O último centauro?

 

No seu Livro das Maravilhas Flégon de Trales conta-nos o seguinte:

 

Um hipocentauro foi encontrado na cidade de Saune, na Arábia (…). Foi capturado vivo pelo rei, que o enviou para o Egipto juntamente com outras prendas para o imperador. A sua subsistência era carne. Mas não tolerou a mudança de ares e morreu, pelo que o prefeito do Egipto o embalsamou e enviou-o para Roma.

Primeiro foi exibido no palácio. A sua face era mais feroz que uma humana, os seus braços e dedos eram peludos e as suas costelas estavam ligadas às suas pernas da frente e ao seu estômago. Tinha os cascos firmes de um cavalo e uma crina fulva, mas como resultado do processo de embalsamação a sua crina bem como a sua pele estavam a tornar-se escuras. Em tamanho não parecia as representações usuais, mas também não era pequeno.

Dizia-se que também existiam outros hipocentauros nessa cidade de Saune.

Em relação ao que foi enviado para Roma, qualquer céptico o pode ver por si mesmo, já que foi embalsamado e está guardado na tesouraria do imperador.

 

Seria este o último dos centauros? Também Plínio o Velho, melhor familiarizado com a história natural, menciona este mesmo centauro presente na cidade de Roma durante o reinado de Cláudio. Estariam ambos os autores enganados? Tratar-se-ia de um embuste? Ou, pelo contrário, os centauros realmente existiram? As provas que temos tornam essa possibilidade muito improvável, mas não deixa de ser uma história potencialmente real para quem nela quiser acreditar.

Qual o limite do poder dos deuses gregos?

Poderia pensar-se, devido ao seu estatuto, que os deuses gregos eram, todos eles, omnipotentes, mas diversas menções nos mais distintos textos permitem-nos ver o contrário. Para dar pois pequenos exemplos, na Ilíada é dito que Zeus era mais forte (fisicamente) que todos os outros deuses juntos, enquanto que nas Metamorfoses Ovídio revela um estranho facto sobre o deus-rio Aqueloo – ele apenas se podia metamorfosear em três formas distintas (humana, cobra e touro), mas parece saber que outros deuses tinham capacidades de transformação muito maiores.

 

Se, então, lhes quisessemos aplicar uma ferramenta famosa do Cristianismo e perguntar “Poderão os deuses criar uma pedra tão grande que eles próprios não consigam levantar?”, a resposta seria positiva. Os deuses gregos não eram omnipotentes nem omnipresentes, como os mais diversos mitos nos permitem notar.

O mito de Ifis e Anaxarete (ou de Arceofonte e Arsíone)

Este mito, de Ifis e Anaxarete, é contado tanto por Ovídio como por Antonino Liberal, essencialmente mudando apenas o nome das duas personagens principais, que também podem ser chamados pelos nomes de Arceofonte e Arsíone – em ambos os casos, o primeiro é o homem e o segundo a mulher de uma mesma história.

O destino das duas figuras

Segundo ambos os autores, um homem (Ifis ou Arceofonte) apaixonou-se por uma mulher (Anaxarete ou Arsíone), mas esta insistiu em rejeitá-lo repetidamente, muitas vezes de formas profundamente cruéis. Chegando ao seu maior desespero, o apaixonado enforcou-se na porta de entrada da sua amada. Ainda assim, esta mulher nunca se compadeceu, nunca verteu uma única lágrima pelo seu antigo apaixonado. Então, quando o cortejo fúnebre do falecido passava em frente de sua casa, a influência divina de Afrodite levou à transformação desta mulher numa estátua de pedra, dando a todo o seu corpo o mesmo material frio que antes habitava no seu coração.

 

Esta é, portanto, uma história que nos adverte do perigoso poder de Afrodite. Tal como aconteceu com Anaxarete e Ífis, ou com Arceofonte e Arsíone – teriam sido, talvez, dois pares de amados que sofreram um mesmo destino? – absolutamente nada nos obriga a que amemos outro ser humano, mas nunca temos quaisquer razões reais para uma maior crueldade no amor.

O mito de Ifis e a transexualidade

São poucos os mitos gregos que abordam o tema de uma possível transexualidade, mas mesmo dentro desse tema o de Ifis é provavelmente o menos conhecido.

 

Conta-nos Ovídio que Ligdo não queria ter um filho, pelo que quando a sua esposa engravidou este lhe ordenou que caso desse à luz uma menina deveria matá-la. Como qualquer mulher Teletusa ficou em pleno desespero, mas alguns deuses egípcios surgiram-lhe num sonho e pediram-lhe que criasse a criança, já que eles fariam com que tudo corresse bem.É evidente que esta futura mãe seguiu as indicações divinas.

Vários anos mais tarde, quando a jovem Ifis [atente-se no nome masculino] se preparava para casar, também o seu estado de desespero a levou a dirigir-se aos deuses, num lamento curiosíssimo reproduzido pelo poeta latino. Foi Isis que a transformou num homem, permitindo o casamento, mas o mito pouco mais nos diz sobre a vida desta figura.

 

A presença de diversas divindades egípcias tornam este um mito curioso. É provável que o poeta só o conhecesse em segunda mão, até pelo facto de muitas perguntas ficarem por responder, dando uma sensação de se tratar de uma rescrita. Nenhum outro autor menciona este mito, nem sabemos se Ifis estava totalmente de acordo com esta metamorfose (amaria ela a sua futura esposa? Não é totalmente claro), mas existem várias outros mitos em que mulheres eram transformadas em homens, de que o caso de Ceneia/Ceneu é o mais famoso.

Porque era Medusa mortal?

Um dos elementos mais invulgares do mito que une Perseu a Medusa é o facto de nos ser dito, repetidamente, que apesar de esta figura feminina ter outras duas irmãs, apenas ela era mortal. A que se deverá essa distinção? Porque era Medusa mortal? Podíamos pensar que, como numa versão de Ovídio, esta figura foi originalmente uma mulher que em virtude do orgulho excessivo nos seus cabelos acabou transformada no monstro, mas isso não explicaria a existência de irmãs.

 

Esta é uma questão tudo menos fácil. As duas outras irmãs górgones, Esteno e Euríale, não são mencionadas em qualquer outro mito, e a sua relação com Perseu prende-se somente com o facto de terem perseguido o herói quando este atacou Medusa. Nunca mais são referidas, se tivermos em conta que já eram conhecidas nos tempos da poesia de Hesíodo, é possível que tivessem tido outros papéis em mitos/religiões mais antigos. Qual era esse papel já não fazemos qualquer ideia, e nenhuma prova nos chegou da Antiguidade que nos permita discortinar esta questão.