O Espiritismo é verdade?

Será que o Espiritismo é verdade? Para a maior parte das pessoas que conhecemos, a resposta a uma pergunta como essa é e será provavelmente um ressonante e indubitável “não, claro que não!” E isto porque, salvo algumas raras fraternidades e federações espíritas em Portugal, a crença nos espíritos não é muito comum por cá, apesar de ainda o ser bastante no Brasil (através dos ensinamentos de figuras como Allan Kardec e Chico Xavier), e em países como os EUA. Mas, mesmo que por cá não acreditemos muito nessas coisas, certamente que todos conhecemos – por exemplo, através de filmes ou de histórias literárias ficcionais – a realidade das sessões espíritas, em que várias pessoas se reúnem numa sala escura, de mãos dadas ou em cima da mesa, enquanto dizem comunicar com os espíritos dos falecidos.

Sessão Espírita - será o Espiritismo verdade?

É provável que a maior parte dos leitores nunca tenha experienciado uma coisa destas na primeira pessoa, mas face ao que vemos na televisão certamente que, pelo menos para alguns, a questão sobre a verdade do Espiritismo já lhes terá passado pela cabeça. E, nesse sentido, se a crença na possibilidade de comunicar com os espíritos já vem de tempos da Antiguidade – recordem-se, por exemplo, algumas das histórias de Flégon de Trales – o desenvolvimento de uma forma sistemática para esse contacto foi feito já no século XIX, dizendo-se muitas vezes que começou com Kardec, e as Irmãs Fox nos EUA (que, ironicamente, depois se vieram a provar fraudes). Agora, poderíamos escrever muito sobre tudo isto, mas para evitar repetições podemos dizer que existem dois bons livros que devem ser lidos por quem se interroga sobre estas coisas.

 

O primeiro deles é de Harry Houdini (sim, o famoso mágico). Ele tinha um fascínio com o Espiritismo, que até queria mesmo que fosse verdade e que pode ser visto em filmes como Death Defying Acts, mas depressa se deparou com um grande problema – por muito que quisesse acreditar, uma e outra vez só conseguiu encontrar charlatões que apenas queriam tomar proveito da fraqueza das pessoas. E então escreveu um livro chamado A Magician Among the Spirits, onde mostra que o Espiritismo é todo uma enorme fantasia. É um livro bastante bom, escrito quase em oposição à History of Spiritualism de Arthur Conan Doyle (de quem ele era amigo), em que até chega ao ponto de mostrar os vários estratagemas utilizados por aqueles que se dizem médiuns. É muito interessante, esta obra, mas a ser adquirida deve sê-lo numa edição com todas as fotografias (que, infelizmente, raramente são incluídas, possivelmente porque podem “chocar” alguns leitores mais sensíveis – ver um exemplo, retirado de outra obra, abaixo). Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

Um espírito do outro mundo

Outro livro interessante sobre este mesmo tema é Confessions of a Medium, de autoria anónima. Conta-nos a história, supostamente autobiográfica, de um céptico que passou a acreditar no Espiritismo, e que depois, ao longo do tempo e enquanto se ia envolvendo nessas artes, também se foi apercebendo que, afinal de contas, era tudo apenas uma enorme falcatrua. O livro chega até a contar como se fazem muitas das coisas ditas espíritas, entre elas as famosas mesas flutuantes e as aparições físicas. E deixa uma questão simbólica – e se… nem tudo for o que parece aos mais crédulos? Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

 

E o que dizer das obras de Allan Kardec? Numa delas – pensamos tratar-se do Livro dos Espíritos, mas já não temos cópias das suas obras connosco – o autor adverte que os espíritos são reais mas não se deve falar com eles, visto que podem mentir nas suas respostas apenas para obter a nossa atenção e admiração. Até aqui tudo bem, isso faz sentido, não fosse o facto de, pouco depois, o tema da mesma obra assentar precisamente em se fazerem perguntas repetidas aos espíritos… os mesmos que o autor nos disse que poderão estar a mentir. Irónico, não é? Como conseguir acreditar em algo assim?! Se, para este autor, o Espiritismo é verdade, o acesso aos espíritos apenas deve ser feito num ambiente muito controlado, sempre com o auxílio de aqueles que só têm a ganhar com uma suposta verdade de todos esses processos – estranho, não vos parece?

