O segredo do Unicórnio

Será que já conhecem o grande segredo do Unicórnio?

Há algum tempo vimos uma pessoa que tinha no seu perfil de uma rede social um pormenor de um conjunto de tapeçarias medievais que é conhecido sob o nome de La Dame à la licorne, ou seja, A Dama e o Unicórnio. Isso relembrou-nos que há anos que estamos para contar o que se segue.

Uma Dama com um Unicórnio (e outros animais)

Para quem ainda não o souber, o Unicórnio não é uma criatura estática. O Leão é sempre o rei dos animais, a Raposa é sempre muito traiçoeira, o Cordeiro é muito mansinho, mas já o Unicórnio – ou, se preferirmos dar-lhe outro nome dado o contexto de hoje, o Licorne – é um animal cujas características foram mudando ao longo dos séculos. Na Idade Média, por exemplo e como já cá dissemos uma vez, uma representação muito vulgar é a desta criatura a ser abraçada no regaço de uma dama, enquanto que um caçador lhe dá um golpe mortal. É uma representação que faz algum sentido, porque na época se acreditava que apenas as mulheres virgens podiam capturá-lo. Mas nem sempre assim o foi – pelo menos um autor dizia que os homens poderiam fazê-lo se se disfarçassem muito bem (numa espécie de travestismo de outros tempos), e depois se ungissem com todos os melhores cheiros acessíveis aos seres humanos. E esta ideia, por estranha que nos pareça, permite-nos compreender uma existência sequencial de pelo menos três formas de um mesmo animal:

 

  • Já existia, pelo menos em tempos da Pérsia Antiga, a ideia de um animal semelhante ao cavalo mas com cornos. Dizemos cornos, no seu plural, porque ele tendia a ser representado de perfil, sendo difícil de saber se apenas tinha um ou já vários, mas a localização do único corno visível parece indicar o segundo caso;
  • Foi-se gerando, mais tarde, a ideia de que apenas as mulheres podiam amansar e capturar esta criatura, que se pensava ser muito brava. Não sabemos precisamente de onde veio essa ideia, mas é repetida por diversos autores pagãos;
  • Já na época cristã é que surgiu a ideia de que a captura do animal estava ligada à própria virgindade de uma mulher. Novamente, desconhecemos de onde vem essa inovação, mas muitas vezes é estabelecido um paralelismo entre a história do animal e a pureza perpétua da Virgem Maria.

 

Talvez seja esse o estranho segredo do Unicórnio medieval, um segredo como o que se esconde nas tapeçarias mencionadas acima. Na última da sequência de seis, que até reproduzimos parcialmente acima, a dama pode ser vista em frente a um pequeno pavilhão onde está escrito À mon seul désir, algo como “pelo meu próprio desejo”. A frase pode ter mil significados diferentes, até dado o seu contexto, mas podemos ligar a ideia ao animal central dizendo que essa sua mansidão – veja-se que o equídeo até está numa pose de submissão, acompanhado por um feroz leão numa pose semelhante – apenas podia ser obtida por uma dama que pelo seu próprio desejo se mantivesse virgem. Seria toda a história deste animal, já em tempos da Idade Média, uma estranha metáfora para algo que não podemos repetir aqui?

 

Ou seria, de um modo mais geral, o estranho segredo do Unicórnio medieval o facto de ele se tratar de uma espécie de fantasia, de papão, perpetuada para incentivar a virgindade das jovens das classes altas da altura? Não sabemos se sim ou se não, mas a verdade é que quando pensamos neste animal nos nossos dias, já não o fazemos com qualquer conotação moral. O Licorne, ou como quisermos chamar a este animal, é agora uma criatura supostamente muito rara, em alguns momentos até associada à pureza dos tempos de criança, mas já não parece ter qualquer conotação mais moral, numa espécie de quarta existência da figura, que se segue às três de que falámos acima. E talvez seja melhor que assim o seja, porque uma criatura sempre tão bela não merece ser morta nem conspurcada como a que Marco Polo diz ter visto nas suas viagens, quando a confundiu com um rinoceronte que chafurdava na lama…

Sobre os lendários Cedros do Líbano

Dado o que se passou recentemente no país em questão, achámos que poderíamos contar uma pequena curiosidade bem relacionada com esse país, uma espécie de lenda que nos fala sobre os Cedros do Líbano.

Um cedro do Líbano

O que vêem na imagem acima? Para a maior parte das pessoas a resposta poderá até ser “uma árvore”, mas é, mais precisamente, um cedro. O que estas árvores têm de especial é o facto de ao longo dos séculos terem obtido um estatuto de enorme fama, ao ponto de diversas histórias antigas se referirem aos lendários Cedros do Líbano. Apenas para dar dois exemplos, a grande floresta destes cedros, no Líbano, foi o palco do famoso confronto de Gilgamesh com Humbaba, e a enorme beleza destas árvores é mencionada mais de uma centena de vezes na Bíblia cristã; numa delas, de um homem muito amado é até dito algo como “a sua aparência é como o Líbano, [ela é] excelente como os seus cedros” (Cântico dos Cânticos 5:15). Isto, naturalmente, pode levantar uma questão – o que têm de especial estes lendários Cedros do Líbano?

