Os sonetos mitológicos de Camões

Tanto os Lusíadas, como os muitos sonetos de Camões que nos chegaram, têm elementos mitológicos dignos de nota, que vão desde o famoso Adamastor até episódios mais conhecidos dos muitos mitos gregos e latinos da Antiguidade. Nesse sentido, há alguns anos mostrámos aqui algumas das suas construções poéticas mais representativas, mas agora compilamo-las a todas nesta única página, para que possam ser lidos de uma forma mais contínua. Deixe-se, contudo, claro que estes não são todos os sonetos mitológicos de Camões, mas somente alguns de aqueles em que considerámos que os próprios mitos têm um papel mais principal:

Os sonetos mitológicos de Camões

(Soneto XIII, em que é curiosa a honestidade de Cupido, conhecido entre os Gregos como Eros🙂

Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.

Diana tomou logo uma rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violetas, na graça e formosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria,
Por mais suave e pura, e mais formosa.

Sorrindo-se, o menino lhe tornava:
“Todas formosas são, mas eu queria
Violeta antes que lírio, nem que rosa”.

 

(Soneto XX, com um certo charme pela possibilidade de uma Ninfa roubar os instrumentos amorosos de Cupido. Porém, para quem tiver essa curiosidade, a ideia não vem concretamente de nenhum mito da Antiguidade:)

Num bosque que das Ninfas se habitava
Sibela, Ninfa linda, andava um dia;
E subida numa árvore sombria,
As amarelas flores apanhava.

Cupido, que ali sempre costumava
A vir passar a sesta à sombra fria,
Num ramo o arco e setas que trazia,
Antes que adormecesse, pendurava.

A ninfa, como idóneo tempo vira
Para tamanha empresa, não dilata,
Mas com as armas foge ao moço esquivo.

As setas traz nos olhos, com que tira:
Ó pastores! Fugi, que a todos mata,
Senão a mim, que de matar-me vivo.

 

(Soneto XLIV, que dá que pensar um pouco. Nos versos iniciais poderá existir uma alusão velada ao mito do Julgamento de Páris🙂

Pelos raros extremos que mostrou
Em sábia Palas, Vénus em formosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande que juntou
Espírito e corpo em liga generosa,
Esta mundana máquina lustrosa
De só quatro elementos fabricou.

Mas fez maior milagre a natureza
Em vós, senhoras, pondo em cada uma
O que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplendor deu Sol e Lua:
A vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.

 

(Soneto LXIX, que merece uma explicação um pouco maior. Antes de chegarem a Tróia os Gregos atacaram várias cidades. Uma delas foi aquela sobre a qual Télefo reinava; este rei defrontou em combate Aquiles, que o feriu com a sua famosa lança. Contudo, com o passar do tempo essa ferida não se curava… em busca de uma resposta, esse monarca foi a Delfos e o famoso oráculo revelou-lhe que esta só podia ser curada com a mesma lança com a causou. Seguindo essa indicação o herói é posteriormente curado, de uma forma que não é muito clara nas versões que nos chegaram; também o sujeito poético aqui esperava ser curado por uma nova visão de sua amada, como o poema nos diz:)

Ferido sem ter cura perecia
O forte e duro Télefo temido
Por aquele que na água foi metido,
E a quem ferro nenhum cortar podia.

Quando ao apolóneo oráculo pedia
Conselho para ser restituido,
Respondeu-lhe, [que] tornasse a ser ferido
Por quem o já ferira, e sararia.

Assim, Senhora, quer minha ventura;
Que ferido de ver-vos claramente,
Com tornar-vos a ver o Amor me cura.

Mas é tão doce vossa formosura,
Que fico como o hidrópico doente,
Que bebendo lhe cresce maior secura.

 

(Soneto XCVI, sobre o suícidio da rainha Dido após o abandono por parte de Eneias. O episódio foi muito popular ao longo dos séculos, com muitas construções poéticas a nos recordarem da dor desta rainha após a “traição” do herói:)

Os vestidos Elisa [Dido] revolvia,
Que Eneias lhe deixara por memória;
Doces despojos da passada glória;
Doces quando seu fado o consentia.

