Origem da expressão “À maneira dos Ciclopes”

Muitas são as referências aos Ciclopes, enquanto figuras mitológicas, na literatura da Antiguidade, mas a mais famosa de todas elas é indubitavelmente aquela que ocorre na Odisseia de Homero. O episódio de como o herói Ulisses o cegou (momento que até pode ser visto na imagem acima) é sobejamente conhecido, bem como a forma brutal como Polifemo e os seus companheiros ciclopes conduziam a sua vida.

De onde vem então a expressão “à maneira dos Ciclopes”? Se esta expressão já não é utlizada nos nossos dias, remetia-nos para a ideia de uma vida desregrada, “bárbara” no sentido grego da palavra, contrária às regras da civilização, como aquela do ciclope de Homero, que comia seres humanos e bebia muitas vezes em excesso.

O mito e a expressão do “Corno da Abundância”

O Corno da Abundância, também conhecido como cornucópia ou copiae cornu, está frequentemente associado ao deus-rio Aqueloo, que Hércules defrontou em combate. Como pode ser visto na parte inferior da imagem acima, o herói até partiu um dos cornos do deus quando este assumiu a forma de um bovino. Mas depois o mito torna-se um pouco invulgar – para obter o seu corno de volta, o deus trocou-o pelo Corno de Amalteia, símbolo da cabra/deusa que tinha amamentado um jovem Zeus. Em seguida, o herói entregou esse segundo corno ás Náiades, que o transformaram na chamada “cornucópia” (note-se que, etimologicamente, esta era uma “cópia do corno” da deusa). Desconhece-se o porquê da necessidade dessas trocas e cópias, mas é possível que se tenham devido a uma sintetização de diversos mitos antigos. Posteriormente, essa cornucópia acabou por ir parar ao mundo dos mortos, em que o deus Pluto a passou a carregar como o seu símbolo de abundância.

Mas porque usamos, então, a expressão “cornucópia”? Em Portugal ela parece ser utilizada para designar locais em que existe uma abundância de alguma coisa. Por exemplo, o bolo que partilha este nome costuma ter um interior repleto de alguma espécie de creme, não porque seja um corno da abundância, mas porque se encontra cheio de um sabor doce.

O casamento de Júpiter e Juno (ou o de Zeus com Hera)

Nos seus Adágios Erasmo apresenta uma expressão curiosa, ao revelar que de alguém com bastante conhecimento se podia dizer que até “Sabe como Júpiter desposou Juno”, i.e. Scit quomodo Iupiter duxerit Iunonem. A própria ideia revela-nos de antemão que esta é uma história um pouco obscura, que somente um número muito restrito de pessoas conheceria. Se, nesse sentido, o casamento das duas figuras está intimamente ligado com os próprios mitos gregos e o casamento de Zeus e Hera, mesmo nessa cultura o mito em questão não é muito conhecido. Sabe-se que houve uma celebração, essa de grande fama, mas os eventos que levaram ao próprio desposo são pouco conhecidos.

Felizmente, Erasmo também conta essa história, atribuindo-a a um escólio na obra do poeta grego Teócrito. Seguindo as suas linhas basilares, podemos revelar que Zeus se transformou num cuco, lançou uma tempestade e se foi colocar perto do regaço de Hera. Naturalmente que a deusa recolheu o pequeno pássaro, tendo a intenção de o proteger do mau tempo. Porém, nesse momento o deus voltou à sua forma original e tentou ter relações sexuais com essa sua irmã. Inicialmente esta recusou-o, mas com a intervenção de outros deuses, a que se juntou depois um pedido de casamento do próprio Zeus, essa paixão física acabou por ser consumada.

 

Não podemos ter a certeza de que este mito nos preserva a versão original, mais antiga, do episódio que antecedia o casamento de Zeus com Hera, mas é uma história que, se for vista no contexto geral dos mitos gregos, faz todo o sentido. Permite-nos compreender que as múltiplas infidelidades do deus, em que este se transformava em diversas figuras não-humanas para seduzir as mulheres, tinha uma base no seu próprio casamento divino – seria, por essa razão, também possível que as mortais seduzidas pelo deus pensassem, conhecendo o caso particular de Hera, que a sedução do deus não fosse levar somente a uma relação casual. Por isso, esta parece-nos uma possibilidade credível para um potencial episódio, hoje perdido, que até possa ter antecedido o casamento de Zeus/Júpiter com Hera/Juno!

Origem da expressão “Chamas Hilas”, e o mito desse herói

O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama da viagem dos Argonautas. Conta-nos essa outra história que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes já mencionado asim. Nesse contexto, “Chamar Hilas” é portanto uma tarefa totalmente impossível, na qual qualquer espécie de progresso real é impossível.

O significado da “Vingança de Neoptólemo”

O significado da Vingança de Neoptólemo começa aqui um período de algumas semanas em que irão ser abordados, mais consistentemente, alguns provérbios da Antiguidade que, em grande parte, ainda são usados em Portugal nos nossos dias (se alguém souber do uso destes provérbios no Brasil, por favor deixe algum comentário a indicá-lo). Se a “Vingança de Neoptólemo”, ou Neoptolemi vindicta, nem é um deles – de facto, pensamos que poucos ainda saberão a história desse herói – pareceu-nos que nada melhor do que um mito e um provérbio a ele associado para iniciar toda a sequência.

Na imagem acima pode ser vista uma das versões da morte de Príamo, segundo a qual este rei teria sido agredido até à morte com o corpo do próprio neto. Como se esta cena não fosse suficientemente horrenda (de facto, não ocorre tão cruelmente em nenhuma das fontes literárias que nos chegaram), Neoptólemo ignora todos os pedidos de clemência do rei e mata-o sobre o altar de um deus (frequentemente Zeus, mas varia). Tal abominação não poderia ficar sem uma qualquer espécie de punição divina. Por essa razão, quando mais tarde o mesmo herói foi a Delfos, acabou por ser morto da mesma forma que tinha morto Príamo, no altar do deus Apolo – a identidade do seu assassino já parece divergir, sendo um dos mais famosos provavelmente Orestes.

 

A “vingança de Neoptólemo” remete-nos então para uma ideia central do mito – que o culpado de um crime grave possa vir a sofrer na pele esse mesmo crime.