Um elemento curioso de toda esta história é o facto de ser enfatizado que ele não se apaixonou pela potencial beleza de Brites de Almeida, cuja fealdade até é bem descrita na trama, mas sim pela sua força e carácter guerreiro.

**- Outra figura lendária da história da lusofonia, que o texto diz ter pelejado contra cem muçulmanos apenas com uma lança. A tradição atribui esses eventos a uma Isabel Fernandes, que viveu em Diu por volta do ano de 1546, espaçando em mais de século e meio as duas batalhas. Como tal, é naturalmente impossível que ela fosse filha real de Brites de Almeida, sendo provável que o autor se refira a ela somente como uma filha da famosa Padeira de Aljubarrota num sentido puramente metafórico.

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