O mito de Príapo em resumo

Falar sobre o mito de Príapo implica necessariamente uma espécie de auto-censura, na medida em que o principal atributo deste deus poderá ser considerado ofensivo para algumas das audiências dos nossos dias. Isto porque esta figura divina é muito fácil de reconhecer na maior parte das suas representações iconográficas, devido ao facto de ser sempre representado com um órgão sexual que faria inveja aos maiores actores pornográficos masculinos das sociedades de hoje.

O mito de Príapo, deus dos Romanos

Mas então, quem é este deus Príapo? Era um deus menor, filho de Afrodite e Dioniso (entre outras versões), associado essencialmente aos campos de cultivo, jardins e ás outras actividades ligadas a estes. Essa relação será fácil de explicar, dada a facilidade que o deus teria em fertilizar tudo o que se lhe cruzasse, muitas vezes sem qualquer respeito pela palavra “consentimento”. E, na verdade, dois mitos associados a este deus até falam desse seu carácter violador!

Num deles, Príapo encontrou uma deusa a dormir num campo. Motivado pelo seu apetite sexual infindável, pensou em violá-la, e estava até prestes a fazê-lo quando um burro se pôs a zurrar, acordando-a e fazendo-a fugir, gerando igualmente um ódio eterno do deus por esse animal. Num outro, o deus quis violar a ninfa Lótis, e esta fugiu dele até que acabou por se transformar numa flor – é, naturalmente, mais um mito de Ovídio, e que até poderia não existir antes da escrita das suas Metamorfoses.

 

Outro aspecto interessante ligado ao deus Príapo é o facto do seu culto – se é correcto chamar-lhe isso – ter continuado muito após a queda de Roma. É muito provável que já não se conhecessem os seus antigos mitos, mas a singular forma como era utilizado nos campos – seja como um homem com um pénis enorme, ou apenas como um pénis parcialmente antropomórfico – continuou a ser utilizado com um carácter mágico, que se supunha proteger os campos das doenças, dos ataques das pestes e pássaros… quase como se de um antigo espantalho se tratasse!

 

Por fim, quem quiser mesmo saber mais sobre o deus Príapo na Mitologia Grega e Latina pode sempre ler uma colecção de poemas (pornográficos) que lhe é dedicada, a Carmina Priapea, em que esta figura divina tem sempre um papel muito principal. É uma colecção que nos deixa muito claro o verdadeiro carácter da figura original, bem como a forma como a sua própria sexualidade se ligava aos campos de cultivo que defendia…

O Mito de Tífon e Equidna

Contar o mito de Tífon e Equidna implica, talvez mais que tudo, ter de o inserir no contexto da Mitologia Grega em que ele ocorria originalmente. Explique-se então o seguinte – existem muitos mitos gregos e latinos que se foram perdendo ao longo dos séculos, e que apenas nos chegaram em breves referências aqui e ali. Entre eles contam-se um conjunto de histórias em que os deuses do Olimpo defrontam em combate figuras igualmente poderosas, como os Gigantes e os Titãs. E, se nos chegaram algumas referências a esses eventos, que vão desde os poemas de Hesíodo até à Gigantomaquia de Claudiano, é difícil reconstruir toda a sua trama de uma forma contínua. Por isso, o que contamos aqui hoje é parte de um desses grandes confrontos, mas focamo-nos em dois dos seus intervenienes, em vez das batalhas, em si mesmas.

Tífon

Tífon – também conhecido como Tífão ou Tifeu – tinha um corpo composto por infindáveis serpentes e a capacidade para voar. Terá sido o mais poderoso opositor que os deuses do Olimpo alguma vez defrontaram. E até os venceu temporariamente, forçando-os a fugir para o Egipto, mas ás tantas Zeus lá recuperou o controlo das suas famosas armas e, utilizando-as em seu favor, foi capaz de derrotar – mas não matar, tenha-se em atenção – este opositor, ocultando-o depois em algum lugar, que alguns autores dizem ter sido o Monte Etna. A melhor fonte para este mito, aqui apenas resumido, é a Dionisíaca de Nono.

Equidna

Equidna era uma figura semelhante mas feminina, com um corpo que era um misto de serpente e de mulher, e que parece ter sido muito pouco representada na arte (até só encontrámos dois exemplos da Antiguidade – a escultura acima é já do século XVI). Uma versão muito ténue diz-nos que ela foi morta por Argos, mas não explica em que circunstâncias isso aconteceu, e pouco mais ainda sabemos sobre ela.

