Quem inventou o dinheiro?

Tanto os Gregos como os Romanos parecem ter tido um enorme fascínio com a origem das coisas. Em muitas das suas obras históricas existem repetidas referências ao inventor, ou propagador, das mais diversas artes. O que nos leva a uma questão – afinal de contas, quem foi que inventou o dinheiro, ou como é que este surgiu?

 

Por estranho que pareça, essa é uma das origens que é muito pouco referida. Porém, a Farsália, de Lucano, faz-lhe uma pequena referência, dizendo que foi Ionos – rei da Tessália e uma figura bastante obscura, sobre a qual quase nada conseguimos descobrir – o primeiro a dar forma aos metais, fazendo moedas de ouro e conduzindo os homens à avareza e à guerra.

 

Será a informação de Lucano fidedigna? Será que os Gregos e Romanos acreditavam que tinha sido este Ionos o criador do conceito e forma do dinheiro? Isto não tem uma resposta simples, já que grande parte dos autores, como já referimos, tendem a ignorar esta criação em específico, não parecendo existir fontes muito concretas que possam refutar a ideia. Por isso, teremos de nos resumir a um singelo talvez, à mera possibilidade de que tenha sido mesmo Ionos a fazê-lo.

O mito de Cleomedes de Astipaleia

Conta-nos o mito de Cleomedes que durante um combate de boxe nos Jogos Olímpicos este matou acidentalmente o seu opositor. Por esse acto perdeu o prémio a que tinha direito e isso levou-o à loucura. Voltando a casa, destruiu uma escola, matando todos os seus ocupantes, sendo depois perseguido pelos habitantes da cidade. Escondeu-se numa enorme arca, mas quando esta foi aberta… Cleomedes tinha desaparecido, revelando o Oráculo de Delfos que, por razões que não são muito claras, ele se tinha tornado imortal!

Quão mais saberão os deuses do que nós, para considerarem os actos de Cleomedes dignos de nota ao ponto de ele ter sido elevado ao estatuto de herói imortal?! Acaba por ser um dos muitos mistérios dos mitos gregos…

Quem eram Diana e Herodias?

Na obra medieval Malleus Maleficarum (algo como “O martelo das maléficas [ou bruxas]”), a que voltaremos dentro de algum tempo, é revelado que as bruxas dessa altura veneravam essencialmente duas figuras, Diana e Herodias. Mas, na verdade, quem eram esta Diana e Herodias?

 

É natural que Diana se tenha tratado da deusa romana da caça, semelhante à Ártemis grega, e que por diversas razões foi venerada até muito mais tarde que os outros deuses pagãos (como um templo existente em Sintra ainda parece atestar), mas quem foi Herodias? Não é fácil ter uma absoluta certeza, mas é provável que se tenha tratado de uma esposa do rei Herodes, a mesma que pela dança de uma filha levou à decapitação de João Baptista, e que segundo mitos tardios foi condenada a esvoaçar pela terra até ao final dos tempos.

 

Também não será fácil explicar o porquê da associação destas duas figuras, em concreto, aos rituais mágicos, mas poderá ter-se devido ao sincretismo de um conjunto de características que pareciam atribuir-lhes poder especial sobre os homens, sejam, por exemplo, os poderes mágicos da primeira figura (recorde-se o desfecho do mito de Acteon), ou a persuasiva dança da filha de Herodias, a quem hoje chamamos Salomé.

“Daemones e Demónios” revisitados

Há cerca de oito anos foram aqui deixadas algumas linhas sobre a distinção entre os “daemones” e os demónios. Uma “brincadeira” mais recente capta, de uma forma imperfeitamente jocosa, a ideia:

Se esta era, realmente, uma das visões antigas do conceito de “daemon”, há que tornar a frisar que não representa toda a realidade, já que a ideia foi sendo alterada ao longo dos séculos. Ainda assim, a possibilidade contida nestes quadradinhos dá para sorrir um pouco…

Qual a aparência física de Aquiles?

Ultimamente vários visitantes têm procurado por cá informações sobre a aparência física de Aquiles. A questão provavelmente virá de uma série da BBC, “Troy: Fall of a City”, em que o herói é representado com pele escura. Mas será que ele tinha mesmo essa ascendência africana, ou era branco e loiro, como no filme Tróia? Como era Aquiles, fisicamente?

Aparência física de Aquiles

João Tzetzes, no século XII, incluiu nos seus trabalhos [dos quais já aqui publicámos uma tradução] a descrição de algumas das figuras mais importantes dos épicos homéricos. Entre elas encontra-se, naturalmente, a aparência física de Aquiles, em relação a quem é dito que era alto, branco e de cabelos loiros. Momentos depois, sobre Pátroclo é dito que este também tinha cabelos loiros, mas pele avermelhada (provavelmente por passar menos tempo abrigado do sol), dificultando que algum dos dois fosse africano.

 

Mas estava João Tzetzes correcto? Que fontes utilizou para obter essa informação? Nem sempre é fácil sabê-lo, até pela existência de discrepâncias em várias das suas fontes, mas é inegável que o primeiro livro da Ilíada define o cabelo do herói como “ξανθή / xanthē”, que pode ser traduzido como loiro, e a mesma ideia é referida na terceira Ode Nemeia. Mas se também essas provas não forem suficientes, o herói é frequentemente representado em mosaicos com uma tez inegavelmente branca; em relação a vasos, no entanto, o caso não é tão simples, já que até a pele do etíope Mémnon por vezes se confunde com a de todas as figuras europeias.

 

Assim se poderá concluir que o Aquiles homérico tinha cabelos loiros, sendo também quase certamente branco. Por essa razão, o herói, tal como é representado na série da BBC, não corresponde à figura imaginada por Homero, mas devemos relembrar que não tem de o fazer. A cor da pele do herói, seja ela qual tenha sido, é muito menos importante do que as suas aventuras.