Os feriados locais de Portugal e suas histórias

Se há algumas semanas aqui falámos dos feriados nacionais de Portugal, hoje dedicamo-nos aos locais. Àqueles que são apenas celebrados em determinados municípios, frequentemente por razões da história ou cultura local. Eles são bastantes, pelo que tentaremos não nos esquecer de nenhum. Mais do que simples dias de descanso, estes feriados revelam a alma de cada comunidade: narram batalhas, recordam fundações, evocam santos padroeiros e perpetuam lendas. Cada data é, em si, um fragmento de memória colectiva, que nos ajuda a compreender como tradição e identidade se entrelaçam no tecido cultural português.

Os feriados locais de Portugal

11 de Janeiro (Óbidos)– Celebra a data em que esta vila, e o seu famoso castelo, foram tomados pela última vez aos Mouros, em 1148.

 

13 de Janeiro (Cadaval, Santa Marta de Penaguião, Viana do Alentejo, Vila Nova de Poiares)– Conhecido localmente como a “restauração do município”, este feriado refere-se à data, em 1898, em que estes locais tornaram a ser concelho.

 

14 de Janeiro (Elvas)– Foi nesta data que em 1659 teve lugar a Batalha das Linhas de Elvas, em que os Portugueses venceram os Castelhanos.

 

15 de Janeiro (Santa Cruz, na Madeira)– Dia de Santo Amaro, que até poderá ser uma figura apócrifa, que nunca terá existido realmente.

 

20 de Janeiro (Santa Maria da Feira)– Dia de São Sebastião.

 

22 de Janeiro (São Vicente, na Madeira, e Vila do Bispo)– Dia associado ao santo, celebrado especificamente nesses dois locais.

 

 

2 de Fevereiro (Mourão)– Festa de Nossa Senhora das Candeias, aparentemente representando um tempo de purificação, de 40 dias, pelos quais Santa Maria passou depois do nascimento de Jesus Cristo.

 

10 de Fevereiro (Aguiar da Beira)– Data da “restauração do município”, em 1898.

 

18 de Fevereiro (Valença do Minho)– Festa de São Teotónio.

 

 

1 de Março (Tomar)– Foi, segundo se diz, nesta data que no ano de 1160, Dom Gualdim Pais colocou a primeira pedra do Castelo (Templário) de Tomar.

 

2 de Março (Vila Nova de Paiva)– Data, em 1883, em que esta vila mudou de nome (parece que antes se chamava “Barrelas”) e passou a ser sede de concelho.

 

4 de Março (Manteigas)– Nesta altura se celebra o segundo foral da vila, atribuído neste dia do ano de 1514 pelo rei Dom Manuel I.

 

5 de Março (Ferreira do Alentejo)– Data em que foi atribuído o foral manuelino à vila, em 1516.

 

8 de Março (Montemor-o-Novo)– Dia do nascimento de São João de Deus (nascido “João Cidade”), no ano de 1495, nesta mesma cidade portuguesa.

 

12 de Março (Monção)– Data, em 1261, em que esta vila obteve o seu foral, por parte do rei Dom Afonso III.

 

19 de Março (Póvoa de Lanhoso, Santarém, Torre de Moncorvo, Vizela)– Nos três primeiros é aqui que se celebra o dia de São José, enquanto que no último se celebra a data em que, no recente ano de 1998, Vizela se tornou município.

 

 

1 de Abril (Lisboa)– Celebração de todos os políticos portugueses, tem lugar na capital do país.

 

2 de Abril (Alpiarça)– Data em que esta vila se tornou sede de concelho, em 1914.

 

6 de Abril (Fronteira)– Foi nesta data que em 1384 aqui teve lugar a Batalha dos Atoleiros, que os Portugueses venceram contra Castela.

 

10 de Abril (Pampilhosa da Serra, Tábua)– No primeiro caso, é aqui celebrada a criação do concelho nesta vila, que teve lugar em 1385 por Dom João I. No segundo, trata-se da restauração da comarca, em 1973.

 

11 de Abril (Lagoa, nos Açores)– Data da elevação desta povoação a vila e sede de concelho, no ano de 1522, por Dom João III.

 

23 de Abril (Velas)– Dia de São Jorge, por ele se tratar do santo padroeiro da vila e da própria ilha de São Jorge.

 

26 de Abril (Belmonte)– Data em que foi celebrada a primeira missa no Brasil, no ano de 1500. A celebração local deve-se ao facto de Pedro Alvares Cabral ter nascido nesta vila.

 

 

2 de Maio (Arouca)– Celebra-se a Rainha Santa Mafalda, enquanto padroeira deste concelho.

 

3 de Maio (Barcelos, Sernancelhe)– No primeiro caso, celebra-se um milagre com uma cruz preta que foi vista no chão, em 1504, razão pela qual se lhe dá o nome de Festa de Santa Cruz. No segundo, é então celebrado o foral da vila, que data de 1124, por parte de Egas Gudesendiz.

