Onde e como morreu Camões?

Onde e como morreu Camões?

Falando de onde e como morreu Camões, devemos relembrar que o dia 10 de Junho é feriado em Portugal, sob o nome de “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, devido ao facto do autor dos Lusíadas ter falecido a 10 de Junho de 1580, e tal como o seu poema celebra os feitos dos Portugueses, foi também decidido que o dia da sua morte mereceria celebrar a Portugalidade. Contudo, quem viver em Lisboa poderá nunca se ter apercebido de uma pequena curiosidade:

No número 139 da Calçada de Sant’Ana, por cima de uma taberna, pode ser encontrada uma casa em que se acredita que Camões viveu e faleceu. Uma pequena placa, datada de 1867, assinala o local em que faleceu… se por doença, ou pela desilusão causada pelo falecimento de Dom Sebastião em Ceuta e os eventos que se seguiram, já é mais difícil saber-se.

 

Mas a história ainda não fica por aqui. Depois, o seu corpo foi transportado e sepultado na Igreja de Sant’Ana. Com o terramoto de 1755 perdeu-se o seu local preciso, sendo muito possível que no túmulo de Camões, hoje no lado direito quando se entra na igreja do Mosteiro dos Jerónimos, estejam restos mortais que nem são os dele. É um pouco triste…

Um “ABC” do século XVI

Ainda se lembram dos primeiros tempos de escola e dos livros que, bem nas suas primeiras páginas, tinham as letras do alfabeto ilustradas – A para avião, I para igreja, X para xilofone, Z para zebra, etc.? O que hoje aqui trazemos é um alfabeto semelhante, mas da segunda metade do século XVI. Vem da obra Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, uma das primeiras compilações de contos morais nacionais. Surge no final da primeira parte do texto, na qual o autor tenta ajudar uma mulher de 20 anos, já casada mas que agora queria aprender a ler (o que era pouco comum na época). Instando-a a conhecer as letras do alfabeto, o autor escreve-lhe então o seguinte:

Amiga de sua casa;
Benquista [i.e. estimada] da vizinhança;
Caridosa com os pobres;
Devota da Virgem;
Entendida em seu ofício;
Firme na fé;
Guardosa [i.e. que cuida bem] de sua fazenda;
Humilde a seu marido;
Inimiga de mexericos;
Leal;
Mansa [i.e. no sentido de sossegada];
Nobre;
[H]Onesta;
Prudente;
Quieta;
Regrada;
Sisuda [i.e. séria];
Trabalhadeira;
Virtuosa;
Xpã [i.e. cristã];
Zelosa da sua honra.

Pelo contexto percebe-se que estas palavras indicam as grandes virtudes que se esperavam de uma mulher nessa época, devendo elas aprendê-las juntamente com o próprio abecedário, como as crianças de hoje começam por aprender as letras e significados mais indicadas para os seus próprios contextos. Tristes sinais dos tempos, que estas importantes virtudes já não sejam ensinadas nas mesas da escola…

A mitologia do Senhor dos Anéis

O tema da mitologia do Senhor dos Anéis, da autoria de J. R. R. Tolkien, é fascinante, porque se refere a um conjunto de mitos e lendas construídos pelo autor, mas com uma base significativamente realista, em alguns instantes até brevemente derivada dos mitos nórdicos e germânicos. Mas já lá iremos, por agora convém apresentar, de uma forma muitíssimo breve, os quatro principais volumes que compõem a série.

Tudo começa com O Hobbit, em que a personagem principal, Bilbo Baggins, é como que convidado a juntar-se a uma aventura. São muitas as peripécias por que vai passando, mas o mais importante é o facto de este primeiro livro explicar como é que ele obteve o famoso anel que dá nome a toda a série. Sim, também obtém uma grande fortuna, e uma armadura de mithril (um metal ficcional, inventado para esta série), mas esses são elementos secundários face ao próprio anel.

