O segredo do Buda Gordo

Quando, em Portugal (e muito possivelmente também no Brasil), imaginamos a figura de Buda, tendemos a fazê-lo como se ele fosse gordo. De facto, até é possível comprar um Buda Gordo nas mais diversas lojas de decoração, numa figura semelhante a esta:

Um Buda Gordo

Mas, quem quiser pensar um pouco neste assunto, depressa se aperceberá de um problema notório – esta figura não pode ser Sidarta Gautama, o fundador do Budismo, que tanto prezava o desapego aos prazeres do corpo. Então, afinal de contas, que grande segredo se escond1e por detrás do chamado “Buda Gordo”?

 

Num contexto ocidental não é fácil explicá-lo… essencialmente, os Budistas não têm um deus, uma figura completamente divina, mas após a fundação da sua doutrina por Sidarta Gautama seguiram-se várias figuras que pregaram o Budismo e cujo bons actos em vida os poderiam caracterizar como uma espécie de santos budistas. Entre eles conta-se uma figura que é conhecida na China como “Budai” (ou no Japão como “Hotei”), um seguidor desta religião que tinha uma proeminente pança, que estava sempre a sorrir, e que era muito popular com as crianças.

Vistos de uma forma metafórica, estes elementos podem ser conotados com sinais de boa sorte e de abundância (como também acontece com figuras como Ganesha), tornando a sua representação numa espécie de amuleto de boa sorte, o que contribuiu para a sua popularização fora de territórios budistas. Depois, essa frequência de imagens de uma figura budista gorda levou a que os não-crentes a identificassem com o próprio fundador do Budismo, ou como uma figura (divina?) que os seus crentes tinham em especial favor, como se de um verdadeiro deus se tratasse.

 

Mas este Budai, conhecido entre nós muitas vezes sob o nome de Buda Gordo ou Buda da Sorte, não é Sidarta Gautama. Não é o fundador do Budismo, nem qualquer espécie de figura divina. Se tivéssemos de o definir para um público ocidental, diríamos que é uma espécie de santo budista associado à boa sorte e abundância.

 

Um última curiosidade – como é que alguém que praticava as regras dessa religião, tão ligada ao ascetismo, engordou? Pelo menos uma das histórias a que tivemos acesso dizia que Budai tinha sido muitíssimo atraente, e então muitas mulheres incomodavam-no repetidamente com propostas de índole sexual; então, procurando livrar-se dessas tentações de uma vez por todas, engordou (infelizmente, a história não nos preserva qual o regime que decidiu seguir…), e assim deixou de suscitar o apetite sexual feminino, podendo focar-se mais na sua espiritualidade.

A origem do Tarot – verdades e falsidades

Há algumas semanas fizeram-nos uma pergunta relacionada com a origem do Tarot. Isso levou-nos a uma busca maior por respostas, mas também pela evolução e significado das suas cartas. Apesar de termos encontrado mais perguntas do que respostas, achámos que podíamos fazer aqui um breve resumo da sua origem, ou da história essencial do tarot, em sete pontos muito significativos:

 

1– Até meados do século XV não temos qualquer prova real de que estas cartas existissem. Nenhuma!

A carta Tarocchi de Saturno

2– Em meados do século XV sabemos que existiam em Itália um conjunto de cartas hoje chamadas Tarocchi. Eram constituídas por uma imagem, um nome, e uma numeração que as identificava numa determinada sequência, num total de 50 cartas separadas em cinco temas diferentes. Nenhuma obra literária da altura nos parece contar precisamente como eram utilizadas, mas são diversos os estudiosos que argumentam que eram usadas para ajudar a ensinar as crianças de famílias mais abastadas, como se fossem as flash cards dos nossos dias. No exemplo acima pode ser visto o deus Saturno a devorar um dos seus filhos, numa evidente referência ao cerne do mito latino.

A carta Tarocchi da Justiça

3– Juntamente com estas cartas existiam várias outras chamadas Tarocco, que eram usadas para jogos. Entre as que compunham os baralhos para esses jogos incluíam-se algumas das representações também presentes nas anteriores, como a imagem da “Justiça”, mostrada acima, permite compreender. O que é importante frisar sobre estas cartas, independentemente da composição do baralho, é que eram usadas exclusivamente para jogos lúdicos, não tendo qualquer relação com a cartomancia ou alguma tentativa de previsão do futuro.

A carta XVI do Tarot

4– Nenhum autor nos parece ter preservado o verdadeiro significado por detrás das imagens presentes nessas cartas. Na verdade, algumas delas até mudavam frequentemente de nome e de imagem; por exemplo, na carta XVI “A Torre” podia ser substituída por “O Relâmpago”… mas quem olhar para a primeira das duas poderá ainda encontrar frequentemente o segundo elemento lá, podendo fazer crer que o elemento pictórico original era mesmo esse, mais do que algum edifício.

