O mito de Caos

O mito de Caos é o do primeiro deus dos Gregos, segundo Hesíodo, um famoso autor de grande impacto na Mitologia Grega. Porém, o facto de muitas pessoas buscarem este mito específico não afasta um problema significativo – os únicos mitos que conseguimos encontrar em que o Caos tenha qualquer papel real são teogonias.

Uma possível imagem do Caos

Na verdade, como já acontecia em casos como o de Nyx, a Noite, nos mitos da Grécia o Caos não era uma entidade antropomórfica. Não tinha cara, braços ou pernas, ou sequer uma voz real. O Caos era uma entidade completamente disforme, cujo único verdadeiro mito que nos chegou passa pela criação (completamente asexual, presume-se?) de várias outras entidades de maior relevância. O seu grande papel nos mitos é o de criador de outros deuses e divindades, mas um criador pouco ou nada interventivo, o que alguns séculos mais tarde levaria alguns filósofos a teorizar uma visão do divino que existe mas que pouco ou nada se importa com as nossas próprias vidas.

 

Assim, como podemos resumir o papel do Caos na Mitologia Grega? É, pura e simplesmente, um criador de outras figuras – se o primeiro, ou um secundário, já varia entre Hesíodo, [Pseudo-]Orfeu e outros autores – cujos actos se prendem com essa acção primordial – e nada mais. Quem disser o contrário, fá-lo como mera fantasia e sem qualquer apoio real das fontes da Antiguidade.

Os mitos do nascimento de Atena e de Hefesto

Se existem dois mitos gregos que podem e devem ser contados quase lado a lado são os do nascimento da deusa Atena e do deus Hefesto. Comece-se pelo primeiro e depressa se entenderá essa relação muito natural com o segundo.

O nascimento de Atena

Numa das suas muitas escapadelas sexuais Zeus envolveu-se com a deusa Métis, apesar de já lhe ter sido repetidamente profetizado que algum descendente que nascesse dela viria a destronar o seu próprio pai. Consumado o seu desejo, e relembrando-se depois das profecias que tinha ouvido, o deus rapidamente se arrependeu das suas acções. Então, sabendo que Métis estava grávida, decidiu engoli-la, seguindo um precedente estabelecido pelo seu próprio pai.

Tudo poderia ter ficado por aqui, mas passados alguns dias Zeus começou a sofrer de uma dor de cabeça muito persistente. A dor, com o passar do tempo, acabou por se tornar tão grande que, em grande desespero, o deus pediu a um companheiro que lhe batesse com com um machado na cabeça, de forma a aliviar a dor. E, quando isto teve lugar, o golpe foi tão profundo que lhe rachou a cabeça, fazendo sair desse local a deusa Atena, recém-nascida mas já completamente equipada para a batalha.

 

O tempo foi passando, até que a deusa Hera começou a sentir mais e mais inveja pelo acto invulgar do seu marido. Assim, de uma forma que não é totalmente clara nos mitos, decidiu também ela gerar um rebento sozinha, imitando o seu companheiro. E até conseguiu fazê-lo, mas Hefesto nasceu com um pequeno defeito de nascença; tão triste quanto horrorizada, Hera atirou-o então dos píncaros do Olimpo, desfigurando-o ainda mais.

Assim, se Atena nasceu de Zeus e sempre foi bem amada, Hefesto era corcunda, com uma forma grotesca, possivelmente por ter sido fruto do desejo incompleto de sua mãe.

 

Claro que ao longo dos séculos existiram várias versões destes dois mitos – em algumas delas até é o próprio Hefesto que abre com um golpe a cabeça de Zeus, levando ao nascimento de Atena – mas a opinião geral é que tanto Zeus como Hera deram à luz estes seus filhos de uma forma anómala e sem uma intervenção directa de alguém do sexo oposto. Mesmo nos mitos gregos, esta é uma situação muito incomum, que apenas encontra um caso semelhante no nascimento de Dioniso, de que falaremos um outro dia…

Os números e a lenda da morte de Hípaso de Metaponto

Matemáticas

De uma forma muito simplista, os números podem ser divididos em naturais, racionais e irracionais. Os primeiros são “naturais” porque ocorrem na natureza – temos na mão duas maçãs, um bordão, um livro, dez pequenas pedras, etc. Os segundos são “racionais” porque nascem de uma aplicação da razão humana aos primeiros, i.e. se quisermos dividir duas maçãs por cinco amigos temos de recorrer a eles. Já os terceiros são “irracionais” porque na aplicação desses dois grupos podem surgir números que não são completamente exprimíveis pela razão humana, e.g. a constante necessária para calcular a área de um círculo. Agora, se os dois primeiros são de tempos imemoriais, aos terceiros já podemos associar uma pequena lenda do tempo da Grécia Antiga.

