Existem, neste momento, 14 feriados nacionais de Portugal, como é fácil descobrir online. Somente voltar a apontá-lo aqui teria muito pouco interesse, pelo que o tema de hoje se prende não com essas datas, mas com o significado por detrás dos respectivos feriados que lhes estão associados.

1 de Janeiro – Muitas vezes conhecido apenas como o “Ano Novo”, este feriado é muito comum nas mais diversas culturas pelo mundo fora, quanto mais não seja para impedir que os celebrantes da noite anterior tenham de ir para o trabalho cheios de sono e/ou com uma enorme ressaca. Se vimos associados, aqui e ali, a este dia também uma tal “Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus”, a data não parece ser celebrada assim em Portugal, existindo outras datas que estão muito mais associadas a Nossa Senhora entre nós.
Carnaval – Já aqui falámos sobre a possível origem do Carnaval em Portugal, mas este é um feriado móvel, cuja data pode variar entre 3 de Fevereiro e 9 de Março, mediante a data (também variável) da Páscoa. Mas o que celebra, na verdade, hoje em dia este feriado? Ele é conhecido em virtude das celebrações, com disfarces e máscaras e tal, feitas em muitas cidades e vilas pelo país fora, mas não existe um evento histórico em particular ao qual esteja associado. Em vez disso, até a sua data móvel sugere que este feriado só existe para celebrar o início da Quaresma, e a ideia tradicional – hoje, já quase ninguém a parece seguir – de que durante esse tempo não se deveria comer carne. A ideia de que o nome desta quadra deriva de um suposto latim tardio “carne vale“, não parece ser real.
Sexta-Feira Santa – Também com data variável, mas celebrada sempre a uma sexta-feira (como o próprio nome já indica), pode calhar entre 20 de Março e 23 de Abril. Ela celebra a crucificação de Jesus Cristo, não como um evento de carácter negativo, mas pela ideia de esperança.
Páscoa – Já aqui falámos sobre esta origem da Páscoa, celebrada entre 22 de Março e 25 de Abril, e ele celebra, entre os Cristãos, a data da ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, menos de uma semana separa sempre o feriado anterior e este, mostrando a importância da religiosidade na cultura tradicional portuguesa.
25 de Abril – Celebra a chamada “Revolução dos Cravos”, que teve lugar em Portugal neste mesmo dia no ano de 1974. Muito poderíamos escrever sobre este feriado em particular, mas ele é essencialmente histórico, não se prendendo com o tipo de temas que normalmente abordamos por aqui, salvo raras excepções, como a da traição de Humberto Delgado.
1 de Maio – Celebrado como o “Dia do Trabalhador”, é provável que se trate de um feriado celebrado nesta data em Portugal por ela ter uma associação ao chamado “São José Operário”, que não é mais que o pai terreno de Jesus Cristo. Dada a associação dessa figura com a carpintaria, faz um certo sentido considerá-lo como o “trabalhador” por excelência.
Corpo de Deus (ou Corpus Christi) – Mais um feriado de data móvel, celebrada entre 21 de Maio e 24 de Junho, só por esse carácter se depreende, automaticamente, mais uma associação à Páscoa. É, de facto, celebrada 60 dias depois, e tem por objecto o próprio corpo de Cristo, tal como ele é considerado existir na hóstia consagrada da comunhão. De onde vem toda a ideia? De um milagre que tomou lugar em Itália, por volta de 1263-1264, em que uma hóstia sangrou, como também aconteceu no nosso Santíssimo Milagre de Santarém.
10 de Junho – Celebrado como “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, pelo facto de Luís de Camões ter falecido a 10 de Junho de 1580. Podendo ele ser considerado o maior de todos os autores de génese portuguesa, esta associação faz algum sentido, como uma espécie de celebração da portugalidade.
15 de Agosto – É o chamado “Dia da Assunção de Nossa Senhora”, pelo facto de se acreditar que foi nele que a Virgem Maria subiu aos céus. Ou seja, para quem perceber menos destes temas, as várias religiões cristãs não acreditam que Maria, mãe de Jesus Cristo, tenha falecido, mas sim que ela foi levada para os céus ainda em vida, quando já era mais idosa, e por isso, se ainda existem locais celebrados como a casa de Santa Maria, em nenhum local se diz que ela faleceu.
5 de Outubro – Chamado o “Dia da Implantação da República”, por ter sido nesta data que a monarquia acabou em Portugal, no ano de 1910. É uma data puramente histórica, não nos competindo, portanto, dizer muito mais sobre ela.
1 de Novembro – O “Dia de Todos os Santos”, no qual são celebrados, tradicionalmente, os muitos santos e mártires do Cristianismo. Talvez seja daí que vem a ideia de se ir muito ao cemitério nesta data, como que se subentendendo que os outros falecidos também são dignos de nota. Se lemos, aqui e ali, notas a dizer que nesta data se recorda o Terramoto de Lisboa de 1755, isso não é bem verdade, apesar do horrendo evento ter tomado, de facto, lugar nesse mesmo dia, quando as pessoas até estavam a assistir à missa celebratória do mesmo. Essa coincidência teve algumas implicações filosóficas interessantes, incluindo para autores como Voltaire.
1 de Dezembro – O “Dia da Restauração da Independência”, por ter sido nesta mesma data que em 1640 terminaram décadas de ocupação castelhana do nosso território, depois do desaparecimento de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir.
8 de Dezembro – Feriado associado à Imaculada Conceição. Foi instituído por ordem de D. João IV em 1646, por considerar esta figura como a derradeira rainha de Portugal. Mas o dia, em si, celebra a ideia de que também a própria Virgem Maria foi concebida sem pecado; não é claro se o foi nesta data, ou se depois nasceu nela, mas pelo menos o dia está associado com esse evento.
25 de Dezembro – Provavelmente o mais famoso de todos os feriados nacionais de Portugal, é este o Dia de Natal, em que se diz que Jesus Cristo veio ao mundo na carne. Sabe-se que a data foi escolhida com base na da Saturnália dos Romanos, não existiu qualquer outra, celebrada hoje em dia, que se suponha que foi a data em que ele nasceu verdadeiramente.
Em suma, os feriados nacionais de Portugal não são apenas dias assinalados no nosso calendário, e nos quais não temos de trabalhar. Cada um deles encerra séculos de história, tradições religiosas ou conquistas sociais que ajudam a compreender melhor a identidade do nosso país. Do simbolismo cristão da Páscoa e da Assunção de Nossa Senhora à memória coletiva do 25 de Abril ou da Implantação da República, cada feriado é uma oportunidade de refletir sobre aquilo que moldou – e continua a moldar, até certo ponto – a nossa cultura portuguesa. Talvez por isso, mais do que simples dias de descanso, estes momentos sejam verdadeiros pontos de encontro entre passado e presente, onde a memória histórica se cruza com a vivência do quotidiano.