 

5– Na segunda metade do século XVIII – ou seja, quase 300 anos depois da sua primeira aparição atestável – é que nos aparecem provas de que essas cartas eram usadas para cartomancia, uma prática que foi popularizada por Jean-Baptiste Alliette, i.e. “Etteilla”. A ideia parece ter originado com Antoine Court, cuja obra Le Monde primitif argumentava, sem quaisquer provas reais, que estas cartas vinham do tempo dos Egípcios. A origem do Tarot, no sentido moderno da ideia e na sua função de prever o futuro, é indisputavelmente desta altura!

 

6– Porquê os Egípcios, e não os Gregos ou os Romanos? Esse autor, também conhecido como Court de Gébelin, vivia numa altura em que existia uma espécie de pandemia de amor por tudo o que viesse do Egipto; sem quaisquer provas reais, repita-se essa ideia crucial, levantou então a “certeza” de que as cartas em questão escondiam um conhecimento secreto dos Egípcios.

 

7– Voltando a “Etteilla”, parece ter sido o primeiro autor famoso que popularizou e ensinou como usar estas cartas para prever o futuro, associando a elas um conjunto de ideias místicas. Outros autores seguiram-se, atribuindo diferentes ideias místicas às mesmas cartas ou a baralhos muito semelhantes. Daí, a ideia foi chegando aos nossos dias.

 

Face a estas provas, que são fáceis de comprovar, uma questão tem de ser posta – será o tarot digno de algum crédito? Mesmo que queiramos acreditar, de forma completamente imparcial, nas ideias de autores como Jean-Baptiste Alliette, há que reconhecer que elas têm uma falha fatal, que é o facto de se basearem em cartas cuja composição e significados originais são completamente desconhecidos, e que até foram sendo alteradas ao longo dos séculos.

Por exemplo, a carta XVI, já mostrada acima, pode ser chamada “A Torre” mas mostra é frequentemente a destruição desse edifício. Seria, originalmente, uma alusão à Torre de Babel bíblica, que não parece ter vindo das cartas do Tarocco mas de outro baralho? É possível que sim, até o afirma a “Dra.” Maria Helena da televisão, mas então o que dizer da carta XII, que tem representada um homem pendurado pelos pés, como eram punidos alguns criminosos na Itália do século XV? Ou como fazer sentido da ideia de que a carta IX, “O Eremita”, representava originalmente o Tempo, i.e. o conceito grego, com uma ampulheta na mão? Ou como explicar a presença de apenas três das quatro virtudes cardeais – o que aconteceu à Prudência, que até aparecia nas cartas Tarocchi e em outros baralhos do mesmo género?

A carta Tarocchi da Prudência

É estranhíssima, esta ausência em particular, dado todo o contexto em que se insere, mas também nos permite provar algo – mesmo que até preservassem um qualquer conhecimento secreto, esse seu significado original já se perdeu há muitos séculos atrás. Se as cartas conhecidas como Tarocchi eram compostas por cinco ciclos de dez constituintes cada, cujos significados contextuais são fáceis de compreender, nas cartas do Tarocco, que viriam dar lugar aos Arcanos Maiores do Tarot, essa relação já não existe, nem sabemos se algum dia terá existido. Nem sabemos verdadeiramente de onde surgiram cartas como “A Torre” ou “A Papisa“, apenas para dar dois exemplos.

 

O que sabemos, isso sim, é que a origem do Tarot não está ligada à Antiguidade, e dizer que as suas cartas constituintes preservam, por exemplo, algum conhecimento secreto de um tal Livro de Thoth (sim, o deus egípcio do conhecimento), como o quis dizer Jean-Baptiste Alliette, é puramente falso. Querer prever o futuro com cartas de Tarot – ou com quaisquer outras – deve sempre ter em conta esta sua falsa herança… porque, na verdade, utilizá-las a elas, seja porque método for, não faz qualquer sentido real, só nos podendo dar as respostas que os “leitores” de cartas já sabem que queremos ouvir. E nenhuma Maya, Maria Helena, ou outro dos tantos “astrólogos” que existem pode mudar isso…

Qual a verdadeira origem do hipogrifo?

A criatura conhecida por este nome é-nos hoje famosa das aventuras do Harry Potter, mas qual é mesmo a verdadeira origem do hipogrifo? Talvez sejam agora poucos os leitores que ainda o sabem, mas esta criatura não foi totalmente criada por J. K. Rowling, tendo até uma origem literária significativamente ilustre, que já vem do século XVI da nossa era.

Harry Potter e o Hipogrifo

Mas, antes de nos focarmos nesse ponto em concreto, há que perguntar – afinal, o que é um hipogrifo? Não pode ser encontrado num jardim zoológico, mas, essencialmente, é uma criatura híbrida, composta por partes de três animais distintos – um cavalo (do grego hippos) e um grifo, este segundo por sua vez um híbrido composto pelo corpo de um leão e uma águia. Tanto na sua constituição física como no seu carácter, ele retira alguns aspectos particulares de cada um desses três animais – por exemplo, pode voar como a águia, tem a força do leão e a velocidade do cavalo. A origem do hipogrifo, ou do seu aspecto físico, prende-se então com as características conjuntas desses animais.