 

4 de Maio (Sesimbra)– É a festa de Nosso Senhor Jesus das Chagas, padroeiro dos pescadores e da própria vila.

 

8 de Maio (Machico, Murça)– Em ambos os casos se celebra a criação dos respectivos muncípios, respectivamente em 1440 e 1224. No primeiro caso a capitania foi doada a Tristão Vaz Teixeira pelo Infante Dom Henrique, e no segundo o foral foi atribuído por Dom Sancho II.

 

12 de Maio (Aveiro)– Festa de Santa Joana Princesa, padroeira da cidade.

 

13 de Maio (Vila Real de Santo António)– Celebração do dia em que se tornou cidade, em 1988.

 

14 de Maio (Vouzela)– Festa de São Frei Gil, que aí nasceu por volta do ano de 1190.

 

15 de Maio (Caldas da Rainha)– Data da fundação desta cidade pela Rainha Dona Leonor, em 1511.

 

16 de Maio (Fafe)– Celebração das Feiras Francas, talvez pelo seu contexto cultural no local.

 

20 de Maio (Vinhais)– Data da concessão do foral a esta vila, por Dom Afonso III em 1253.

 

21 de Maio (Vila Nova de Foz Côa)– Mais um foral, desta vez por Dom Dinis em 1299.

 

22 de Maio (Leiria)– Criação desta diocese, em 1545.

 

23 de Maio (Celorico da Beira, Portalegre)– No primeiro caso celebra-se o nascimento de Sacadura Cabral (em 1881), e no segundo a data de elevação a cidade por Dom João III, em 1550.

 

25 de Maio (Mirandela, e Santana, na Madeira)– Nesse primeiro local é celebrado o foral de Dom Afonso III, em 1250. No segundo, a fundação do próprio município, em 1835.

 

29 de Maio (Trancoso)– Celebração de uma batalha que aqui teve lugar em 1385. É hoje conhecida por Batalha de São Marcos (por ter tido lugar num sítio chamado Alto de São Marcos), ou Batalha de Trancoso.

 

 

1 de Junho (Miranda do Corvo, Palmela, São Brás de Alportel)– Três locais, três celebrações completamente distintas. A primeira refere-se ao nascimento de José Falcão (em 1841), a segunda ao foral manuelino (em 1512), e a terceira à elevação a município (em 1914).

 

7 de Junho (Oeiras)– Fundação do município, em 1759.

 

9 de Junho (Montalegre)– Data da atribuição do foral por Dom Afonso III, em 1273.

 

13 de Junho (…)– De Aljustrel e Alvaiázere até Vila Real e Vila Verde, passando por Cascais e Lisboa, é nesta data celebrada o Dia de Santo António. Ele é o padroeiro, ou pelo menos um dos principais padroeiros, dos vários locais que o celebram nesta data.

 

14 de Junho (Abrantes)– Elevação a cidade, em 1916.

 

16 de Junho (Espinho, e Olhão)– No primeiro caso celebra-se a elevação a cidade, em 1973. Já no segundo, este foi o dia da chamada “Revolta de Olhão”, contra os Franceses, que teve lugar em 1808.

 

20 de Junho (Corvo, nos Açores, e Ourém)– Elevação a vila, em 1832, e elevação a cidade, em 1991, respectivamente.

 

22 de Junho (Vila Pouca de Aguiar)– Data do foral manuelino, em 1517.

 

24 de Junho(…, Porto Santo, Sertã)– É nesta data que, em diversos concelhos no norte de Portugal, é celebrado o Dia de São João Baptista, aparentemente como padroeiro – ou um dos… – desses vários locais. Porém, em Porto Santo celebra-se a criação do município (em 1835), e na Sertã… lemos diversas possíveis explicações, mas uma das mais interessantes prende-se com o nascimento, nessa região, de Nuno Álvares Pereira, no ano de 1360.

 

28 de Junho (Barreiro)– Celebrada a elevação a cidade, em 1984.

 

29 de Junho (…, Lages do Pico)– Em diversas povoações, é aqui celebrado o Dia de São Pedro, enquanto padroeiro regional. Já nas Lages do Pico, na região dos Açores, celebra-se a atribuição de um foral, que teve lugar em 1501.

 

 

2 de Julho (Almeida)– Celebração da Batalha do Côa, contra os Franceses, nesta data de 1810.

 

3 de Julho (Seia)– Data da elevação a cidade, em 1986.

 

4 de Julho (Castanheira de Pêra, Coimbra)– A celebração no primeiro caso deve-se à criação deste novo concelho em 1914. Já no segundo, a data é a da translação das relíquias de Santa Isabel de Portugal, para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em 1677.

 

7 de Julho (Figueira de Castelo Rodrigo)– Celebração da chamada “Batalha da Salgadela”, ou de Castelo Rodrigo, que aqui teve lugar contra os Espanhóis em 1664.

 

8 de Julho (Amarante, Chaves)– Data de elevação a cidade, no primeiro caso (em 1985), e no segundo caso celebra-se o episódio histórico dos “Defensores de Chaves”, num combate local entre forças monárquicas e republicanas.

