A origem do doce da casa (ou sobremesa da casa)

Em Portugal, qualquer pessoa parece conhecer o chamado doce da casa, a que alguns também chamam sobremesa da casa. Está habitualmente disponível em (quase) todo e qualquer restaurante de comida típica portuguesa. Talvez não houvesse muito a escrever sobre esse tema, não fosse o facto de ele nos impor uma questão curiosa – se, num qualquer restaurante, ao pedirmos o “vinho da casa” recebemos, habitualmente, um produto diferente em cada local, e o mesmo acontece – por exemplo – com os pratos recomendados pelo cozinheiro ou pela casa, porque razão é este caso diferente? Porque é esta iguaria “… da casa” a mesma em todo o país?

A origem do doce da casa (ou sobremesa da casa)

A iguaria em questão pode ser vista na imagem acima. Seja a sobremesa da casa, ou o doce da casa (ou como outra pessoa desejar chamá-lo), tem mais ou menos este aspecto em qualquer lado, o que denota uma fonte comum, qualquer que tenha sido. E então, decidimos partir em busca dela, como primeira publicação para este novo alojamento. Principiando por obras monásticas como a dos Pastéis de Belém, e continuando com fontes mais significativas (como a Arte da Cozinha, de 1680), nada aí foi encontrado. Nem no famoso Livro de Pantagruel, que nos nossos dias muita gente continua a ter em suas casas. Não é, portanto, um bolo tradicional português, mas de onde vem, então, ele?

Para conseguirmos compreender isso, decidimos considerar em que consiste essa sobremesa – tem pelo menos uma bolacha (habitualmente “Maria”, cuja origem do nome ficará para outro dia), leite condensado e natas. São ingredientes relativamente recentes (recorde-se que a doçaria conventual assenta mais nos ovos, açúcar e água), que só se tornaram mais acessíveis ao público em geral em meados do século XX. Ao mesmo tempo, este é um doce que necessita de ser conservado no frio, pelo que a sua existência dificilmente precederia a do frigorífico dos restaurantes (e de nossas casas), que também apareceu em Portugal apenas em meados do século XX. Por estas razões, é quase certo que este doce só terá aparecido no nosso país em algum ponto depois do ano de 1950.

Quem terá criado esta sobremesa pela primeira vez? Não se parece saber muito bem, ao contrário de delícias como o Pudim Abade de Priscos ou o (pequeno) Brigadeiro, mas é absolutamente claro que só poderá ter existido depois da data mencionada acima. A ausência de um nome mais concreto também sugere não uma autoria específica de um cozinheiro famoso, mas sim uma espécie de doce comum, que muitas pessoas faziam e comiam em suas casas, o que permite estabelecer uma espécie de teoria sobre a sua origem.

 

A sobremesa ou doce da casa não são, de todo, parte da doçaria tradicional portuguesa. Porém, a sua ideia subjacente provavelmente popularizou-se na segunda metade do século XX, não só pela facilidade de obtenção dos ingredientes, mas pela sua receita simples, que não necessita de um forno, tornando mais fácil usar esses recursos para outras coisas (como fazer os pratos do dia de um restaurante). Mas e o nome? Porquê “… da casa”? Não porque seja da própria casa – i.e. exclusivo a um determinado restaurante, como poderia pensar-se – mas provavelmente porque, dada essa simplicidade, ele é tão fácil de fazer em casa de uma pessoa como num restaurante, contrariamente a vários doces tradicionais do nosso país, de que a Lampreia de Ovos é provavelmente o exemplo mais complexo. Nesse sentido, é “… da casa” porque aí era feito, na própria casa das pessoas, em vez de ser originário de outro local, como quando um restaurante vende um bolo que adquiriu noutro local.

Será verdade? Será mentira? Nada encontrámos que contradiga estas ideias, mas esta breve exploração pela origem da sobremesa ou doce da casa permitiu-nos compreender que mesmo nos dias de hoje muitas histórias se continuam a esconder no dia-a-dia, inclusive nas mesas dos mais diversos restaurantes…

Gostas de mitos, lendas, livros e curiosidades antigas?
Subscreve grátis e recebe os nossos novos artigos por e-mail!

Deixe um comentário