Qual a origem e significado de “puta”?

O significado de puta é bastante conhecido em Portugal – trata-se de uma mulher promiscua, vulgo uma prostituta, alguém que vende relações sexuais por dinheiro. Porém, por mais estranho que isto nos possa parecer, em outros tempos Puta também parece ter sido uma deusa romana que presidia à poda das árvores. Só é mencionada por Arnóbio, no seu Contra as Nações, sendo provável que essa informação tenha vindo de uma famosa obra de Varrão que já não chegou aos nossos dias. Nada mais nos é dito sobre esta figura mitológica, mas – sem qualquer apoio de informação real – alguns autores parecem considerar que as sacerdotisas desta deusa se prostituíam, o que supostamente teria levado ao seu uso pejorativo ao longo dos séculos. Mas têm esses autores razão? 

Qual a origem e significado de puta?

A resposta é um ressonante “não!”, não só pela falta de informação real que apoie essas ideias, mas também pelo próprio contexto da referência na obra de Arnóbio – surge numa sucinta referência a diversas divindades, como Peta (deusa das preces), Patelana e Patela (deusas das coisas reveladas e ainda por revelar) ou Noduterense (deus associado à separação do grão), entre outros. Nada mais nos é dito sobre cada uma dessas figuras divinas dos Romanos, sendo apenas dadas por mero exemplo – o autor continua o seu argumento apontando a estranheza que é ter divindades associadas a todas as coisas – “Osílago, que dá aos ossos a sua solidez, não teria nome [se não existissem ossos]? (…) Existem deuses encarregados de coisas que ainda não foram criadas?”

Em suma, tratando-se Arnóbio de um autor cristão, se a esta deusa fosse associado um culto com contornos sexuais, certamente que isso também seria mencionado na sua obra, até para poder criticar ainda mais o Paganismo – mas nunca o é!

 

Mas então, qual é mesmo a origem e significado da nossa palavra portuguesa “puta”? Um dicionário consultado diz que esta palavra tem “origem controversa”, mas devemos apontar que em Latim até existiam as palavras putus e puta, que podiam significar “puro/pura/puras” (provavelmente num sentido de castidade) ou “homem jovem”. Faria, nesse último contexto, sentido construir o seu feminino como puta, para significar uma “mulher jovem” (ou rapariga, como dizemos em Portugal). Mas será então possível que a palavra latina, com um sentido original de uma mulher jovem e/ou casta, tenha ao longo dos séculos obtido um sentido satírico, até acabar por derivar na significação pejorativa que tem nos dias de hoje? É possível que sim – se não o sabemos com certeza absoluta, podemos é afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o seu significado nos nossos dias não provém de qualquer culto, potencialmente sexual, de uma obscura deusa romana, como muitos dizem erradamente!

As Musas da Mitologia Grega (e o seu número)

Se o nome de musa é hoje associado quase exclusivamente a uma figura inspiradora das artes, a designação de Μοῦσαι vem das musas da Mitologia Grega. No seu geral, referia-se a um conjunto de irmãs divinas que eram uma espécie de padroeiras das artes, cada uma com um seu domínio individual. Mas quantas eram as musas gregas, qual era o seu número?

As Nove Musas Gregas

Por esta altura há sempre uma espertalhão que gostaria de poder gritar “nove, NOVE!”, mas essa ideia vem essencialmente de Homero e de Hesíodo, que pelo facto de se tratarem daqueles dois poetas mais eminentes acabaram por ter um enorme impacto nos autores que se lhes foram seguindo. Porém, existiam também duas outras grandes opiniões, com alguns autores a dizerem que elas eram apenas três, enquanto que outros afirmavam que o seu número era sete. Tenha-se em atenção que em qualquer um dos casos tratam-se de números puramente simbólicos, sendo muito provável que a sua quantidade tenha nascido antes dos seus nomes e identidades individuais.

 

Deixando de parte essa ressalva, dada a fama dos dois grandes poetas épicos gregos o número das musas, como já foi dado a entender acima, tende normalmente a ser considerado como nove, com as seguintes identidades, que ao longo dos séculos se foram tornando mais ou menos estáveis:

  • Calíope tinha o controlo da Poesia Épica.
  • Clio, a da História.
  • Erato era associada à Poesia Lírica.
  • Euterpe era a patrona da Música.
  • Melpomene estava ligada à Tragédia.
  • Polímnia era a figura associada aos Hinos (i.e. a música para os deuses).
  • Tália, a que estava por detrás da Comédia.
  • Terpsícore associava-se à Dança.
  • Urânia, finalmente, era a regente da Astronomia.