Entre eles a formosa espada via,
Que instrumento, em fim, foi da triste história;
E como quem de si tinha a vitória,
Falando só com ela, assim dizia:

“Formosa e nova espada, se ficaste
Só porque executasses os enganos
De quem te quis deixar, em minha vida;

Sabe que tu comigo te enganaste;
Que para me tirar de tantos danos
Sobeja-me a tristeza da partida”.

 

(Soneto CXXXVII, em que o sujeito poético, como o deus Apolo neste mito, parece sentir algum desespero pela sua situação actual:)

O filho de Latona esclarecido,
Que com seu raio alegra a humana gente,
Matar pôde a Pitónica serpente
Que mortes mil havia produzido.

Feriu com arco, e de arco foi ferido,
Com ponta aguda de ouro reluzente:
Nas Tessálicas praias docemente
Por a ninfa Peneia andou perdido.

Não lhe pôde valer contra seu dano
Saber, nem diligências, nem respeito
De quanto era celeste e soberano.

Pois se um deus nunca viu nem um engano
De quem era tão pouco em seu respeito,
Eu que espero de um ser, que é mais que humano?

 

(Soneto CLXV. A paixão de Endímion, ou Endimião, pela deusa da lua é um tema frequente na poesia pastoril:)

En una selva al dispuntar del dia
Estaba Endimion triste y lloroso,
Vuelto al rayo del sol, que presuroso
Por la falda de un monte descendia.

Mirando al turbador de su alegría,
Contrario de su bien y su reposo,
Tras un suspiro y otro, congojoso,
Razones semejantes le decia:

Luz clara, para mi la mas escura,
Que con esse paseo apresurado,
Mi sol con tu teniebla escureciste;

Si allà pueden moverte en esa altura
Las quejas de un pastor enamorado,
No tardes en volver á dó saliste.

 

(Soneto CLXVI, com o mito de Orfeu e da ninfa Eurídice, que o primeiro tentou trazer de volta do mundo dos mortos através do poder da sua mágica música:)

Orfeo enamorado que tañia
Por la perdida Ninfa que buscaba,
En el Orco implacable donde estaba,
Con la arpa, y con la voz la enternecia.

La rueda de Ixion no se movia,
Ningun atormentado se quejaba;
Las penas de los otros ablandaba,
Y todas las de todos él sentia.

El son pudo obligar de tal manera,
Que en dulce galardon de lo cantado,
Los infernales Reyes condolidos,

Le mandáron volver su compañera,
Y volvióla á perder el desdichado;
Con que fueron entrambos los perdidos.

 

(Soneto CLXXXIII, sobre as complexidades dos amores:)

Por sua Ninfa, Céfalo deixava
Aurora, que por ele se perdia;
Posto que dá princípio ao claro dia,
Posto que as roxas flores imitava.

Ele, que a bela Prócris tanto amava
Que só por ela tudo enjeitaria,
Deseja de atentar se lhe acharia
Tão firme fé como nele achava.

Mudado o traje, tece o duro engano;
Outro se finge, preço põe diante;
Quebra-se a fé mudável, e consente.

Ó engenho subtil para seu dano!
Vede que manhas busca um cego amante
Para que sempre seja descontente!

 

(Soneto CLXXXV, sobre a bela história de Hero e Leandro, que já cá contámos anteriormente:)

Seguia aquele fogo, que o guiava,
Leandro, contra o mar e contra o vento:
As forças lhe faltavam já e o alento;
Amor lhas refazia e renovava.

Depois que viu que a alma lhe faltava,
Não esmorece; mas, no pensamento,
— Que a língua já não pode – seu intento
Ao mar, que lho cumprisse, encomendava.