 

10 de Julho (Miranda do Douro)– Elevação a cidade por Dom João III, em 1545.

 

11 de Julho (Arcos de Valdevez, Santo Tirso)– Celebração do santo padroeiro, que é São Bento.

 

17 de Julho (Penacova)– Data de nascimento de António José Almeida.

 

18 de Julho (Nordeste, nos Açores)– Data da fundação do município, em 1514.

 

22 de Julho (Madalena, nos Açores, e Porto Moniz, na Madeira)– Santa Maria Madalena, a padroeira de ambos estes locais, é celebrada nesta data.

 

24 de Julho (Condeixa-a-Nova, Pedrógão Grande)– Santa Cristina, a padroeira de ambos os locais, é aparentemente celebrada nesta data.

 

25 de Julho (…)– Diversas freguesias celebram São Tiago, São Tomé e São Cristóvão nesta data, por terem os respectivos santos como seus padroeiros.

 

26 de Julho (Loures)– Foi nesta data que em 1886 o respectivo concelho foi criado.

 

 

10 de Agosto (Paredes de Coura, Vimioso)– Data de celebração do padroeiro local, São Lourenço.

 

11 de Agosto (Praia da Vitória, nos Açores)– Celebração da Batalha da Praia da Vitória, que teve lugar em 1829, entre Miguelistas e Liberais.

 

13 de Agosto (Góis)– As diversas fontes consultadas dizem que é aqui celebrada a “doação das terras de Góis a Anaia Vestrares”, também conhecido por Anião de Estrada, numa data muito vaga antes do ano de 1130.

 

14 de Agosto (Batalha)– Celebração da famosa Batalha de Aljubarrota, que aqui teve lugar no ano de 1385.

 

16 de Agosto (Peso da Régua, Ribeira de Pena, São Roque do Pico, Vila Viçosa)– Nos dois primeiros casos, celebra-se a Nossa Senhora do Socorro, a padroeira local. No terceiro, é o próprio São Roque o celebrado. E, no quarto, é o nascimento de Couto Jardim, médico local, o responsável pela celebração.

 

17 de Agosto (Coruche)– Nossa Senhora do Castelo, a padroeira local, é aqui a celebrada.

 

19 de Agosto (Esposende)– Criação do respectivo concelho (ou vila), por parte de Dom Sebastião, em 1572.

 

20 de Agosto (Albufeira, Alcobaça, Sátão, Viana do Castelo)– No primeiro caso é celebrado o foral de Dom Manuel I, datado de 1504. No segundo e terceiros, é celebrado São Bernardo, padroeiro local. E, finalmente, no quarto caso celebram-se as Festas de Nossa Senhora da Agonia, a padroeira da cidade.

 

21 de Agosto (Funchal)– Celebra-se nesta data a elevação a cidade em 1508, por decreto de Dom Manuel I.

 

22 de Agosto (Bragança)– Festa de Nossa Senhora das Graças, padroeira da cidade.

 

24 de Agosto (Baião, Ponte da Barca, Vila Flor)– Estes três locais celebram São Bartolomeu, que, naturalmente, é o seu padroeiro.

 

25 de Agosto (Penalva do Castelo, Pinhel)– No primeiro caso celebra-se São Genésio, o padroeiro, e no segundo a elevação a cidade, em 1770, no tempo do Rei Dom José I.

 

28 de Agosto (Barrancos)– Celebração de Nossa Senhora da Conceição, padroeira local.

 

29 de Agosto (Aljezur)– Tem lugar uma festa conhecida por “Banho Santo”, que poderá ter sido, anteriormente e na cultura popular, uma espécie de banho de purificação.

 

 

3 de Setembro (Silves)– Tomada da cidade aos Mouros, em 1189.

 

7 de Setembro (Arganil, Faro, Vendas Novas)– No primeiro destes locais celebra-se a Festa de Nossa Senhora do Mont’Alto. Nos dos restantes, respectivamente, a elevação a cidade (em 1540, por Dom João III), e a criação do concelho (1962).

 

8 de Setembro (…)– Pelo país fora existem bastantes “Nossas Senhoras” que são padroeiras locais e celebradas nesta mesma data. Isto poderá gerar uma questão – porquê? Essencialmente, porque esta é a data religiosa da Natividade de Nossa Senhora, ou seja, a data em que tradicionalmente se acredita que a mãe de Jesus Cristo nasceu.

 

11 de Setembro (Amadora)– Data da criação deste concelho, em 1979.

 

15 de Setembro (Fundão, Setúbal)– O primeiro celebra Santa Luzia, enquanto que o segundo festeja o nascimento de Bocage, em 1765.

 

16 de Setembro (Tondela)– Festejo de Santa Eufémia, a padroeira local.

 

19 de Setembro (Vila de Rei)– Data do foral de Dom Dinis, em 1285.

 

20 de Setembro (Ponte de Lima)– Festejos em hora de Nossa Senhora das Dores.