 

Face a conteúdos como todos estes, não podemos deixar de adaptar as palavras de Cícero num contexto muito semelhante – como é possível que dois espíritas não se riam, quando se cruzam na rua? Deveriam fazê-lo, se ambos sabem, naturalmente, que isto do Espiritismo é verdade apenas na frágil credulidade de pessoas mais desesperadas. Só que elas, infelizmente, não têm as capacidades de um Houdini para mostrar, uma nova vez, que tudo isto é falso, ilusório e uma mera fantasia.

Querem saber se o Espiritismo é verdade? A resposta passa por um teste simples – suponham que um familiar vosso faleceu. Suponham, igualmente, que lhe poderiam fazer uma só pergunta, muito concreta, à qual apenas ele próprio vos saberia responder. Que pergunta lhe fariam, nessa situação? E, honestamente, acham que uma pessoa que supostamente comunica com os espíritos saberia dar-vos essa mesma resposta, sem ter de andar a espiolhar a vossa vida (e as vossas redes sociais)? A resposta a essa potencial experiência deu-a Houdini, quando fez algo de semelhante – mesmo com a ajuda de incontáveis espíritas, ele jamais conseguiu obter a resposta que procurava, que a mãe ficou de lhe dar após a morte, denotando uma falsidade do Espiritismo que também é muito fácil de ver na obra anónima recomendada acima, como em algumas das obras de Kardec (que não recomendamos, de todo, até pela perda de tempo que são).

Por isso não se deixem enganar, o Espiritismo nada tem de verdade, é tão falso quanto a previsão do futuro pelas cartas de tarot e as seitas que prometem as maiores curas de todos os problemas da vida em troca de “um sacrifício” (sempre monetário, claro está)!

O mito da Magikarp

O tema de hoje, este mito da Magikarp,  poderá parecer um tanto ou quanto estranho excepto para quem já souber que as criaturas dos Pokémon não nasceram num completo vácuo. Um grande número delas – talvez até a maioria? Confesse-se que não fomos verificar todos os casos dos (agora) quase novecentos bonecos – nasceram de diversos mitos e lendas, em muitos casos provindas de países orientais. Poderíamos passar aqui umas boas horas a escrever sobre o tema, apresentando os mais diversos exemplos, mas decidimos focar-nos num único, especialmente emblemático das 151 criaturas dos tempos da nossa juventude.

O mito da Magikarp e Gyarados

Para quem não conhecer a Magikarp, no lado esquerdo na imagem acima, é uma criatura dos Pokemons quase inofensiva, que se limita a saltitar sem sequer causar algum dano real ao seu opositor. Mas, quando cumpre as condições para a sua evolução, depressa se torna num monstro muito feroz, o Gyarados, já capaz de rivalizar com alguns dos inimigos mais poderosos. Estranho, não é? Visto num vazio, esta poderá parecer uma transformação difícil de explicar, mas faz muito mais sentido a quem conhecer uma determinada lenda provinda da China.

A lenda da Carpa e a Porta do Dragão

Segundo essa lenda, na província chinesa de Hunan existe uma cascata que é conhecida como a “Porta do Dragão”, ou Lung Men. Se uma determinada espécie de carpa conseguir chegar até ela e, aos saltinhos que bem caracterizam a espécie, acabar por subi-la por completo, é dito que será magicamente transformada num dragão. Não sabemos se esse evento já alguma vez teve lugar, ou se algum dia o virá a ter, mas é apenas isto que nos diz a lenda.

