Os deuses gregos e deusas gregas

Para conheceres todos os deuses gregos e deusas gregas esta página é um excelente ponto de partida, até porque eles e elas são bastantes (!), e para quem tiver essa curiosidade até podemos acrescentar que as figuras divinas dos Romanos ainda são mais – segundo uma obra perdida de Marco Varrão, elas até eram mais de dez mil, que cobriam todas as áreas “do nascimento até à cova”. Por isso, uma pergunta justíssima poderia ser-nos colocada – quais eram as principais divindades da Grécia Antiga?

Principais deuses gregos e deusas gregas

Tentar responder a essa questão implicaria, antes de mais, falar dos doze deuses do Olimpo, um conjunto de doze figuras – de ambos os sexos – que têm um papel muitíssimo principal na Mitologia Grega, ao ponto de ser impossível relatar sucintamente todos os mitos em que intervém. São elas as figuras principais entre as figuras divinas do Olimpo. Os seus constituintes variam (por exemplo, apesar da sua importância como um dos três grandes deuses, notaram que Hades não aparece na imagem acima?), mas nunca deixam de apresentar mais ou menos as mesmas figuras, a que aqui associamos até três das suas funções (existem muitas mais):

  • Afrodite, do amor e da beleza.
  • Apolo, da música e das profecias.
  • Ares, da guerra.
  • Ártemis, virgem da caça.
  • Atena, virgem da guerra, da sabedoria, e auxiliadora dos heróis.
  • Deméter, da agricultura (e mãe de Perséfone, num mito de enorme importância).
  • Dioniso, da vinha e do vinho.
  • Hades, dos mortos.
  • Hefesto, ferreiro dos deuses, do fogo (e da fealdade?).
  • Hera, esposa de Zeus e, proverbialmente, mãe dos deuses.
  • Hermes, mensageiro dos deuses.
  • Héstia, virgem do fogo e da casa.
  • Poseidon, dos mares.
  • Zeus, o rei do Olimpo, das tempestades e amante prolífico.

 

Quem estiver com mais atenção poderá aperceber-se que falámos de 12 figuras mas estão ali um número maior. Como já referimos, este conjunto não é totalmente estável – por exemplo, Dioniso é uma divindade mais tardia, não fazia originalmente parte do panteão do Olimpo – mas estas são, efectivamente, os principais deuses gregos e as deusas gregas, os mais significativos da Grécia Antiga. Mas, se os Gregos ainda não tinham tantas divindades como os Romanos viriam a ter, também tinham várias outras figuras divinas, de que aqui damos alguns exemplos adicionais:

  • Asclépio, da medicina.
  • Aurora, do nascer do dia.
  • Caronte, que transportava os mortos para o seu destino final.
  • Éris, personificação da discórdia.
  • Gaia, uma deusa primordial da terra, geradora de (quase) tudo o que existe.
  • Hebe, da juventude (que viria a casar com o herói Héracles).
  • Hécate, dos cruzamentos, magia e conhecimento oculto.
  • Íris, mensageira dos deuses (mais ligada a Hera).
  • Momo, da crítica (infundada?).
  • Morfeu, dos sonhos.
  • Nyx, da noite.
  • Perséfone, filha de Deméter e esposa de Hades.
  • Témis, da justiça.

 

São “só” estes os deuses gregos e as deusas gregas? Não, naturalmente que não, mas o que se pretendeu fazer aqui foi referenciar as principais figuras divinas, aquelas que têm de ser conhecidas minimamente para que se possam compreender bem as principais histórias da Mitologia Grega. Figuras como Erictónio (filho da virgem Atena), Geras (deus da velhice), ou Macária (a deusa de uma boa morte), até podem parecer interessantes por um breve minuto, mas o papel que têm nos vários mitos é quase nulo, sendo desnecessário conhecê-las a todas de cor. Na verdade, se o número total dos deuses do Olimpo é muito grande, os principais, aqueles que têm maior importância, são apenas aqueles que já referimos ali em cima, por serem eles que também um papel preponderante em quase todos os mitos gregos…

O mito de Hermafrodito e Salmacis, a ninfa violadora

Não é Salmacis, mas até podia ser...

