A verdadeira história da origem da Páscoa

A história da origem da Páscoa é, verdadeiramente, um daqueles temas que dá um grande e proverbial pano para mangas. Na verdade, durante dias até tentámos contá-la de uma forma muito completa nestas linhas mas, de uma forma inesperada, depois o sistema disse-nos, pela segunda vez em seis anos, que a publicação era longa demais. Por isso, conte-se toda esta história mas de uma forma muito mais sucinta e simplificada.

 

Os primeiros passos do ritual da Páscoa vêm dos tempos relatados no Antigo Testamento, quando os Judeus ainda viviam em terras do Egipto. Quem se recordar das famosas “dez pragas” saberá que a última foi a morte dos primogénitos dos Egípcios; para que se salvassem os filhos dos Judeus, Deus ordenou-lhes que, entre outras coisas, sacrificassem um cordeiro e untassem as suas portas com o sangue do animal, de forma a que o espírito divino os reconhecesse e poupasse. Por essa passagem divina é que o festival que viria a comemorá-la ficou conhecido em hebraico como Pesach, i.e. “passagem”.

 

Saltando agora alguns séculos no tempo, importa recordar que Jesus Cristo era Judeu. Ele celebrava esse festival da Pesach. Na verdade, é possível – mas não totalmente certo – que a Última Ceia tenha tido lugar nessa altura. E, se tivermos em conta o seu sacrifício e os paralelismos com a história acima, é fácil compreender aquela metáfora de Jesus como um cordeiro que (também) se sacrificou pela humanidade. Nesse sentido, se os primeiros crentes cristãos tinham praticado a religião judaica, pareceu fazer-lhes sentido celebrar o sacrificio do seu “novo” cordeiro na mesma altura em que tinham celebrado o sacrifício de um outro, o “antigo”.

Última Ceia e a Páscoa

Esta imagem mostra de uma forma muito interessante essa interrelação entre a Pesach e a Páscoa. Para os crentes cristãos, é aqui fácil reconhecer Judas com a bolsa do dinheiro na mão, acompanhado pelos outros apóstolos e Jesus com o pão e o vinho da Eucaristia… porém, quem também olhar para a mesa, poderá aperceber-se que está lá um (pequeníssimo) cordeiro, pães redondos espalmados (o chamado matzá) e alguns copos de vinho – todos eles directamente relacionados com o ritual dos Judeus. Quando Jesus ofereceu o pão e o vinho, i.e. o seu corpo e o sangue, fê-lo num contexto em que esses elementos eram muito significativos para os Judeus, e em que a Eucaristia até pode ser vista como uma celebração diária do seu sacrifício, enquanto novo e segundo cordeiro de Deus. E se até existem outras semelhanças entre os dois rituais religiosos, detalhá-las a todas vai além do nosso objectivo actual.

 

Mas tudo isto faz sentido, certo? Porém, a história ainda não acaba por aqui. Esta interrelação entre o ritual judaico e o cristão levou a um problema significativo – quando e como celebrar a Páscoa do Cristianismo? Se, em relação ao segundo elemento, na Páscoa cristã ainda existem múltiplas interrelações com a Pesach judaica, já a sua data levou a imensas discussões ao longo dos séculos, mas acabou por ficar definido que seria celebrada na data do primeiro domingo após a primeira lua cheia seguinte ao equinócio da Primavera. Quem fizer as contas notará que este ano é daqui a alguns dias, a 12 de Abril. A Pesach judaica, para quem estiver com curiosidade, é este ano celebrada entre os dias 8 e 16 de Abril.

Dúvidas, será que alguém as tem?

O verdadeiro Juramento de Hipócrates

O verdadeiro Juramento de Hipócrates, uma prenda para todos os médicos e profissionais de saúde que tanto têm trabalhado estes dias! No passado, já mencionámos que hoje em dia existem as mais diversas “versões” do Juramento de Hipócrates, entre elas duas disponíveis no site português da Ordem dos Médicos, mas… afinal, o que diz verdadeiramente o juramento original, aquele que se acredita que Hipócrates escreveu? Fomos em busca do texto original em Grego Antigo e seus fragmentos, comparámo-lo com diversas versões (Latinas, Bizantinas, mais recentes, etc.), procurámos ainda traduções dos nossos dias, e com base em toda essa informação podemos então apresentar esta tradução do original:

 

Eu juro por Apolo Médico [i.e. um dos epitetos do deus de Delfos], por Esculápio [deus da Medicina], por Higeia [deusa da saúde], por Panaceia [deusa da cura], e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, a tarefa de cumprir, segundo o meu poder e a minha razão, a promessa que se segue:

 

Estimar, tanto quanto aos meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer com ele vida comum e, se tal for necessário, partilhar com ele os meus bens; considerar toda a sua família como meus próprios irmãos e ensinar-lhes esta arte, se eles quiserem aprendê-la, sem remuneração nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, lições e ensino, aos meus filhos, aos do meu mestre, e aos discípulos que fizeram este mesmo juramento, mas a mais ninguém.

 

Aplicarei o tratamento para ajudar um doente de acordo com o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou fazer mal a alguém. Não administrarei a ninguém um veneno se isso me for pedido, e jamais sugerirei esse caminho. Do mesmo modo. não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Mas conservarei como pura e santa a minha vida e a minha arte. Não usarei a faca, nem mesmo quando [a pessoa] tiver cálculos, deixarei essa operação para quem estuda essa prática.

 

Em todas as casas em que eu entrar, fá-lo-ei para ajudar o doente, mantendo-me longe de todo o dano voluntário, especialmente de abusar do corpo de um homem ou mulher, escravo ou liberto. Aquilo que no exercício da minha profissão, ou fora dele mas no meu convívio com a sociedade, que não seja preciso divulgar, eu guardarei como secreto.

 

Se eu cumprir este juramento, e não o quebrar, que eu ganhe para sempre reputação entre os homens pela minha vida e pela minha arte; mas se o quebrar e me afastar dele, que o contrário me aconteça.

 

Não é, como é fácil perceber, um texto muito longo, mas sim um pleno de significado. Poderia até ser um texto imortal, não fosse o facto de, cada vez mais, se sentir uma necessidade de manter a sua simbologia mas alterar o seu significado, quando não há qualquer necessidade real disso. O Juramento de Hipócrates deve ser isso mesmo, um juramento médico tal como apresentado pelo famoso médico grego, e é estranho que o seu nome seja tão mantido nos nossos dias mas que o seu espírito e texto seja constantemente alterado – na verdade, os médicos com quem falámos pensavam, todos eles, que o juramento que escolheram fazer era o original, aquele que Hipócrates nos deixou… Se é para, metaforicamente, se colar cornos num gato e lhe chamar um touro, pelo menos que se avise as pessoas de que o animal originalmente miava…

Qual o significado da esfera armilar?

Qual o significado da esfera armilar? Quando, há pouco mais de um ano, falámos sobre a origem da palavra “Lusíadas”, escolhemos para ilustrar essas linhas a imagem de uma esfera armilar. Tanto em Portugal como no Brasil, este ícone está muitíssimo ligado aos Descobrimentos – mas, na verdade, o que significa?

Esfera armilar, novamente

Apenas nos apercebemos disto há alguns dias, enquanto líamos o Tratado da Esfera de João de Sacrobosco (disponível em Português aqui), um dos textos mais significativos da literatura científica europeia, mas a esfera armilar não é senão uma representação do cosmos, em que cada uma das linhas tem um significado muito particular, como mostra esta imagem da obra de Sacrobosco:

A Esfera do Mundo

Esta representação de uma esfera armilar é famosa e mantém-se na bandeira de Portugal até aos nossos dias. A do Brasil, no entanto, hoje já só apresenta um globo com uma banda central (onde está escrito “Ordem e Progresso”), bem como estrelas simbólicas de cada um dos 27 (ou 26+1) estados do país, sem deixar de recordar a forma que já teve nos séculos passados. Interessante, não é?

Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Se não são muitas as pessoas nascidas em Portugal que conheçam bem os deuses e figuras do Hinduísmo, há pelo menos uma entidade divina cuja imagem já todos devem ter visto em diversos locais – Ganesha (ou Ganexa, Ganesh), um deus com cabeça de elefante. Agora, se figuras como estas até eram muito comuns nos mitos do Antigo Egipto, no Hinduísmo estes seres de dupla forma não são tão frequentes (para outro exemplo ver o caso de Narasimha, um “homem-leão” e quarto avatar do deus Vishnu). E por isso uma questão de curiosidade impõe-se – porque tem Ganesha cabeça de elefante?

Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Parecem existir várias opiniões, mas optamos por contar aqui, de uma forma breve, as duas mais famosas. Numa delas Ganesha nasceu com esta forma. Porém, numa outra o deus envolveu-se num confronto em que lhe cortaram a cabeça; depois, sendo incapazes de encontrar a original, os outros deuses substituíram-na pela de um elefante. E porquê este animal? Bem, mesmo sem conhecerem as histórias associadas a esta figura, basta olhar para a imagem acima para notar que ele gosta muito de doces (vejam até onde coloca a tromba, um prato de laddus *!), e tem uma pança proeminente; como tal, pareceu justo aos outros deuses darem-lhe a cabeça de um animal que também partilhava essas mesmas características.

 

Estará uma destas opiniões certa? Será que a resposta até é outra, completamente diferente? Não se trata de uma questão de certo ou errado; nos textos do Hinduísmo, como nos de todas as outras religiões, existem factos consumados e existem opiniões, e a razão por detrás da cabeça elefantina com que Ganesha costuma ser representado pertence ao segundo grupo.

 

 

*- Um agradecimento à Embaixada da Índia em Portugal, que nos ajudou nesta preciosa identificação.

Os segredos da mãe e da madrasta da Cinderela

Cinderela

A Cinderela, enquanto história infantil, é provavelmente uma das mais famosas dos nossos dias. No entanto, a versão que nos chegou pelos Irmãos Grimm, como várias outras, tem vários elementos censurados, necessários para tornar uma história de adultos num conto muito mais próprio para crianças. Até poderíamos aqui contar várias alterações que foram sendo feitas ao longo dos séculos, mas hoje focamo-nos em duas delas, as histórias da mãe e da madrasta da Cinderela. Quem ler a história dessa heroína tal como ela nos é apresentada nos nossos dias poderá deparar-se com um problema, o facto da mãe e a madrasta serem figuras sobre as quais sabemos muito pouco. A primeira é um fantasma cuja existência apenas pode ser subentendida pela existência de uma filha. A segunda, a horrenda madrasta da Cinderela, é-nos apresentada como um ser odioso, que até tem as suas próprias filhas, mas pouco mais. Porém, em versões muito mais antigas são-nos revelados elementos surpreendentes que podem mudar toda a história…

 

Alguns anos antes, Cinderela, então ainda menina, sentia uma enorme inveja do tempo que a mãe passava com o pai. Para o ter só para si mesma, com a ajuda de uma empregada doméstica empurrou um armário e ensanduichou mortalmente a mãe. Depois, ambas disseram ao pai que nada sabiam sobre esta tenebrosa morte, e que provavelmente a mãe morreu devido a um acidente totalmente caricato. Esta empregada doméstica viria a tornar-se, mais tarde, a própria madrasta da Cinderela.

Sabendo esta informação, o ódio da madrasta – ou será medo, o que ela sentia pela Cinderela? – torna-se muito melhor justificado. Mas esta história ainda não terminou – anos mais tarde Cinderela arrependeu-se das suas acções. Foi ao túmulo da mãe, rezou-lhe, e o espírito da falecida apareceu-lhe no escuro da noite. Primeiro, este espectro perdoou-a pelos seus actos, e depois deu-lhe os sapatos e o vestido para o baile, os mesmos que um dia tinham estado guardados no interior do armário mortal.

 

O que é curioso nestes elementos que foram sendo sanitizados é o facto de nos darem referências importantes que não constam nas histórias actuais, em que a morte da mãe de Cinderela é um mistério, a filha parece cruelmente injustiçada, a madrasta é um estereótipo maldoso, e uma fada madrinha* surge de uma forma totalmente miraculosa, como um conveniente deus ex machina das tragédias dos Gregos. Mas, ao final do dia, a mãe até existiu, a menina Cinderela não era nenhuma santinha, a madrasta até tinha muito boas razões para os seus actos, e a origem do vestido e sapatos para o baile certamente que chocaria os mais novos…

 

*- “Madrinha”, até em substituição de uma mãe agora ausente e totalmente removida da história…