Thanos [da Marvel] e a Mitologia Grega

Quem gostar de comics certamente que sabe que são muitas as figuras heróicas e vilãs baseadas em mitos da Antiguidade – o Thor nórdico é um dos exemplos mais óbvios, mas existem igualmente heróis associados à Atlântida (como Aquaman), um filho de Anteu, e daí por diante. E isso pode gerar uma questão… Será que Thanos, um famoso vilão das histórias da Marvel, foi retirado dos mitos gregos?

Thanos

Na verdade, e para quem estiver curioso, não existe qualquer figura significativa na Mitologia Grega que se chame mesmo “Thanos”, mas ele foi baseado num mito grego. Passamos a explicar – o seu nome em Grego seria Θάνος, e os Gregos conheciam uma figura chamada Θάνατος, cuja semelhança com o nome deste vilão é óbvia.

 

E quem era Θάνατος, mais conhecido em Português como Tânato ou Tânatos? Uma personificação da morte, que até tem um papel menor em diversos mitos. Agora, essa interrelação entre os dois nomes poderia até parecer uma mera coincidência, não fosse o facto de nas bandas desenhadas existir uma história muito famosa em que Thanos se apaixona por uma personificação da morte, aí chamada “Senhora Morte”, cujo amor ele pretendia conquistar sacrificando-lhe metade das criaturas vivas do universo.

 

Assim, Thanos não é uma figura da Mitologia Grega, mas tem uma parte significativa das suas raízes nos mitos da Grécia Antiga. E esta, hem?!

A origem dos gigantes

David e Golias

Se já cá falámos de diversas origens, a origem dos gigantes apresenta-se como potencialmente mais simples que as anteriores. Desde o Golias do Antigo Testamento, até aos muitos gigantes das histórias de cavaleiros e donzelas, passando pelos Γίγαντες dos mitos gregos e latinos e alguns Jötnar nórdicos, quase todas as mitologias e religiões fazem referência à existência de “gigantes”, seres que são quase como nós mas de maior estatura. Por isso, de onde vem essa ideia? Será que eles realmente existiram, num tempo já há muito passado e entretanto esquecido?

 

A resposta pode ser tanto positiva como negativa. Sempre existiram seres humanos de estatura maior que o normal (por exemplo, Robert Wadlow, o maior homem de que temos registo, tinha 2.72m de altura), mas a ideia também parece provir da descoberta de diversos esqueletos de dinossauro. Eles existem por todo o mundo e sabemos que uma confusão de identificações teve lugar ao longo dos séculos.

Por exemplo, são diversas as fontes gregas e latinas que atestam que, após um terramoto, foram encontrados esqueletos enormes no interior do solo, que vão sendo identificados como heróis do passado (sempre de grande estatura!), ou como monstros serpentinos (e.g. aquele que Perseu derrotou para salvar Andrómeda, ou o que Hércules matou para salvar Hesíone). A ideia foi-se mantendo, e quando em 1613 se encontraram ossos gigantes em França, os locais pensaram tratar-se de Teutobochus, um suposto lendário rei dos Teutões – e assim se compreende que a ideia não era só da Antiguidade, e prevaleceu até um tempo mais recente do que poderíamos imaginar.

 

Face a identificações como essas, torna-se fácil conseguir acreditar que algo de semelhante possa também ter tido lugar noutras culturas, levando a uma crença intercultural relativa a um tempo em que estes supostos gigantes viviam quase lado-a-lado com seres humanos como nós.

O infeliz mito do Colar de Harmonia

O infeliz mito do Colar de Harmonia surge-nos num contexto muito particular. Há algumas semanas atrás, quando escrevemos sobre o Copo de Vulcano, uma leitora veio-nos perguntar que poderes mágicos tinha esse copo. Na altura tivemos de lhe dizer que este não tinha quaisquer poderes e que, de facto, os objectos terem poderes era algo pouco frequente nos mitos gregos. A Caixa de Pandora, o Escudo de Aquiles, a Armadura de Mémnon, e outros que tais, eram conhecidos em virtude da fama dos seus possuidores iniciais, mais do que por vias de um qualquer poder que pudessem ter. Mas, aqui e ali, até existem algumas excepções, de que o Colar de Harmonia é, muito provavelmente, uma das mais famosas.

