Quem disse que a Terra é plana?

Há quase dois anos que aqui mostrámos que os Antigos acreditavam numa Terra redonda. Na altura, foi escrito que “de uma forma geral os autores gregos e latinos de maior importância nunca parecem argumentar que a Terra era plana”. Contudo, uma questão ainda ficou em aberto nessa altura – afinal, de onde vem a ideia contrária, de que os Antigos acreditavam que a Terra não era redonda?

Terra plana

Encontrá-la não foi fácil, porque implicou procurar não só um autor que defendesse a ideia contrária (e não abundam…), mas também conseguir comprovar que ele tenha tido um impacto significativo na literatura mais tardia. Fazendo batotice, decidimos tomar o caminho inverso – procurar autores que tenham tido um impacto significativo na cultura ocidental, e depois andar para trás e ver se eles tinham escrito algo sobre este tema.

Naturalmente que essa ideia, para ter um impacto significativo, teria de vir de um autor cristão, mas nem Santo Agostinho nem Isidoro de Sevilha parecem ter escrito algo de muito contundente sobre o tema. Depois encontrámos um autor que, criticando aquilo a que chama a “falsa sabedoria dos Filósofos [Pagãos]”, apelida a ideia de uma terra redonda de “maravilhosa ficção”, antes de levantar um problema que lhe parece ridículo – se a Terra for redonda, como é que os habitantes não caem da parte de baixo?

 

Que autor foi este? Lactâncio, de finais do século III, que face à beleza do seu Latim ficaria conhecido nos séculos mais recentes como o “Cícero cristão”. Foi um autor de algum relevo no Renascimento (por mera curiosidade, numa só biblioteca portuguesa encontrámos quatro manuscritos dos seus trabalhos, todos eles da segunda metade do século XV), pelo que faz algum sentido que a ideia possa ter sido popularizada por um dos seus trabalhos.

 

Mas a ideia de que a Terra é plana não é exclusivamente de Lactâncio. Também a Bíblia cristã parece apoiar parte dessa ideia, já que o Antigo Testamento refere “os quatro cantos da terra” (Salmos 67), enquanto que no Novo Testamento, em dada altura o Diabo mostra a Jesus, do topo de uma montanha, todos os impérios do mundo (Mateus 4:8), coisas que só seriam possíveis se o mundo fosse plano. Terá, por isso, sido a própria Bíblia, talvez mais do que as obras de um qualquer outro autor da Antiguidade, a ter contribuído para disseminar esta famosa ideia, mesmo que a forma como ela foi apresentada originalmente não indique imperativamente aquele significado que leitores dos nossos dias lhe tendem a dar.

Os algarismos romanos – 4 deve escrever-se IIII ou IV?

Hoje decidimos falar daquela que parece ser uma das grandes questões da humanidade – como se escreve 4 em algarismo romano? É fácil lembrar o 1 (árabe) como I, o 2 como II, o 3 como III, mas… afinal de contas, que número romano se segue? Como se escrevia 4 em algarismo romano? Deverá ele ser escrito como IV ou IIII? E, se a resposta correcta for apenas a primeira (como frequentemente nos é dito na escola), porque razão é que tantos relógios apresentam um “IIII” no seu mostrador, como na imagem abaixo?

4 em algarismo romano

Em tempos de escola aprendemos que o 4 romano deveria ser escrito “IV”, que o 19 deveria ser escrito “XIX”, e outras coisas que tais. Porém, há alguns dias, enquanto uma colega de Coimbra relia uma passagem da Guerra Gálica de Júlio César, deparou-se com um estranho problema, numa passagem que dizia Atuatucos XVIIII milia. Talvez fosse um simples erro de cópia ou transmissão medieval, mas o problema repetiu-se noutras sequências – passuum CCCC e XXXX Bibracte (entre outras). Em busca de resposta, consultámos um outro livro, o de Plínio o Velho, em que acabámos por encontrar números como “CCLXXXXVII”, “CCCCL” ou “MMMM”. Mas, ao mesmo tempo, também fomos encontrando muitas referências a números como IV, IX, ou XC.

 

Isto gera um problema – estariam figuras tão eminentes como Júlio César ou Plínio o Velho erradas? Ou, pelo contrário, quem estava errado eram os outros autores que nos chegaram dos tempos da Antiguidade? Não nos é possível responder a essa questão de uma forma directa, mas é curioso que um erro – seja de que lado for – tenha sido muito pouco criticado. Por isso, talvez não seja correcto ver este problema como uma questão de “certo” ou “errado”, mas de mera opinião, em que os números podiam ser escritos de ambas as formas, porque mesmo assim não deixavam de ser compreendidos, sendo apenas ligeiramente mais difícil escrever e ler VIIII do que IX. Quem quiser dizer que VIIII está errado irá opor-se a figuras como César e Plínio; quem disser que IX está errado irá opor-se a um possível peso colectivo de muitos outros autores – qual dos dois casos o pior, venha o proverbial Diabo e decida-o por si mesmo.