 

E então, qual foi a origem e a primeira aparição literária do hipogrifo? Se a ideia de acasalar grifos com cavalos já aparece na literatura da Antiguidade para significar algo que é certamente impossível de fazer (até pela dificuldade em encontrar os primeiros…), a aparição mais famosa deste animal é na obra italiana Orlando Furioso, em que um dos heróis (e um vilão, se a memória não nos está a enganar, que já lá vão alguns anos…) até o monta no decurso das suas aventuras de cavalaria. Será que J. K. Rowling leu essa obra, ou terá conhecido esta criatura fantástica através de algum outro texto mais recente? Não sabemos, mas é um bom exemplo de como essa autora reutilizou o património cultural e literário dos séculos passados para as suas aventuras, como também aconteceu nos casos do Basilisco,, da Manticora e de expressões como Avada Kedavra

Porque é que os Egípcios construíram pirâmides?

A Pirâmide de Unas

Hoje fizeram-nos uma pergunta que não podemos deixar de considerar fascinante – porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Já todos ouvimos falar das pirâmides como túmulos, como portais para outras dimensões, como naves espaciais escondidas, entre outras tantas ideias muitíssimo estranhas, mas porquê pirâmides? Porque não cubos, ou simples buracos no chão, ou enormes templos, ou até qualquer outra forma geométrica?

 

Existem várias teorias, mas uma das possibilidades mais interessantes para ser abordada neste espaço poderá ter a ver com um mito da criação egípcia. Segundo ele, originalmente só existiam águas sem fim… até que um dia, por razões hoje desconhecidas, surgiu um monte no meio da água, como se da barriga de uma mulher grávida se tratasse. Desse monte foi dado à luz um enorme ovo. Finalmente, desse ovo primordial nasceram os primeiros deuses.

 

A forma das pirâmides, enquanto elevação pouco natural na superfície da terra, poderá remeter-nos de volta para esse mito inicial da criação. O faraó morreu, é sepultado num local que relembra essa gravidez inicial da terra, e depois nasceria dela, de forma sobrenatural, entre os próprios deuses, numa espécie de repetição teatral do mito da criação.

 

Será esta a resposta correcta e verdadeira a porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Não sabemos, nem é possível que se venha a ter qualquer certeza sobre o tema, mas de um ponto de vista da intersecção entre mito e ritual esta é uma razão suficientemente interessante para ser mencionada por cá.

O que está escrito nas paredes das Pirâmides do Egipto?

Texto numa pirâmide

Na imagem acima pode ser visto um fragmento da parede de uma Pirâmide do Egipto. Na parte inferior está um bela representação do submundo, com dois deuses a serem transportados na barca em que era feita essa derradeira viagem, segundo os mitos do Egipto. E claro que é uma representação bastante bonita, mas os mais interessados poderão igualmente aperceber-se de que existe aí bastante texto sob a forma de hieróglifos – e, como nós, poderão até ter a curiosidade de se perguntar o que aí está escrito, que palavras acompanham estes desenhos…

 

Como exemplo, decidimos explorar as Pirâmides de Saqqara (ou “Sacara”) através de uma obra que nos foi oferecida recentemente, The Pyramid Texts, de Samuel A. B. Mercer. Através dos seus vários volumes, o autor não só traduz estes textos como tece vários comentários e possíveis interpretações dos mesmos. E então, o que dizem esses textos, neste exemplo em particular?

 

Bem… muitas, muitas coisas. De um modo muito geral podem ser resumidos como textos de carácter religioso, mas existem neles sequências mitológicas (que, infelizmente, nunca nos parecem contar nenhuma história de forma completa e contínua…), breves rituais, poemas, referências históricas, elementos cosmológicos, entre outras coisas. Nesse contexto, as imagens como aquela partilhada acima parecem representar uma sequência igualmente presente no texto. Não temos forma de averiguar se isso acontece sempre, mas pelo menos conseguimos ver que acontece em alguns exemplos particulares. Acima, por exemplo, faria todo o sentido que o texto relate parte de uma viagem celestial, em que dois deuses – possivelmente Rá (veja-se o sol e a serpente) e Quenúbis (ou Quenum, com cabeça de carneiro) – tinham um papel principal.

 

De um modo geral, faz sentido que textos como estes estivessem gravados nas pirâmides. Tratando-se de enormes túmulos, a representação de – por exemplo – viagens no submundo, ou das muitas belezas que existiam após esta vida, apresenta-se como contextualmente digna, tal como nos nossos dias são por vezes colocados versos da Bíblia, ou crucifixos, nos túmulos dos falecidos. Quem quiser saber mais pode sempre consultar os diversos livros, ou projectos online, que hoje existem relativos a este tema…