Colar de Harmonia a ser oferecido

 

Conta-nos o mito que, num dado dia, Hefesto apanhou a mulher, Afrodite, a traí-lo com o deus Ares, e por isso decidiu amaldiçoar toda a prole que os dois amantes viessem a ter. Dessa traição nasceu Harmonia, a quem Hefesto deu o mais belo colar alguma vez feito, que até tinha o poder de dar beleza e juventude eterna a quem o possuísse (o que o tornou, diga-se, muito popular entre o sexo feminino). Mas, antes que nos perguntem onde o obter, havia também um pequeníssimo senão – a possuidora ficava amaldiçoada e condenada a sofrer tormentas sem fim.

Ainda assim, o Colar de Harmonia foi passando de mão em mão, causando repetidos sofrimentos. Na imagem acima, por exemplo, ele pode ser visto no momento em que Polinices o usou para subornar Erifile, para que esta convencesse o marido a juntar-se à Guerra de Tebas. Ela aceitou-o e acabou por sofrer as consequências expectáveis.

Depois, este colar continuou a passar de mão em mão, até que alguém teve a sensatez de o oferecer a um templo em Delfos. Aí ficou durante bastante tempo, até que o tirano Fáilo, provavelmente no século IV a.C., o retirou do local e ofereceu à amante. Em seguida, o seu filho mais novo enloqueceu, deitou fogo à casa em que viviam e morreu juntamente com a própria mãe.

 

Caso alguém deseje ir procurá-lo, onde está agora este Colar de Harmonia? A verdade é que não sabemos… a amante de Fáilo parece ter sido a sua última possuidora, e depois dessa altura a peça de joalharia parece ter desaparecido de todas as histórias que nos chegaram. E, a acreditarmos na veracidade dos seus poderes mágicos, esse até é um desaparecimento que em nada prejudica a humanidade!

O mito de Pandora (e a origem da Caixa de Pandora)

Os mitos de Pandora e da Caixa de Pandora são certamente dos mais conhecidos da Grécia Antiga. Nesta história, e como poderá ser lido já em seguida, aquela que era a primeira mulher é culpabilizada pelos muitos males que afectam toda a humanidade. Curiosamente, esta mesma temática seria abordada em muitas outras mitologias e religiões, com uma das mais famosas referências a aparecerem na Bíblia, em que Eva, esposa de Adão e primeira mulher, seria também ela a culpada pelos males que hoje afligem o mundo. Segue-se então um pequeno resumo de toda a história:

O mito e a Caixa de Pandora

Resumo do mito de Pandora

Segundo o mito, a história de Pandora surge na sequência de alguns logros perpetrados por Prometeu, que viriam a privilegiar a humanidade em detrimento dos deuses do Olimpo.
Para se vingar, Zeus criou Pandora, a primeira mulher, os outros deuses deram-lhe todos os dons (justificando o seu nome), e depois o seu rei enviou-a a Epimeteu , que a deveria tomar como esposa.
Contrariamente ao que o irmão, Prometeu, lhe tinha aconselhado, Epimeteu aceitaria este presente vindo do Olimpo. Infelizmente, Pandora viria também com um objecto, no qual estavam contidos todos os males, dos quais a humanidade estava ainda liberta.
Vítima da sua curiosidade, esta primeira mulher abriria o objecto que lhe está associado, libertando todos os males e deixando, curiosamente, um simples dom por libertar – a esperança.