O que é mais curioso é que, apesar de breve, esta lenda tem notavelmente vários elementos que a liga aos próprios Pokemons. Desde os saltinhos da Magikarp e a cor dessa criatura, até ao facto do Gyarados ser caracterizado especificamente como um dragão, é muito claro que o criador da figura estava bem familiarizado com o mito chinês. E, como neste exemplo, a que até podemos chamar o mito da Magikarp, existem muitos outros casos em que existe uma interrelação notória entre um mito, lenda ou adágio a uma qualquer criatura presente nos Pokémons – e.g. o Ho-oh é a Fenghuang chinesa, ou o Farfetch’d nasceu de um provérbio japonês, e quem quiser conhecer mais exemplos poderá fazê-lo neste artigo.

O que diz a Oração da Cabra Preta Milagrosa?

A Oração da Cabra Preta Milagrosa é quase certamente uma das mais famosas de determinadas edições do Livro de São Cipriano. É uma espécie de inovação introduzida em algumas dessas versões para lhe dar um valor adicional, para tentar justificar uma nova compra de uma obra que a pessoa até já poderá ter em casa, ainda para mais se acreditar nestas coisas da Magia. Mas o que diz esta oração, na verdade? E será que é verdadeira, que vem de tempos da Antiguidade, ou que foi apenas criada mais recentemente? O seu texto nem sempre é fácil de encontrar, pelo que o reproduzimos aqui, antes de nos focarmos brevemente no seu conteúdo:

Cabra Preta milagrosa, que pelo monte subiu, trazei-me (nome da pessoa), que de minha mão sumiu.

(nome da pessoa), assim como o galo canta, o burro rincha, o sino toca e a cabra berra, assim tu hás-de andar atrás de mim.

Assim como Caifás, Satanás, Ferrabrás e o Maioral do Inferno, que fazem todos dominar, fazei (nome da pessoa) se dominar, para me trazer cordeiro, preso debaixo do meu pé esquerdo.

(nome da pessoa) , dinheiro na tina e na minha mão não há de faltar; com sede, tu, nem eu, não haveremos de acabar; de tiro e faca, nem tu, nem eu, não há de nos pegar; meus inimigos não hão de me enxergar.

A luta vencerei, com os poderes da Cabra Preta milagrosa. (nome da pessoa), com dois eu te vejo, com três eu te prendo, com Caifás, Satanás, Ferrabrás.

A Oração da Cabra Preta Milagrosa

O que esta oração específica, também conhecida sob o nome mais simples de A Oração da Cabra Preta, tem de particularmente digno de nota é que não foi escrita por São Cipriano. Não pode tê-lo sido. E não pode tê-lo sido por uma razão muitíssimo simples – o nome de Ferrabrás é muito pouco frequente, e a alusão mais antiga que temos a ele é numa canção de gesta medieval, em que nomes estranhos como estes tendem sempre a abundar. Quem inventou esta suposta oração – e, admita-se, não sabemos quem foi – introduziu esse nome aqui pela sua rima com Caifás, figura bíblica, e com Satanás, o opositor de Deus e Jesus Cristo, mas parece desconhecer o seu significado original.

Além disso, quem for comparar esta Oração da Cabra Preta Milagrosa, ou feitiço mágico, ou o que preferir chamar-lhe, com outras produções presentes no mesmo livro – por exemplo, estes três feitiços de amor – depressa se aperceberá do quão diferentes são, e do quanto esta outra produção destoa no contexto geral de toda obra. Não é uma oração original, nem provém de São Cipriano, mas é, isso sim, uma falsa produção muito mais recente. E não, ela não tem quaisquer poderes reais para separar casais, para fazer ganhar dinheiro, não faz o amor voltar, não funciona mesmo, nem sofrerão quaisquer consequências estranhas pelo facto de a lerem, como muitos tendem a pensar e a dizer em depoimentos completamente falsos…

A origem de São Tomé e Príncipe

Continuando as origens dos nomes de países lusófonos, hoje falamos sobre a origem de São Tomé e Príncipe, um conjunto de duas ilhas – uma delas São Tomé, e a outra agora com o nome de Príncipe – localizadas no Golfo da Guiné. A que se devem estes seus nomes?

