Porque se diz que as aranhas dão sorte ou dinheiro?

Aranha e dinheiro

Em Portugal é comum dizer-se que as aranhas não devem ser mortas, porque estão associadas a uma crença simbólica em que elas dão sorte e/ou dinheiro, ou que matar aranhas dá azar. Mas de onde vem essa ideia?

 

Sobre a origem deste crença, contaram-nos esta história há já alguns anos, que supostamente vem da região de Bragança. Quando Herodes desejou matar todos os recém-nascidos, a família de Jesus Cristo fugiu para o Egipto – e esse é um momento que está no Novo Testamento. Contudo, a história seguinte já é completamente apócrifa:

 

No seguimento do episódio bíblico, através de um delator judeu alguns soldados romanos foram informados da fuga e decidiram perseguir Maria, José e Jesus a cavalo. Então, para poderem escapar aos perseguidores, esta família escondeu-se no interior de uma caverna. Nesse momento teve então lugar um pequeno milagre – uma aranha que habitava o local apressou-se a tecer uma enorme teia que cobriu toda a entrada. Assim, quando os soldados lá chegaram e a viram coberta por teias de aranha, foram levados a pensar que seria impossível que alguém aí tivesse entrado recentemente, e continuaram então a sua busca para outro sítio.

Como agradecimento por esta ajuda, Deus depois recompensou as aranhas, dando sorte, felicidade e dinheiro a todos aqueles lugares em que elas decidam construir as suas teias.

 

Esta é uma tradição popular que une o sagrado e o profano, como também acontecia na história de Nossa Senhora e o Linguado. Como esta existem muitas outras, histórias que procuram unir tradições populares a momentos bíblicos; na verdade, já existiam no tempo da Grécia Antiga – recorde-se, a título de exemplo, o mito de Aracne – e provavelmente continuarão a existir no futuro. O que não se sabe é o que terá existido primeiro, se a tradição popular ou uma história que possa servir para a justificar…

A anatomia de um mito – a criação do Covid

Hoje decidimos igualmente falar de um tema um tanto ou quanto diferente, expondo uma das formas como se cria um mito, recorrendo para isso a um caso bem real e muito actual para os nossos dias – o da criação do Covid.

Criação do Covid

Ora bem, quem seguir toda esta história nos media saberá que, à presente data, é desconhecido como surgiu o Covid. Repita-se: até agora, ninguém bem informado e com conhecimento real de toda esta matéria se atreveu a dizer, conclusivamente, como foi que esta doença surgiu e acabou por ser transmitida aos seres humanos. Contudo, o ser humano gosta muito de ter respostas, gosta de tentar compreender as coisas, e isto levou a que começassem a surgir teorias – teorias estas, frise-se, que ainda não têm qualquer suporte completamente real na pesquisa científica. Por isso, as pessoas decidiram criar “algo” que as permitisse explicar o fenómeno e que as ajudasse a lidar com toda a situação. E assim, reproduzimos aqui duas das opiniões, ou mitos, que fomos ouvindo:

 

Na primeira delas, que parece ser a mais antiga, é dito que o Covid proveio do Pangolim, um animal que apenas existe na África subsariana e no sudeste asiático. Nesse seguimento, a doença teria sido transmitida aos seres humanos por “alguém” ter tido relações sexuais e/ou comido este animal. Essa indefinição de todo o processo, bem como algumas semelhanças com histórias anteriormente associadas ao vírus da Sida – a sério, quem é que teria relações sexuais com um Macaco (ou um Pangolim)?! – joga com um desconhecimento geral de toda a situação, procurando de alguma forma criticar uma cultura em que, admitidamente, se comem animais que não existem na nossa cultura ocidental, e que por isso dão maior azo a mitos como estes.

 

Na segunda, é dito que esta doença foi criada em laboratório. Como uma idosa nos disse ainda há uns poucos dias, “há muita, muita gente na China, e então eles criaram este vírus para diminuir a população, mas não estavam era à espera que ele se fosse espalhar pelo mundo todo”. O que dizer desta segunda versão? Assenta, novamente, na presença de uma cultura que muitos desconhecem, pegando num elemento que a generalidade da população até conhece – que a população da China é muito numerosa – e construindo todo um novo mito em redor dessa pedra basilar.