«Ó mar – dizia o moço só consigo —
Já te não peço a vida; só queria
Que a de Hero me salves; não me veja…

Este meu corpo morto, lá o desvia
Daquela torre. Sê-me nisto amigo,
Pois no meu maior bem me houveste inveja!»

 

(Soneto CLXXXIX, em que os vários exemplos da Antiguidade são usados para exaltar alguém de apelido Castro, cuja verdadeira identidade não é completamente certa:)

Ornou sublime esforço ao grande Atlante,
Com que a celeste máquina sustenta;
Honrou a Homero o engenho, com que intenta
Grécia do quarto céu levá-lo avante.

Coroou claro [o] Amor de amor constante
A Orfeu, firme na paz e na tormenta;
Inspirou a Fortuna, em tudo isenta,
A César, de quem foi um tempo amante.

Exaltaste tu, Fama, a glória alta
De Alcides lá no monte em que resides;
Mas Castro, em quem o Céu seus dons derrama,

Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta,
Que Atlante, Homero, Orfeu, César e Alcides,
Esforço, Engenho, Amor, Fortuna e Fama.

 

(Soneto CCXXVII, em que é feito um convite às Tágides, as Ninfas do Rio Tejo, como o poema deixa entender:)

Levantai, minhas Tágides, a frente,
Deixando o Tejo ás sombras nemorosas;
Dourai o vale umbroso, as frescas rosas,
E o monte com as árvores frondente.

Fique de vós um pouco o rio ausente,
Cessem agora as liras numerosas,
Cesse vosso lavor, Ninfas formosas,
Cesse da fonte vossa a grã corrente.

Vinde a ver a Teodósio grande e claro,
A quem está oferecendo maior canto
Na cítara dourada o louro Apolo.

Minerva do saber dá-lhe o dom raro,
Palas lhe dá o valor de mais espanto,
E a Fama o leva já de polo a polo.

 

(Soneto CCLXXX, um outro em que os sentimentos do sujeito poético se confundem com as ideias dos mitos:)

Diana prateada, esclarecida
Com a luz que do claro Febo ardente,
Por ser de natureza transparente,
Em si, como em espelho, reluzia,

Cem mil milhões de graças lhe influía,
Quando me apareceu o excelente
Raio de vosso aspecto, diferente
Em graça e em amor do que sohia.

Eu vendo-me tão cheio de favores,
E tão propinquo a ser de todo vosso,
Louvei a hora clara, e a noite escura,

Pois nela destes cor a meus amores:
Donde collijo claro que não posso
De dia para vós já ter ventura.

 

(Soneto CCLXXXI, com um momento muito famoso dos poemas de Homero, em que Afrodite foi apanhada a trair o seu marido com Ares:)

Enquanto Febo os montes acendia
Do céu com luminosa claridade,
Por conservar illesa a castidade
Na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia
Por captivar de Anquises a vontade,
Vendo Diana em tanta honestidade,
Quase zombando dela, lhe dizia:

«Tu vás com tuas redes na espessura
Os fugitivos cervos enredando;
Mas as minhas enredam o sentido.»

«Melhor é –respondia a deusa pura–
Nas redes leves cervos ir tomando,
Que tomar-te a ti nelas teu marido.»

 

Para terminar… hoje nada mais temos a dizer, porque os versos destes belos sonetos mitológicos de Camões nos bastam. Mas, se até quiserem conhecer um pouco mais sobre ele, podem começar ao aprender como ele ficou cego de um olho.

O mito de Aquiles (em 10 curiosidades)

Quando se fala do mito de Aquiles, o segundo maior do heróis da Mitologia Grega, é irrealista querer acreditar que se pode contar toda a sua história de uma só assentada, porque são muitos e grandes os episódios individuais que a compõem a totalidade das suas aventuras. Assim, e visto que já cá falámos anteriormente sobre o famoso calcanhar do herói, para a publicação de hoje tentamos uma espécie de pequeno desafio, que passa por resumir as principais aventuras deste herói em 10 curiosidades. Vamos a isso?

