Os três machados

Um homem que cortava lenha ao pé de um rio deixou cair o seu machado nesse curso de água. Triste com essa perda, chorou, até que lhe apareceu o deus Hermes. Comovido com a situação, o ajudante divino retirou das águas um machado de ouro e perguntou ao homem se este lhe pertencia. Negou-o. Depois, o deus retirou das águas um segundo machado, este de prata. O homem também negou que esse lhe tenha pertencido. Finalmente, o deus retirou das águas um terceiro machado – o original – que o homem confirmou ser o seu. Então, pela sua honestidade, Hermes permitiu-lhe que ficasse com todos os três machados.

 

Mas esperem, a história ainda não terminou! Voltando à sua aldeia, este homem contou aos seus companheiros o que se tinha passado. Alguns acreditaram no que lhes era dito, enquanto que outros não. Assim, um dos que pertencia ao segundo grupo decidiu repetir a experiência – foi ao rio, atirou o seu machado para as águas e chorou. Surgiu novamente Hermes, a quem esse segundo homem contou o que se tinha passado. O deus recuperou, como antes, um machado de ouro e perguntou-lhe se era o instrumento que procurava. Movido pela avareza, confirmou imediatamente que sim – mas o deus, sabendo que era mentira, não só lhe negou este machado como nem recuperou o original, punindo as más acções como antes tinha recompensado as boas!

 

Esta espécie de fábula esópica ensina-nos, essencialmente, a importância da honestidade. Que mais dizer sobre isso, além do que a própria história nos pode ensinar?

O que aconteceria se o Rei Midas fosse sair com a Medusa?

Midas e Medusa: uma relação muito breve!

O Rei Midas e a Medusa

Neste Dia de São Valentim trazemos, como já é uma espécie de costume, uma pequena brincadeira – o que aconteceria se nesta data o Rei Midas, que numa dada altura transformava tudo aquilo em que tocava em ouro, fosse sair com a Medusa, cujo olhar transformava as pessoas em pedra? A imagem acima traz-nos uma possível resposta, esse possível “encontro mais rápido da história”, mas quem quiser partilhar a sua poderá sempre fazê-lo! E, para quem quiser saber mais sobre os mitos destas duas figuras da Mitologia Grega, já cá falámos da Medusa e do Rei Midas em artigos individuais!

A cidade da não-comunicação

Esta história é-nos contada por Cláudio Eliano. Segundo ele, existiu em tempos uma cidade em que um tirano tinha imenso medo de conspirações e potenciais atentados à sua vida. Então, decidiu impor uma lei segundo a qual os habitantes não poderiam falar uns com os outros, fosse em público ou em privado.

Desconhecemos como o tirano poderá ter assegurado a segunda parte dessa sua lei, mas a população acabou por aceitá-la. Em alternativa, os cidadãos começaram então a comunicar através de gestos, resolvendo as suas necessidades diárias como se de charadas se tratassem. Mas, inesperadamente, este bloqueio de comunicação verbal ainda não era suficiente para o tirano – ele passou a pensar que, mesmo através de gestos, ainda seria possível aos cidadãos conspirarem contra si. E então, decidiu criar uma outra lei, esta que impedisse qualquer espécie de gestos corporais.

Visto que seria (quase) impossível aos cidadãos viverem desta forma, um deles, potencialmente deprimido, dirigiu-se para o mercado e começou a chorar. Um segundo juntou-se a ele. Um terceiro, e assim por diante. Logo que soube do que se passava, o tirano dirigiu-se ao mercado com alguns soldados, para tentar matar os culpados de um tão estranho evento. Contudo, os cidadãos revoltaram-se, agiram primeiro, e mataram o tirano, recuperando toda a sua liberdade original!

 

Esta história, que até poderá ter um pequeno fundo de verdade, atesta-nos a capacidade humana para se adaptar face às adversidades. Como comunicar, quando não é possível fazê-lo da forma que mais esperávamos? Fica essa breve questão em que se pensar.

