A estranha história de Santa Demetra

Pura coincidência...

Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, uma mulher chamada Demetra que vivia em Atenas. Tinha uma filha, cujo nome já há muito foi esquecido, que era a mais bela mulher de toda a região. Um Turco, infiel ás leis cristãs e adepto de magia, viu-a e apaixonou-se por ela, mas a filha de Demetra nunca lhe mostrou qualquer interesse. Então, um dia esse Turco raptou-a de sua casa…

Demetra, horas depois, chegou à casa onde vivia com a filha e não encontrou ninguém lá. Também os vizinhos não sabiam da jovem. Perguntou ao Sol, ás Estrelas, e a tantas outras pessoas, mas ninguém lhe sabia dizer onde estava a sua filha. Até que uma Cegonha, que vivia na casa do lado, lhe contou o que se tinha passado.

Triste, Demetra partiu em busca da filha… por tudo quando viajou, ninguém lhe sabia dizer onde ela estava. Até que um dia, cansada de caminhar sobre a mais fria neve, caiu ao chão. Teria morrido, não fosse o facto de um casal de idosos a terem salvo e levado para a casa em que viviam.

(…) Mais tarde, a filha de Demetra foi salva do horrendo Turco pelo filho desse casal. Juntas, partiram de volta a Atenas, mas Demetra recompensou o casal garantido que a cidade em que estes viviam, Elêusis, teria sempre boas culturas.

 

Em momentos como estes apetece até dizer “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”*. Este podia ser um mito da Antiguidade, mas foi ouvido já em inícios do século XX, em terras da Grécia…

O mito de Dioniso e os piratas

Contar todas as grandes aventuras de Dioniso numa só sequência seria aqui impossível, mas existem fragmentos do seu mito que são notavelmente mais conhecidos do que outros. Por isso, contamos a sequência de hoje dado o facto de ter algum relevo na arte grega.

 

Numa dada altura da sua vida o deus Dioniso precisou de viajar, e então aproximou-se de alguns navegadores, pedindo-lhes passagem para a ilha de Naxos. Estes aceitaram ajudá-lo, sem lhe revelar que eram piratas, mas vendo-o depois tão belo e tão rico decidiram mudar de planos e pensaram em vendê-lo como escravo. O que viria a acontecer em seguida certamente que supreenderia qualquer ser humano.

Dioniso e os piratas

Quando prenderam Dioniso ao mastro principal, esta parte do navio começou a transformar-se numa videira. Depois, mesmo no meio do mar, sem qualquer terra à vista, começaram a ouvir-se flautas, cujo som provinha de algum local completamente desconhecido. Assustados com estas e outras ocorrências semelhantes, os piratas depressa se atiraram ao mar, sendo transformados em golfinhos por um milagre do mesmo deus. E Dioniso, esse, lá acabou por chegar a Naxos…

 

O que este pequeno mito tem de muito especial é o facto de condensar num só instante temporal toda uma história passível de ser representada estaticamente. Se as pinturas de outros vasos requerem, em muitos casos, uma explicação completa de um dado mito e das suas personagens, neste caso o mito pode ser recontado e representado muito facilmente – “Dioniso ia ser raptado. Ali está o barco a transformar-se em videira e os piratas transformados em golfinhos”.

Dríades, Sereias, Sátiros, e outras figuras da Antiguidade

Há já algumas semanas que nos vieram colocar uma pergunta, “Qual a diferença entre uma dríade e uma sereia?”. Porém, mais do que simplesmente lhe respondermos de uma forma muito rápida, apontando exclusivamente as definições de ambas num qualquer dicionário, achámos que poderíamos escrever um pouco mais sobre todo o grande tema por detrás dessa questão.

 

Essencialmente, os Gregos acreditavam em deuses (como Zeus, Hera, Apolo, etc.) e em heróis (como Hércules, Aquiles, Heitor, etc.), ou seja, em figuras divinas, e em figuras humanas que, face aos seus bons actos em vida, poderiam depois vir a ser deificadas. Contudo, se a maior parte dos leitores até saberá disto, estas mesmas afirmações também são muito redutoras da realidade, na medida em que os Gregos também acreditavam numa terceira categoria de seres, que não são completamente divinos mas que também não são humanos – como Marciano Capela, talvez também nós lhes possamos chamar longaevi.