O mito de Aquiles, com o herói em plena luta contra Mémnon

1- O mito de Aquiles diz que ele era um semideus, mas não era imortal

Já cá falámos do mito do casamento de Peleu com Tétis. O primeiro era humano, enquanto que a segunda era uma figura divina. Um seu filho seria mortal, como atestam mitos como o de Perseu, mas as diversas versões que temos afirmam que esta mãe tentou tornar o seu filho imortal. É possível que o tenha banhado no Estige, ou que tenha conduzido um outro procedimento com essa finalidade, mas as fontes literárias que temos afirmam, sem qualquer dúvida, que qualquer que tenha sido a tentativa de Tétis, ela não obteve um sucesso completo. Aquiles tornou-se forte, quase invencível, mas acabou por não ter um corpo imortal.

 

2- Aquiles não foi criado pelos pais

Após o seu nascimento, Tétis entregou Aquiles ao pai, Peleu. Porém, por alguma razão menos clara este nunca foi uma figura paterna muito presente. Em vez disso, entregou-o ao centauro Quíron, figura que ensinou as várias artes ao jovem herói. Sabemos, pelo menos, que o ensinou a combater e a tocar instrumentos musicais; é provável que o pai o tenha visitado pelo menos uma vez, como nos relata a Argonáutica Órfica, mas salvo essa passagem dos Argonautas não temos quaisquer razões para acreditar que o pai, ou a mãe, do herói tenham estado muito presentes na sua juventude.

 

3- Aquiles viveu disfarçado como uma mulher

Numa dada altura Tétis recebeu um oráculo que dizia que o seu filho iria ser levado para combater em Tróia, e que esse convite acabaria por levar à sua morte. Infeliz, como qualquer mãe ficaria em circunstâncias semelhantes, urdiu o plano de o esconder na corte do rei Licomedes, em que o herói adoptou o nome de Pirra. E ele viveu assim durante algum tempo, feliz e contente, engravidando até uma filha do monarca, Deidamia, de quem teve um filho, que ficou conhecido pelos nomes de Neoptólemo ou Pirro.

Depois, um dado dia Ulisses, que buscava Aquiles, visitou a corte de Licomedes. Procurando descobrir se o herói estava escondido no local, apresentou à corte do monarca várias jóias e equipamento guerreiro. As jovens aproximaram-se rapidamente das primeiras, mas Pirra decidiu antes admirar as espadas e os escudos – assim, o herói que deu o nome à Odisseia foi capaz de o desmascarar, para surpresa de (quase) todos os presentes, levando-o para Tróia.

 

4- Aquiles teve várias aventuras pouco conhecidas

Se aqui apenas pretendemos contar as suas aventuras mais famosas, neste ponto há que frisar que o herói também teve muitas outras, antes de se associar à Guerra de Tróia. A mais intrigante de todas elas talvez seja o seu confronto de Télefo, que um dia aqui recordámos nas palavras de Luís de Camões, em que Aquiles feriu esse rei, acabando depois por curá-lo com um novo golpe da sua própria lança. Uma outra apresentava o contigente dos Gregos a destruir várias cidades, por pensarem, erradamente, que elas eram o reino de Príamo. Que mais aventuras terá o nosso herói tido nessa altura? Muitas delas perderam-se ao longo dos séculos…

 

5- Aquiles esteve para casar… várias vezes!

Por volta desta altura, bem como em alguns episódios futuros, Aquiles esteve para casar mais do que uma vez. Foi-lhe prometida a mão de Ifigénia, e pelo menos algumas fontes literárias afirmam que também lhe foi prometida a mão de Polixena. Não sabemos porque não casou com Deidamia, mas é provável que essa potencial união tenha sido deixada para um regresso do herói de Tróia, que nunca tomou lugar.