 

Esta diz-nos que o terceiro grupo foi descoberto pelos Pitagóricos, colectivamente, ou apenas por Hípaso de Metaponto, um dos seus membros. Quando é atribuído apenas a esta segunda figura, é-nos apontado que quando meditava nos possíveis resultados da aplicação da fórmula do chamado “Triângulo de Pitágoras” se deparou com um enorme problema – se um triângulo tiver dois lados iguais de comprimento 1, qual será o tamanho da sua hipotenusa? Como exprimir esse número, que não era natural nem racional?

Ao considerar questões matemáticas como estas e muitas outras, Hípaso interrogou-se e divulgou aquilo que eram considerados segredos exclusivos dos deuses omnipotentes. E então, segundo a lenda, a húbris das suas acções conduziu-o à sua morte, afogando-se como punição dos deuses ou dos homens seus companheiros.

A origem de Adamastor

Claro que todos conhecemos esta famosa figura dos Lusíadas de Camões, mas a origem de Adamastor também tem uma outra face que a maior parte das pessoas hoje desconhece. Por exemplo, sabiam que a estátua que aparece na maior parte dos manuais escolares não é tirada num qualquer país africano, ou mesmo no local em que se supunha que este gigante viveu – como até poderíamos supor – mas sim em Lisboa, mais precisamente no Miradouro de Santa Catarina, com vista privilegiada para o Tejo?

A origem de Adamastor, estátua em Lisboa

Agora, se os contornos gerais da nossa figura do Adamastor foram invenção de Luís de Camões, o próprio gigante já existia anteriormente, sendo conhecido pelo menos desde o século III d.C., sob os nomes de Damastor (em Claudiano) ou Adamasthor (em Sidónio Apolinário). Em ambos os casos, o nome deste mesmo gigante é mencionado num contexto de uma gigantomaquia, um enorme combate entre os deuses e os gigantes que tinha lugar na Mitologia Grega e Romana (mas cujo mito já não nos chegou de uma forma mais completa), sendo por isso possível que o nome até já viesse de um mito anterior, potencialmente grego, já que o nome Adamastos (Αδαμαστος, no original grego) significa “Indomável”.

 

E, no contexto do grande poema épico de Camões, o significado do nome faz todo sentido – os Portugueses chegam ao Cabo das Tormentas, conquistam pela primeira vez o Adamastor, este “Indomável” de outros tempos, e recebem então um sinal de boa esperança para a continuação da sua viagem. Será que já alguma vez tinham pensado nisto? Mesmo em caso negativo, esta origem de Adamastor não pode deixar de nos fazer pensar que outros elementos mitológicos secretos se escondem por detrás das muitas figuras deste épico camoniano, como José Agostinho de Macedo nos alertou no prefácio do seu épico O Oriente

O destino das armas de Heitor e a obra “Orlando Enamorado”

A morte de Heitor

Se o grande apogeu da Ilíada é o confronto de Aquiles com Heitor, nesse mesmo episódio há uma pergunta que fica por responder – o que aconteceu ás armas do filho de Príamo? Parece natural que, inicialmente, Aquiles as tenha tomado para si próprio mas, como em muitos outros episódios semelhantes, nada de muito conclusivo nos é dito sobre isso.

 

A questão poderia ficar automaticamente por aqui, mas ao lermos Orlando Enamorado, de Matteo Maria Boiardo, encontrámos uma referência muito curiosa a este tema. Nela é dito que o equipamento guerreiro de Heitor foi separado, indo a espada para um lado e os restantes elementos para outro, acabado a primeira por se tornar a espada do herói Orlando. Já a armadura, essa, foi passando de mão em mão até ir parar a um dos heróis da história italiana.

 

Mas de onde vem toda essa história? Estaria Boiardo a apoiar-se em mitos gregos ou latinos agora desconhecidos para nós? Dificilmente – em diversas outras fontes, à espada de Orlando (também conhecido como Rolando), conhecida por Durandal ou Durindana, é dada uma origem muito mais comum, sendo quase exclusivamente dito que pertenceu a Carlos Magno.

Porém, esta associação de romances medievais com determinados elementos dos antigos mitos não é nova. Já aqui falámos de outro exemplo, e mesmo a obra Orlando Enamorado tem muitos outros exemplos semelhantes – na verdade, os seus heróis até defrontam (novamente) a Esfinge e a Medusa, ambas com os seus clássicos poderes.

 

Infelizmente, resumir Orlando Enamorado não é uma tarefa fácil. É um romance de cavalaria em que diversas personagens se vão cruzando e separando, em que a magia e eventos totalmente inesperados se fundem consecutivamente. Num dado momento um herói viaja no seu cavalo, como em tantas outras aventuras do género, e alguns versos depois está a defrontar um burro dourado, a reencontrar a Morgana arturiana ou a explorar uma cidade existente no fundo de um curso de água. Claro que é uma obra interessante para quem gostar de aventuras de fantasia, mas nem sempre fácil de seguir… porém, se é hoje uma obra muito esquecida, que foi muito apreciada na sua época pode ser facilmente compreendido pelo facto de, alguns anos depois, Ariosto ter composto uma continução para ela, Orlando Furioso, que é uma das grandes obras do cânone literário ocidental.