 

Então, mas porque unimos os mitos de Tífon e Equidna num só? Na verdade, porque eles partilham de uma característica única na Mitologia Grega – segundo Hesíodo (entre outras fontes mais secundárias), estes dois monstros amavam-se muito e até tiveram vários filhos! Entre essas figuras, nascidas do estranho amor deste casal, contavam-se Orto (i.e. o cão de Gerião), Cérbero (o cão de guarda dos Infernos, com três cabeças), a Hidra de Lerna, e a Esfinge (que defrontará Édipo numa famosa história), entre várias outras. São, por isso, um casal monstruoso que teve filhos igualmente monstruosos, sendo essa a principal razão pela qual estas duas figuras se encontram tão unidas, como uma só – se os seus mitos originais já não nos chegaram de uma forma mais completa, o que até poderia contribuir para os individualizar mais, são muitas as aventuras que ainda conhecemos em que os seus filhos têm um papel significativo – e essas sim, que ainda podemos ler, de uma forma bem mais completa, entre a literatura dos Gregos e dos Romanos que chegou aos nossos dias.

O mito de Sísifo em resumo

De entre os que nos chegaram da Antiguidade, é possível que o mito de Sísifo se encontre entre aqueles cujo desfecho é mais famoso, ao ponto da sua punição infindável ter dado, por exemplo, o nome e a ideia a um famoso livro da autoria de Albert Camus. Mas já lá iremos, por agora recorde-se a trama essencial desta história da Mitologia Grega:

O mito de Sísifo e a pedra eterna

Conta-se que Sísifo terá sido um dos maiores espertalhões da Antiguidade, uma espécie de um determinado antigo primeiro ministro português mas há muitos séculos atrás. E, na verdade, dizia-se que ele até se considerava mais sábio e capaz do que o próprio Zeus, o rei dos deuses do Olimpo. Então, depois de uma vida repleta das maiores malfeitorias, cujos contornos e eventos variam de versão para versão, o monarca do Olimpo decidiu que já era altura de alguém punir este rei de Corinto e condenou-o à morte.

Na maior parte dos mitos a trama tenderia a acabar por aqui, mas o caso de Sísifo foi bem diferente. Uma e outra vez, ele foi capaz de escapar das garras da própria morte. Numa das histórias, ele pediu à esposa que não lhe fizesse o devido funeral; assim, quando chegou ao barco de Caronte, como não tinha o óbolo necessário para pagar o cruzamento para o reino dos mortos, teve de voltar para trás (e à vida). Numa outra, quando Tânato (ou Hades, mediante a versão) se preparava para o agrilhoar, o herói enganou-o e prendeu essa divindade, fazendo com que durante várias semanas nenhum ser vivo falecesse. E fez outras maldades como estas… ás tantas, os deuses lá se fartaram e prenderam mesmo este espertalhão, condenando-o para toda a eternidade a levar uma grande pedra para o topo de uma montanha, apenas para rapidamente a ver a cair desse local, obrigando-o a recomeçar todo o trabalho.

 

Como podemos ver através deste pequeno resumo, o grande interesse do mito de Sísifo não passa tanto pelos seus actos em vida – como é muito comum nestas histórias, que vulgarmente terminam com a morte do herói – mas pela forma como, uma e outra vez, foi capaz de iludir o próprio fim da vida humana, levando a que os deuses o condenassem a uma punição completamente original (para outros exemplos, podem ser vistos mitos como os das Danaides, Ixion ou Tício). E, nesse contexto, a sua eterna punição parece fazer muito sentido – condenado a um trabalho que não tem fim, é provável que os deuses tenham pensado que essa tarefa acabaria por vergar a vontade do condenado, mas… segundo Albert Camus, no seu livro Mito de Sísifo, também é possível ver nessa tarefa de completa inutilidade uma espécie de metáfora para a própria vida humana, em que demasiadas vezes repetimos (inutilmente) as mesmas acções sem alguma vez conseguirmos chegar a algum lado. Dá que pensar, não é?

O mito de Aracne

O mito de Aracne não parece ter a sua origem nas histórias dos Gregos. Em vez disso, a versão mais antiga desta história que nos chegou provém dos versos do poeta latino Ovídio, sendo suas as linhas que aqui iremos adaptar:

A morte de Aracne

Aracne era uma jovem que toda a sua vida se dedicou à tecelagem. Cada vez que tecia algo de novo, não podia deixar de admirar a extensa beleza da sua produção. E depois, um dia, isto levou-a até a considerar o seu trabalho melhor do que o dos próprios deuses. Com peito bem inchado, desafiou a deusa Atena – uma das padroeiras da arte que praticava – e, de uma forma completamente inesperada, acabou até por conseguir produzir um trabalho superior ao da própria deusa. Zangada, Atena rasgou a produção da sua opositora; e esta, quando se apercebeu do que tinha feito, da forma imperdoável como tinha desafiado os deuses, decidiu suicidar-se. O mito poderia até ter acabado por aqui, mas Atena, num misto de admiração pelo trabalho da falecida e tristeza pela morte que tinha causado, decidiu transformar Aracne numa aranha, que até aos nossos dias continua a exercer a sua arte.

