Porque tem “rapariga” um significado negativo no Brasil?

Para quem vive em Portugal, rapariga é uma palavra como qualquer outra. Significa apenas jovem, moça, uma menina com pouca idade. Porém, para muitos dos leitores que vivem no Brasil essa é uma palavra com um espírito bastante diferente, com conotação e significados muito negativos – para eles, rapariga significa é prostituta, puta, ou algo do mesmo género. Felizmente, muitos dos brasileiros que vêm a Portugal sabem disto, raramente se ofendendo com o uso local da palavra, mas a situação não pode deixar de nos suscitar uma dúvida – na verdade, porque tem “rapariga” um significado negativo no Brasil?

Chegada ao Brasil, onde rapariga tem significado negativo

Segundo um colega de São Paulo nos contou há já alguns anos, a resposta vem do tempo dos navegadores portugueses e das suas frequentes viagens para o Brasil, que frequentemente demoravam mais de um mês (a de Pedro Álvares Cabral, por exemplo, demorou 44 dias). Tendo então passado mais de 30 dias sem boa comida e sem mulheres, é quase certo que após a sua chegada os navegadores sentissem vontade de colmatar as chamadas “necessidades do corpo”; comida seria fácil de encontrar, tanto em Lisboa como em terras do Brasil, mas como lidar com as necessidades sexuais?

Se em Lisboa existiam as mais diversas prostitutas na zona em que os navios atracavam (relembre-se o Terramoto de 1755, e a forma como então a zona de Alfama, quase ao pé do Tejo, foi quase poupada da destruição), no Brasil dificilmente uma busca pelas mesmas seria tão fácil. Então, é possível que os navegadores tenham inquirido repetidamente por “raparigas”, i.e. elementos do sexo feminino apetecíveis para sexo, levando à instituição da ideia de que este vocábulo português era aplicável a jovens que, a troco de uma qualquer recompensa (monetária?), cumpriam o desejado propósito.

 

Mas será tudo isto verdade? Será esta a razão porque rapariga tem um significado negativo no Brasil? E, será que o nosso colega brasileiro tem razão no que nos disse? Não encontrámos qualquer prova real que o afirme ou desminta completamente, mas também é inegável que existem um conjunto de estereótipos associados ao Brasil, alguns mais verídicos que outros, que vêm dos tempos dos navegadores portugueses nesse país. Por isso, faz todo o sentido que este significado negativo da palavra rapariga também tenha surgido no mesmo contexto!

A lenda da origem do chá

Sobre esta lenda da origem do chá… Historicamente, sabemos que o chá é originário da China, com algumas fontes puramente lendárias a darem-lhe uma origem anterior ao século XXIV a.C. Porém, se se desconhece hoje a sua verdadeira origem, existe uma lenda que a explica, associada a uma mesma figura que é conhecida na Índia como Bodidharma, na China como Damodashi e no Japão como Daruma. Normalmente, ele é um monge budista dos primeiros séculos da nossa era que, entre outras coisas, ficou conhecido como o criador do Kung Fu Shaolin. Recorde-se então este mito de uma forma muito breve, na versão japonesa:

A lenda da origem do chá

Daruma procurava atingir o Nirvana,  mas por diversas razões foi falhando repetidamente nas suas tentativas. Numa delas viveu numa caverna durante nove anos e passou (quase) todo esse tempo em meditação em frente a uma parede vazia. Um esforço tão grande estava prestes a compensar quando, inexplicavelmente, Daruma se deixou adormecer. Irritado com a sua fragilidade tão humana (tentem passar 9 dias sem dormir, quanto mais esse número de anos…), o herói arrancou as suas próprias pálpebras e atirou-as ao chão. Depois, nesse mesmo local apareceu a primeira de todas as plantas de chá, com o efeito de retirar todo o sono a quem a bebesse.

 

Não conseguimos descobrir qual terá sido esta primeira planta de que foi feita o chá, mas pela breve referência no final do mito depreende-se que tenha sido uma com notáveis propriedades soporíferas, que permitia não só a Daruma, como também aos seus companheiros monges, aguentar infindáveis sessões de meditação. Naturalmente que esta não é uma história totalmente verdadeira, até pela presença significativa de um elemento mágico, mas não deixa de cumprir a sua função essencial, a de apresentar a uma audiência de uma determinada cultura a forma como uma das suas mais famosas bebidas foi inventada.

