Os Chineses comem carne humana?

Uma curiosa lenda urbana, com menos de umas décadas de existência, diz que os Chineses comem carne humana. Supostamente, e segundo dizem essas más-línguas, eles pegam nos membros mais velhos das suas famílias e, quando estes acabam por falecer, cozinham-nos. Uma variante, com uma notória intenção de difamar os restaurantes chineses, dizem que eles são mais baratos porque cozinham cão, gato, baratas, lagartixas, etc. Mas será que tudo isto tem algum fundo de verdade?

Os Chineses comem carne humana?

Em relação ao primeiro ponto, já cá contámos uma história de antepassados chineses. Caso não tenha ficado totalmente claro nessa altura, a cultura chinesa ainda pratica, de uma forma significativa, um culto dos antepassados, pelo que a ideia de consumirem o corpo de um avôzinho seria, para eles até muito mais do que para nós, completamente abominável.

Deixando então e já de lado essa estranha possibilidade sugerido pela lenda urbana, será que os Chineses comem carne humana, como se sabe – é verdade – que consomem a carne de muitos outros animais?

 

Responder a isso implica explicar um aspecto importante da cultura chinesa. Se sabemos, sem qualquer dúvida, que os Chineses tendem a comer carnes exóticas – bastará recordar-se até um dos mitos sobre a origem/criação do Coronavírus – há que esclarecer que normalmente não o fazem pelo sabor das mesmas, mas por todo um conjunto de características que na sua cultura são associadas a esses animais. Como em Portugal se pensa, por exemplo, que comer cenouras faz os olhos bonitos, ou que o porco é um animal sujo, também em terras da China existem um conjunto de associações aos diversos animais, tanto reais como mitológicos, que podem ser vistas em obras como o Clássico das Montanhas e dos Mares (山海经), uma obra muito interessante que é um misto de Geografia e bestiário. Nesse sentido, mesmo que comessem toda a espécie de animais para nós estranhos, só o fariam porque, na sua cultura, esse animal tem alguma conotação positiva – o que não é, tanto quanto conseguimos apurar, o caso das baratas ou dos seres humanos.

 

Mas, relembre-se, não é isso que diz a lenda urbana. Diz é que os Chineses podem servir nos seus restaurantes essas comidas, consideradas para nós “exóticas”. O que é certamente possível, admita-se que sim, mas também é possível que qualquer outro restaurante, independentemente da sua nacionalidade, o faça. Ainda há poucos anos foi encerrado um restaurante (português) na zona de Sintra porque servia MESMO o proverbial “gato por lebre”. Nesse sentido, não há qualquer prova real de que os restaurantes chineses o façam mais, ou menos, do que quaisquer outros.

 

Tudo isto se tratam, então e somente, de puras lendas urbanas, sem qualquer dúvida. Não é correcto afirmar que os Chineses comem carne humana, tal como não é absolutamente certo que os restaurantes de Portugal não sirvam, igualmente a bem do vil metal, carne humana ou de animais menos próprios. Tudo depende dos escrúpulos dos seus proprietários, independentemente da sua nacionalidade.

Onde está a Excalibur?

O seu nome é indubitavelmente famoso dos romances medievais, mas quem nunca se interrogou onde está a Excalibur, a famosa espada do Rei Artur, nos nossos dias de hoje? Poderia pensar-se que se trata de uma mera ficção, que esta arma – e, potencialmente, até o seu conhecido portador – nunca existiram verdadeiramente, mas o mais curioso é que existem outros exemplos de espadas medievais famosas que ainda podem ser vistas nos nossos dias.

A Durandal de Rolando - mas onde está a Excalibur?!

Por exemplo, a espada que se diz ser a de Rolando, a Durandal (ou Duridana) do herói do poema épico medieval La Chanson de Roland, pode ser vista na comuna francesa de Rocamadour, e até há uns anos estava presa numa fenda de uma rocha (a corrente que a prenda seria, obviamente, posterior). Diz a lenda que foi o próprio herói que a atirou para lá, com as suas últimas forças, poucos instantes antes de falecer – ainda a vimos há uns anos, mas segundo lemos agora já foi levada para um museu, o que faz perder um pouco do seu charme e encanto original.

No mesmo país, a Joyeuse, a espada lendária do Imperador Carlos Magno, também pode hoje ser vista no Museu do Louvre.

 

Em Espanha, dizem as lendas que El Cid, herói de um famoso épico com o seu nome, possuiu duas espadas famosas, a Tizona (ou Tizón) e a Colada. Desconhecemos a localização da segunda, se ainda existir, mas a primeira pode, hoje, ser vista num museu na cidade espanhola de Burgos.

Já em Portugal, a espada de Afonso Henriques, cuja lenda não nos parece preservar nenhum nome mais específico, diz-se estar no Museu Militar do Porto, mas não tivemos a oportunidade de o confirmar pessoalmente.

 

Apesar de serem, todas elas, espadas lendárias, a história não reza que tenham qualquer espécie de poderes especiais, como é comum naquelas que recebem este tipo de designação em jogos de computador. O seu factor lendário vem não de uma qualquer característica especial que possam ter, mas da identidade do mais famoso dos seus possuidores – de forma semelhante, mesmo que a Excalibur fosse encontrada, é provável que se tratasse de uma espada como qualquer outra, com a excepção do filho de Uther Pendragon a ter possuído anteriormente.

