Édipo e a vingança da Esfinge – a que se devia ela?

O mito de Édipo já cá foi falado antes (aqui), mas raras são as fontes que referem o porquê do ataque da Esfinge à cidade de Tebas. Segundo, porém, um escólio onde nos é contado parte dos antigos poemas épicos sobre este tema, existia uma razão para o ataque do invulgar monstro – Laio, rei de Tebas e pai de Édipo, tinha-se envolvido com outro homem (no contexto da história, esta seria a primeira de todas as relações homossexuais), e então Hera, enquanto deusa do casamento, enviou a Esfinge para vingar esse “inovação”, se lhe podemos chamar tal.

 

É difícil saber até que ponto esta informação, atribuída a um “Pisandro”, representava a visão original do mito. Sabemos, isso sim, é que se a Esfinge, e o seu episódio com Édipo, até é mencionado pelos mais diversos autores, ao mesmo tempo poucos são os que referem o porquê dessa presença, sendo esta opinião tão boa como qualquer outra que nos tenha chegado.

O regresso de Ovídio a Roma, e a singular história de São Naso

Que Ovídio foi um dos maiores poetas latinos, poucos discordariam. Porém, por uma qualquer carmen et errore, acabou por ser expulso de Roma, e foi viver para Tomis, uma cidade portuária na actual Roménia. Presume-se que tenha sido aí que morreu, e creio que nenhum autor fiel da sua época alguma vez contradiz essa ideia.

Ovídio

Estas linhas nem estariam a ser escritas se toda a história tivesse ficado por aí, mas… vários séculos mais tarde, em plena Idade Média, começaram a surgir outras opiniões. Uma das mais curiosas é que, um dia, Ovídio foi perdoado, e no seu regresso a Roma acabou por ser recebido por uma multidão tão grande que morreu, fruto de algum tipo de atropelamento. Outra história diz que Ovídio, ainda em Tomis, se arrependeu dos seus erros e se converteu ao Cristianismo, sendo, eventualmente, venerado como “São Naso” (que, para quem estiver curioso, hoje resume-se a um mero nome, não fazendo parte dos santos da religião católica).

 

Nenhuma das duas histórias parece ter algum fundamento real, até porque não parecem ocorrer em qualquer fonte literária durante quase um milénio, mas conhecendo a bela poesia deste autor, quem não lhe desejaria um final bem melhor do que aquele que parece ter tido?!

Uma pequena história de Sócrates

Sócrates, imortalizado nas linhas de Platão, é uma figura muitíssimo bem conhecida na Filosofia, mas, ao longo de toda a literatura da Antiguidade, existem momentos em que outras faces da mesma figura são reveladas. Estrabão, ao referir a Batalha de Délio, coloca então Sócrates do lado dos vencidos, e diz que este, após ter perdido o cavalo, encontrou Xenofonte caído, e transportou-o às costas para fora de combate. Muitos outros autores referem a presença do (futuro) filósofo nessa batalha, mas são momentos como estes que nos permitem constatar que existe um outro Sócrates antes do filósofo.

 

Alguns autores mencionam, por exemplo, que esta figura trabalhou na estatuária, tendo criado umas estátuas das Graças que estavam na Acrópole de Atenas, mas nem todas essas afirmações são igualmente credíveis. Se a presença da figura na batalha aqui referida até aparece bem atestada, outros elementos (como o das estátuas) nem sempre têm o mesmo valor, devendo ser vistos, muitas vezes, com alguma prudência.

A descoberta do íman

Plínio o Velho conta-nos apenas que o íman foi descoberto por um pastor chamado Magnes, quando este fazia a sua usual tarefa nos montes e deu por si com os pregos da sandália, bem como parte do seu bastão, a serem atraídos por uma dada rocha.

 

Seria esta uma história verdadeira? O nome grego remete-nos para a sua origem na região da Magnésia, onde, segundo nos é dito, existiriam muitas pedras com estas propriedades, pelo que é provável que a história deste Magnes, como muitas outras, nos pareça correcta, mas também seja apenas uma falsa etimologia que, apesar de já não ser preservada na língua portuguesa, ainda o é em línguas como o Inglês (“magnet”).

O conceito de dia

Sobre o conceito de dia… creio que em todas as civilizações contemporâneas um dia oficial é definido como um espaço de 24 horas compreendido entre aquilo a que chamamos duas meias-noites, ou seja, entre as 00h e as 23:59h. Porém, nem sempre assim o foi.  Como nos informa Plínio o Velho, no livro II da sua História Natural, diversas civilizações da Antiguidade tinham conceitos diferentes para este período, que definiam como um espaço entre:

 

Babilónios – dois nasceres do sol

Atenienses – dois pores do sol

Umbrianos – dois meios-dias

População em geral – o nascer do sol e a escuridão

O dia oficial romano, os Egípcios, e Hiparco [autor grego, que parece ter escrito sobre temas como estes] – período entre duas meias-noites

 

O que distingue estes conceitos parece ser os dois pontos-chave que considera como os limiares de um “dia”; se os quatro primeiros casos se referem a fenómenos naturais, que todos poderiam constatar e verificar, já o último necessita de algum método para verificar as horas, seja ele um relógio solar ou de água.

Agora,poderíamos perguntar-nos o seguinte, porque foi o conceito romano adoptado para a generalidade das populações, ao longo dos séculos, em detrimento de outros que, de uma forma natural, nos poderiam parecer mais lógicos? A resposta parece advir da necessidade de conjugar dois elementos cruciais, a presença de um conceito estático e a necessidade de conveniência.

 

Se o dia fosse, para nós, definido como o faziam os Babilónios ou os Atenienses, a sua duração acabaria por variar ao longo do ano. Ao mesmo tempo, se seguissemos a visão dos Umbrianos, o que também poderia acontecer era uma interrupção constante do trabalho diário, para que se soubesse, por exemplo, se uma dada transacção comercial ainda estava a ocorrer num dado dia, ou já estava a ter lugar no seguinte, o que também não seria muito conveniente.

Assim, poderá mesmo ter sido por estas razões que o dia, como o definiam os Romanos, foi sendo adoptado pelas diversas populações…