 

Agora, certamente que seria muitíssimo interessante deixar aqui alguns mitos associados a cada uma dessas figuras, mas raramente os há. Na verdade, salvo uma ou outra excepção menor (por exemplo, segundo uma versão do mito foram elas que julgaram um concurso musical entre Apolo e Marsias), as referências a elas provêm normalmente ou de evocações (e.g. “Canta, ó Musa, a cólera de Aquiles…”), ou de referências genealógicas (e.g. Orfeu era tão bom na sua arte que só podia ser filho de Calíope). Nesse sentido, podemos dizer que as Musas Gregas, mais do que figuras meramente mitológicas – em número de 3, 7 ou 9 – são, talvez mais que tudo, figuras simbólicas, como o Caos ou aqueles famosos 10000 deuses dos Romanos.

O mito de Plístene, o misterioso atrida

É provável que nos mitos da Grécia Antiga poucas figuras sejam tão misteriosas como Plístene, um dos elementos da família dos Atridas. Na verdade, nem conseguimos encontrar qualquer imagem da sua figura para ilustrar estas linhas, pelo que acabámos por decidir-nos pela famosa “porta dos leões”, em Micenas, a famosa cidade de Agamémnon e Menelau. Mas quem foi então Plístene?

A Porta dos Leões, em Micenas

Sabemos, acima de tudo, que era uma figura da família dos Atridas, mas a sua posição concreta na árvore genealógica é muito controversa. Segundo uma versão, ele era irmão de Atreu e Tiestes; segundo outra, era filho de Atreu; uma terceira diz que era filho de Tiestes; numa quarta, ele é o verdadeiro pai de Menelau e Agamémnon, posteriormente adoptados por Atreu; uma quinta faz dele já um (obscuro) filho de Menelau, que até poderá ter recebido esse nome em homenagem a um familiar que lhe era anterior.

O que têm em comum essas referências? São todas elas muitíssimo breves, quase como se Plístene não fosse mais que um mero nome… e, na verdade, as Fábulas de Higino permitem-nos em parte compreender o porquê. Esse autor, que nem sempre é dos mais fiáveis, revela-nos que Atreu cozinhou o filho de Tiestes e o serviu como jantar ao próprio pai, mas que quem foi morto e cozido não foi somente um único filho (como é comum nos relatos deste episódio mitológico), mas sim dois descendentes, um dos quais era este Plístene. Infelizmente, existem várias descrições diferentes desse episódio mitológico, mas acreditando na versão de Higino o problema poderá ter passado pela confluência de duas figuras numa só. Nas versões mais famosas o filho que foi comido é trazido de volta à vida por intervenção divina, mas se fossem dois os irmãos envolvidos no episódio acabariam por surgir um conjunto de complicações maiores, podendo-se assim justificar essa fusão.

 

Por isso, mesmo que queiramos acreditar na versão de Higino, o que aconteceu então a Plístene? A genealogia de Agamémnon e Menelau não é completamente estável, os mitos dos seus antecessores apresentam elementos muito variáveis, o que poderá ter levado a um esquecimento progressivo de alguns dos momentos menos horizontais nas suas histórias. Se até existem, aqui e ali, algumas breves referências a esta figura misteriosa escondida por detrás do mito de Plístene – por exemplo, uma delas diz que ele era hermafrodita e/ou transexual, mas essas alusões nunca são explicadas… – elas raramente têm elementos horizontais, repetidamente comuns, sendo possível que esta se tratasse de uma figura pré-homérica que, por razões agora desconhecidas, foi caindo no esquecimento.

O mito da Medusa

Já cá falámos bastante do famoso mito da Medusa – brincámos com um seu possível encontro com o Rei Midas, tentámos explicar porque ela era mortal (contrariamente às duas irmãs), e unimos a sua morte com o mito de Pégaso e o de Perseu. Até distinguimos entre a sua cabeça decepada e a égide de Atena, mas nunca contámos foi, em específico, o seu próprio mito, que até nos nossos dias de hoje continua a ser muito famoso.

Perseu e a Medusa

Comece-se, então, pela origem mitológica desta figura (sobre a origem da própria criatura, enquanto monstro potencial derivado da cultura hindu, também já cá falámos!) Nas versões mais comuns, ela era uma criatura monstruosa, nascida de Fórcis e Ceto (ambas divindades marinhas) e tinha duas irmãs. Contudo,  numa outra versão, que nos foi tornada famosa pelo poeta Ovídio, Medusa tinha sido originalmente uma jovem (humana) extremamente bela que foi violada pelo deus dos mares num templo de Atena; zangada com esse acto abominável, a deusa puniu a violada (em vez de, estranhamente, o possível violador – mas não sabemos se a relação sexual até foi consensual), dando-lhe a horrenda forma com que aparece nos diversos mitos.