E, para quem até nunca o tiver provado, fica a sugestão de se beber um pouco de chá nipónico com kasutera, que é uma espécie de pão-de-ló japonês baseado numa receita que os Portugueses levaram para o Japão no século XVI.

Três exemplos de mitos orientais em Dragon Ball

Já cá falámos sobre Sun Wukong, a inspiração por detrás do Son Goku da série japonesa de Dragon Ball, mas há alguns dias pediram-nos que contassemos mais alguns mitos japoneses, e portanto decidimos usar essa referência antiga para, durante os próximos sete dias, contar mais algumas histórias provindas do País do Sol Nascente.

Então, voltando ao Rei Macaco, quem for ler a Viagem ao Oeste e decidir comparar essa obra literária com a trama da série japonesa poderá encontrar várias relações notórias entre elas, mas há que deixar claro que a obra de Wu Cheng’en não tem a mesma trama que a série – na verdade, Akira Toriyama apenas se aproveitou do famoso texto oriental para alguns aspectos da sua trama, tal como reutilizou muitos outros mitos orientais. E é sobre isso que escrevemos hoje, a forma como três desses mitos influenciaram o desenvolvimento de Dragon Ball:

Goku e o dragão

Pense-se então no jovem Son Goku, tal como ele surge nos inícios da série. Entre os seus elementos mais notórios contam-se um bastão de comprimento variável e uma cauda de macaco. Se o segundo elemento nos remete facilmente para as próprias origens de Sun Wukong, o “rei dos macacos”, já o primeiro terá sido influenciado pelo Ruyi Jingu Bang, o bastão do herói original, cujas várias dimensões podiam mudar consoante os desejos e necessidades do seu portador. A história desse bastão tem uma essência bastante semelhante na série e no livro original.

 

Depois, o que dizer sobre as chamadas “bolas do dragão”, em número de sete, que concediam desejos a quem as juntasse a todas? Se não encontrámos um mito semelhante na China ou no Japão, os dragões são sinal de poder em ambas as culturas, e alguns mitos chineses indicam que um dragão poderia emprestar a sua força a quem controlasse o seu cristal – é por essa razão que os dragões chineses são frequentemente representados com uma orbe numa das garras, mas presume-se que a história de Dragon Ball não seria muito interessante se os heróis tivessem de procurar uma única bola de cristal para atingirem os seus objectivos.

 

Um terceiro exemplo, a figura de Kame Sennin, conhecida na versão portuguesa como Tartaruga Genial. Poderá ter sido baseada numa figura misteriosa que treinou Sun Wukong, cujo nome nos escapa neste momento, mas quem pensar na sua longevidade e no facto de estar sempre acompanhado por uma tartaruga poderá ser levado ao mito de uma tartaruga chinesa, de nome desconhecido (as referências que vimos chamam-lhe sempre “a tartaruga” ou “tartaruga mística”), que se dizia já ter vivido por mais de 10000 anos e que era um dos Quatro Animais Lendários, juntamente com o dragão Yinglong e o pássaro Fenghuang.

 

Como estes, existem muitos outros exemplos da influência dos mitos e lendas orientais em Dragon Ball. Não seria fácil detalhá-los a todos por aqui, mas fica aqui essa breve referência à sua existência, e se existirem interessados poderemos voltar a este mesmo tema no futuro.

Luísa de Jesus, a primeira serial killer de Portugal

Quem decidir inquirir sobre quem foi o primeiro serial killer português poderá encontrar as mais diversas referências a um Diogo Alves, que viveu na primeira metade do século XIX. Porém, quase meio século antes já uma tal Luísa de Jesus podia ser classificada como serial killer. E na verdade, se Diogo Alves era galego, já esta figura feminina nasceu, viveu, casou, matou, foi condenada à morte e faleceu, tudo isso no distrito de Coimbra, constituindo, por isso e de uma forma muito bem justificada, a primeira serial killer portuguesa.