 

Há já alguns anos uma pessoa que viveu nesse país deu-nos uma resposta sucinta – são uma espécie de melhores cedros do mundo, cuja qualidade supostamente ultrapassa a de todos os outros. Não sabemos, admita-se, como se avalia essa suposta qualidade de uma árvore, seja esta ou qualquer outra, mas diz a tradição que se precisarem de madeira de um cedro, estes são os melhores que poderão encontrar (e por isso quase que já se extinguiram, mas isso já são outras histórias…). E assim, com esta pequena curiosidade, deixamos aqui um pequeno voto de apoio para o Líbano dos cedros e das pessoas que lá vivem…

O Coelho na Lua Cheia

A pergunta pode parecer pouco vulgar, mas nunca viram um coelho na Lua Cheia?

O que esconde a Lua Cheia? Existe um coelho na lua?

Esta noite, olhando para o céu, poderão conseguir ver uma belíssima Lua Cheia, como a da imagem acima. Os mais atentos, ou imaginativos, poderão até olhar para ela e aperceber-se da presença de uma misteriosa figura na sua face. Que figura é essa? A resposta depende muito da cultura em que foram criados – alguns vêem lá as silvas que um homem foi cortando, outros falam da história de um Wu Gang, e assim por diante. Mas a opinião de hoje vem de diversas culturas orientais, e diz que a figura que pode ser vista na Lua Cheia é nada mais, nada menos, que um leporídio, possivelmente um coelho ou uma lebre. Olhando para a imagem acima, poderão ver o animal com as duas orelhas do lado direito e o seu corpo curvado em redor do centro. Ou no lado direito, acompanhado por um sapo (que estaria do lado esquerdo). Mas então, que lendas transportaram este Coelho para a Lua Cheia?

 

São várias as possibilidades, constantes em relatos lendários chineses ou em obras como as Jatakas indianas, mas no geral têm em comum o facto de dizerem que este animal foi colocado na Lua devido às suas boas acções. Em algumas histórias ele deu a sua vida por alguém que precisava; noutras, acompanha a deusa Chang’e e prepara um licor da imortalidade. Ou seja, se nas histórias que cá relatámos anteriormente esse transporte para a Lua era uma punição, para este coelho foi, mais que tudo, uma forma de homenagem.

 

Esta lenda parece ser muito popular no Oriente, ao ponto de lhe existirem algumas referências em histórias de inspiração oriental. Por exemplo, na primeira temporada de Dragon Ball o Son Goku defronta um coelho com poderes mágicos; quando o derrota atira-o para a Lua, numa evidente relação com a lenda. Noutra história japonesa, a da Navegante da Lua, a personagem principal tinha o nome de Bunny (ou, no original, Usagi Tsukino, por relação com a expressão tsuki no usagi, “coelho da lua”), por razões semelhantes.

Mas, talvez muito mais interessante para a generalidade dos leitores, quando a missão Apolo 11 foi à Lua, aos ocupantes da nave foi passada uma informação muito curiosa, que aqui copiamos dos relatos originais:

Among the large headlines concerning Apollo this morning, there’s one asking that you watch for a lovely girl with a big rabbit. An ancient legend says a beautiful Chinese girl called Chang-o has been living there for 4000 years. It seems she was banished to the Moon because she stole the pill of immortality from her husband. You might also look for her companion, a large Chinese rabbit, who is easy to spot since he is always standing on his hind feet in the shade of a cinnamon tree. The name of the rabbit is not reported.

Talvez este tenha sido um dos poucos momentos em que o mito oriental surgiu entre as culturas do ocidente. Sabemos, hoje, que não existe qualquer figura de um coelho na Lua Cheia, ou a viver na própria lua, mas a crença, como muitas outras dos nossos passados colectivos, não pode deixar de nos fazer sorrir…

Qual a origem do horóscopo chinês?

Já cá foi falado antes sobre a origem do zodíaco ocidental, e quem tiver lido esses outros artigos poderá compreender, sem muita dificuldade, que existia um conjunto de lendas, muitas vezes variáveis, associadas a cada um dos seus signos. Mas depois, ao ler um qualquer jornal dos nossos dias, por vezes podem ser encontradas, aqui e ali, muito breves referências ao horóscopo e signos chineses, sob alguma forma como a representada abaixo.