 

21 de Setembro (Sever do Vouga, Soure, Viseu)– Celebrações a São Mateus.

 

22 de Setembro (Sardoal)– Celebração da data do foral de Dom Manuel I, em 1531.

 

29 de Setembro (…)– Diversas vilas e freguesias celebram nesta data São Miguel Arcanjo, frequentemente como o seu padroeiro.

 

 

1 de Outubro (Vila Nova de Cerveira)– Data do foral de Dom Dinis, em 1321.

 

4 de Outubro (Câmara de Lobos)– Criação deste município, em 1835.

 

7 de Outubro (Oliveira de Frades, Oliveira do Hospital)– No primeiro celebra-se a restauração do concelho, em 1837, enquanto que no segundo se celebra, estranhamente, o recebimento da notícia da Implantação da República.

 

11 de Outubro (São João da Madeira)– Data da elevação a cidade, em 1985.

 

15 de Outubro (Mogadouro)– Esta data é conhecida localmente como a “Feira dos Gorazes”, com origens incertas, mas que parece ser caracterizada pela existência de muita comida.

 

20 de Outubro (Covilhã, Terras do Bouro)– A primeira foi elevada a cidade em 1870, enquanto que o segundo local obteve nesta data o seu foral, por Dom Manuel, em 1514.

 

22 de Outubro (Grândola)– Data do foral, de Dom João III, datado de 1544.

 

27 de Outubro (Lagos)– Celebração de São Gonçalo de Lagos, padroeiro local.

 

 

6 de Novembro (Boticas, Paços de Ferreira, Rio Maior, Valpaços)– Todos estes concelhos foram criados ou restaurados na mesma data, em 1836, por Dona Maria II.

 

11 de Novembro (Alijó, Mêda, Penafiel, Pombal, Torres Vedras)– A festa de São Martinho tem uma especial celebração nestes locais.

 

19 de Novembro (Odivelas, Trofa)– Data da criação de ambos os municípios, em 1998.

 

23 de Novembro (Gavião)– Data do foral de Dom Manuel I, em 1519.

 

24 de Novembro (Entroncamento, Sines)– O primeiro destes locais tornou-se cidade nesta data de 1945, enquanto que o segundo foi aí tornado vila por Dom Pedro I, em 1362.

 

25 de Novembro (Calheta)– Festejos a Santa Catarina de Alexandria, a padroeira local.

 

27 de Novembro (Guarda)– Data do foral de Dom Sancho I, em 1199.

 

30 de Novembro (Mesão Frio)– Festa dedicada a Santo André, o padroeiro local.

 

 

11 de Dezembro (Portimão)– Data da elevação a cidade, em 1924.

 

26 de Dezembro (Madeira)– “Primeira Oitava”, um feriado que data de 2002, explicado no Decreto Legislativo Regional n.º 18/2002/M com as seguintes palavras – “comemorações natalícias, que, aqui, desde há muito que se costumam prolongar pelo dia popularmente conhecido por «primeira oitava», ou seja, o dia 26 de Dezembro. Por esta razão, tal dia tem sido comummente observado como feriado. Urge, pois, dar a tal prática o devido enquadramento legislativo.”

 

 

Em suma, o que podemos concluir de todos estes feriados locais? No seu geral, eles focam-se ora em festas religiosas, muito mais populares em outros tempos, ou em eventos históricos que foram tendo lugar nos seus perímetros geográficos. No fundo, estes feriados locais revelam muito mais do que simples datas no calendário: mostram como cada município construiu a sua própria identidade, celebrando santos, batalhas, forais ou figuras notáveis. Juntos, compõem um verdadeiro mapa da memória colectiva portuguesa, onde tradição e história se cruzam. Se os feriados nacionais nos unem, os municipais lembram-nos que a riqueza de Portugal também se encontra na diversidade das suas terras e das suas gentes.

A insólita história de Alberto Fargo

É provável que a maior parte dos portugueses nunca tenha ouvido falar de Alberto Fargo, pelo que a origem desta história é digna de ser contada aqui. Como parte deste espaço, e de alguns livros que fomos publicando ao longo do tempo, fomos sendo contactados ao longo dos anos para verificar algumas histórias relacionadas com Portugal. Os casos de Teresa Fidalgo e Vimara Peres são provavelmente os mais significativos, mas há alguns dias contactaram-nos em relação ao sujeito que dá título a este artigo.

Alberto Fargo, uma história insólita

Segundo nos foi dito, Alberto Fargo era, supostamente, um professor de tango que, em 1998, durante uma das suas lições de dança, estava a mostrar aos seus alunos um dado movimento, caiu pela janela de um quinto andar lisboeta e faleceu.

Uma história simples, parece, mas a razão porque nos contactaram passa pelo facto de, ao investigarem esta história, terem sido incapazes de encontrar qualquer fonte primária que atestasse a sua veracidade. Ou seja, esses jornalistas pura e simplesmente não conseguiam encontrar qualquer prova real da existência deste Alberto Fargo, ou de que a situação em questão, relatada em diversos livros anglófonos, tivesse de facto acontecido no nosso país. E há uma excelente razão para isso!