Depois, na trilogia que compõe o Senhor dos Anéis em si mesmo – A Irmandade do Anel, As Duas Torres, e O Regresso do Rei – o que tem essencialmente lugar é um desenvolvimento desse tema inicial, com o herói principal a tornar-se agora Frodo Baggins, numa intenção geral da destruição do poderoso anel, que desde o seu início é apresentado como tendo um misterioso poder de invisibilidade.

A Mitologia do Senhor dos Anéis

Claro que este pequeno resumo é demasiado redutor do interesse de toda a série, mas é mais que suficiente para aqui se introduzir a mitologia do Senhor dos Anéis. Se à partida este anel tem poderes mágicos, o porquê de os ter só vai sendo revelado progressivamente, mas nunca de uma forma completa. É um anel misterioso, cuja completa realidade nunca é revelada, ou pelo menos não como esperaríamos de uma obra de ficção. E, de uma certa forma, esse ambiente de mistério pauta todas estas quatro obras, como também O Silmarillion, obra póstuma em que o universo das lendas da série é explorado de uma forma mais intensa. Por exemplo, quando é apresentada uma área de nome original Helm’s Deep, as personagens até podem comentar sobre a origem do nome, mas fazem-no de uma forma relativamente incerta, como se não tivessem a certeza absoluta do que estão a comentar – apenas o “ouviram dizer”, sem certezas de maior.

 

Essa insegurança, essa imperfeição de muitas das personagens, que não sabem ou já não têm a certeza de algo, é – pelo menos para nós – o elemento mais curioso de toda a mitologia do Senhor dos Anéis, porque preserva um elemento muito realista do mundo. Quem ler uma obra como a Descrição da Grécia de Pausânias, poderá ver que o seu autor, e mesmo as fontes a que foi tendo acesso, nem sempre têm a certeza dos mitos e lendas que comunicam ao leitor. Realisticamente, assim é o mundo – bastará que se recorde, como exemplos nacionais, a Cruz de Popa ou a Pedra Amarela – até porque não sabemos as histórias por detrás de tudo aquilo que nos rodeia.

 

Na trilogia do Senhor dos Anéis, bem como na obra que a precede, é curiosa essa presença, sempre dual, do mito e da lenda. Existe a aventura das diversas personagens, aquela que já apresentámos super sucintamente acima, mas por detrás dela também está contido um palco riquíssimo, que deixa sempre muito que pensar, ainda para mais a quem se interesse por estes temas. Por exemplo, quando Bilbo Baggins e os seus companheiros confrontam o dragão Smaug, fazem-no num contexto muito semelhante ao do confronto germânico com Fafnir, e quando os heróis de uma outra aventura encontram o misterioso – e infinitamente poderoso (?) – Tom Bombadil, como não ver nele um herdeiro das lendas de figuras como o Homem Verde?

 

 Terá sido mera coincidência? Quando construiu estas aventuras, é fácil notar que J. R. R. Tolkien sabia o que estava a fazer, fruto do seu estudo de obras de ficção como Beowulf. E, nesse sentido, se as histórias que nos contou não são, na verdade, derivadas dos mitos nórdicos ou germânicos, têm pelo menos a sua inspiração às costas. Mas, ao mesmo tempo, também são aventuras pautadas por um pensamento tácito, de natureza mitológica e lendária, que raramente se encontra nos nossos dias. E isso acaba por ser interessante, tão interessante como as próprias aventuras que os heróis vão vivendo nas suas páginas. Quem quiser poderá lê-las só por isso, pelas tramas por que vão passando as diversas personagens, enquanto que alguém mais interessado na área da Mitologia poderá, até em alternativa, pensar mais no papel das próprias lendas no espírito de toda a série, em momentos como aqueles em que a personagens discutem entre si histórias e versos que ouviram em outros tempos, mas que não estão necessariamente ligados aos seus próprios feitos.

