Os mitos de Procusto, Sínis, Cercion e Escíro

Os mitos de Procusto, Sínis, Cercion e Escíro encontram-se intimamente ligados à figura de Teseu. Se o famoso herói grego começou os seus pseudo-trabalhos com o fácil confronto com a Porca de Cromion, depressa se encontrou com opositores talvez menos estranhos mas mais poderosos, entre os quais se contam as figura de que cá falamos hoje – Procusto, Sínis, Cercion e Escíro.

Mito de Procusto

Procusto tinha uma cama que foi construída especificamente para o seu tamanho, e obrigava as pessoas que encontrava na floresta em que vivia a deitarem-se nela. Se fossem altas demais, esta figura cortava-lhes as pernas e a cabeça; se, pelo contrário, fossem baixas, esta estranha figura puxava-lhes os braços e as pernas até à morte. Eventualmente, Procusto cruzou-se com Teseu, que o derrotou, o prendeu nesta funesta cama, e o matou nesse mesmo lugar em que tantas outras pessoas já tinham falecido.

 

Sínis tinha por hábito matar os viajantes com recurso a pinheiros. Mediante a versão do mito, ou os prendia entre duas destas árvores (esticando-os até à morte); ou lhes pedia para segurarem num pinheiro vergado, que depois soltava, atirando a pessoa ao ar para a sua morte. Teseu puniu Sínis de uma forma semelhante a essa, matando-o, antes de fazer amor com a filha do falecido – o mito não parece registar a consensualidade dessa relação sexual, até porque se presume que a jovem estivesse triste.

 

Já Cercion “só” convidava os viajantes para um combate de luta-livre, prometendo o seu reino a quem o vencesse, o que ninguém conseguia fazer – e então era mortos, numa parte do acordo que o combatente se esquecia normalmente de dizer! Isto prolongou-se durante anos, até que Teseu derrotou Cercion com técnicas inovadoras. Depois, violou as filhas do monarca.

 

Para terminar estes pequenos mitos de hoje, Escíro interpelava os viajantes pedindo-lhes apenas que lhe lavassem os pés. Levando-os depois a um local perigoso, dava-lhes um pontapé, precipitando-os para a sua morte num desfiladeiro. A este Escíro, Teseu ou empurrou no mesmo desfiladeiro mortal, ou pegou nos seus pés e atirou-o ao mar. Possivelmente esta figura vilanesca não tinha filhas, o que poderá ter entristecido o herói…

 

Estes quatro mitos – entre outros, que ficarão para um dia diferente – inserem-se numa sequência a que até podemos chamar os Trabalhos de Teseu, por semelhança com os de Hércules. Certamente que não são tão impressionantes como as lutas constantes contra monstros desse outro famoso herói grego, mas denotam igualmente um seu papel de herói civilizador, tema de que já cá falámos anteriormente, mas que aqui mata vilões e viola donzelas para prolongar a sua linhagem… a primeira parte até podemos recomendar, a segunda nem tanto!

O mito de Caronte

O mito de Caronte é o de uma figura muito singular da Mitologia Grega. Filho de Nyx, a Noite personificada, este Caronte era uma espécie de barqueiro infernal, e o grande deus responsável por transportar quem falecia para o estranho mundo do pós-vida, localizado além do rio Estige. Nesse sentido, as pessoas falecidas até eram tipicamente sepultadas ou queimadas com um óbulo na boca, para que no mundo dos mortos tivessem essa importância monetária necessária para pagar o transporte.

O mito de Caronte

“Para que queria Caronte esse dinheiro?”, podiam perguntar alguns leitores. Na verdade, até é uma questão relativamente frequente. Não há um registo real do que ele fazia com os óbulos que os falecidos lhe iam entregando, até porque enquanto figura divina nada lhe faltaria em termos de posses materiais, mas é provável que se tratasse de um costume meramente simbólico – tal como os barqueiros no mundo dos vivos pediam uma moeda, ou uma espécie de gorjeta, pelos seus serviços, supunha-se que também este derradeiro navegador o fizesse.