 

Qualquer que tenha sido a origem desta figura, já só temos um famoso mito que relate o resto da sua existência, mas que implica uma alteração significativa do ponto de vista da narrativa, na medida em que é Perseu o herói da história. O futuro marido da sua mãe ordenou a este que lhe trouxesse a cabeça desta espécie de monstro como prenda de casamento. Então, com a ajuda de Atena e de Hermes, o herói encontrou a toca desta figura mitológica e cumpriu a sua tarefa – mas não foi uma tarefa nada fácil!

A morte de Medusa

Diz-nos este mito grego que esta criatura tinha até o poder de transformar em pedra todos aqueles que a olhassem directamente. Como derrotar uma criatura assim? A resposta surgiu com o auxílio dos deuses – Atena emprestou-lhe um escudo, Hades um elmo que tornava o portador invisível, e Hermes uma foice e as famosas sapatilhas aladas, sinónimo de rapidez. Depois, chegando ao local, usou o elmo para se aproximar e fitando a sua opositora só pelo reflexo num escudo, o herói fechou os olhos, virou-se rapidamente e cortou-lhe a cabeça, guardando-a numa espécie de saco. Do sangue que brotou nesse instante nasceu, famosamente, o cavalo Pégaso.

 

Toda esta grande sequência do mito pode ser vista na belíssima imagem acima, que marca a morte de Medusa e o último instante em que aparece em qualquer mito. Ou penúltimo, se quisermos associar à história o momento em que Atena tomou a cabeça decepada para si mesma e a colocou no seu escudo.

 

Mas então, o que podemos dizer de todo este mito da Medusa? É um mito que tem consequências bem visíveis na representação de Atena, como acontece com o de Hércules e o Leão da Nemeia, em que o herói passa a ser representado com a pele do monstro que venceu. O facto de a figura ter o poder de transformar em pedra todos aqueles que olhavam para a sua face, ou o auxílio de vários deuses (por oposição a apenas um, como é frequente), entre outros elementos da história, fazem deste um mito particularmente singular. E é certamente possível que a sua fama ao longo dos séculos tenha provindo disso mesmo, dessa presença de um conjunto de vários elementos invulgares no panorama das histórias da Grécia Antiga – se a história original era assim tão diferente das outras, seria difícil que as pessoas se esquecessem dela, contrastando, por exemplo, com os incontáveis mitos de transformações, como aquelas que nos chegaram em massa num famoso poema de Ovídio.

O mito de Zagreu, o primeiro Dioniso (ou Zagreus)

Na Mitologia Grega existem algumas histórias bastante estranhas, entre as quais se conta o mito de Zagreu (ou Zagreus, como alguns preferem chamá-lo). Não é uma trama muito conhecida – na verdade, só nos parece ser contada de uma forma completa no épico de Nono de Panópolis, por volta do século V da nossa era – pelo que achámos que a poderíamos recordar:

Uma cabeça, será a de Zagreu ou Zagreus?

Numa das suas muitas aventuras sexuais, Zeus tomou a forma de uma serpente e envolveu-se com Perséfone. Então tornada grávida, a jovem deu à luz uma criança que viria a ser conhecida como Zagreu. Um dia, quando esta estava a brincar, foi capturado pelos Titãs, que o partiram em mil pedaços antes de o devorarem quase completamente – sobrou apenas o seu coração, que os deuses levaram para o Olimpo.

 

O mito poderia ficar por aqui, mas neste caso específico até tem uma espécie de continuação muitíssimo inesperada. Os deuses gregos não eram omnipotentes (como a morte de Sarpédon na Ilíada bem nos mostra), mas tinham muitos recursos ao seu dispor. Então, o pai Zeus – e deixe-se claro que esta figura não era filho de Hades, como alguns parecem pensar – decidiu reduzir a pó o coração de Zagreu, colocou-o numa bebida e deu-a a beber a Sémele, que ficou grávida. O filho de ambos viria a ser o famoso Dioniso (já cá fizemos uma breve alusão a esse mito), deus do vinho e da vinha, que na verdade era uma reencarnação do falecido Zagreu, conhecido entre alguns autores como o “primeiro Dioniso”. Por isso, esse mesmo deus teve um só pai mas duas mães distintas – ele ainda era o filho falecido de Perséfone e Zeus, mas também se torna uma figura completamente nova, nascida do ventre de Sémele pela influência divina do mesmo monarca dos deuses do Olimpo.

 

O que quer isto dizer? Em suma, que Zagreu e Dioniso são quase um só deus, duas figuras que acabaram por partilhar um mesmo corpo (aquele que nos ficou conhecido sob o nome do deus do vinho), naquele que pode ser considerado um dos eventos mais estranhos dos mitos da Grécia Antiga.