 

Mas então, onde está a Excalibur? Onde pode, agora, ser ela encontrada? Quem tiver lido os romances medievais com alguma atenção já saberá que a espada do Rei Artur foi forjada em Avalon, mas após o final das aventuras do herói acabou por ser depositada no mesmo lago em que, por magia, lhe tinha sido confiada anteriormente pela misteriosa Dama do Lago. Talvez ainda esteja por lá… ou já pode ter sido recuperada, se tivermos em conta que uma menina de sete anos encontrou uma espada no local em 2017 (a notícia pode ser lida aqui); se era mesmo a famosa arma de Artur, ou não, não temos forma de o saber, mas em caso negativo é provável que esse lago no sul de Inglaterra ainda seja um bom ponto de partida para a conseguir reencontrar…

As lendas de Cacareco e Boston Curtis

Face à dificuldade de encontrar um tema para o dia de hoje decidimos então escrever sobre as lendas de Cacareco e Boston Curtis. Na verdade, talvez até nem seja correcto chamar-lhes “lendas”, já que são ambas histórias completamente reais, que aconteceram mesmo e sem qualquer margem para dúvidas, mas que se fossem relidas daqui a alguns séculos certamente suscitariam as maiores suspeitas sobre a sua veracidade.

Cacareco (já iremos a Boston Curtis)

Começando então por Cacareco, esta rinoceronte fêmea foi, no já-distante ano de 1959, eleita com votos de protesto para as eleições municipais de São Paulo, no Brasil – e ganhou, tendo recebido mais de 100 mil votos dos eleitores locais! Infelizmente nunca tomou posse, por razões que nos parecem mais que óbvias, mas algumas décadas mais tarde, em 1988, os Brasileiros votaram em protesto no Macaco Tião para Prefeito do Rio de Janeiro – aí, o animal aparentemente recebeu mais de 300 mil votos, mas já não foi o suficiente para conseguir ganhar…!

Caso estejam curiosos sobre como tudo isto foi possível, convém explicar que nessa altura os votos eram realizados escrevendo o nome pretendido para a vitória numa folha de papel, pelo que, na prática, se poderia votar em qualquer pessoa, animal, ou objecto inanimado. Depois da (absolutamente desapontante) derrota do Macaco Tião, a situação lá foi rectificada – desconhecemos se os dois eventos estão relacionados – para que as pessoas não pudessem tornar a votar em candidatos “extra”.

 

Mas uma situação muito semelhante teve lugar nos Estados Unidos da América alguns anos antes, em 1938, quando Boston Curtis ganhou umas eleições locais por 51 votos. Isto nada teria de especial, não fosse o facto do candidato vencedor se tratar de uma mula, inscrita nas eleições para provar que as pessoas votam mesmo quando nem sabem muito bem em quem estão a votar. Reza a história que ela até assinou diversos documentos legais com um dos cascos, mas não conseguimos obter confirmação de que alguma vez tenha tomado posse.

 

Será que alguma situação como estas alguma vez tomou lugar em Portugal? Não conseguimos encontrar uma resposta positiva a isso, mas talvez ali a autora de O sal da história saiba a resposta – o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que devem existir animais no nosso país que fariam melhor figura do que determinados políticos que vemos na televisão todos os dias. Para quando, um Cacareco ou Boston Curtis nacional?

A esposa de Deus existiu mesmo?

Hoje em dia, mesmo numa cultura eminentemente católica como a portuguesa, poderá parecer estranho falar-se de uma esposa de Deus. Quando pensamos nessa ideia, normalmente associamos o título ou ao Espírito Santo (como uma espécie de parte feminina do divino), ou a Santa Maria. No entanto, já existiu um tempo em que Deus teve uma consorte, uma mulher ou esposa, que o acompanhava no reino dos céus. Mas o que lhe aconteceu? Será mais um daqueles supostos casos em que o sempre malvadíssimo Patriarcado decidiu esconder isto muito bem escondidinho, para fazer de um deus masculino o senhor supremo de tudo o que existe, enquanto assobia para o lado e diz “deusa? Que deusa? Não conhecemos nenhuma, só existe uma divindade neste mundo e é do sexo masculino”…?