 

Feita esta breve introdução à figura de Caronte, pergunte-se – são muito os mitos em que ele entra, enquanto figura mitológica? Existem, aqui e ali, algumas referências mais directas a esta figura. No mito de Sísifo, por exemplo, esse anti-herói volta para trás, e regressa até à vida, após não ter o óbulo necessário para pagar esta espécie de portagem. Hércules ameaçou-o com os seus punhos, quando ia a caminho para capturar o monstruoso Cérbero. Cruz-se com Psique. Surge como personagem em diversas das obras de Luciano da Samósata. E outras coisas que tais, mas normalmente limita-se a fazer o seu trabalho, sem ter uma grande influência real na trama de algum mito em específico. Por exemplo, desconhece-se que alguma vez tenha tido filhos, ou que se tenha apaixonado por uma das muitas mulheres cujos espectros foram levados no seu barco…

 

Ainda assim, se Caronte nunca teve um papel principal nos muitos mitos que nos chegaram, a sua tarefa única parece ter ficado fixada na cultura popular. Dante – a personagem, não o próprio poeta – cruza-se com ele nos inícios da Divina Comédia, e obras muito mais recentes, como A House-Boat on the Styx (de John Kendrick Bangs, autor americano de finais do século XIX), também o reutilizam como personagem. Aparece em vários filmes, quase sempre no seu famoso papel. Se não foi, em outros tempos, uma figura principal na Mitologia Grega ou nas muitas histórias dos Romanos, há que frisar que também não está de todo esquecida nos dias de hoje…

O mito de Mitra

Contar o mito de Mitra, uma figura que se tornou famosa nos últimos séculos do Império Romano, não é tarefa fácil. Se já cá fizemos uma breve alusão a essa figura, enquanto divindade solar associada de certa forma à Mitologia Romana, que histórias se escondem por detrás dela? Quem foi Mitra, ou Mitras (como alguns lhe chamam), este herói cuja figura foi encontrada em diversos mitreus (um exemplo até pode ser visto aqui), sempre numa constante tarefa de matar um touro?

 

Admita-se, passámos anos em busca desta figura, de potenciais mitos que lhe fossem associáveis, mas o grande problema é que o Mitraísmo era uma religião secreta, envolta em secretismo. Se os Mistérios de Elêusis perduraram durante séculos e os seus segredos só foram parcialmente revelados já por Clemente de Alexandria (no século II ou III da nossa era), este caso em particular ainda é mais complicado… em termos religiosos sabemos que se o culto desta figura chegou à Europa através da Pérsia (tendo possivelmente nascido na Índia), mas a sua forma romana, a que nos referimos aqui hoje, tinha algo de muito único. Sabemos que tinha uma ligação com o zodíaco; que os seus crentes se separavam em sete níveis com símbolos específicos (aparentemente ligados ao próprio mito); que este culto tinha algumas semelhanças com o Cristianismo, incluíndo um baptismo com o sangue de um touro e uma refeição simbólica em que eram consumidos pão e água; e que provavelmente a sua liturgia era uma espécie de teatralização da própria história desta figura e tomava lugar no interior de uma caverna… mas pouco mais!

Feita esta (hoje longa!) introdução, passemos então ao conteúdo do mito de Mitra:

Nascimento de Mitra

Sabemos que Mitra nasceu de uma pedra ou de um ovo, potencialmente até já no interior de uma caverna. E fê-lo não só já com o seu barrete frígio na cabeça, mas com um objecto em cada mão – tipicamente um archote e um punhal. É provável que isso denotasse o destino desta figura, como veremos na sequência seguinte.

O mito de Mitra e a morte do touro

O momento mais famoso do mito de Mitra é aquele em que ele matou um touro, até porque esse sacrifício baptismal era uma parte famosa da sua liturgia. O herói é representado constantemente nos mais diversos mitreus a realizar esta tarefa, mas quem prestar atenção poderá aperceber-se que existem muitos detalhes nesta representação. Alguns dos mais curiosos são:

 

Nos cantos superiores podem ser vistas duas figuras. A da esquerda é Sol (o tal Sol Invictus, ou Sol Inconquistável, de que já cá falámos antes), identificável pelos seus raios, enquanto que a do lado direito é a Lua, identificável pelo crescente. Como veremos mais à frente, pelo menos a primeira destas duas figuras tinha um papel importante em todo este mito.

