Histórias do Zodíaco #5 – o Leão

Tal como acontecia no caso do caranguejo, também a presença deste leão nos céus era de fácil justificação para os Antigos. Tratava-se do Leão da Nemeia, o feroz (e invulnerável) animal que Héracles defrontou no primeiro de todos os seus trabalhos; se este foi derrotado e morto pelo herói, que depois passou a usar a sua pele como uma espécie de armadura, a razão da colocação entre as estrelas não é totalmente clara, podendo ter-se tratado apenas de uma forma de imortalizar o primeiro dos feitos do mais famoso filho de Zeus. Parece-me uma razão tão boa como qualquer outra, até pelo facto de nem todos os trabalhos do herói estarem colocados nos céus, levando-nos a pensar que este, em específico, deveria ter alguma razão especial para aí ser representado.

Histórias do Zodíaco #4 – o Caranguejo

As histórias da colocação do Caranguejo entre as estrelas apresentam-no sempre como o mesmo animal que, a mando de Hera, atacou Héracles durante o seu segundo trabalho; quando este herói se preparava para combater a Hidra de Lerna, o crustáceo incomodou, de alguma forma, o filho de Zeus. Nenhuma versão do episódio lhe dá um papel muito grande, o pequeno animal é sempre facilmente derrotado, acabando depois por ser colocado nos céus, seja por intervenção de Hera ou pelo simples facto do herói o atirar para esse local, de onde nunca tornou a descer.

Histórias do Zodíaco #3 – os Gémeos

Os dois gémeos colocados no zodíaco poderiam tratar-se de diversas figuras, todas elas caracterizadas por uma relação de alguma importância entre duas figuras masculinas, nem sempre unidas por laços de sangue. Contudo, na versão mais famosa da história eles tratam-se mesmo de dois irmãos, Castor e Pólux (ou Polideuces).

 

Seria dificil recontar todas as suas aventuras em algumas poucas linhas, pelo que para o contexto da sua colocação entre as estrelas bastará recordar a parte final do mito que os une. Segundo a versão mais famosa, um dos irmãos era mortal e o outro imortal; quando um deles faleceu, o outro (quase sempre Pólux) pediu que o seu dom fosse partilhado com o falecido. Assim, desfrutavam da companhia dos deuses em dias alternados, mas a terna amizade desta partilha levou a que também fossem imortalizados nos céus.

Histórias do Zodíaco #2 – o Touro

O touro representado no Zodíaco é, muito provavelmente, o mesmo que transportou Europa para a ilha de Creta. O mito que o envolve é talvez um dos mais famosos da cultura ocidental – quando a jovem apanhava flores numa zona costeira viu um enorme e belo touro. Por razões pouco claras decidiu subir para o dorso deste; quando isso teve lugar o touro pôs-se a correr sobre as águas, transportando-a para Creta, onde lhe revela a sua divina identidade, fazendo depois amor com a princesa e gerando o rei Minos.

 

Porém, esta versão da história põe-nos um problema – se este touro era uma das metamorfoses de Zeus, se não tinha uma existência real, como poderia ele ser colocado entre as estrelas? É para colmatar essa dificuldade que alguns autores dizem tratar-se não de uma só e única figura, mas de duas – o touro que transportou a princesa fenícia era um mero animal, enquanto que Zeus apenas aguardava por este (e pela convidada por ele transportada) para consumar a sua paixão. Seja como for, se este animal foi colocado entre as estrelas, não creio ter lido qualquer autor que diga que a figura celeste se tratava do próprio deus.

 

Outras hipóteses para a história deste signo poderão ser a figura de Io, uma das muitas jovens amadas por Zeus e que acabou por ser transformada em vaca para a ocultar da ira da esposa do deus, ou até o Touro de Creta, defrontado por Héracles num dos seus famosos trabalhos.

Histórias do Zodíaco #1 – o Carneiro

O tema dos 12 signos do zodíaco já cá foi abordado, de forma muito simples, no ano de 2012, mas face à curiosidade de algumas pessoas achei que poderia dedicar mais algumas linhas ao mesmo. Assim, as histórias desse ciclo celeste irão ocupar as próximas semanas deste espaço.

 

Se o signo do carneiro até poderá ter tido uma origem mais antiga (como ocorre com diversos outros, importa frisar), em específico através de uma figura com cabeça de carneiro que já existia na religião egípcia, a sua história mais famosa provém dos mitos gregos. O mito dos Argonautas, de que nos falam as obras de Apolónio de Rodes e Valério Flaco (entre outras), apresentava os viajantes da Argo, comandados por Jasão, a tentar obter um tosão de ouro que existia em terras de Cólquida. Esta trama é famosa, mas também tem um prefácio bem menos conhecido.

 

Alguns anos antes o rei Atamas tinha tido dois filhos, Frixo e Hele, fruto de um primeiro casamento. Casou depois com Ino, que tinha uma inveja enorme das duas crianças; para se livrar destas, a nova esposa induziu uma enorme fome nessas terras de Beócia (presume-se que tenha recorrido a magia negra) e falsificou uma mensagem de Delfos, segundo a qual o problema da região só acabaria com o sacrificio de Frixo.

Se o rei Atamas não gostou dessa mensagem, pelo seu dever régio decidiu que tinha mesmo de sacrificar o filho. No entanto, este, juntamente com a irmã, foram salvos por um carneiro voador enviado pelos deuses. Hele acabou por cair num local que viria a chamar-se Helesponto em sua honra (i.e. “Mar de Hele”), mas Frixo chegou com o carneiro até terras da Cólquida, onde foi bem recebido pelo rei Eetes – já famoso do mito dos Argonautas – a quem ofereceu o tosão do animal aí sacrificado. O carneiro também foi, nessa altura, colocado nos céus, onde ainda hoje pode ser visto, enquanto que a sua singular lã apareceria depois no mito dos Argonautas, de que já falei acima.