 

Como aconteceu no caso de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, esta história não é verdade.

Primeiro, “Fargo” não é um apelido português, mas algumas fontes consultadas dizem que ele era nativo do nosso país.

Segundo, não conseguimos encontrar qualquer referência a esta ocorrência num jornal nacional (a imagem acima é uma mera brincadeira, criada por IA). A mais antiga referência online que conseguimos encontrar, numa listagem de mortes insólitas, atribui a história a um suposto jornal Sunday Independant de Dublin, datado de 15 de Novembro de 1998, mas não só o título do jornal está parcialmente incorrecto nessa fonte, como a edição em questão não parece conter essa notícia.

E, em terceiro e último lugar, por evidentes razões de segurança os prédios em Portugal são construídos de forma a tornar um evento como este (quase) impossível, não existindo a possibilidade de abrir por completo uma janela de forma a que alguém simplesmente caísse da mesma por uma desatenção como a relatada na história.

 

De onde vem, então esta história de Alberto Fargo? Talvez tenha sido apenas inventada por aquela fonte online – ela ainda pode ser vista aqui – ou criada por alguém para tentar detectar quem plagia conteúdos. E, infelizmente, é um problema muito comum nos dias de hoje – as pessoas copiam informação de um e outro lado sem nunca a verificar, sem se interrogarem pelas verdadeiras fontes de alguma informação menos comum, e depois são enganadas.

 

No fundo, a história de Alberto Fargo é menos sobre um professor de tango e mais sobre a forma como as lendas modernas dançam entre nós: um passo dado por alguém num fórum obscuro, outro repetido num livro mal verificado, e de repente lá está – um mito urbano pronto a circular sem fim, como se fosse verdade. O verdadeiro perigo, claro, não está em acreditar num bailarino inexistente, mas em esquecermo-nos de dançar com o cepticismo. Porque, no mundo das histórias digitais, basta um clique para um rumor ganhar corpo… e cair pela janela da realidade.

Discutir o sexo dos anjos – o significado e a verdadeira origem

O significado da expressão discutir o sexo dos anjos já não tem muito que se lhe diga, nos dias de hoje – ela refere-se, como incontáveis outras fontes poderão informar o leitor, à tarefa de falar com alguém sobre algo que não tem, ou não parece ter, qualquer espécie de importância real. O tema ficaria por aí, nem valeria a pena estar a dedicar-lhe estas linhas, não fosse o facto da maior parte das fontes consultadas ocultar aos leitores, provavelmente por desconhecimento, a verdadeira origem desta agora famosa expressão. Portanto, decidimos dedicar-lhe estas linhas de hoje.

 

 

Se o significado da expressão referente ao sexo dos anjos é agora bem conhecido, a sua história começou há mais de dois mil anos. O Judaísmo acredita na existência de anjos (e.g. Livro do Genesis 16:9), e o Cristianismo também (recorde-se o caso do anjo que anunciou a gravidez de Maria), tal como o Islão (famosamente, foi o Anjo ou Arcanjo Gabriel que ditou uma mensagem a Maomé). Porém, nenhuma dessas religiões, entre muitas outras possíveis, alguma vez parece definir claramente o que é, ou não é, um “anjo”. Etimologicamente, o nome leva-nos à ideia de um mensageiro, mas sem que isso nos comunique muito mais sobre a sua identidade. Assim, essa falta de informação real sobre o tema levou os mais diversos pensadores dos primeiros séculos da nossa era ao tema.

Discutir o sexo dos anjos - origem, significado e história

Seria de supor, como é natural, que em dada altura alguém tivesse considerado a própria questão do sexo dos anjos, mas… se isso aconteceu, nunca lhe conseguimos encontrar qualquer referência significativa, ou algum grande trabalho sobre o tema. Nunca parece ter sido uma grande questão para qualquer uma dessas religiões! Em vez disso, autores como João Damasceno ou [Pseudo-]Dionísio, o Areopagita (que nada tem a ver com o deus do vinho) dão é a entender que os anjos, arcanjos e seres semelhantes são de uma substância incorpórea – trocando por miúdos, pura e simplesmente não tinham um género sexual.

 

 

Em vez disso, a expressão relativa ao “sexo dos anjos”, e uma outra, bem menos conhecida nas culturas portuguesa e brasileira (“Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete?”), é uma referência ao absurdo da cultura bizantina de meados do século XV. Segundo a lenda, enquanto os Turcos Otomanos lutavam pela posse de Constantinopla, e o último imperador fazia tudo o que podia para salvar a cidade (ainda nos chegou um discurso que se diz, sem grandes certezas, ter sido o último de Constantino XI Paleólogo), os grandes religiosos da cidade se sentavam num palácio, muito confortavelmente, a discutir estas questões completamente inúteis.