 

Qual destas duas opiniões, ou mitos, sobre a criação do Covid se podem apresentar como correctas? À presente data nenhuma delas, mas mesmo assim existem pessoas que acreditam numa ou na outra, conforme o que parece fazer mais sentido para si próprios. Frise-se, novamente, que não sabemos se estas duas opiniões estão correctas, se apresentam uma visão palpável da nossa realidade, mas mesmo assim persistem dia após dia, e provavelmente irão continuar a persistir até que se saiba com uma maior precisão científica de onde veio esta versão de uma doença que agora tanto nos molesta.

E assim, nessa ausência de informação admitidamente real, se criam mitos, tentando fazer sentido da criação desta doença com base naquilo que já conhecemos e que conseguimos perceber sem muita dificuldade… quando, na mais completa das verdades, ainda nada de completamente fiável se sabe sobre todo este tema.

A oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas

A oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas, também conhecida de uma forma mais geral como oração para acalmar as trovoadas (entre muitos outros nomes possíveis), já foi muito famosa em outros tempos, mas hoje é um perfeito exemplo de algo que nos incomoda e entristece bastante, o facto de cada vez menos pessoas terem interesse na cultura dos seus antepassados. Passamos a explicar. Como bem se sabe, cada um dos santos cristãos é padroeiro de “algo”. O que já menos pessoas saberão é que existem um conjunto de orações que permitem – quase como se de pequenos rituais mágicos se tratassem – invocar a ajuda de um determinado santo ou santa. Em muitos casos essas orações têm pequenas variações de local para local, mas são quase sempre em verso (o que facilitava a sua memorização) e mencionam um propósito mágico. Por exemplo, Santa Bárbara [de Nicomédia] é a padroeira das trovoadas e tempestades, pelo que a sua ajuda podia ser pedida com a seguinte oração de Santa Bárbara, bem conhecida no norte de Portugal:

Santa Bárbara bendita
Se vestiu e se calçou,
Ao caminho se botou
A Jesus Cristo encontrou;
E Jesus lhe perguntou:
– “Tu, Bárbara, onde vais?”
– “Vou espalhar as trovoadas
Que no céu andam armadas,
Lá na serra do Marão,
Onde não haja palha nem grão,
Nem meninos a chorar,
Nem galos a cantar.”

A oração a Santa Bárbara, que acalma e afasta as trovoadas

Um outro exemplo associado à mesma figura, uma oração de Santa Bárbara com alguns contornos semelhantes, mas de outro local distinto, pode ser igualmente lida abaixo:

Santa Bárbara se alevantou
Seu pézinho direito calçou
Nossa Senhora encontrou
Esta lhe perguntou
– “Onde vais Santa Bárbara?”
– “Vou espalhar a trovoada
Que no céu anda armada.”
– “Espalha-a lá para bem longe
Onde não haja perca nem vinho
Nem flor de rosmaninho.”

Este terceiro exemplo foi-nos contado oralmente, por uma idosa de 84 anos cuja mãe a tinha lido “num livro com capa de papel, que [conforme também nos disse] depois ela perdeu”:

Santa Bárbara Bendita
Que no Céu está escrita
“Onde Vais Santa Bárbara?”
“Vou espalhar esta trovada
Que por cima da gente anda armada”
“Espalha-a bem para bem longe,
Onde não haja pão nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem os galos cantam,
Nem os anjos se levantam.”
Para sempre, Amém, Jesus.

 

Um quarto e último exemplo, para se mostrar que esta santa não era um caso único. A associação de São Bento [de Núrsia] ás cobras e serpentes está bem presente nestes versos de uma oração, cujo objectivo principal é muito claro:

São Bento, água benta!
Jesus Cristo no altar!
As cobras deste caminho
Afastem que eu vou passar!

 

Há cerca de trinta anos ainda existiam pessoas que conheciam bem estas orações de cor. Hoje, quando ainda se lembram deles, é de uma forma muito fragmentária. Mais ano, menos ano, serão todos eles esquecidos, e assim se perderá mais uma pequena parte da cultura portuguesa… por isso, se quiserem, podem deixar as versões que ouviram abaixo, nos comentários, juntamente com a vossa localidade e/ou onde aprenderam a oração como a conhecem!

