A invulgar história de Itomnica

Itomnica queria ter uma filha e foi a um templo do deus Apolo. Enquanto lá dormia, como era hábito nessa altura, o deus apareceu-lhe em sonhos e concedeu-lhe o seu desejo – Itomnica iria conceber uma filha, mas o deus também se ofereceu para lhe dar tudo o que ela desejasse. A peticionária disse que não desejava mais nada, e pouco depois concebeu uma filha no seu ventre.

Toda esta história acabaria por aqui, não fosse o facto de, em seguida, Itomnica ter ficado grávida durante mais de três anos, mas sem que alguma vez desse à luz. Preocupada com a situação, voltou ao templo de Apolo e o deus perguntou-lhe se não tinha obtido tudo aquilo que desejava. E sim, ela efectivamente tinha concebido uma menina, mas também gostaria de a dar à luz e trazer à vida, algo que o próprio deus se apressou a conceder-lhe; assim, quando se tornou manhã e Itomnica saiu do templo, deu finalmente à luz a sua tão desejada filha!

 

Este pequeno mito, ou invulgar história de Itomnica, aparece mencionado numa gravação presente num templo do deus Apolo. Demonstra-nos, acima de tudo, o carácter frequentemente enganador dos deuses gregos, bem como a sempre-necessária prudência para os momentos em que se lidava com as entidades divinas.

Agamémnon matou a sua filha?

Como já dito anteriormente, algumas das questões que os leitores põem ali na secção de pesquisa são tão interessantes que nos deixam a pensar. Por isso, no futuro tentaremos responder a algumas delas. Ontem, por exemplo, um leitor pôs aqui uma potencial questão – [será que] Agamémnon matou a sua filha? A resposta é mais complicada do que poderá parecer à primeira vista.

 

Por um lado, nos Poemas Homéricos e em algumas tragédias é dado a entender que a morte de Ifigénia foi uma das razões para o ódio que Clitemnestra tinha pelo seu marido, levando-a a matá-lo após o final da Guerra de Tróia. Mas, por outro lado, algumas versões mais recentes do mito, e em particular a tragédia Ifigénia na Táurida, dizem que a filha de Agamémnon foi salva pela mesma deusa a quem ia ser sacrificada, tornando-se depois sacerdotista de um dos seus templos.

 

Mas então, será que Agamémnon matou realmente a própria filha? No contexto do mito de Tróia, a resposta mais importante é que ele pensou tê-lo feito. Clitemnestra, Aquiles, e as outras principais personagens da trama também pensaram o mesmo, e é nesse elemento crucial que vão assentando as consequências da sua acção. Mesmo que a filha não tivesse sido sacrificada, o pai demonstrou uma clara e inegável intenção de o fazer – e essa intenção, por si só, é o que condiciona toda a trama futura.

O mito de Ariadne, ou de Teseu e o Minotauro

O mito de Ariadne, ou de Teseu e o Minotauro na Mitologia Grega, liga intimamente essas três grandes figuras, razão pela qual achámos que deveríamos falar de todas elas nesta mesma publicação.

O mito de Ariadne, Teseu e o Minotauro

O Minotauro, para quem ainda não o saiba, foi um monstro que nasceu do amor de uma mulher, Pasifae, por um touro. Não era um amor natural, obviamente, mas sim uma maldição dos deuses, que só pôde ser consumada num acto sexual com a ajuda de Dédalo, que inventou uma espécie de máquina onde a rainha se pôde colocar para ser possuída sexualmente pelo bovino. Assim nasceu esta figura meio-homem, meio-touro*, que alguns até pensavam ter-se chamado Astérion, e que posteriormente foi encerrada num labirinto, como já cá contámos antes.

O labirinto de Teseu e o Minotauro

O tempo foi passando, e ao longo dos anos foram repetidamente sacrificados grupos de jovens atenienses, sete rapazes e sete raparigas, a este monstro. Isso continuou até que Teseu se voluntariou para fazer parte de um desses grupos. Chegando à ilha de Creta, foi visto por Ariadne, filha do rei Minos, que rapidamente se apaixonou por ele e se prontificou a ajudá-lo em toda a tarefa. Assim, para que o herói ateniense pudesse encontrar o caminho no labirinto do monstro, Ariadne deu-lhe um pequeno fio (i.e. uma espécie novelo de lã) e alguns conselhos sobre como matar o monstro. Em troca, apenas lhe pediu que depois a levasse para longe e casasse com ela, algo que o herói aceitou de bom grado, até dada a grande beleza da jovem.

Com esta preciosa ajuda, Teseu entrou no labrinto do Minotauro e matou a horrenda criatura de uma vez por todas. Depois, escapou da ilha com esta jovem, mas em vez de casar com ela – como tinha prometido explicitamente, relembre-se – abandonou-a numa ilha. Foi aí que ela posteriormente encontrou o deus Dioniso, que casou com ela e colocou a sua coroa entre as estrelas.