 

6- Aquiles também era bissexual

Já em tempos da Guerra de Tróia, quem conhecer o relato da Ilíada, facilmente se aperceberá de que existia “algo” entre Aquiles e Pátroclo. Não é totalmente claro, nessa fonte literária, se a relação entre ambos era de uma grande amizade ou de algo mais romântico (e sexual), mas um outro episódio, hoje quase totalmente perdido e muito menos conhecido, deixa mais claro que este herói era mesmo bissexual. É-nos então contado que um dia o herói viu Troilo, um jovem filho do rei Príamo de Tróia, e se apaixonou por ele, mas que, incapaz de consumar a sua paixão, acabou por matá-lo. Já não temos um conhecimento totalmente directo desse episódio dos mitos gregos, mas pelo menos sabemos que o herói tinha paixão por ambos os sexos.

Aquiles e Ulisses

7- Aquiles também teve uma dispusta com Ulisses

Se a querela entre Aquiles e Agamémnon nos é muito famosa da Ilíada, um breve instante da Odisseia também revela que o mesmo herói também teve uma disputa com Ulisses, relativamente à forma como a cidade de Tróia podia ser conquistada. Já cá falámos desse episódio anteriormente, mas essencialmente o primeiro defendia um recurso às armas, enquanto que o segundo advogava o uso de estratagemas. Recorde-se, nesse contexto, que se até não sabemos quem ganhou essa disputa, foi o estratagema do Cavalo de Tróia que acabou por levar à conquista da cidade.

 

8- Aquiles defrontou muitos outros adversários poderosos

O relato da Ilíada, possivelmente o mais famoso que nos chegou, faz do combate entre Aquiles e Heitor o pináculo de toda a trama. Porém, quando o herói acabou por derrotar esse grande filho de Príamo, esse não foi o final das suas aventuras guerreiras. Posteriormente, viria também a defrontar em combate Pentesileia e Mémnon, adversários igualmente poderosos e que vieram de terras distantes para proteger a cidade de Tróia. Venceu-os a todos, mas não sem antes aprender, com esse derradeiro opositor africano e filho da Aurora, que até os filhos das deusas podiam morrer.

O Calcanhar de Aquiles

9- Não sabemos como Aquiles morreu

Por muito famosa que agora seja a expressão Calcanhar de Aquiles, nas fontes literárias mais antigas não existem quaisquer provas directas de que a famosa flecha tenha morto este herói. Tirou-lhe a sua famosa velocidade – recorde-se até os “pés velozes” que muito o caracterizavam nos Poemas Homéricos – mas não é certo que o tenha morto, apesar de algumas fontes mais tardias mencionarem que a flecha estava envenenada.

 

10- A morte de Aquiles não terminou a sua aventura

Após a morte deste herói ele ainda interviu, ainda que de forma mais indirecta, em alguns episódios. Sabemos que Tétis lhe conduziu um enorme funeral, talvez até o maior de toda a Mitologia Grega, e que os seus restos mortais foram associados aos de Pátroclo. Sabemos que Ulisses e Ájax disputaram as armas do herói, e que o seu filho, Neoptólemo, também combateu em Tróia. E sabemos, além disso, que após a conquista de Tróia o fantasma de Aquiles se dirigiu aos seus antigos companheiros, exigindo o sacrifício de Políxena no seu túmulo, talvez em virtude do episódio que unia ambos a Troilo.

 

Mas essas já são histórias para outro dia… por hoje, aqui fica o mito de Aquiles em 10 curiosidades ligadas ao famoso herói.

O mito de Tétis

Contar o mito grego de Tétis implica, antes de mais, explicar que existiam duas figuras com este nome na Mitologia Grega. Uma é naturalmente muito mais famosa que a outra, como veremos abaixo, mas falar de uma delas implica, quase obrigatoriamente, fazer pelo menos uma breve alusão à outra, sob pena de se acabar por confundir alguns leitores mais distraídos, como aqueles que, por acidente, fazem das duas Atalantas uma só.

 

Então, a primeira das duas figuras, Τηθύς, que é como quem diz Tethys, era uma titã filha de Urano e Gaia, mas também esposa de Oceano e mãe dos rios e das Oceânides. A sua influência nos mitos e nas lendas da Grécia é muito ténue, sendo quase exclusivamente um conceito sem um corpo real, mais do que uma entidade divina com participação activa e significativa em qualquer história.