Os números e a lenda da morte de Hípaso de Metaponto

Matemáticas

De uma forma muito simplista, os números podem ser divididos em naturais, racionais e irracionais. Os primeiros são “naturais” porque ocorrem na natureza – temos na mão duas maçãs, um bordão, um livro, dez pequenas pedras, etc. Os segundos são “racionais” porque nascem de uma aplicação da razão humana aos primeiros, i.e. se quisermos dividir duas maçãs por cinco amigos temos de recorrer a eles. Já os terceiros são “irracionais” porque na aplicação desses dois grupos podem surgir números que não são completamente exprimíveis pela razão humana, e.g. a constante necessária para calcular a área de um círculo. Agora, se os dois primeiros são de tempos imemoriais, aos terceiros já podemos associar uma pequena lenda do tempo da Grécia Antiga.

 

Esta diz-nos que o terceiro grupo foi descoberto pelos Pitagóricos, colectivamente, ou apenas por Hípaso de Metaponto, um dos seus membros. Quando é atribuído apenas a esta segunda figura, é-nos apontado que quando meditava nos possíveis resultados da aplicação da fórmula do chamado “Triângulo de Pitágoras” se deparou com um enorme problema – se um triângulo tiver dois lados iguais de comprimento 1, qual será o tamanho da sua hipotenusa? Como exprimir esse número, que não era natural nem racional?

Ao considerar questões matemáticas como estas e muitas outras, Hípaso interrogou-se e divulgou aquilo que eram considerados segredos exclusivos dos deuses omnipotentes. E então, segundo a lenda, a húbris das suas acções conduziu-o à sua morte, afogando-se como punição dos deuses ou dos homens seus companheiros.

A origem do nome de Benfica, e o seu animal – o pavão?!

Quando pensamos no nome de Benfica, a termos de lhe associar um animal seria quase certamente a águia, por causa do clube de futebol. Porém, face à recente e irónica fuga de um pavão nessa zona lisboeta, lembrámo-nos de algumas breves histórias que podemos deixar por aqui.

Origem do nome de Benfica

Quem olhar para o brasão de Benfica (a freguesia lisboeta) encontrará lá uma coroa mariana e duas árvores de Monsanto. Porém, na mesma cidade, uma outra freguesia contígua – a de São Domingos de Benfica – tem um brasão significativamente mais interessante, que pode ser visto acima, em que estão representados dois pavões, uma laranjeira e uma flor-de-lis estilizada. Os dois primeiros elementos remetem-nos, naturalmente, para o Jardim Zoológico (movido para a Quinta das Laranjeiras em 1905, a freguesia data de 1959), talvez até num duplo sentido heráldico do orgulho por essas árvores, hoje já raras no local. Assim, a termos de associar um animal a esta freguesia, seria o pavão.

 

Já o nome de Benfica, o clube de futebol, vem da própria freguesia em que está localizado o seu estádio – São Domingos de Benfica. Por sua vez, o nome da freguesia vem do facto de ter sido fundado um Convento de São Domingos no local (já lá voltaremos), que naturalmente teria no seu nome “de Benfica” pela sua localização, para o distinguir de outros que possam ter existido associados ao mesmo santo. E, nesse contexto, de onde vem então o nome de Benfica?

 

No passado lemos várias lendas destinadas a explicar este nome. Por exemplo, quando um monarca fez uma visita ao local, teve lugar algum evento que o fez dizer duas palavras, “Bem fica”, que pela passagem dos séculos acabaram depois comprimidas numa só, “Benfica”. Mas que evento foi esse, poderiam perguntar?

Numa versão, o rei D. João I diz que num dado local “bem fica[ria]” a construção de um convento proposto por João das Regras (e em que este até viria a ser sepultado).

Numa outra, D. Pedro I encontrou uma tal Maria Rousada, assim chamada* por ter sido violada por um homem que até acabou por casar com ela – o que não deixava de ser crime, e assim o rei mandou enforcá-lo, dizendo ainda que ela “bem fica” sem ele. Para quem quiser uma terceira, bastará inventar algum evento em que um rei seja posto a dizer essas palavras. Já outros dizem apenas que o nome actual vem de um (possível) nome árabe, o que nos parece improvável, já que nada de significativo parecia existir no local aquando da construção do convento (e assim sendo, porquê dar-lhe sequer um nome?). Qual destas versões é a verdadeira história por detrás do nome já é algo que nos escapa por completo.

 

Como é que uma águia foi parar ao emblema do Benfica, em vez de um pavão, é uma história que ficará para um outro dia…

 

 

*- Neste contexto, “rousada” ou “roussada” significa o mesmo que “violada”.