Encerramos o ano de 2025 com um artigo dedicado a todos os que apreciam mistérios. Falamos então das Cifras ou Papéis de Beale, com data de finais do século XIX, mas que após um século ainda não foram completamente resolvidas.
Começando pela sua história muito resumida (mais detalhes podem ser lidos na obra The Beale Papers, datada de 1885), conta-se então que em inícios ou meados do século XIX um tal Thomas J. Beale, juntamente com outros companheiros, encontrou uma mina riquíssima no estado americano do Novo México ou da Virgínia. Essas riquezas foram levadas para um local seguro, e o tal senhor criou três cifras relativas a ela – uma primeira, contendo a localização do tesouro; uma segunda, com a descrição do mesmo; e uma terceira, na qual eram descritos os legítimos donos do tesouro.
Depois, diz-se que esse Thomas J. Beale deixou uma misteriosa caixa a um dono de uma estalagem de nome Robert Morriss, dando-lhe diversas instruções, inclusive que só poderia abrir a caixa se ninguém a viesse buscar durante uma década. Só passados quase 20 anos é que a caixa foi aberta, e no seu interior foram encontradas três cifras… que Morriss não conseguiu decifrar, mas que um amigo, anónimo, decifrou apenas parcialmente. Então, descobriu que a segunda dessas três cifras dizia o seguinte:
I have deposited, in the county of Bedford, about four miles from Buford’s, in an excavation or vault, six feet below the surface of the ground, the following articles, belonging jointly to the parties whose names are given in number 3, herewith:
The first deposit consisted of one thousand and fourteen pounds of gold, and three thousand eight hundred and twelve pounds of silver, deposited November, 1819. The second was made December, 1821, and consisted of nineteen hundred and seven pounds of gold, and twelve hundred and eighty-eight pounds of silver; also jewels, obtained in St. Louis in exchange for silver to save transportation, and valued at $13.000.
The above is securely packed in iron pots, with iron covers. The vault is roughly lined with stone, and the vessels rest on solid stone, and are covered with others. Paper number 1 describes the exact locality of the vault, so that no difficulty will be had in finding it.
Visto que este documento menciona os outros dois, que ainda não foram decifrados, faz todo o sentido mostrá-los aqui, na sua forma original:

O que quer isto dizer? Com base no suposto deciframento da segunda cifra (que não incluímos aqui), sabemos que cada um destes números se refere à primeira letra de uma palavra num qualquer documento. Imagine-se, por exemplo, que o documento em questão era Os Lusíadas – o número 1 corresponderia à letra “A[s]”, o 2 também à letra “A[rmas]”, o 3 à letra “E”, o 4 a “O[s]”, e assim por diante. A segunda cifra foi resolvida com base na Declaração da Independência Americana – portanto, resolver este mistério passa “somente” por encontrar pelo menos um outro texto, publicado nos EUA antes de 1821, cuja primeira letra das palavras permitam criar um texto conexo e inteligível com os números acima. Qual é ele… ainda ninguém parece saber. Fica, portanto, o convite aos leitores sem nada para fazer que tentem decifrar os dois documentos mostrados acima!
Para todos os outros, ou até para quem tiver mais que fazer da sua vida, uma questão impõe-se – será isto verdade? Será que as Cifras ou Papéis de Beale conduzem, de facto, a um enorme tesouro, que parece estar avaliado em mais de 50 milhões de dólares americanos? Os leitores são convidados a ter a sua própria opinião, mas acreditamos que tudo isto é apenas e somente um grande logro. Pensamo-lo com base num elemento fulcral.
É estranho que a única cifra que foi resolvida se trate da menos importante para encontrar o tesouro, mas da mais importante para aguçar o apetite dos leitores. É demasiado conveniente, mas também um tanto ou quanto irrealista – se os três documentos se destinavam a possuidores da chave para a cifra, eles podiam simplesmente lê-los a todos, não existindo qualquer necessidade de se dizer algo como “os nomes estão na terceira cifra” ou “a primeira descreve a sua localização exacta”. De um ponto de vista literário, essas são palavras destinadas apenas e somente a quem saiba revelar o conteúdo da segunda cifra, mas de nenhuma das restantes… como, de facto, parece ter acontecido!
A grande questão é… onde começa e acaba a verdade e a mentira em todo este caso das Cifras ou Papéis de Beale? Será que Thomas J. Beale, Robert Morriss, ou o suposto “decifrador” anónimo existiram mesmo? Ou, se tudo isto é um mero logro, como supomos, qual seria o grande objectivo do seu perpetrador? Mera publicidade a um determinado local, especialmente tendo em conta que se diz que Robert Morriss tinha sido um estalajeiro? Ou a mera intenção de enganar, de ver quem caía na patranha, dado o gosto intemporal da humanidade por tesouros escondidos?
No fim de contas, talvez o verdadeiro “tesouro de Beale” não esteja escondido sob as pedras do estado americano da Virgínia, mas sim nas histórias que continua a inspirar. Um enigma que atravessa séculos, confundindo criptógrafos, aventureiros e sonhadores – e que, quem sabe, ainda aguarda o olhar certo para ser desvendado. Seja mito, fraude ou mistério genuíno, estas Cifras de Beale lembram-nos de algo essencial: o fascínio humano pelo desconhecido é, em si mesmo, o ouro mais difícil de encontrar.