 

A segunda, Θέτις ou Thétis, é descendente da anterior e muito mais famosa, até por ter sido a mãe de um dos mais famosos heróis gregos. Mas já lá iremos… Conta-nos este mito que um dado dia, entre as muitas aventuras amorosas de Zeus, ele recebeu uma profecia – se alguma vez ele tivesse um filho de Tétis, esse filho acabaria por ser tão proeminente que iria destronar o próprio pai. Naturalmente que o monarca dos deuses não queria isso, e então desta vez (compare-se com o nascimento de Atena) decidiu resolver o problema casando esta figura com um homem mortal, Peleu. E tudo se resolveria, não fosse o facto da potencial noiva não ter aceite esse casamento.

O mito de Tétis e Peleu

Conta-se então que, com o conselho do deus Proteu (cujas semelhanças com esta figura são dignas de nota), Peleu se aproximou dela durante a noite, enquanto esta dormia, e tentou vencê-la num combate de luta greco-romana, defrontando-a até que aceitasse casar com ele. O episódio mitológico, que foi bastante popular na arte grega – ver, por exemplo, a imagem acima, em que o herói mortal parece abraçar esta nereida, enquanto que ela se transforma numa espécie de leão – presumivelmente passava pela figura feminina a adoptar as mais diversas formas, enquanto que o seu futuro marido pura e simplesmente não a largava. Então, vencida pelo cansaço, lá aceitou o casamento que lhe tinha sido proposto, e foi nesse grande evento que tomou lugar o famoso episódio da maçã de ouro, que acabou por levar à famosa Guerra de Tróia.

O casamento de Peleu e Tétis

Mas a história ainda não fica por aqui. Tétis engravidou e deu à luz Aquiles. Quando tentou tornar o filho imortal, falhou esse processo (as razões variam mediante as versões do mito) e decidiu abandonar o marido. Entregue depois ao pai, Peleu, que se tornou um espécie de pai solteiro e significativamente ausente, Aquiles foi crescendo, até que se juntou ao contingente dos Gregos para a Guerra de Tróia. Depois, o famoso herói até interagiu diversas vezes com a própria mãe, como pode ser visto na Ilíada, e quando este acaba por morrer, aquela que o deu à luz organiza um grande funeral e, talvez pela tristeza de ter perdido o seu único filho, ausenta-se. Nunca mais torna a aparecer significativamente na Mitologia Grega.

 

O que podemos acrescentar a este mito de Tétis? É difícil dizer algo mais, porque a maior parte das obras literárias que nos chegaram tratam esta figura feminina como uma mãe de seu filho, mais do que uma entidade divina completamente independente. Os caminhos dos dois cruzam-se repetidas vezes (e primam pela grande ausência do pai, que o parece ter visitado uma única vez) e, como tal, parecem também cessar o seu percurso mitológico ao mesmo tempo. Quando Aquiles desaparece, também a sua mãe o faz, quase que a dizer que ela existiu, nas histórias a que agora temos acesso, somente para poder dar à luz aquele que se tornaria o segundo maior dos heróis da Grécia Antiga.

O mito de Salmoneu

O mito de Salmoneu é, entre os Gregos, o de uma figura que até poderá parecer relativamente simples, mas nem por isso menos digna de nota, face aos estranhos actos que perpetrou na sua vida.

Os cavalos de Salmoneu?

Conta-se então que Salmoneu foi irmão de Sísifo e rei da Élida, uma região da Grécia. Inicialmente muito amado pelos seus súbditos, acabou por, numa espécie de estranha loucura, passar a considerar-se como a face terrena de Zeus. Pensou, por razões que não são fáceis de compreender, que até era o próprio deus do Olimpo, e começou então a pedir que o venerassem como tal.