Ao centro, o herói prepara-se para degolar o touro com o seu punhal. Presume-se que seja uma criatura monstruosa, mais do que um animal qualquer. Curiosamente, nesse momento o herói olha quase sempre na direcção de Sol, como que a dizer que está a cumprir o que este lhe pediu, ou a querer homenageá-lo. Em redor podem ser vistos alguns animais – aqui, são uma serpente e (provavelmente) um cão. Não sabemos se o ajudavam na sua tarefa, ou se estavam a dificultá-la, como quando o caranguejo atacou Hércules durante o seu confronto com a Hidra. Porém, em outras representações podem surgir outros animais, incluindo alguns que foram omitidos aqui, que não sabemos como intervinham em toda a acção principal.

No lado esquerdo e direitos da imagem podem ser vistas duas figuras humanas. Tratavam-se de Cautes (com a tocha para cima) e Cautopates (com uma tocha para baixo), representações metafóricas do nascer e do pôr do sol.

Finalmente, pelo tecto abobadado e com pedras pode-se inferir que toda a acção tinha lugar dentro de uma caverna. Em seu redor podem ser vistos vários episódios da vida do herói (e.g. do lado esquerdo até pode ser facilmente visto o seu nascimento de uma pedra ou ovo), dando a entender que este já tinha passado por muitas aventuras que hoje desconhecemos; porém, por vezes são aí representados os signos do zodíaco, podendo depreender-se que esta caverna era um microcosmo ou um símbolo do próprio universo.

Mitra e o Banquete

Neste último (ou penúltimo?) momento do mito, Mitra provavelmente ascendia aos céus e partilhava uma refeição com Sol. A Lua parece afastar o olhar, no canto superior esquerdo; seria ela uma derrotada de toda a história, como se o confronto com o touro se tratasse de uma disputa entre os dois deuses celestes? Não sabemos, mas é muito possível que esta se tratasse de uma refeição simbólica, com a figura do lado direito – seria ela o deus Mercúrio, pelo caduceu que segura na sua mão? – a indicar já um possível túmulo, enquanto o herói partilha de um momento que, possivelmente, lhe estava a garantir a imortalidade.

 

O que nos permite concluir tudo isto sobre o mito de Mitra? Sucintamente, este herói nasceu de uma pedra ou ovo, com o seu destino já bem traçado. Realizou vários feitos memoráveis, sobre os quais agora sabemos muito pouco. Entre todos eles, o mais famoso e difícil foi o da destruição ou sacrifício de um determinado touro monstruoso, possivelmente a pedido de uma divindade solar e/ou contra uma divindade lunar. É provável que a vitória nesse grande acto lhe tenha garantido a imortalidade,  sob a forma da convivência com os deuses.

Assim, é possível que quem praticasse o Mitraísmo também procurasse, ao reproduzir simbolicamente as tarefas do herói no microcosmo de uma escura caverna, atingir uma espécie de imortalidade após a morte. Essa é uma ideia comum em quase todas as religiões, o que pode ter contribuído para explicar a sua grande rivalidade com o Cristianismo, na medida em que tinham alguns símbolos semelhantes e, potencialmente, ambas pregavam uma vida após a morte que só podia ser atingida por aquilo que era ensinado na sua religião específica. Assim, é possível que esta religião tenha desaparecido porque os Cristãos, dada a semelhança com a sua religião, a consideravam um grande alvo a abater. Mas isso já são outras histórias…

O mito de Pirene (e os Pirinéus)

Falar do mito de Pirene implica, quase automaticamente, desdobrar esse nome em pelo menos três figuras individuais, com muito pouca ligação directa entre elas. Com o nome de Peirene, i.e. Πειρήνη, conhece-se uma ninfa que teve um filho por Poseidon, e esse jovem teve o triste destino de ser morto por Artémis, levando a própria mãe, desgostosa, a chorar tanto que acabou por se tornar uma famosa fonte da região de Corinto. Mas Pirene, i.e. Πυρήνη, também é o nome partilhado pela mãe de Cicno, figura famosa do Escudo de Héracles, e pela figura a que hoje aqui emprestamos o palco principal.

