O breve mito de Aristoxeino de Arcádia

O breve mito de Aristoxeino de Arcádia apenas nos chegou nas linhas fragmentárias de Posidipo.

Segundo este autor, Aristoxeino teve um sonho em que se viu como noivo de Atena e a dormir num quarto dourado do Olimpo. Depois, sentindo-se inspirado por essa ocorrência, foi para uma batalha sentindo a coragem da deusa no seu peito. Contudo, Ares – se o próprio deus, ou a sua metafórica guerra, não é totalmente claro – depressa o “pôs a dormir”, levando este falso noivo para o reino de Hades.

 

Esta trama é curiosa, essencialmente pelo facto de nos apresentar um caso de um homem que, por ter entendido mal uma (potencial) mensagem divina, foi conduzido à sua destruição. Dentro do mesmo tema, claro que é famoso o caso de Creso e o seu “Se atacares, um grande império será destruído” délfico, mas será que as coisas aqui teriam sido diferentes se Aristoxeino tivesse aprendido interpretação de sonhos?

Quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

Afinal de contas, quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

O Esopo das fábulas

Em completa verdade dizemos que de entre os muitos textos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade, poucos serão tão populares como as fábulas de Esopo. De facto, até nos arriscaríamos a dizer, sem certezas de maior, que nos nossos dias as pequenas histórias que lhe estão atribuídas são ainda mais famosas que os próprios Poemas Homéricos. Mas, estranhamente, já poucos parecem perguntar-se quem foi este autor, e porque contou ele as famosas fábulas…

 

Se pretenderem uma resposta rápida, ela deverá ser “não sabemos”. Se ele realmente existiu, as suas fábulas dizem-nos muito pouco sobre ele, e são poucos os autores que nos preservam qualquer espécie de dados biográficos. Mas, visto que este é um mês dedicado aos mitos, lendas e histórias, estas linhas ainda não ficam por aqui.

 

Numa dada altura da Antiguidade alguém se apercebeu do mesmo problema. Provavelmente também essa pessoa se interrogava sobre a identidade deste prominente autor. E, por isso, decidiu escrever um texto sobre o tema, que nos chegou e a que hoje damos o nome de Vida de Esopo ou Romance de Esopo. Não temos qualquer forma de saber quais os elementos reais dessa obra, e quais as ficções que ela inclui, mas segundo as suas linhas ele poderá ter sido contemporâneo de Creso, no século VI a.C. E, então, quem foi? E, tanto ou mais importante, porque compôs as suas muitas fábulas?

 

Segundo a versão deste texto (ficcional?), Esopo era um escravo muito feio e mudo. Um dia ajudou uma sacerdotisa de Isis; como agradecimento, esta pediu à deusa que desse novas faculdades ao herói. Agora capaz de falar (mas ainda muito feio – o contraste da sua fealdade com a sua enorme sabedoria é um elemento muito importante da trama), depressa foi vendido a um novo dono, de nome Xanto. Grande parte do texto apresenta este herói em confronto com esse novo dono e nos mais diversos desafios de conhecimento, mas esses episódios ultrapassam o nosso objectivo de hoje.

Num dado momento surge então a primeira fábula – o famoso Rei Creso estava prestes a atacar a cidade de Samos, a quem exigia um tributo anual. Foi pedida a opinião do escravo sobre o que se deveria fazer, a que este respondeu algo como “Não posso dá-la, porque seria marcado como inimigo do rei. Porém, irei contar-vos uma fábula”. Prosseguiu, contando-lhes uma primeira fábula, em que Prometeu instruiu os Homens nos caminhos da liberdade e da servidão. Os ouvintes compreenderam o que ele estava a querer dizer e agiram em consonância.

 

São várias outras as fábulas contadas neste texto (curiosamente, a da lebre e da tartaruga, tão bem conhecida entre nós, não é uma delas), mas parecem ter todas elas um mesmo objectivo, o de transmitir uma lição ou moral de uma forma muitíssimo simples. E, de facto, quase todas as fábulas de Esopo são intemporais, perpetuando lições que ainda se mostram muitíssimo relevantes nos nossos dias.

 

Que me perdoem os leitores e o meu colega, mas escrevendo de um modo mais pessoal por um breve momento, posso dizer que há uns anos até dei uma cópia das Fábulas a uma criança, apelidando essa obra de “o melhor livro que se pode dar aos mais novos”. E talvez seja até esse o grande segredo da fábula – pouco ou nada sabemos sobre o seu autor (a história acima é, quase certamente, nada mais que uma ficção), mas a lição que frequentemente transmite é, por si só, mais significativa que a identidade do seu autor.

 

Assim, fica uma questão de duas faces – quem pensam vocês ter sido Esopo? E porque acham que contou as suas fábulas?

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

Se há alguns dias aqui falámos dos Centauros, achámos que podíamos igualmente contar um grande mito relativo a eles, o da “Centauromaquia”, também conhecida como a “Batalha dos Centauros e dos Lápitas”. Se este mito é pouco conhecido nos nossos dias, teve um relevo enorme na arte grega, possivelmente por representar o confronto da civilização (grega) com “o outro”, o monstruoso (bárbaro). Por isso, reconte-se o que ainda sabemos sobre este episódio.

 

Piríto, o famoso amigo de Teseu, estava para casar com Hipodâmia e convidou para a boda os Lápitas e os Centauros, com quem – segundo algumas versões do mito – tinha um laço de sangue. Inicialmente tudo corria bem, mas quando os Centauros beberam vinho puro, ao qual não estavam habituados, a sua natureza monstruosa veio ao de cima e começaram a causar problemas – tentaram raptar e violar algumas mulheres, bateram nos homens, e outras coisas que tais.