 

Todo este grande mito de Ariadne e Teseu e o Minotauro, é-nos hoje bastante conhecido em virtude do estranho monstro, e muito mais poderia ser escrito sobre ele, mas há que deixar claro que existem várias versões para explicar as acções de Teseu após as aventuras em Creta. A heroína é sempre abandonada, nunca se casa verdadeiramente com ele, mas nem sempre por decisão do próprio herói, já que o seu grau de culpabilidade parece variar bastante – por vezes, ela até só é abandonada para poder casar com Dioniso, que a tinha visto anteriormente e que queria casar com ela! Por isso, ela até poderá assemelhar-se a Medeia, mas neste caso a culpa dos acontecimentos nem sempre é do herói que jurou casar com ela…

 

O mito do Minotauro

*- Posteriormente, encontrámos a rara imagem acima, em que Pasifae, então já mãe, pode ser vista com um Minotauro bebé ao colo. É uma ideia belíssima, mas que encontra pouco eco nos mitos da Antiguidade, já que não nos parece ter chegado qualquer história da juventude deste monstro. Ele teve-a, ficcionalmente, mas poucos autores parecem ter pensado nisso…

Uma possível origem da “Menopausa”

Existem alguns momentos estranhos na criação deste espaço. Aqueles que, de tempos a tempos, até nos fazem rir um pouco, pela sua singularidade. Este é, de certa forma, um deles.

 

O dicionário da Priberam diz-nos que a palavra menopausa tem por origem dois vocábulos gregos, “menós” e “pausa”, sendo que o primeiro significava mês (o segundo tem o mesmo significado que nos nossos dias). A situação ficaria por aqui, não fosse o facto de Varrão nos informar que Júpiter também tinha uma filha chamada Mena. A que presidia ela? Ao fluxo menstrual, juntamente com a nora, Juno (infelizmente, desconhecemos a identidade da mãe).

 

Não somos informados de qualquer mito associado a Mena, mas é sem dúvida possível que a menopausa tenha recebido essa designação por marcar o término da influência desta deusa. Ou então, que a própria deusa tenha obtido o seu nome do conceito grego. Em qualquer dos dois casos, não deixa de ser uma ideia que fascina, pelo facto de muitos vocábulos dos nossos dias ainda esconderem antigos deuses no seu interior…

Como morreram os deuses gregos?

Como morreram os deuses gregos, como foi o seu fim? Provavelmente na sequência de jogos como God of War, já muitos foram os leitores que procuraram neste espaço mitos relativos a esse evento. A famosa morte de Zeus já aqui foi falada há muitos anos, mas achámos que já era hora de responder a essa pergunta – afinal de contas, como morreram os deuses gregos?Estatuetas dos deuses gregosPara responder a essa questão importa, antes de tudo o resto, saber dividir o panteão grego em três grupos diferentes, cada qual com as suas características e destinos bem diferentes.

 

Em primeiro lugar surgem aquelas divindades que são completamente eternas, até pelo facto de a sua presença nos mitos ser muito limitada ou quase inexistente. Figuras como o Caos e Gaia (da Teogonia de Hesíodo), o Motor Imóvel de Aristóteles ou, de um modo mais geral, todas aquelas figuras anónimas por detrás da criação dos vários universos gregos e romanos, nunca morrem, até porque a sua existência é quase puramente etérea.

 

Num segundo lugar poderíamos colocar os mais famosos deuses, figuras como Zeus, Atena, Ares, Afrodite ou Apolo. Quase todos os mitos que temos se referem a eles como imortais, eternos, as únicas entidades que nasceram mas que nunca irão morrer. Porém, o nosso “quase” tem uma forte razão de ser – de acordo com ideias como as de Evémero, nada de divino existia nessas figuras, tratando-se apenas de seres humanos que após a morte, por uma ou outra razão, foram divinizados por aqueles que os conheceram. E, como tal, se quisermos acreditar nessas teorias (de que o exemplo particular de Dioniso é digno de nota – Dinarco até afirma que ele tinha morrido em Argos e sido sepultado em Delfos), os deuses gregos só se tornaram divindades quando o seu corpo físico faleceu, sendo eternos somente na cabeça daqueles que os veneravam como tal.

 

Em terceiro, e último, lugar, poderão então ser colocados alguns dos heróis gregos. Acreditando-se que existiram na carne, só depois da morte física – e somente em alguns casos, frise-se essa excepção – é que foram tornados divindades, às quais alguns crentes prestavam culto. São muito famosos os casos de Herácles e de Aquiles, mas algo de semelhante se passou com Castor e Pólux, Anfiarau, etc. E, nestes casos, a morte (física) naturalmente que precede a própria conversão à forma de deuses, altura em que estas figuras desaparecem quase completamente dos mitos.

 

Então, sumariamente, como morreram os deuses gregos? Não é uma questão simples, mas uma que só pode ser resolvida tendo em conta os elementos muito específicos de cada figura divina. O destino final de Phobos e Deimos, de Hermes e Poseidon, ou até de Mémnon e Ceneu, não podem ser vistos de uma forma brevemente horizontal. Por exemplo, que deus nos poderia parecer mais imortal do que Hades, figura tutelar dos mortos e do submundo? E, ainda assim, Pseudo-Clemente, na sua quinta epístola, refere um túmulo deste deus próximo do Lago Aquerúsia, em Itália…