Pirene e os Pirinéus

Sobre este terceiro mito de Pirene, conta-se então que Hércules, aquando do seu trabalho com o Gado de Gerião, passou pela Península Ibérica e por aqui teve muitas aventuras. Numa delas, ele engravidou uma jovem com este nome; não sabemos até que ponto essa relação sexual foi consentida, mas depois, e por razões que não estão muito bem explicadas no mito, ela acabou por dar à luz um estranho ser serpentino. Tremendamente assustada, fugiu sem cessar, acabando por falecer. Depois, o herói eregiu-lhe um túmulo imenso, empilhando repetidamente pedra sobre pedra, acabando assim por construir, com as suas próprias e poderosas mãos, toda a grande cordilheira dos Pirinéus.

 

Este mito de Pirene é, portanto, uma tentativa greco-latina de explicar a existência das muitas montanhas dos Pirinéus. Sem qualquer dúvida que a ideia não é nova – são incontáveis os mitos e lendas por todo o mundo que têm intenções semelhantes – mas o que torna este especial é o facto de se referir a um local tão próximo de nós. De facto, Jacint Verdaguer, na sua Atlântida, até inclui uma forma adaptada deste mito entre muitas outras histórias associáveis a Portugal e Espanha, tornando esta história dos Gregos e Romanos em uma das mais próximas do nosso país, tornando-a especialmente digna de nota nas linhas de hoje.

O mito de Faetonte

O mito de Faetonte, figura também conhecida como Fáeton, apresenta uma daquelas tramas de que todos já teremos ouvido falar, nem que seja de uma forma muito vaga. Por isso, nada como o recordar por aqui, nos seus traços mais gerais.

O final do mito de Faetonte

Quando era criança, Faetonte não conhecia o seu pai, mas a sua mãe sempre lhe disse que ele era filho de Hélio, o Sol. Então, um dia o jovem foi a um templo consagrado a este deus e rezou-lhe repetidamente, esperando assim atrair o seu pai. Hélio lá surgiu, vindo dos céus do Olimpo, e informou este jovem que ele era, verdadeiramente, seu filho. E depois, talvez como forma de o recompensar pelo facto de nunca o ter conhecido antes, decidiu conceder-lhe um desejo. Prometeu, jurou pelo Estige, fazê-lo.

O imprudente filho já sabia o que lhe iria pedir. E então, contra todos os desejos de seu pai, que tentou demovê-lo de um tal pedido, quis apenas uma coisa – conduzir o carro do Sol, a espécie de carruagem pertencente ao deus, durante um só dia.

Inicialmente tudo correu bem, mas depois, enquanto cruzava os céus, Faetonte perdeu o controlo do carro divino e precipitou-se sobre a terra, queimando parte do mundo e, assim dando a cor escura a todos os Africanos. Com um certo receio do que se poderia vir a passar, Zeus decidiu intervir em toda a situação e fulminou o jovem em queda, impedindo um desastre maior. As irmãs do herói, muitíssimos tristes com toda a ocorrência, choraram durante dias e dias, até que foram transformadas em choupos na margem do Rio Eridano, e as suas muitas lágrimas em pedras de âmbar.

 

Pode parecer estranho ao leitor comum que os Africanos sejam negros porque este herói os estorricou, mas essa parte do mito até aparece nos Lusíadas, de Luís de Camões. É um elemento famoso da história, mas há que frisar que mesmo na Antiguidade os diversos autores tinham um certo cepticismo face a todo este mito. Uma e outra vez, e até mesmo nos tempos de João Tzetzes (no século XII da nossa era), foram muitos os que se dirigiram ao Rio Eridano em busca dos choupos e da âmbar, que pensavam que lhes provariam a verdade de toda a história, apenas para não encontrarem nenhum dos dois no local. Desiludidos, deixaram-nos um óbvio cepticismo nas linhas das suas obras. Mas, na verdade, não serão de cepticismos como esses que são feitos os mitos, da sua localização entre a certeza e a incerteza?

 

É sobre isso que fala o mito de Faetonte. De um jovem muito imprudente na sua notória juventude, é certo, mas também de uma necessidade que os Gregos e os Romanos sentiam em explicar o mundo através das suas histórias. E, por vezes, sabiam admitir que podiam estar errados, que uma história era somente isso, uma pura ficção, que nem sempre tinha um fundo de realidade, como o mito de hoje nos demonstra.