Exemplo de horóscopo chinês

Quem pensar um pouco no tema depressa se aperceberá que este sistema, como apresentado nos jornais portugueses, é falsamente demasiado redutor, porque dá a ideia de que todas as pessoas nascidas num determinado ano partilham um mesmo destino comum, algo de tão absurdo que nem nos iremos dar ao trabalho de o refutar aqui. Na verdade, além de um animal associado ao ano, os chineses também parece ter animais associados ao mês lunar, aos dias da semana e até ás horas do dia, num esquema curioso em que, por exemplo, das 9h ás 10:59h é a hora da cobra porque é nessa altura que se supunha que ela saía do seu antro, enquanto que já os dragões tinham a hora precendente – 7h ás 8:59h – porque se acreditava ser essa a altura em que esvoaçavam frequentemente nos céus para trazer a chuva, e assim por diante.

 

Agora, claro que isto é tudo muito bonito, mas… porquê aqueles doze animais? Porque não um gato, ou um leão, ou um panda? Qual a origem do horóscopo chinês? Será que existe alguma lenda por detrás dos signos chineses?

 

Na verdade, existe efectivamente uma lenda para justificar a presença de cada um destes animais entre os presentes nos 12 seleccionados. Se o contexto de toda a aventura tende a variar aqui e ali – algumas versões dizem que foi o Imperador de Jade, o deus dos deuses, que fomentou estes acontecimentos, mas outras atribuem-nos ao Buda – diz-se então que numa dada altura existiu uma enorme corrida entre todos os animais, e depois foram premiados com a sua colocação num calendário com base na ordem em terminaram a corrida. Dito assim, isto pode parecer muito pouco interessante – quem irá acreditar que, por exemplo, um boi é mais rápido que um dragão, ou que o cavalo é mais lento que a cobra? – mas o que torna essa lenda especialmente interessante é o facto de existirem pequenos episódios que explicam esses vários problemas.

A corrida dos animais

Por exemplo, se um gato até entrou na corrida, acabaria por se afogar num rio (um rato empurrou-o para a água), nunca chegando ao fim. O dragão até teria sido o primeiro a chegar, dada a sua velocidade e capacidade para voar, não fosse o facto de ter parado para dar chuva a uma aldeia e ter ajudado outro animal. O porco chegou em último lugar porque, como dificilmente poderia deixar de ser, parou pelo caminho para chafurdar na lama e comer tanto quanto podia.

 

É possível que, originalmente, estas pequenas lendas tenham sido criadas numa espécie de mnemónica, para que as pessoas pudessem mais facilmente lembrar-se da ordem dos signos, mas não deixam de ser menos curiosas ou interessantes, até porque nos explicam a origem do horóscopo chinês e contribuem para justificar a presença de apenas alguns animais entre os representados nos signos chineses. Por isso, deixamos até uma pequena sugestão – da próxima vez que olharem para um esquema dos signos chineses como aquele apresentado ali em cima, tentem pensar no porquê da sua ordem, e que aventuras terão tomado lugar entre os vários animais para que , por exemplo, o cão só chegasse depois da ovelha. Até porque isto daria uma actividade muito interessante para a pequenada…

A freguesia de Fafe que mudou de nome – Passos VS Paços

“Como é que Pharmácia se tornou Farmácia?” É provável que já tenham sido muitos os que se interrogaram sobre questões sobre estas, mas o que trazemos cá hoje é um exemplo português bem real que demonstra a forma como os nomes das coisas se podem ir alterando ao longo dos tempos.

 

No concelho de Fafe, no norte de Portugal, existe uma pequena freguesia que tinha o nome de Passos, mas que recentemente o mudou para Paços.

O brasão de Passos, em Fafe

Os corvos mantêm-se na bandeira, as uvas também, e tudo o restante continua por lá, mas o nome da localidade foi então alterado de Passos para Paços. E porquê? Segundo a informação que nos foi prestada, em tempos antigos existiam nesta região um conjunto de residências que poderiam ser definidas como torres ou uma espécie de palácios. Depois, ao longo dos séculos, esses locais foram desaparecendo e as pessoas começaram a perder o verdadeiro significado por detrás do nome, confundindo, talvez por ignorância, paços com passos. Ás tantas, lá se descobriu que o nome certo era verdadeiramente Paços, pelo que se optou por corrigir o problema…

 

Queiramos ou não, este tipo de problema é muito frequente. De onde vem o nome de Campa do Preto, do Estoril, de Freixo de Espada à Cinta, de Pé de Cão, de Solteiras, de Terra da Gaga, e de tantas outras terras espalhadas por Portugal? Qual a verdadeira origem desses nomes? Normalmente quem lá vive até tem uma certa ideia da resposta, mas demasiadas vezes a razão do nome original acaba por se perder, ficando as terras órfãs de significado. E depois, com nomes que parecem já não fazer qualquer sentido, ou mudam de nome (recorde-se, por exemplo, a transformação da Porcalhota em Amadora, ou o caso de Cintra e Sintra…), ou são recriadas histórias, nem sempre verdadeiras, para os justificar. E assim, Passos lá voltou a Paços, agora com um nome que se pensa ter sido o original e mais verdadeiro…