 

E que seres são esses? São criaturas como as Sereias, Dríades, Faunos (divindades dos campos), Sátiros, etc. Em comum, todas elas têm o facto de não serem nem puramente humanas, nem completamente divinas. Viviam muito tempo mas não era imortais, e normalmente tinham uma forma que as colocava entre os humanos e os animais. Isso é particularmente fácil de notar no caso dos Sátiros, que tinham pernas de cabra e cornos mas uma forma essencialmente humana:

Filoctetes da Disney

Além destas criaturas existiam também as Ninfas, colectivamente divindades dos rios, montes, florestas e outros locais semelhantes. Porém, mediante a sua função obtinham nomes diferentes – Bacantes (enquanto ninfas, acompanhavam Baco nas suas viagens), Dríades (protegiam as árvores e florestas), Hamadríades (uma espécie de alma das próprias árvores), Lâmpades (viviam no submundo), Naíades (ou naíadas, associadas aos rios e fontes), Nereidas (do mar), Oceânides (das águas), Oréades (das montanhas e grutas), entre muitas outras – delas poderia dizer-se que todas são ninfas, mas não seria correcto dizer que uma ninfa é necessariamente uma Lâmpade. Por exemplo, Calipso, que durante anos prendeu Ulisses nos seus braços, é chamada uma ninfa, mas Dodona (que levou ao nome da cidade onde existia uma oráculo de Zeus) era considerada uma oceânide.

 

Onde entram então as sereias, que não devem ser confundidas com as Sirenas? Quase que em lado nenhum – são quase sempre consideradas como criaturas mitológicas completamente distintas das anteriores, meros monstros. Se quiséssemos, como na pergunta que nos foi feita, distingui-las especificamente das Dríades, poderíamos dizer que até vivem em reinos totalmente distintos – enquanto que as Sereias (originalmente) tinham um corpo de pássaro e tocavam música, as Dríades limitavam-se a viver nas florestas, em que protegiam os espaços verdes aí existentes.

 

Mas, para terminar estas linhas, é necessário deixar claro um elemento importante – estas categorizações não eram totalmente fixas. Nunca parece ter sido sistematizado que a figura X era sempre uma oceânide enquanto que a Y era sempre e somente uma ninfa. De igual forma, ao falar-se de uma bacante não se está obrigatoriamente a falar de alguém que não é um ser humano – poderá estar a referir-se, exclusivamente, uma companheira do deus Baco; ainda, os diversos autores que nos chegaram poderão, referindo uma mesma figura, por vezes chamar-lhe “ninfa”, outras vezes “oceânide” ou “naíade”, sem que isso seja considerado errado.

A diferença entre Héracles e Hércules

São Héracles e Hércules uma e a mesma figura, ou existem diferenças entre os heróis por detrás dos dois nomes? Se, de um modo muitíssimo geral, podemos dizer que os deuses dos Romanos são os dos Gregos com outros nomes, quando a situação é vista ao pormenor descobre-se que isso não é completamente verdade. O Júpiter latino não é Zeus, a Hera dos Gregos não é igual a Juno, o nome de Apolo manteve-se em virtude da enorme fama do seu oráculo na cidade de Delfos, mas… o que dizer em relação à figura do mais famoso filho dos deuses do Olimpo? Qual é a diferença entre Héracles e Hércules?

Héracles ou Hércules?

Comece-se pela figura grega. Héracles nem sempre teve esse nome – na verdade, a mãe, Alcmena, deu-lhe o nome de Alcides – mas após as muitas conquistas da sua vida o seu nome foi alterado para Héracles (em Grego Ἡρακλῆς, que significa “glória de Hera”), em virtude da fama que lhe foi trazida por todas as enormes dificuldades que a deusa o fez passar, nomeadamente os seus doze trabalhos.

O nome latino da mesma figura, Hércules, deriva deste segundo nome grego, mas isso não quer dizer que são uma única e a mesma figura. Se ao Hércules latino são associados todos os mitos do famoso Héracles dos Gregos, o contrário já não é verdade, porque existem alguns mitos que são associados exclusivamente a este herói pelos Romanos – o mais óbvio é o mito de Caco, mas existem outros.