 

Agora, se o IV, ou o que supomos ser o 4 em algarismo romano, se parece ter popularizado ao longo dos séculos, resta uma questão – porque é que alguns relógios têm IIII em vez de IV, mas também usam IX em vez de VIIII? Perguntámos a vários relojoeiros, que nos disseram que se tratava de uma convenção pictórica de algumas marcas, mas que eles já não sabiam de onde vinha originalmente. E isso, por agora, basta-nos.

A verdadeira história da Carochinha e do João Ratão

A história da Carochinha e do João Ratão faz parte da cultura popular portuguesa e é um contos que todos conhecemos mais ou menos bem. Porém – e isto já poucos parecem saber – a verdade é que nos dias de hoje ela é sempre contada de uma forma incompleta. Já lá iremos, já contaremos a verdadeira e original, mas para quem já não se recordar bem da trama principal, podemos então relembrá-la aqui na versão de Ana de Castro Osório, de inícios do século XX:

A Carochinha e o João Ratão

A Carochinha achou cinco réis ao varrer a cozinha e, doida de alegria, foi a correr pôr-se à janela a gritar:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passa um cavalo e diz:
— Quero eu, quero eu!
— Como falas tu?
— Falo assim (e começou a relinchar).
— Ai, Deus me livre, que me acordas a vizinhança.
O cavalo foi-se embora, e ela continuou:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passou um burro:
— Quero eu, quero eu, quero eu!
— Como falas tu?
— Falo assim (e começou a zurrar).
— Deus me livre, acordarias a vizinhança!
O burro foi-se, de orelha murcha.
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu (disse o porco).
— Então como é a tua fala?
O porco grunhiu tão desafinadamente que a Carochinha pôs as mãos na cabeça, gritando:
— Deus me livre, acordarias toda a vizinhança!
E continuou, muito esperta, à sua janela:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
Passa um gato:
— Quero eu, quero eu!
— Então como falas tu?
— Falo assim: miau, miau, miau!
— Credo! Acordarias a vizinhança!
E continuava:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu, quero eu (disse o carneiro, que passava).
— Como é a tua fala?
— É assim: mé, méé, mééé…
— Não te quero, acordarias a vizinhança.
E tornou a bradar, da janela abaixo:
— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?
— Quero eu, quero eu, quero eu!… (disse um ratinho esperto, que passava pela rua).
— Então como é a tua voz?
— Chii! Chii! Chii!…
— Quero-te a ti, quero-te a ti, que não incomodas ninguém.
Casaram, fizeram uma grande boda e estavam muito satisfeitos. Um dia, de manhã, a Carochinha tinha que ir ao mercado, e disse ao seu João Ratão:

— Fica tu em casa a tratar do almoço, que eu já venho.
O João-Ratão ficou; e, para se tornar prestável, foi deitar uma casca de cebola na panela, caindo de cabeça para baixo. Chiou, chiou, mas, como a querida Carochinha não estava em casa, lá morreu o João Ratão, cozido e assado no caldeirão. Ora a Carochinha demorou-se muito, a tratar das suas compras, a falar com os conhecimentos e a dar parte às amigas do seu novo estado. Quando, já tarde, chegou a casa, não viu o marido, e ficou em cuidado, procurando às vizinhas se o tinham visto. Como lhe não davam notícias dele, foi para casa, e resolveu almoçar. Mas quando foi levantar a tampa da panela e viu o marido, já morto, a boiar no cimo do caldo, ficou varada, e, no maior desespero, desgrenhou-se e arrepelou-se, chorando em altos gritos.

 

A tripeça da história da Carochinha e do João Ratão, numa edição dos nossos dias

Normalmente a história da Carochinha e do João Ratão termina por aqui. Contudo, uma edição de contos populares datada de 1879 associa-a à região de Coimbra e continua a história de uma forma surpreendente (que também aparece, com algumas censuras, na versão de Ana de Castro Osório) – após este pseudo-final, uma tripeça, uma espécie de banco com três pés (como o da imagem acima), pergunta algo à heroína, levando a uma sequência que já quase ninguém conhece:

«Que tens, Carochinha,
Que estás aí a chorar?»
«Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar»
«E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.»

Diz dali uma porta:
«Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.»
«E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.»

Diz dali uma trave:
«Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.»
«E eu que sou trave
Quebro-me.»

Diz dali um pinheiro:
«Que tens, trave,
Que te quebraste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.»
«E eu que sou pinheiro
Arranco-me.»

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:
«Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.»
«E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.»

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhes a fonte:
«Porque foi passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tirámos os olhinhos.»
«E eu que sou fonte
Seco-me.»

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:
«Que tens, fonte,
Que secaste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.»
«E nós quebramos os cantarinhos.»

Foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:
«Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebrámos os cantarinhos.»
«Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.»

Diz dali o rei:
«E eu vou arrastar o cu
Pelas brasas.»