 

O mito de Aracne é, como muitos outros dos tempos da Antiguidade, uma espécie de alerta aos leitores, instando-os para que não tentem violar os derradeiros limites da condição humana (a chamada hybris). Se, por um lado, é estranho que esta figura tenha verdadeiramente conseguido derrotar a deusa – normalmente o desfecho é o oposto, como no mito de Marsias – há que notar que ela não foi completamente victoriosa, perdendo a sua vida pouco após o confronto. Isso acontece porque, no contexto dos mitos gregos e latinos, as histórias em que os seres humanos desafiam os deuses nunca podem terminar bem para os desafiadores – que estranho exemplo seria esse, dizer-se que eles, no seu quase-infinito poder, podiam ser derrotados por meros mortais?!

Para terminar, a associação de Aracne ás aranhas serve, essencialmente, para tentar explicar o porquê de estas tecerem as suas teias – segundo este mito, elas fazem-no porque descendem dessa heroína e, como tal, continuam a praticar a famosa arte da sua predecessora.

Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?

Afinal de contas, entre Apolo ou Hélio quem era o deus grego do sol? Ou, para voltar ao tema de há alguns dias, se escrevemos sobre Selene, e na altura nos referimos a ela como “a Lua”, depois de pensarmos um pouco mais no tema… a Lua não era Ártemis, a Diana dos Romanos?

Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?

Em ambos os casos, a resposta não é simples. É muito fácil encontrar diversos mitos gregos em que nos é dito que o deus grego do sol, ou o próprio Sol em si mesmo, era Hélio – isso acontece no mito de Faetonte, no Rapto de Proserpina, e sabemos até que o chamado Colosso de Rodes, que um dia guardou e entrada do porto dessa cidade grega, era inquestionavelmente este deus.

Mas, ao mesmo tempo, também é possível encontrar diversos mitos em que a mesma função solar era atribuída a Apolo – notavelmente, o facto de ele disparar flechas (como também o fazia a irmã, Ártemis) pode ser visto como uma metáfora para os próprios raios do sol – muitas vezes até sendo este deus designado por “Febo Apolo”, do Grego φοῖβος (phoibos, “brilhante”).

Face a esta dupla dificuldade, quem era o deus grego do sol, Apolo ou Hélio?

 

A resposta poderá surpreender alguns leitores, mas na verdade tanto Apolo como Hélio eram deuses do sol. O erro de se considerar que apenas poderia existir um único deus associado a esse astro – ou até mesmo à Lua – provém de um conhecimento incompleto dos mitos da Antiguidade, já que muitas vezes somos levados a acreditar, falsamente, que não só existia um único deus para cada coisa, como também essa figura divina se manteve completamente estável durante os séculos e séculos em que estes deuses foram venerados. Isso não é verdade!

Sol Invictus, outro deus do sol

Podemos até mostrar um grande exemplo deste problema. Quando, já no Império Romano, o culto a Sol Invictus se foi disseminando, ninguém duvida que essa se tratasse de uma divindade solar, até pelo seu nome. Mas, a acreditar-se que existia um único deus solar, será que os Romanos “expulsaram” um outro do seu panteão, para depois então adicionar este novo deus no seu lugar? A resposta é um óbvio não, até porque existiam pessoas que ainda veneravam o famoso Apolo de Delfos. Em vez disso, o que aconteceu foi que alguns cidadãos romanos veneravam uma dada figura que identificavam como o sol, e outros tinham para esse lugar um outro deus completamente distinto.

Falamos de Roma, sim, mas na Grécia o mesmo se passava. O deus grego do Sol em Rodes era, como não poderia deixar de ser, Hélio. Em Delfos certamente que seria Apolo, como é provável que também o fosse em Atenas, e assim por diante. Apolo, Hélio, Amon Rá (na Mitologia Egípcia), Sol Invictus, eram quatro divindades solares de tempos da Antiguidade, veneradas por pessoas diferentes de locais distintos, e para quem cada uma delas representava aquele sol que vemos no céu. Não havia um só deus grego do sol, uma entidade única com essa tarefa, mas sim um conjunto de figuras divinas que para diferentes pessoas simbolizavam esse mesmo astro. Eu poderia dizer que o Sol era Apolo, o meu colega do lado podia dizer que era Hélio, um familiar distante já podia referir-se antes a Mitra (ou Mitras, se preferirem esse nome), sem que nos zangássemos verdadeiramente por isso. Era tudo uma questão de opinião, pura e simples, e nada mais – e não era apenas uma escolha entre Apolo ou Hélio, Hélio ou Apolo, mas entre vários outros deuses que também podiam simbolizar divindades solares!

 

Não faz então sentido falar-se simplesmente de um deus grego do sol, de um deus do sol grego, ou mesmo de um só deus do sol nos tempos da Antiguidade. Existiam vários, de que Apolo e Hélio eram apenas dois, e cada pessoa era livre de os venerar como se fossem o sol – ou mesmo a lua, no caso particular de Selene e Ártemis – a seu belo prazer. É essa a melhor resposta que podemos dar a Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?, mas se alguém discordar dela pode, como sempre, deixar um comentário abaixo com a sua opinião pessoal, que certamente teremos todo o prazer em debater.