 

A Igreja Matriz de Figueira do Lorvão, onde Luísa de Jesus nasceu

 

Então, e o que fez ela, perguntam? Os seus crimes aparecem detalhados num documento de 1772 – ou seja, quase 40 anos antes do nascimento de Diogo Alves – com o nome Sentença proferida na Casa da Suppliçacaõ contra a ré Luiza de Jesus. Segundo essa fonte, Luiza de Jesus, nascida em Figueira de Lorvão e casada com um tal Manoel Gomes, apenas foi buscar bebés a uma roda dos enjeitados, pretendendo adoptá-las para si mesma e, dizia, para outras pessoas que conhecia.

 

Isto nada teria de censurável, bem pelo contrário, não fosse o facto de ela, aos 22 anos de idade, ter adoptado 34 bebés, 33 dos quais foram encontrados mortos, tendo ela confessado “apenas” 28 dos crimes e admitido que os estrangulou brutalmente. E porque o fez? Pura e simplesmente porque, por cada uma dessas adopções, o Estado oferecia seiscentos reis (não sabemos quanto será em 2020, mas não seria pouco dinheiro), um berço e 0.66m de lã.

 

 

Face a tais actos, o documento que lemos define, justificadamente, esta Luísa de Jesus como “um monstro de coração tão perverso, e corrompido, de que não haverá facilmente exemplo no presente século” – nem no século XVIII, nem nos nossos dias, acrescente-se.

 

Sobre a sua punição, deixamos as palavras do documento original falar por si mesmas – “[Que a ré] seja atenazada, e levada ao lugar da forca; e nele lhe sejam decepadas as suas mãos. Depois do que, morra morte natural de garrote. E dado este, seja o seu corpo queimado, e reduzido a cinzas, para que nunca mais haja memória de semelhante monstro.” E esta sua punição parece-nos bem merecida, para aquela que terá sido a primeira serial killer de Portugal.

Como é que Luís de Camões perdeu o olho?

Nunca pensaram como é que Luís de Camões perdeu o olho? Há alguns dias fomos almoçar a um restaurante que partilhava o nome do poeta e numa das suas paredes estava uma típica representação do autor dos Lusíadas, como tendemos a imaginá-lo, com uma pala no olho. Essa imagem já é tão comum que poucos parecem ser aqueles que a questionam como potencialmente inverdadeira. Mas de onde vem ela, ou porque achamos que este famoso autor era cego de um dos olhos?

Camões com uma pala no olho

Por mera curiosidade, não pudemos deixar de fazer essa pergunta ao dono do restaurante, que rapidamente nos respondeu que Luís Vaz de Camões foi ferido numa das vistas em Lisboa, durante uma disputa amorosa, por se ter envolvido com uma mulher casada. Seria verdade, ou era apenas mais uma daquelas lendas que se vão associando aos poetas, como quando se pensa que Homero era cego ou que Virgílio tinha poderes mágicos?

 

Partimos em busca de respostas, mas, inesperadamente, todas as fontes primárias que consultámos dizem precisamente o mesmo – que Camões, por volta do ano de 1549, ficou cego do seu olho direito em combate pela praça de Ceuta, e então passou a usar a tal pala no olho.

Alguns dizem, sem provas de maior, que foi atingido pelo ricochete de uma bala, mas não podemos afirmar se é mesmo verdade – infelizmente, nenhum autor da época parece ter preservado uma verdadeira biografia do poeta, no seguimento daquela ideia tão portuguesa de menosprezar o que é nosso. Terá sido essa falta de informação real que levou a uma necessidade de romancear a sua vida com base no conteúdo dos seus poemas… e, verdadeiramente, também lemos de uma forma muito repetida que Luís de Camões foi desterrado para Ceuta, onde viria a perder esse olho, precisamente porque andava a causar demasiadas disputas amorosas em Lisboa, sendo por isso possível que o dono do restaurante estivesse apenas a repetir um sincretismo de… lendas, digamos, que ao longo dos séculos se foram atribuindo a este autor dos Lusíadas.

 

Será, então, completamente verdade que Camões perdeu um olho, fosse ele o direito ou o esquerdo (também não se parece ter a certeza), numa batalha de Ceuta? Não sabemos, mas pelo menos as poucas fontes que temos hoje disponíveis parecem indicar que sim, e tentar afirmar algo que vá muito além disso parece assentar, como os verdadeiros detalhes da morte do poeta, mais na ficção do que em alguma realidade palpável.