Como parecerá natural os outros convidados tentaram defender-se, levando a uma enorme batalha entre os dois grupos. Infelizmente, as informações que nos chegaram não preservam muitos detalhes do combate, com a excepção notável de um determinado episódio – sabemos que Ceneu (anteriormente Ceneia, como cá depois contámos), um herói que era completamente indestrutível, foi enterrado vivo – os Centauros bateram-lhe repetidamente com árvores e atiraram-lhe pedras, até que este seu opositor ficasse totalmente enterrado e, segundo uma versão do mito, caído no próprio reino de Hades ainda vivo!

 

Se leram estas linhas até aqui, fica agora um pequeno convite – voltem a olhar para a imagem reproduzida acima e poderão ver, do lado esquerdo, perto do local em que o vaso está partido, três centauros e uma figura parcialmente soterrada – não podemos ver-lhe a cara, mas uma legenda por perto identifica-o como um dos Lápitas, o Ceneu do mito, próximo do momento em que deixou este mundo.

Um centauro e Ceneu

Como também pode ser visto nesta nova imagem, esse momento específico é preservado num número muito grande de vasos, atestando a já-referida fama desta batalha e, mais concretamente, do episódio que une estes monstruosos adversários a Ceneu. O que não pode deixar de nos levar a uma dúvida natural – sabemos de Ceneu, mas o que mais teve lugar nesta Batalha dos Centauros e dos Lápitas? Essa é, infelizmente, uma informação que os autores da Antiguidade já não conseguiram fazer chegar até aos nossos dias, restando-nos a famosa ideia, que um dia até foi preservada nos frisos do Parténon, de que esta se tratava de uma batalha metafórica dos Gregos contra os Bárbaros.

O mito dos Centauros, e as “Centauras”

Poucas criaturas da Mitologia Grega são tão famosas como os Centauros, pelo que hoje falamos aqui do mito dos Centauros e as Centauras. Metade homem e metade cavalo, são diversas as sequências mitológicas em que vão aparecendo – a mais famosa de todas elas provavelmente na batalha contra os Lápitas – nas mais diversas histórias da Antiguidade. Mas, afinal de contas, de onde nasceram estas estranhas criaturas?

Esqueleto de Centauro

De acordo com a versão mais famosa do mito, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda partilhavam os mesmos espaços, o rei Íxion apaixonou-se pela deusa Hera. Zeus, que tudo sabia, fez uma nuvem em forma da sua esposa. Quando o rei a viu, pensou tratar-se da sua amada e tentou violá-la; foi dessa união pouco natural e muito ilegítima que nasceram os primeiro Centauros.

Porém, esta não é a única versão do mito. Numa outra, estas criaturas nasceram simplesmente da paixão de um homem chamado Centauro, filho de Íxion e Nefele (i.e. a nuvem do mito anterior), pelas éguas do monte em que vivia. Uma terceira versão, provinda de autores como Palaefato, diz que os Centauros nunca existiram – em vez disso, a sua ideia surgiu somente porque tinha existido uma tribo de homens que conduzia os seus cavalos de uma forma tão perfeita que ambas as criaturas pareciam tratar-se de uma só.

 

Agora, se são vários os mitos que se referem a centauros do sexo masculino, somos levados a uma questão adicional – será que existiram “Centauras”? Apesar de terem pouca participação real nos mitos, a resposta é positiva. Ovídio, por exemplo, menciona o caso de uma centaura que se suicidou após o falecimento do marido na famosa batalha contra os Lápitas. Além disso, existem, aqui e ali, vários exemplos destas criaturas femininas na arte, que se prolongam até aos nossos dias.

O mito de Apolo e Dafne

Sobre o mito de Apolo e Dafne… são muitos os atributos associados aos deuses da Antiguidade Clássica – Zeus tinha o seu relâmpago, Poseidon um tridente, Eros carregava consigo sempre o famoso arco e flechas que causavam o amor, e daí por diante. Nesse contexto, são vários os mitos que explicam os seus atributos individuais, e este é um deles – o mito de Apolo e Dafne explica uma famosa relação entre o deus de Delfos e uma árvore, o loureiro.

Apolo e Dafne, a segunda em plena transformação

Conta-nos então este mito que numa dada altura o deus Cupido se zangou com Apolo. Procurando vingar-se, atirou-lhe uma flecha que lhe causou a mais intensa paixão por uma ninfa chamada Dafne. Não contente com apenas esse acto, em seguida atirou uma outra flecha a Dafne, mas com um objectivo totalmente contrário, fazendo-a sentir a maior repulsa possível por Apolo.

Durante dias Apolo procurou os amores de Dafne, enquanto que Dafne fugiu sem cessar dos braços de Apolo. Mas depois, fruto de uma breve desatenção da ninfa, o deus finalmente conseguiu tocá-la. Nesse momento, no maior dos terrores que uma mulher perseguida por um homem pode sentir, Dafne invocou a ajuda do seu próprio pai, o deus-rio Peneu, e foi transformada num loureiro, cujo belíssimo instante até pode ser visto na belíssima estátua de Bernini acima.

 

Só depois é que Apolo se apercebeu do que tinha causado. Triste, mas igualmente incapaz de corrigir o erro a que a vingança de Cupido o tinha conduzido, o deus tomou então o loureiro para um dos seus símbolos, como Zeus tinha o carvalho ou Atena a oliveira… e assim, Apolo e Dafne foram unidos para toda a eternidade…