A origem e significado da “alma gémea” (e o seu mito)

A origem e significado da alma gémea, enquanto uma expressão ligada ao tema do amor, é um tema interessante, porque também tem uma face muito significativa de que raramente ouvimos falar, e que até nos pode, e deve, demonstrar que todo o conceito é muito menos verdadeiro e digno de crédito do que nos pode soar.

A origem da alma gémea?

A origem da alma gémea é uma lenda, ou mito, que vem do Simpósio de Platão. Nessa obra, e como já contámos cá em parte anteriormente, diversas figuras discursam sobre o tema do amor. Entre elas conta-se Aristófanes, que conta uma espécie de mito grego em que os seres humanos, originalmente, eram compostos por um único corpo com ambos os sexos. Depois, os deuses decidiram separá-los em duas formas, em dois géneros diferentes, e então essas duas partes daquele que era originalmente um só ser estavam como que condenadas a procurar a sua outra metade até a encontrarem, altura em que eram levadas à maior das felicidades.

 

É essa a origem e significado da expressão alma gémea, mas contar esta história raramente é complementado com alguns elementos que lhe dão um tom bem diferente. Recorde-se então que Aristófanes era um autor de comédias, de pequenas peças de teatro com temas jocosos e apresentadas para se rir, o que só por si dá a entender que esta ideia, apesar de muito romântica, é meramente ficcional e deve ser tomada como uma mera brincadeira – e nada mais! O facto de quem contou a história na obra platónica estar parcialmente bêbado quando o faz é, ainda mais, uma grande prova nessa mesma direcção. E que tal o facto de ela ser recebida pelos demais participantes do simpósio com muita risota?

 

Então, será que a alma gémea existe mesmo? Não mais que Hipalectrion ou os Centauros, figuras ficcionais que caracterizam muitas das histórias – meras histórias, relembre-se – da Antiguidade e da Mitologia Grega. E é perigoso vê-las como algo mais que isso, porque demasiadas vezes implica tomar por verdadeiro algo que claramente não o é.

“Calcanhar de Aquiles” – origem e significado

A expressão Calcanhar de Aquiles tem um significado muito claro no contexto do mito deste herói da Mitologia Grega, na medida em que ainda hoje é usada para designar uma qualquer fraqueza particular em alguma coisa. Assim, ao dizer-se que o de uma determinada equipa é a defesa, pretende dizer-se que o seu grande ponto fraco é a incapacidade para defender correctamente. Muito simples, até porque esta expressão nos é sobejamente conhecida nos dias de hoje, mas de onde vem ela, qual é a sua verdadeira origem?

O mítico Calcanhar de Aquiles

Descortinar essa história do Calcanhar de Aquiles é muito menos simples do que nos poderia parecer a uma primeira vista. Na Ilíada não existe qualquer referência a uma especial vulnerabilidade que este herói possa ter tido, até porque este herói é aí ferido e até sangra. Saltando alguns séculos mais à frente, é somente já no início da nossa era que um primeiro autor, Estácio, alude a uma pequena história na qual o filho de Tétis, ainda muito jovem, tinha sido banhado pela mãe no rio Estige; isto deveria torná-lo invencível, mas como a deusa o segurou por um dos calcanhares, a figura teria sempre essa vulnerabilidade. Poderíamos então pensar que teria sido Estácio, na sua incompleta Aquileida, a originar a expressão relativa ao Calcanhar de Aquiles, mas a verdade é que nos muitos séculos que separam os Poemas Homéricos desta criação latina existem múltiplos vasos que têm representados alguma sequência da morte de Aquiles, com o herói a ter, muito frequentemente, uma flecha a trespassar um dos pés.

 

Teria ele morrido dessa ferida? Estaria a flecha de alguma forma envenenada? Era o Calcanhar de Aquiles verdadeiramente uma fraqueza do herói? Muitas poderiam ser as questões relativas ao episódio mitológico, mas seriam um pouco secundárias para o tema aqui em discussão. Nas fontes literárias a que ainda temos acesso, a ideia de uma vulnerabilidade do herói só aparece, como já dito, no primeiro século da nossa era, vindo depois a ser popularizada não através de uma única obra – como poderíamos crer – mas de todo um conjunto de obras que, ao longo dos séculos, a foram repetindo das mais diversas formas. Esta é, portanto, uma ideia de um autor desconhecido, que a cultura popular foi disseminando com o decorrer do tempo.