 

Para quem tiver especial interesse nessa mitologia do Senhor dos Anéis, de Tolkien, deverá começar por ler as quatro obras acima, e poderá depois ler O Silmarillion. Existem, em seguida, obras quase enciclopédicas, como The History of Middle-earth (em 12 volumes), só mesmo para quiser compreender melhor toda a questão, e até existem estudos em Português sobre tudo isto, como o Estudo dos mitos e da construção narrativa em J. R. R. Tolkien, publicado no Brasil em 2018. Mas isso fica para outro dia…

Virgílio e a “Divina Comédia”

Muitos são os mistérios que se escondem nos versos da Divina Comédia, mas hoje focamo-nos na ideia de Virgílio – o mesmo que escreveu a Eneida, entre outras obras – enquanto guia de Dante. Porquê ele, e não Homero, ou Ulisses, ou Eneias, ou uma Sibila, ou até alguma outra figura mais ligada aos conhecimentos do submundo?

 

Não é uma resposta simples, nem uma que se possa sequer dar com 100% de certezas, mas sabemos é que na Idade Média Virgílio era visto como um mago, talvez até como uma das mais famosas figuras mágicas do sexo masculino. Isso poderá dever-se ao facto de as suas obras conterem profecias, uma delas até (supostamente) relativa à vinda de Cristo. Se, então, se acreditava que ele tinha conhecimentos sobrenaturais, faria por isso algum sentido que fosse uma figura pagã indicada para apresentar o mundo dos mortos a um potencial visitante.

 

Mas será, sem qualquer dúvida, esta a razão pela qual Virgílio foi o escolhido? Realisticamente, não sabemos. O seu papel na Comédia poderá ter sido tanto uma consequência, como uma causa, da sua fama enquanto mago. Porém, também poderá ter sido escolhido por se tratar do mais famoso poeta latino de então e, por isso, um bom modelo para o próprio Dante. Muitas outras poderão ter sido as razões, mas as aqui apresentadas são aquelas que, de um modo geral, nos parecem as mais lógicas.

O Mosteiro dos Jerónimos destruído

Quem estiver habituado a incursões pela internet provavelmente já terá visto uma fotografia do Mosteiro dos Jerónimos destruído. Repetimo-la abaixo, para quem nunca a tiver visto antes, mas recordamos também este tema dada a gravidade do que aconteceu em Paris recentemente.

No já-distante século XIX o agora-famoso Mosteiro dos Jerónimos tinha estado abandonado durante vários anos, após a expulsão das ordens religiosas de Portugal. Depois, numa dada altura decidiu começar-se a utilizá-lo para outros fins, e então tentou-se renovar e melhorar toda a estrutura do edifício. Mas depois, na manhã de 18 de Dezembro de 1878, aconteceu o seguinte:

Mosteiro dos Jerónimos Danificado

Como podem ver nesta imagem, o mosteiro estava a ser parcialmente reconstruído quando choveu bastante durante a noite, o que levou a um grande acidente, na sequência do qual acabaram por falecer oito trabalhadores. Nos dias seguintes acabou por se votar contra a reconstrução do edifício como este estava planeado, mas a realidade é que o Mosteiro dos Jerónimos, com ligeiras alterações, ainda chegou aos nossos dias e é famoso entre todos nós – na imagem seguinte até pode ser vista a mesma entrada deste mosteiro, tal como ela é nos nossos dias, o que permite ver algumas das alterações que estavam a ser implementadas e que, no entanto, acabaram por não ter lugar – por exemplo, acima da janela do piso superior ia ser colocada uma estátua de um santo, e esta parte do edifício também ia ter um pináculo na sua parte superior…

Entrada do Museu Nacional de Arqueologia

Como este nosso Mosteiro dos Jerónimos nacional, é possível que também a bela Catedral de Notre-Dame (de que até já cá falámos de um segredo) volte a ter vida um dia. Claro que já não será como antes, mas… há que ter esperança no futuro!