 

O mito de Pandora é normalmente terminado por aqui, mas esta personagem também se tornaria a mãe de Pirra , cujo matrimónio com Deucalião acaba por ser a base para um outro mito. Infelizmente, pouco se sabe em relação ao matrimónio desta importante figura com Epimeteu , além do que já foi referido acima.

 

Origem da Caixa de Pandora

Mas toda esta história ainda não fica por aqui, já que existe um outro pormenor que vale a pena explorar. Apesar do objecto normalmente associado a Pandora ser uma caixa, existe alguma iconografia em que ela também aparece com outros objectos, entre eles uma jarra. Porquê?

De facto, a expressão caixa de Pandora é uma das mais famosas que nos chegaram da Mitologia Grega. Na versão mais antiga que temos desse mito, a de Hesíodo, e que aparece na sua obra Os Trabalhos e o Dias, é referido que o objecto dado a esta mulher foi um πίθος (píthos), o que não é uma caixa, mas cuja forma seria provavelmente assim:

Seria esta a verdadeira Caixa de Pandora?

Isto faz sentido, porque o mito diz-nos que no seu interior estavam todos os males do mundo, e um píthos era precisamente o tipo de vaso em que os Gregos armazenavam coisas. Que o mito se referia a um recipiente como estes é particularmente perceptível num vaso hoje presente no British Museum, que num dos lados tem pintado a criação desta figura feminina, e num outro tem uma pintura de uma figura feminina totalmente contida dentro do recipiente (se esta será a própria heroína, ou a esperança personificada de que nos fala o mito, é mais discutível). Em suma, segundo a versão de Hesíodo os males estavam, originalmente, contidos no interior de algo que podemos definir como um grande jarro. Mas como se tornou isto uma caixa de Pandora?

 

Como se passou de um jarro para uma caixa de Pandora?

São várias as possibilidades, mas a mais famosa diz-nos hoje que Erasmo de Roterdão, ao traduzir a agora-famosa expressão, confundiu o significado de duas palavras – πίθος (píthos) e πυξίς (pyxis) – transformando aquilo que era originalmente uma espécie de grande jarro em algo com uma forma bastante diferente:

Um exemplo de pyxis

O erro de Erasmo, queiramos ou não, é bem justificado. Quando ele leu o texto em Grego, o contexto de todo o mito poderá ter-lhe sugerido a ideia de uma pequena caixa, mais do que um enorme jarro, que Pandora destapou. Até porque, tradicionalmente, a pyxis tem uma tampa, enquanto que um píthos não… mas se este segundo era um recipiente para guardar algo, faz sentido que em algumas alturas tivesse uma qualquer espécie de cobertura, que a heroína teve de remover para ver o que estava no interior.

 

Este erro aparece nos Adágios de Erasmo, uma obra muito interessante que depressa se tornou famosa por toda a Europa, espalhando com ela a ideia de que a caixa de Pandora era uma pyxis, uma espécie de pequena caixa com tampa, mais do que um píthos, um enorme vaso, e daí a ideia foi-se espalhando e prolongando até aos nossos dias de hoje…

 

O mito e a caixa de Pandora, uma conclusão

Para terminar estas linhas sobre o mito de Pandora deve também notar-se aquele que considero como sendo um dos pormenores mais importantes deste mito – a presença da “esperança” no interior de um objecto que, alegadamente, só continha males. Deixando de lado a hipótese de erros na tradução do mito (se pensarmos bem, isso poderá ser dado como uma desculpa para justificar seja o que for, o que poderá ser perigoso), esta presença parece quase injustificável. É possível, talvez, que a esperança fosse considerada como uma perdição, ao incitar a sociedade grega a lutar por ideais que, segundo as leis imutáveis das Moiras, seriam ridículos. Se o Destino realmente existia, sob a forma das três Moiras, que sentido teria a esperança de uma vida melhor? É uma mera hipótese, mas talvez uma das mais interessantes que tenho para apresentar. Caso alguém tenha outras, obviamente que está à vontade para as deixar por cá…