Se esta ideia ainda não parecer suficientemente estranha, Salmoneu decidiu então que seria ainda mais venerado pela população se conseguisse imitar parte dos poderes de Zeus. Assim, recorrendo a um subterfúgio, começou a imitar o som da trovada de forma um tanto ou quanto estranha – pegando na sua quadriga, ligou-lhe todo um conjunto de objectos para que esta, ao produzir o seu movimento natural, o fizesse sempre acompanhada com o som que desejava. Isso convenceu, na verdade, algumas pessoas de que ele era verdadeiramente o deus Zeus vindo à terra. Mas esse monarca dos deuses, como não podia permitir uma situação tão absurda e insultuosa para o seu carácter, depressa resolveu todo o caso – atirando um dos seus (verdadeiros) raios ao rei, fulminou-o, fazendo-o abandonar o mundo dos vivos!

 

O sentido de todo o mito é muito simples, e como em diversos casos que cá foram falados ao longo dos anos a sua lição é simples – o ser humano não deverá tentar desafiar os deuses, porque estes lhe são superiores em tudo. Quem o faz – ou, para se ser mais preciso, quem o tenta fazer – acaba sempre punido, como aconteceu com a figura principal deste mito de Salmoneu.

O que aconteceu às armas de Aquiles?

Um dos momentos mais significativos da Ilíada tem lugar quando Pátroclo é derrotado em combate e os Troianos, na pessoa de Heitor, capturam as armas de Aquiles. Posteriormente, o famoso herói grego receberá um novo equipamento, feito por Hefesto e que lhe é entregue pela sua própria mãe, Tétis. Mas depois, o que aconteceu a essas novas armas de Aquiles? A questão foi-nos colocada, há já alguns dias, no Twitter.

Na sequência do mito, sabemos que quando o famoso herói grego foi derrotado em combate existiu uma disputa significativa pela posse do seu (novo) equipamento guerreiro; que esta teve lugar entre Ulisses e Ájax; e que o primeiro dos dois acabou por vencê-la, levando ao suicídio do segundo; mas… e depois? Será que as armas de Aquiles se afundaram algures, aquando das muitas viagens marítimas do herói da Odisseia?

Neoptólemo e Ulisses

A resposta é negativa. Quando Neoptólemo, o filho de Aquiles, se juntou à Guerra de Tróia, Ulisses achou natural devolver-lhe o equipamento bélico de seu pai. Quando essa guerra terminou, a mesma personagem manteve as armas de Aquiles em sua posse, como era seu direito. Mas anos depois, quando foi a Delfos e acabou morto por Orestes no Templo de Apolo (recorde-se até a expressão “Vingança de Neoptólemo”), as armas de Aquiles, ou que tinham sido originalmente pertença desse herói, tornaram-se propriedade desse recinto consagrado ao deus Apolo, onde puderam continuar a ser vistas durante alguns séculos.

 

Poderá parecer um percurso estranho, mas não é um caso único. Recorde-se, por exemplo, o mito do Colar de Harmonia, cujo infame acessório feminino numa dada altura também esteve em Delfos. E Pausânias, na sua famosa obra Descrição da Grécia, diz-nos que passou por diversos locais em que podiam ser vistos os mais diversos elementos retirados dos mitos dos Gregos.

Mas seria mesmo verdade, será que essas personagens míticas (e/ou as suas histórias) existiram, ou tratava-se de um mero estratagema de marketing, como ainda hoje acontece nos mais diversos santuários religiosos? É uma questão mais complexa, que não tem resposta fácil, mas sabemos é que pessoas como Pausânias acreditavam em pelo menos algumas dessas presenças. É provável que também tenha existido um certo cepticismo por parte de outros visitantes – como continua a acontecer nos nossos dias, quando uma igreja diz ter as relíquias de “São Nunca” – mas, salvo casos muito raros, pouco sabemos em relação ao cepticismo que podia existir quando os visitantes olhavam, por exemplo, para aquelas que se diziam ter sido as armas de Aquiles. E, em casos como estes, a simples crença basta-nos para responder à pergunta inicial.