São virtualmente incontáveis os mitos gregos e latinos em que uma personagem do sexo masculino não sabe aceitar o desinteresse do sexo oposto. Porém, o mito comum de Hermafrodito e Salmacis prima por apresentar uma situação oposta, mostrando-nos o caso de uma ninfa – ou, para sermos mais precisos, uma naíade – que, pura e simplesmente, não sabia aceitar um “não” alheio.

 

Hermafrodito era um jovem de 15 anos que, um dado dia, decidiu passear pela floresta. Enquanto habitava a sua pequena fonte, Salmacis viu-o e sentiu um enorme amor à primeira vista. Tentou insinuar-se perante ele, tentou beijá-lo, tentou mil outros estratagemas, mas o jovem pura e simplesmente não tinha qualquer interesse nela. Então, irritada, decidiu enganar Hermafrodito, para que este tomasse um pequeno banho na fonte. Quando, ingenuamente, ele acabou por o fazer, Salmacis puxou-o para seu lado, abraçou-o com força, cobriu-o de beijos e disse que nunca mais o iria largar, pedindo aos deuses que a fizessem cumprir essa promesa. Eles, inesperadamente, e sem nunca ouvirem os horrendos gritos de desespero do jovem, fundiram então Salmacis e Hermafrodito num só corpo, que ambos depois viriam a ocupar para o resto do tempo…

 

Muito podíamos escrever sobre este mito em específico, desde a origem do nome de Hermafrodito até ao possível facto de toda esta história poder ter sido uma invenção ovidiana, mas se o contamos hoje é por uma necessidade especial. Raramente nos metemos em certo tipo de questões, mas… hoje, abrimos uma pequena excepção. A violência, no contexto de qualquer espécie de relação, nunca é aceitável. Nunca. Há pouco mais de uma semana uma amiga pessoal sofreu algo completamente bárbaro por causa de um homem, numa situação com contornos como os acima, e… se gostam de uma pessoa, tenham a decência de a respeitar sempre. Para vosso bem e deles.

O mito da deusa Éris, personificação da discórdia

A deusa grega Éris podia ser só mais uma personificação como tantas outras. Podia ser uma daquelas figuras de que raramente nos lembramos, como Fobos (o medo), Deimos (o pânico), ou até os Erotes, mas bastou uma só participação na Mitologia Grega para a tornar uma das mais famosas deusas da Antiguidade Clássica.

Uma maçã na mesa dos deuses

Conta-nos o mito que numa data incerta os deuses celebraram o casamento do mortal Peleu com a ninfa Tétis. Todas as figuras divinas foram convidadas, da maior à mais pequena, com uma única excepção – a deusa Éris, a discórdia personificada.

Naturalmente zangada pela ausência de convite para um banquete em que até seres disformes estiveram presentes, a deusa rapidamente decidiu vingar-se – enviou ao banquete uma prenda, uma maçã (ou pomo) com a inscrição “Para a mais bela”. E o resto, como se costuma dizer, é história.

 

O que não pode deixar de ser particularmente fascinante neste mito é o facto de esta deusa Éris, personificação da discórdia, ter um único papel e presença real nos mitos gregos, mas é um papel fulcral na instigação da Guerra de Tróia, cuja fama até chegou aos nossos dias. O seu nascimento aparece em Hesíodo, a deusa é mencionada como uma mera personificação em diversas outras histórias, mas esta sua intervenção directa no casamento de Peleu e Tétis é hoje o único instante em que ela age por si mesma. E talvez isso até explique o porquê dos Romanos venerarem a deusa Concórdia, não fosse o proverbial diabo tecê-las e Éris, a Discórdia sob o seu nome grego, voltar a fazer das suas…

Qual a verdadeira origem do hipogrifo?

A criatura conhecida por este nome é-nos hoje famosa das aventuras do Harry Potter, mas qual é mesmo a verdadeira origem do hipogrifo? Talvez sejam agora poucos os leitores que ainda o sabem, mas esta criatura não foi totalmente criada por J. K. Rowling, tendo até uma origem literária significativamente ilustre, que já vem do século XVI da nossa era.