 

 

Não encontrámos qualquer fonte real para suportar a ideia de que isso tenha mesmo acontecido, e também não encontrámos qualquer outra em que seja verdadeiramente discutido aquele tal outro tema, o da dança dos anjos. Tratam-se de puras lendas, que, se associadas ao significado actual da expressão, até nos podem relevar um pouco mais sobre ela – não se refere apenas à discussão de temas qualquer espécie de importância real, mas sim ao facto desse debate ter lugar em circunstâncias nas quais se poderia e deveria estar a falar de algo muito mais importante. Como tal, ela nem sempre é empregue da forma correcta nos nossos dias, algo que esperamos que, agora, os leitores consigam corrigir…!

Os feriados nacionais de Portugal e suas histórias

Existem, neste momento, 14 feriados nacionais de Portugal, como é fácil descobrir online. Somente voltar a apontá-lo aqui teria muito pouco interesse, pelo que o tema de hoje se prende não com essas datas, mas com o significado por detrás dos respectivos feriados que lhes estão associados.

Os feriados nacionais de Portugal e suas histórias

1 de Janeiro – Muitas vezes conhecido apenas como o “Ano Novo”, este feriado é muito comum nas mais diversas culturas pelo mundo fora, quanto mais não seja para impedir que os celebrantes da noite anterior tenham de ir para o trabalho cheios de sono e/ou com uma enorme ressaca. Se vimos associados, aqui e ali, a este dia também uma tal “Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus”, a data não parece ser celebrada assim em Portugal, existindo outras datas que estão muito mais associadas a Nossa Senhora entre nós.

 

 

Carnaval – Já aqui falámos sobre a possível origem do Carnaval em Portugal, mas este é um feriado móvel, cuja data pode variar entre 3 de Fevereiro e 9 de Março, mediante a data (também variável) da Páscoa. Mas o que celebra, na verdade, hoje em dia este feriado? Ele é conhecido em virtude das celebrações, com disfarces e máscaras e tal, feitas em muitas cidades e vilas pelo país fora, mas não existe um evento histórico em particular ao qual esteja associado. Em vez disso, até a sua data móvel sugere que este feriado só existe para celebrar o início da Quaresma, e a ideia tradicional – hoje, já quase ninguém a parece seguir – de que durante esse tempo não se deveria comer carne. A ideia de que o nome desta quadra deriva de um suposto latim tardio “carne vale“, não parece ser real.

 

 

Sexta-Feira Santa – Também com data variável, mas celebrada sempre a uma sexta-feira (como o próprio nome já indica), pode calhar entre 20 de Março e 23 de Abril. Ela celebra a crucificação de Jesus Cristo, não como um evento de carácter negativo, mas pela ideia de esperança.

 

 

Páscoa – Já aqui falámos sobre esta origem da Páscoa, celebrada entre 22 de Março e 25 de Abril, e ele celebra, entre os Cristãos, a data da ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, menos de uma semana separa sempre o feriado anterior e este, mostrando a importância da religiosidade na cultura tradicional portuguesa.

 

 

25 de Abril – Celebra a chamada “Revolução dos Cravos”, que teve lugar em Portugal neste mesmo dia no ano de 1974. Muito poderíamos escrever sobre este feriado em particular, mas ele é essencialmente histórico, não se prendendo com o tipo de temas que normalmente abordamos por aqui, salvo raras excepções, como a da traição de Humberto Delgado.

 

 

1 de Maio – Celebrado como o “Dia do Trabalhador”, é provável que se trate de um feriado celebrado nesta data em Portugal por ela ter uma associação ao chamado “São José Operário”, que não é mais que o pai terreno de Jesus Cristo. Dada a associação dessa figura com a carpintaria, faz um certo sentido considerá-lo como o “trabalhador” por excelência.

 

 

Corpo de Deus (ou Corpus Christi) – Mais um feriado de data móvel, celebrada entre 21 de Maio e 24 de Junho, só por esse carácter se depreende, automaticamente, mais uma associação à Páscoa. É, de facto, celebrada 60 dias depois, e tem por objecto o próprio corpo de Cristo, tal como ele é considerado existir na hóstia consagrada da comunhão. De onde vem toda a ideia? De um milagre que tomou lugar em Itália, por volta de 1263-1264, em que uma hóstia sangrou, como também aconteceu no nosso Santíssimo Milagre de Santarém.

 

 

10 de Junho – Celebrado como “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, pelo facto de Luís de Camões ter falecido a 10 de Junho de 1580. Podendo ele ser considerado o maior de todos os autores de génese portuguesa, esta associação faz algum sentido, como uma espécie de celebração da portugalidade.

 

 

15 de Agosto – É o chamado “Dia da Assunção de Nossa Senhora”, pelo facto de se acreditar que foi nele que a Virgem Maria subiu aos céus. Ou seja, para quem perceber menos destes temas, as várias religiões cristãs não acreditam que Maria, mãe de Jesus Cristo, tenha falecido, mas sim que ela foi levada para os céus ainda em vida, quando já era mais idosa, e por isso, se ainda existem locais celebrados como a casa de Santa Maria, em nenhum local se diz que ela faleceu.