A Ilha de São Tomé

De uma forma que poderá parecer inesperada, são muito pequenas e rápidas as explicações por detrás de cada um dos dois nomes. Em relação à Ilha de São Tomé, o seu nome deve-se à data em que foi descoberta pelos Portugueses, 21 de Dezembro de 1470, num dia que estava associado a esse santo em particular, quase como também aconteceu no caso do Brasil. Na altura, a ilha estava vazia de qualquer ocupação humana, pelo que – para quem estiver curioso – nem faria sentido perguntar-se qual o seu nome entre os nativos.

A segunda ilha, bem mais pequena que a primeira, foi descoberta a 17 de janeiro de 1471, no dia de Santo Antão [do Deserto?]. Ou seja, aparentemente havia uma política portuguesa horizontal de dar ás ilhas recém-descobertas o nome do santo associado ao dia da sua descoberta. Mas, se assim o era, porque tem essa segunda ilha hoje um outro nome? Bem, diz-nos a história que algum tempo depois, quando o único herdeiro do Rei D. João II nasceu, este rei ficou tão feliz com a ocorrência que mudou o nome da Ilha de Santo Antão para o seu actual, dedicando-a assim ao seu amado filho e príncipe (que, infelizmente, viria a falecer pouco depois).

 

Assim se explica a origem do nome de São Tomé e Príncipe, uma origem com poucos mitos ou lendas mas fundada, essencialmente, em elementos histórias de alguma importância, e que ainda nos preservam parte de uma cultura nacional de outros tempos.

A previsão pelos sonhos no Livro de São Cipriano

Já cá falámos dos seus diversos feitiços, mas hoje queríamos falar da previsão do futuro pelos sonhos no Livro de São Cipriano. Se essa obra contém diversos rituais mágicos, também apresenta, aqui a ali, alguns estratagemas para a previsão do futuro, e um dos mais dignos de nota é o mecanismo de prever o que nos irá acontecer através do conteúdo dos nossos sonhos. A ideia não é nova (na verdade, até já cá falámos antes de uma obra de interpretação de sonhos muito mais interessante), mas neste livro a esta suposta arte é dado um carácter muito redutor, traduzindo quase todo o tipo de sonhos em previsões relativas a relações, dinheiro ou saúde.

Um rectângulo para ritual

Agora, seria difícil resumirmos por cá as várias páginas de indicações sobre os sonhos, pelo que indicamos apenas, e a simples título de exemplo, um elemento para cada letra do alfabeto:

[Sonhar com…] Abraços – traição, mau proceder, prazeres ilícitos.
Bandidos – fortuna adquirida em pouco tempo.
Cadáver – alegria e boa saúde, amizade.
Dançar – bom sucesso, ganho certo.
Eleição – a política nunca dá proveito (coff coff).
Faca – desunião, inimizade; duas em cruz, briga, morte.
Gago – um filho que será grande orador.
Harpa – felicidade destruída pela inveja.
Ignorância – estudar muito faz mal à saúde (coff coff).
Jardim – prosperidade próxima.
Lã – união de família, trabalho proveitoso.
Macaco – infidelidade, malícia.
Nabos – cura de doença, lucro em negócios.
Oculista – cegueira na escolha de afeições.
Padre – protectores interesseiros.
Quadro – amor pelas artes.
Rato – inimigo oculto.
Sangue – dores de cabeça, fortuna abundante.
Taberna – alteração na paz doméstica.
Uvas – lágrimas, má sorte.
Vinho – riqueza, saúde.
Xarope – saúde perfeita.
Zangão – amor sincero, casamento próximo.

Terminados estes pequenos exemplos, é possível ver, aqui e ali, alguma relação entre o próprio sonho e a realidade em que, supostamente, se nos deveria aproximar, mas tudo se prende, como já foi dito acima, em previsões relativas a relações, dinheiro ou saúde, que são normalmente as grandes áreas em que as pessoas tendem a recorrer às magias populares. E isso faz sentido – se as pessoas procuram por X, certamente que uma bruxa de sucesso lhes terá de o dar, sob pena de não ter muito sucesso…