 

É fácil compreender a razão pela qual a história dos nossos dias termina com a morte do João Ratão. A ladainha que se seguia, muito secundária para toda esta trama desta história da Carochinha e do João Ratão, mas característica de muitas histórias de génese oral (que continham muitas vezes sequências como estas), não é de fácil memorização, apresenta alguns elementos claramente satíricos, outros impróprios para crianças, e até alguns bem críticos da nobreza da altura. Mas, ainda assim, esta história não deixa de ser uma que ainda hoje nos põe a todos um sorriso nos lábios!

Um hino português que vos irá surpreender, e a origem de “Adeste Fideles”

Ontem vimos na televisão um conjunto de homenagens aos médicos e enfermeiros que tiveram lugar em diversos locais de Portugal. Como já é comum em eventos desta natureza, alguns dos presentes cantavam o hino nacional de Portugal, A Portuguesa, que tem pouco mais de um século. Obviamente que não foi sempre esse o hino representativo do nosso país – anterior a ele existiu o Hymno Patriotico da Nação Portugueza – mas a breve história de hoje é sobre um outro hino ligado ao nosso país, um muito mais inesperado.

 

Há algum tempo, enquanto líamos alguns hinos em Latim, deparámo-nos com um a que também era associado o nome “Portuguese Hymn”. Poderão até desconhecer esse nome, mas certamente que conhecem esta sua música:

É um hino muito tocado na altura do Natal, este Adeste Fideles, mas de onde vem ele, e porque ficou conhecido com o curioso nome referido acima?

Muito sucintamente, a autoria desse famoso hino é disputada, mas um dos seus possíveis autores foi D. João IV, rei de Portugal no século XVII. Anos depois, diz a história que foi sendo ouvido em terras de Inglaterra, sempre em locais e eventos associados a Portugal, e então ficou conhecido entre a comunidade anglófona sob o nome do país em que eles acreditavam que tinha sido composto. Desconhecemos se foi verdadeiramente escrito por cá (e/ou por D. João IV), mas não deixa de ser curiosa, esta associação de um hino tão famoso ao nosso jardim à beira mar plantado…

 

[Para mais informação sobre a potencial autoria joanina deste hino pode e deve ser lida esta informação. Um agradecimento a “Sarin”, que partilhou este documento nos comentários abaixo!]

O estranho segredo das bruxas, feiticeiros, magos, xamãs, e figuras mágicas afins…

Hoje em dia, quando pensamos na magia e no oculto, tendemos a considerar essas coisas como uma entidade horizontal com uma só face comum. Mas, na verdade, quem não tiver nada para fazer e for pensar bem no assunto irá notar que a ideia do misticismo não é só uma, horizontal e completamente igual, mas pode ser dividida em vários subgrupos, cada um com as suas características particulares, que nem sempre são fáceis de distinguir. Por exemplo, relativamente ao xamã, o dicionário da Priberam define-o como um “indivíduo que se considera ter poderes especiais, em geral mágicos, curativos ou divinatórios”, sem que nunca seja apontado uma das suas características essenciais, a ligação dessa figura com a natureza.

Dois tipos de magia

Pense-se em figuras como Circe e Medeia, dos mitos gregos. Relativamente à sua ligação com as artes mágicas, como podem ser definidas? Não é uma questão simples, mas as suas artes passavam, essencialmente, pelo uso e conhecimento das características das ervas com vista a um propósito mágico.

Pense-se também em figuras mais recentes, como Merlim ou Dumbledore – como definir a sua magia? Também não é fácil, mas o que é notório é que a sua versão da magia é significativamente diferente da anterior, na medida em que não tem lugar pela utilização das ervas, mas por outros meios.

Um terceiro exemplo – qual a distinção entre uma bruxa e uma feiticeira? O dicionário da Priberam define a primeira como uma “mulher que se crê capaz de fazer bruxarias, feitiços ou profecias”, enquanto que a segunda é definida como uma “mulher que faz feitiços”, levando-nos a perguntar, em tom de brincadeira, se uma bruxa tem efectivamente poderes ou se só lhe basta crer que sim.

 

Todo este problema não é fácil de descortinar. Mas há, no entanto, uma distinção curiosa que é simples de se fazer – por razões históricas, a magia no feminino é frequentemente feita com recurso a elementos externos (invocação de divindades, uso do poder das ervas, etc.), enquanto que a magia masculina depende essencialmente de elementos internos (recitação de fórmulas, uso do conhecimento de livros, etc.). Ou seja… as mulheres necessitam de ajuda exterior para fazer a sua magia, enquanto que os homens a conseguem fazer pelo seu próprio poder. Claro que é uma ideia um tanto ou quanto estranha, mas como referido acima esta distinção deve-se a razões históricas, ainda de um tempo em que o acesso ao conhecimento nem sempre era possível ao sexo feminino.

 

Em suma, é muito difícil distinguir entre bruxas, feiticeiros, magos, xamãs e outras entidades mágicas semelhantes, mas parece ter existido uma distinção real entre o conhecimento mágico masculino e o feminino. Raramente se pensa num homem a esvoaçar numa vassoura, ou a mexer o seu caldeirão…