 

 

5 de Outubro – Chamado o “Dia da Implantação da República”, por ter sido nesta data que a monarquia acabou em Portugal, no ano de 1910. É uma data puramente histórica, não nos competindo, portanto, dizer muito mais sobre ela.

 

 

1 de Novembro – O “Dia de Todos os Santos”, no qual são celebrados, tradicionalmente, os muitos santos e mártires do Cristianismo. Talvez seja daí que vem a ideia de se ir muito ao cemitério nesta data, como que se subentendendo que os outros falecidos também são dignos de nota. Se lemos, aqui e ali, notas a dizer que nesta data se recorda o Terramoto de Lisboa de 1755, isso não é bem verdade, apesar do horrendo evento ter tomado, de facto, lugar nesse mesmo dia, quando as pessoas até estavam a assistir à missa celebratória do mesmo. Essa coincidência teve algumas implicações filosóficas interessantes, incluindo para autores como Voltaire.

 

 

1 de Dezembro – O “Dia da Restauração da Independência”, por ter sido nesta mesma data que em 1640 terminaram décadas de ocupação castelhana do nosso território, depois do desaparecimento de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir.

 

 

8 de Dezembro – Feriado associado à Imaculada Conceição. Foi instituído por ordem de D. João IV em 1646, por considerar esta figura como a derradeira rainha de Portugal. Mas o dia, em si, celebra a ideia de que também a própria Virgem Maria foi concebida sem pecado; não é claro se o foi nesta data, ou se depois nasceu nela, mas pelo menos o dia está associado com esse evento.

 

 

25 de Dezembro – Provavelmente o mais famoso de todos os feriados nacionais de Portugal, é este o Dia de Natal, em que se diz que Jesus Cristo veio ao mundo na carne. Sabe-se que a data foi escolhida com base na da Saturnália dos Romanos, não existiu qualquer outra, celebrada hoje em dia, que se suponha que foi a data em que ele nasceu verdadeiramente.

 

 

Em suma, os feriados nacionais de Portugal não são apenas dias assinalados no nosso calendário, e nos quais não temos de trabalhar. Cada um deles encerra séculos de história, tradições religiosas ou conquistas sociais que ajudam a compreender melhor a identidade do nosso país. Do simbolismo cristão da Páscoa e da Assunção de Nossa Senhora à memória coletiva do 25 de Abril ou da Implantação da República, cada feriado é uma oportunidade de refletir sobre aquilo que moldou – e continua a moldar, até certo ponto – a nossa cultura portuguesa. Talvez por isso, mais do que simples dias de descanso, estes momentos sejam verdadeiros pontos de encontro entre passado e presente, onde a memória histórica se cruza com a vivência do quotidiano.

A Bruxa da Arruda, uma figura (quase) esquecida

O tema de hoje não estava planeado, mas surgiu de uma referência a uma Bruxa d’Arruda numa conversa do dia-a-dia. Não é propriamente uma figura muito evocada nos nossos dias, excepto se viverem nas imediações de Arruda dos Vinhos, a cerca de 35 Km de Lisboa, mas há cerca de um século era uma figura muito conhecida em território nacional. Há quem diga que ainda é conhecida em terras do Brasil, juntamente com a Bruxa Évora e outras figuras semelhantes. Mas, na verdade, passado mais de uma centena de anos, o que ainda se sabe sobre ela?

A Bruxa da Arruda ou d'Arruda, uma figura (quase) esquecida

Infelizmente, a resposta não é tão prolífica como se poderia crer. Sabemos que esta figura existiu mesmo, porque ela foi mencionada em artigos de jornal e um médico que em dada altura escreveu a José Leite de Vasconcelos lhe menciona alguns dados biográficos. Chamava-se ela, em finais do século XIX e inícios do XX, Ana Loura (ou Loira), e chegou a ter 19 descendentes, cinco das quais parecem ter seguido as mesmas artes, de “curar gente e adivinhar coisas”. Isto se sabe ser mesmo verdade, mas o problema, como muitas vezes em situações desta natureza, é que depois se constroem muitas fantasias com base no que se sabe. Neste caso, por exemplo, diz-se então que esta Ana Loira era uma das mais recentes herdeiras de uma enorme sequência de bruxas, que data de tempos imemoriais… mas será mesmo verdade?

 

 

Duas grandes lendas lhe aparecem associadas – na primeira, diz-se que esta Bruxa da Arruda curou a filha de um médico de Setúbal. O pai não conseguiu fazê-lo, mas esta mulher, tomando para si a jovem durante três dias, fê-la jejuar, e depois… diz-se que lhe saiu uma espécie de cobra da boca, curando-a de uma vez por todas.

 

Uma outra lenda – porque, nestas coisas, os limites da verdade e da ficção nunca são fáceis de discernir – fala de outra jovem doente. Com a ajuda desta Bruxa d’Arruda, os pais dela conseguiram encontrar um sapo com uma boca cosida debaixo da cama, e quando o libertaram, a menina lá se curou, por “magia”.