Quimera – a expressão e o mito grego

Sobre a Quimera, a expressão e um famoso mito grego, no seu Livro dos Adágios Erasmo de Roterdão dizia que este estranho monstro era também um epiteto que se poderia associar a um homem que é inconstante, instável, imprevisível. A mesma expressão também podia ser usada – como hoje – em relação a obras literárias de conteúdo muito incoerente (i.e. aquilo a que poderíamos chamar um “texto quimérico”). Mas esta quimera tem ainda como sinónimo geral e significado português o de uma pura fantasia, até por associação com a estranha criatura das histórias dos Gregos, que não poderia existir excepto nas suas imaginações. Mas quem era, afinal de contas, a figura mitológica grega por detrás de todo este conceito? Podemos recordar, num breve resumo, o mito grego de toda esta estranha criatura:

A Quimera do mito grego

Dizem-nos os diversos autores da Antiguidade que estaa Quimera era um monstro mitológico composto por partes de diversos animais distintos, quase sempre (e como até pode ser visto na imagem acima) um leão, uma cabra e uma serpente. Ela era filha dos monstruosos Tífon e Equidna e foi criada por Araisodaro (não se sabe bem como, ou em que consistia esse mito hoje perdido…), mas o mito mais famoso que temos em relação a este monstro passa pelo seu combate com o herói Belerofonte, que acabou por a destruir com o auxílio de Pégaso, como já cá contámos anteriormente. Os contornos dessa batalha nem sempre estão bem fixos, mas o seu final é sempre muito bem conhecido e repetidamente o mesmo – o monstro foi destruído por esse herói, para nunca mais surgir em qualquer outro mito.

 

E, nesse sentido, para quem ainda estiver curioso, “histórias de quimeras” são não mais que histórias completamente ficcionais e fantasiosas, como o era este monstro de tempos da Antiguidade, de que hoje falámos aqui.

A Sibila de Cumas e Tarquínio (e os Oráculos Sibilinos)

Dizem-nos diversas histórias da Antiguidade que num dado dia a sempre viajante Sibila de Cumas se encontrou na corte de Tarquínio Soberbo, o último rei de Roma. Os nove livros que ela tinha em sua posse, que foi compilando ao longo dos anos com recurso à sua sabedoria pessoal, foram oferecidos ao monarca por uma soma avultada (curiosamente, a história raramente nos preserva quão elevada seria…), mas este rejeitou comprá-los. Então, esta sibila – que é como quem diz, profetisa – atirou três deles para um fogo próximo e propôs que Tarquínio comprasse os seis restantes ao mesmíssimo preço de antes. Pela segunda vez o monarca rejeitou essa proposta, rindo-se até um pouco, e pela segunda vez a viajante destruiu no mesmo fogo três dos volumes que tinha em sua posse. Finalmente, a desconhecida ofereceu ao rei os três últimos livros pelo mesmo preço original, que sempre manteve. Inesperadamente, e até incrédulo com toda a ocorrência, Tarquínio acabaria então por comprá-los – eram os Livros Sibilinos, muito famosos da cultura e religião dos Romanos da Antiguidade, mas hoje quase completamente perdidos – enquanto que a Sibila de Cumas desapareceu misteriosamente, para nunca mais ser vista pelos Homens.

A Sibila de Cumas

Muito se poderia escrever relativamente a este pequeno mito da Sibila de Cumas e de Tarquínio, mas os seus mistérios são muito maiores do que a informação que ele nos revela. Está envolto na neblina dos tempos, surgindo numa espécie de vácuo histórico e mitológico cujos contornos estão aqui representados. Seja quem tiver sido essa Sibila de Cumas, os livros que supostamente vendeu a Tarquínio acabaram por se tornar de extrema importância na religião romana, mas também foram perdidos nos primeiros séculos da nossa era, fruto de dois incêndios; depois, e nessa sequência, foram recompilados, e dessa tentativa é que nasceram os chamados Oráculos Sibilinos, que ainda nos chegaram, mas que são apenas uma espécie de falsificação cristã dos originais, aos quais foram acrescentados muitas (novas) profecias de âmbito puramente cristão, mas que se crê serem muito diferentes dos originais, até por estarem repletos de conteúdos relativos à nova religião, enquanto que os relativos à religião pagã são muito breves, quase inexistentes…

 

Os Livros Sibilinos e os Oráculos Sibilinos 

Assim, deixe-se então claro que se os Livros Sibilinos eram atribuídos à famosa Sibila de Cumas, já os Oráculos Sibilinos eram atribuídos a outras sibilas, hoje bem menos famosas que esta grande figura da história de Roma. Os primeiros quase não nos chegaram, com a excepção de vagos versos, enquanto que os segundos são compostos por cerca de 12-14 livros, mas estão repletos de falsificações cristãs, não sendo já fácil reconhecer o seu conteúdo pré-cristão, se é que ele alguma vez existiu…