Harry Potter e o Hipogrifo

Mas, antes de nos focarmos nesse ponto em concreto, há que perguntar – afinal, o que é um hipogrifo? Não pode ser encontrado num jardim zoológico, mas, essencialmente, é uma criatura híbrida, composta por partes de três animais distintos – um cavalo (do grego hippos) e um grifo, este segundo por sua vez um híbrido composto pelo corpo de um leão e uma águia. Tanto na sua constituição física como no seu carácter, ele retira alguns aspectos particulares de cada um desses três animais – por exemplo, pode voar como a águia, tem a força do leão e a velocidade do cavalo. A origem do hipogrifo, ou do seu aspecto físico, prende-se então com as características conjuntas desses animais.

 

E então, qual foi a origem e a primeira aparição literária do hipogrifo? Se a ideia de acasalar grifos com cavalos já aparece na literatura da Antiguidade para significar algo que é certamente impossível de fazer (até pela dificuldade em encontrar os primeiros…), a aparição mais famosa deste animal é na obra italiana Orlando Furioso, em que um dos heróis (e um vilão, se a memória não nos está a enganar, que já lá vão alguns anos…) até o monta no decurso das suas aventuras de cavalaria. Será que J. K. Rowling leu essa obra, ou terá conhecido esta criatura fantástica através de algum outro texto mais recente? Não sabemos, mas é um bom exemplo de como essa autora reutilizou o património cultural e literário dos séculos passados para as suas aventuras, como também aconteceu nos casos do Basilisco,, da Manticora e de expressões como Avada Kedavra

Os filhos de Afrodite – os Erotes (Anteros, Eros e Himeros)

Na Mitologia Grega foram muitos os filhos de Afrodite, deusa do amor. Porém, hoje falamos é daqueles com pai incógnito, e que são hoje conhecidos colectivamente sob o nome de Erotes.

Afrodite e dois Erotes

Quem são então estes Erotes? São um conjunto de filhos de Afrodite frequentemente indistinguíveis de Eros/Cupido, com quem até se confundem. Para explicar isto de uma forma simplificada, quando vemos numa qualquer imagem Afrodite acompanhada por Cupido e outras figuras semelhantes a ele, um deles é esse famoso filho da deusa mas os restantes são os Erotes, que são aspectos particulares do amor, e que aparentemente nasceram da mesma forma que Afrodite, i.e. da espuma do oceano ou de um qualquer pai incógnito. Eles são os seguintes:

  • Anteros, deus do amor retribuído*;
  • Eros, mais conhecido como o Cupido dos Romanos, deus do desejo;
  • Hímero (ou Himeros), deus do amor que não é retribuído.

 

Porquê estes, e não outros? Se são diversos os autores que parecem dar vários outros constituintes aos Erotes, só estes nasceram de Afrodite e de um pai incógnito (apesar de Ares ser, por vezes, considerado o pai de Eros…), e estão ligados de uma forma muito directa ao atributo essencial da deusa – note-se que até todos têm eros no nome. Além disso, é frequente serem três os Erotes representados nas suas brincadeiras, por vezes até com a mãe Afrodite a seu lado. Assim, se entre este grupo se quisessem introduzir Pothos (a paixão) ou Himeneu (deus do casamento), entre outras possíveis figuras, esse padrão triplo seria quebrado.

 

Uma última curiosidade – quando hoje vemos os chamados “anjinhos papudos” em pinturas, normalmente eles são herdeiros dos Erotes da Antiguidade, uma espécie de novos filhos de Afrodite, não só pela sua forma física semelhante mas igualmente pelo facto de ainda partilharem o carácter brincalhão dessas antigas figuras, que não eram mais que filhos de Afrodite com pai incógnito, muito brincalhões e bastante associados ao amor.

 

*- Pausânias conta-nos outra versão da história desta divindade. Quando o ateniano Meles declarou o seu amor a Timágoras, este segundo gozou com a situação e pediu-lhe que se atirasse de uma rocha. Meles fê-lo mesmo, e então acabou morto. Depois, vendo a tragédia que tinha causado, também Timágoras se atirou da mesma rocha, e então Anteros seria – pelo menos para este autor, e aqueles que lhe passaram essa informação – uma versão divinizada de Meles, destinado desde esse momento a vingar todos os amores não correspondidos.