Era Héracles homossexual?

Era Héracles homossexual? É uma de aquelas questões que são colocadas muitas vezes, seja em relação a esta figura da Mitologia Grega ou a um outro herói, Aquiles. Mas, face a todo o contexto de todos os mitos de Héracles, poderia parecer-nos que as preferências sexuais do herói fossem bem conhecidas, mas Ateneu, no seu 13º livro, leva-nos a uma ideia intrigante: segundo ele, um Diotimo (hoje desconhecido) escreveu uma Heracleia, na qual Euristeu e este filho de Zeus eram amantes, tendo o segundo empreendido os seus famosos trabalhos para agradar ao primeiro – um Héracles homossexual?!

Tendo em conta que esta informação aparece inserida num conjunto de referências a pares semelhantes e que o autor dá referências bibliográficas para cada um deles, torna-se fácil concluirmos que esta era a opinião de um só autor e que, como pode ser visto através da mesma sequência no texto, não representava a opinião de nenhuma maioria.

São conhecidas várias relações do herói com mulheres, este também teve vários filhos, e se existem algumas referências à relação (não necessariamente amorosa) desta figura com Iolau ou Ílas, entre outros, é provável que a opinião de Diotimo seja exclusivamente isso mesmo, uma opinião de um só autor, até porque a obra que lhe é atribuída não nos chegou, dificultando a tarefa de averiguar em que medida Euristeu e Héracles até poderão ter tido alguns episódios de paixão.

Édipo e o enigma da Esfinge

Édipo e o enigma da Esfinge

Um dia, às portas da cidade de Tebas, um misterioso jovem encontrou-se frente-a-frente com um horrendo monstro. O nome do primeiro era Édipo, e a segunda era a Esfinge. Agora, este podia ser um confronto mitológico como tantos outros, mas em vez de o atacar fisicamente, a Esfinge propôs a Édipo que este resolvesse um enigma, aquele que nos ficou conhecido apenas como Enigma da Esfinge, sob pena de ser devorado, caso a sua resposta estivesse erradas. O enigma colocado a Édipo mantém-se famoso nos nossos dias e aparece nos mais diversos livros e programas de televisão, mas na Antiguidade parecem ter existido diversas versões desse enigma que lhe foi colocado pela Esfinge. A de hoje provém de um autor pouco conhecido chamado Asclepíades, que faz a Esfinge dizer estas palavras ao heróico Édipo – Com dois e quatro e três pés sobre a terra, tem uma só voz, e de entre todos aqueles que existem na terra ou no ar ou no mar só ele muda de forma. E quando é suportado em três pés, a força dos seus membros é mais fraca.

 

A resposta ao enigma é sobejamente conhecida – trata-se do homem – mas esta versão permite-nos, essencialmente, notar que a versão mais famosa e mais simples do enigma não era a única que existia, estando provavelmente a resposta, bem como parte do enigma (a referência aos 2, 3 e 4 pés), muito bem assente na trama mitológica que opunha Édipo à Esfinge.

O mito de Baubo

Esta sucinta história do mito de Baubo é-nos recapitulada por Clemente de Alexandria, procurando esse autor cristão com ela demonstrar aquela que considerava ser a enorme e constante imoralidade das fábulas e lendas pagãs. Porém, pelo facto de ainda existirem múltiplas estatuetas antigas representando Baubo, sabemos que pelo menos parte da trama é muito anterior a esse autor do século II da nossa era. Recordamos então este pequeno mito:

 

Baubo era uma mulher que recebeu Deméter em sua casa quando esta deusa procurava a filha pelo mundo fora. Tentou oferecer-lhe de beber e quando a figura divina rejeitou, Baubo levantou parte do seu vestido, mostrando os genitais à mãe de Perséfone. Esta riu-se, antes de aceitar, agora, a comida e bebida que já antes lhe tinham sido oferecidas.

O mito de Baubo

O mito de Baubo é, em suma, uma espécie de aventura anexa ao Rapto de Proserpina, que raramente é contada nesse seu contexto mas que, aparentemente, terá feito parte dele desde muito cedo, como demonstra a antiguidade das estátuas dessa figura. Porém, é igualmente possível que as estátuas antecedam o próprio mito, só se tendo associado a este numa época mais tardia…