 

 

O estranho destas duas histórias é que elas correspondem mais ou menos ao ideal de magia de finais do século XIX e inícios do XX, conforme pode ser visto em diversos outros livros. Isso pode dar a entender que estas histórias até têm, de facto, algum fundo de verdade, mas sem que isso o ateste por completo – na verdade, podem tratar-se apenas de criações por parte de pessoas que conheciam bem o imaginário da feitiçaria da época.

 

É neste sentido que encontrámos um livro digno de nota. Aparentemente publicado em inícios do século XX, uma obra de título Manual da Bruxa d’Arruda: Thesouro Precioso de Feiticeria nada revela sobre a figura que lhe deu título, mas é uma mera compilação da magia, como ela era pensada nessa altura. Contém sequências como as seguintes:

 

 

Para qualquer se tornar invisivel
Mata-se um gato todo preto. Coloca-se uma fava em cada olho, uma em cada ouvido e outra na boca e enterra-se o gato em sitio só conhecido da pessoa que faz esta operação.
Rega-se a terra de 15 em 15 dias. O gato, como é natural, apodrece, e as favas hão-de germinar e produzir cinco hastes que se deixam crescer, cultivando-as até que produzam. Colhe-se então uma fava de cada pé e guardam-se fechadas em uma caixa, durante 7 dias e 7 noites. Na última noite, ao dar meia-noite, collocai-vos defronte de um espelho e metei as 5 favas na boca, uma por cada vez. Quando virdes desaparecer a vossa figura do espelho, a fava que tiverdes na boca é a que tem a virtude de vos tornar invisível e que deveis guardar preciosamente. De cada vez que vos queirais tornar invisivel, metei essa fava na boca e pessoa alguma vos verá.

 

(…)

 

Receita para obrigar a mulher que nos pertence a dizer o que sentir
Obtém-se o coração de um pombo preto e a cabeça de um sapo. Colocam-se em uma vasilha de barro refractário e levam-se ao lume. Depois de consumidos pelo fogo, aproveitam-se as cinzas que se reduzem a pó, misturando lhes um pequenino grão de almiscar. Guarda-se tudo em um pequenino saco, que se coloca debaixo do travesseiro da pessoa que se deseja interrogar. Pouco tempo depois de ter adormecido, começará a falar. É então que se deve interrogar. Logo que tenha respondido, tira-se o saquinho e guarde-se.

 

 

 

Será que estas coisas funcionam? Não lhes encontrámos qualquer ligação real com as intenções da Bruxa da Arruda em “curar gente e adivinhar coisas”, até por se tratarem de exemplos de magia negra – note-se a necessidade de causar a morte a animais – sugerindo um reaproveitamento da fama do nome desta figura arrudense. É uma prática que talvez, nessa altura, ainda não fosse ilegal, mas que hoje poderia constituir uma violação de marca registada.

 

 

Outra obra, Guia Prático da Bruxa D’Arruda, é muito mais recente (acedemos-lhe numa reimpressão de 2019), e apresenta uma compilação de provérbios, rezas e ideias populares associadas à magia, que foram sendo compiladas por Catarina Gaspar, Jorge da Cunha e Paulo Câmara. É uma obra interessante, que num dos primeiros capítulos até fala um pouco da tal bruxa, mas nada de substantivo conta sobre ela, assim também reaproveitando o nome… mas aqui talvez de uma forma um pouco mais legítima, já que o livro, em si, foi editado pelo Município de Arruda dos Vinhos, nas proximidades de onde se diz que esta senhora vivia.

 

 

Mas então, o que se sabe, verdadeiramente, sobre esta Bruxa da Arruda? Muito pouco, quase nada, como demonstrado pelo facto de mesmo obras que ainda portam o seu nome quase nada nos informarem sobre ela. Ela existiu, sem quaisquer dúvidas, mas é provável que nunca ninguém tenha tentado saber muito sobre o seu passado, como ainda hoje acontece no caso de figuras como o Bruxo de Fafe. Quem não acredita nelas nunca se dá ao trabalho de as estudar, quem nelas acredita nunca as questiona, e portanto… Apesar de quase esquecida, a figura da Bruxa d’Arruda faz parte de um património imaterial português, que importa resgatar para não seja completamente perdida.

 

 

P.S.- Posteriormente, encontrámos uma breve mas significativa referência a esta mesma figura em A Villa da Ericeira, de G. Pereira, obra datada de 1905. Diz o seguinte:

 

 

“A bruxa da Arruda, —A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos ouros. Tem uma filha que já entende de moléstias. Em geral leva 300 reis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calor, e no sítio do corpo. Ouvi também chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos. Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ela pelo cheiro conhece a moléstia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da vila, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venera e teme.Já teve questões com padres e médicos, já foi aos tribunais, me disse alguém, e ficou sempre victoriosa!”