 

O que aconteceu neste caso específico, da grande diferença entre Héracles e Hércules, é fácil de explicar – a fama do herói grego era tão grande que os Romanos sentiram não só a necessidade de a apropriar para si mesmos, mas também atribuir-lhe novas aventuras, mais ligadas à sua própria cultura. Sob esse novo nome a sua fama acabou por se tornar ainda maior, levando a que ficasse conhecido com esse nome na cultura ocidental. Disso é perfeito exemplo uma pesquisa pelo Google – mesmo que os mitos de ambos sejam semelhantes, neste momento uma procura por “Heracles” dá 21 milhões de resultados, enquanto que “Hercules” já retorna 142 milhões – seis vezes mais!

 

Fazendo então uma espécie de “tldr”, a grande diferença entre Héracles e Hércules é que ao herói latino estão associados alguns mitos individuais, que o seu congénere grego nunca teve.

“O Conto Tradicional Português no Séc. XXI”, Dionísio, e a razão da cara feia do Linguado

Capa do livro

Enquanto pesquisávamos um pouco mais relativamente a um tema anterior encontrámos este livro (gratuito), publicado o ano passado. É uma colectânea interessantíssima, que até pode ser acedida legalmente carregando na imagem acima, e que não podemos deixar de recomendar a quem tiver interesse no tema, ou àqueles que queiram recordar aos seus filhos as histórias de outros tempos. E algumas delas são, admita-se, muito dignas de nota.

 

Existem alguns contos que estão directamente ligados a episódios de romances medievais e, inesperadamente, até à Antiguidade. Um exemplo curioso, provindo de Armação de Pêra, é dado na sequência 227:

Há muitos milhares de anos, um homem que passou a vida na Grécia, quando se sentiu velho regressou à sua velha pátria, a Itália. E resolveu levar consigo uma linda videirinha, pois não se lembrava de ter visto tal plantinha na sua terra natal. Como não tinha vaso para a transportar, utilizou o que tinha à mão: um osso de galo. Esvaziou-o e meteu dentro as raízes, com um pouco de terra.
Ora como se deslocara a pé, demorou tempo a fazer a viagem e a videira cresceu, não teve outro remédio senão mudá-la para um osso de leão, que encontrou pelo caminho. Mas como a planta continuava a crescer, o Dionísio deparou-se com um osso de burro e para lá mudou a planta.
Consta que daquela videira se fizeram muitas outras e por ter ela crescido em tão estranhos vasos, quem beber um pouco desse vinho fica alegre como o galo, quem bebe mais fica forte como o leão e quem muito abusa do vinho perde as ideias e fica estúpido como um burro.

 

A referência à Grécia e Itália, a presença de um osso de leão em terras europeias, e até a referência ao nome de Dionísio, dão-nos a supor uma possível fonte da Antiguidade, mas esta história foi recolhida, oralmente, em Novembro de 2005 em território português, como este livro nos indica.

 

Outro exemplo… algumas histórias aludem à razão pela qual o linguado tem uma boca “ao lado”. E que justificação dão a essa característica?

Cara do Linguado

Contam-nos que, dado dia, um Linguado e Nossa Senhora se encontraram num qualquer curso de água. A mãe de Cristo perguntou-lhe “Ó Linguado, a maré desce ou sobe?” Este, gozando-a, pôs cara feia – como na imagem – e limitou-se a repetir a pergunta de volta. Então Maria castigou-o, condenando-o a ficar com essa mesma cara para toda a eternidade.

 

Estes elementos essenciais da história são contados por diversas vezes no livro, mas em versões que lhe dão locais e circunstâncias significativamente distintas*. Esse é, de facto, um aspecto interessante da obra, já que até repete algumas histórias mas em versões diferentes, que nos fazem pensar bastante no cerne comum da própria trama. E, por isso, temos de repetir o que já foi dito acima – “é uma colectânea interessantíssima (…) que não podemos deixar de recomendar a quem tiver interesse no tema”.

 

*- Curiosamente, esta mesma história também parece ser contada no Brasil, mas com uma ligeira alteração dos intervenientes – o peixe é uma Maraçapeba, enquanto que os heróis são Jesus e São Pedro.