Aserá, a esposa de Deus

Quem ler a Bíblia com muita atenção poderá notar que o Antigo Testamento foi compilado através do cruzamento de pelo menos duas fontes de informação distintas. A forma mais fácil de as distinguir é através do nome associado à figura divina, i.e. Javé, El ou Elohim. Se os textos em Português traduzem os três sempre da mesma forma, pura e simplesmente como “Deus”, dando a entender (falsamente) que se tratam de uma só e mesma entidade, originalmente eles referiam-se a figuras diferentes. É difícil saber que características individuais cada uma delas tinha antes deste sincretismo, mas lendo o texto de uma boa tradução com algum cuidado poderão ser encontrados momentos como estes:

Não colocarás um poste de madeira para Aserá junto ao altar do Senhor Teu Deus.
— Deuteronómio 16:21

Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha para fazerem bolos à Rainha dos Céus (…)
— Jeremias 7:18

Manassés fez uma estátua de Aserá e colocou-a no templo [de Deus] (…)
— 2 Reis 21:7

Assim, mesmo deixando de lado qualquer potencial controvérsia relativa aos nomes da grande figura divina judaica e cristã, é fácil ver que ela já esteve ligada a uma deusa chamada Aserá (que alguns dizem também ser Astarte), conhecida sob o título de “Rainha dos Céus”, a criadora dos Mares (e assim se explica a existência inicial das águas mesmo no Livro do Génesis), que era venerada sob a forma de um poste (ou tronco) antropomórfico, como pode ser visto na imagem acima. Existem quase 40 referências directas ao nome dela no Antigo Testamento, que em comum revelam duas coisas – que ela estava de alguma forma relacionada com o deus (agora) judaico, e que essa antiga relação amorosa tinha de desaparecer (“destruam as estátuas, os postes sagrados de Aserá” é uma ideia bastante repetida no texto bíblico). Contudo, nos fragmentos de um píthos do século VIII antes de Cristo, encontrado há menos de 50 anos, o casal ainda era referido lado a lado, mesmo que não o consigamos reconhecer, pela falta de informação que agora temos sobre ele e as suas aventuras – o que é claro é a existência clara de uma esposa de Deus, já que o deus e esta deusa são mencionados lado a lado!

Deus e a sua mulher, Aserá

Poderá então parecer, a uma primeira vista, que a nova intenção seria a de ocultar, de fazer esquecer, esta antiga esposa de Deus, que tinha sido a sua grande consorte, mas quem quiser ler as mesmas linhas sem esses preconceitos, ou fantasias como as demasiado associadas a Lilith, acabará por notar que esta tentativa não se prendia tanto com uma necessidade de atacar Aserá em particular, mas de criar um monoteísmo simplificando uma cultura que era originalmente politeísta. Naturalmente que isso implicava deixar cair algumas figuras divinas, entre as quais se contou esta mulher, não em virtude do seu género sexual, ou de ser em específico a esposa de Deus, mas porque, para parafrasear um famoso filme dos nossos dias, there could be only one. E esse papel acabou por caber a outra entidade divina, por razões agora completamente ignotas!

 

Desconhecemos, hoje, a totalidade das figuras divinas que foram sendo esquecidas neste mesmo panteão semita, mas é curioso que o texto bíblico nos preserve referências que só podem ser completamente compreendidas nesse contexto. Quando, por exemplo, os Judeus acreditam em 70 nações no mundo, que associam os filhos de Noé, originalmente esse número era atribuído aos descendentes do pai divino e de Aserá, todos eles deuses… que tiveram, depois, de ser despromovidos para se poder dizer que existia somente uma figura divina verdadeira. A religião tem destas coisas…

Porque brindamos com “Saúde”?

Imaginem-se numa festa de aniversário, e que alguém sugere fazer-se um brinde ao aniversariante – erguem-se os copos dos presentes e... porque brindamos com Saúde? Poderia pensar-se que isso se deve a uma intenção de desejar saúde a quem está a ser homenageado, mas então… porquê essa palavra em concreto, em alternativa a alguma outra mais geral, como “felicidades”?

Porque brindamos com saúde?

A resposta por detrás do porquê de brindarmos com Saúde  não seria fácil de descortinar, não fosse um elemento muito singular de todo o processo – é-nos também ensinado que nunca se deve brincar com água. Quem for inquirir sobre o porquê dessa exclusão, depressa lhe será dito algo como “isso dá azar”, uma explicação que é relativamente comum em circunstâncias nas quais já foi esquecida a razão pela qual um determinado ritual toma lugar. E qual é ela, afinal de contas?

 

Aparentemente, este ritual data de uma epidemia do século XIX, a da cólera. Nessa altura surgiu a ideia de que a água estava a contribuir para a disseminação da doença, e então os cidadãos em diversos países europeus foram aconselhados a beber algo que não essa bebida. Visto que a razão para o fazerem era a de assegurar a sua própria saúde, as pessoas começaram então a brindar sob a égide dessa palavra, como que dizendo, de uma forma muito tácita, que bebiam para seguir as recomendações médicas que lhes tinham sido passadas. No mesmo sentido, podemos também esclarecer que o facto de se brindar quase sempre com uma bebida alcoólica vem da mesma época, já que estas eram as bebidas que estavam mais acessíveis aos cidadãos de então.

 

Entretanto, essa epidemia lá foi passando, e a razão original pela qual brindamos com saúde foi sendo esquecida. Quem viu esse ritual a tomar lugar acabou por mantê-lo, talvez porque “não vá o Diabo tecê-las…”, mas o seu significado original perdeu-se progressivamente, gerando uma situação como a que temos nos nossos dias de hoje, em que se vai mantendo essa mesma tradição, mas em que também já são poucos os que a compreendem devidamente. Por isso, da próxima vez que brindarem a alguém, fica o convite de que lhes contem esta origem de um ritual dos nossos dias!