As três mortes dos filhos de Medeia

O mito de Jasão e Medeia já cá foi falado por diversas vezes, como quando cá foi feito um resumo da história de Jasão e os Argonautas. A versão de Eurípides, bem como de todos os autores posteriores que nos chegaram, põe a personagem titular a matar os próprios filhos, tornando-se essa acção quase um sinónimo da própria figura. Porém, há que ter também em conta outras duas versões das mortes dos filhos de Medeia, muito menos conhecidas mas certamente mais antigas.

 

Na primeira delas, querendo imortalizar os filhos Medeia deixa-os num templo de Hera, morrendo eles durante a noite. Pouco sabemos sobre esta versão, excepto que a acção da figura se devia a uma promessa que a deusa lhe tinha feito, mas sem que nada nos seja dito nada sobre o porquê dessa morte ou as razões que levaram à quebra da divina promessa.

A segunda versão, provavelmente um pouco mais recente, diz que foram os habitantes de Corinto a matar as crianças de Medeia, mas sem que saibamos as razões para tal.

 

Face a estas grandes faltas de informação um qualquer leitor poderia perguntar, de uma forma justíssima, como ainda nos são conhecidas essas outras possibilidades. Sobrevivem essencialmente em escólios ou em referências muito incompletas, como a patente em Pausânias (2.3.11), na qual se refere o abandono dos filhos num templo de Hera. E, infelizmente, pouco mais sabemos sobre cada uma delas.

O mito de Perseu e a morte do herói

Na Mitologia Grega é muito famoso o mito de Perseu, na qual este herói defrontou a Medusa (essa famosa história pode ser vista no link!) e salvou Andrómeda de um monstro marinho, mas há um aspecto muito singular na sua trama mitológica e que passa pela morte da sua figura principal – como foi a morte desse famoso herói? Contrariamente ao que sucede com muitos outros, o fim da sua vida é pouquíssimo mencionado nos mitos da Antiguidade, e tanto quanto foi possível averiguar até só existem duas breves menções a todo esse evento:

O mito de Perseu e a Medusa

Higino, ao listar um conjunto de figuras que mataram parentes, diz que este Perseu, o filho de Jove [i.e. Júpiter] e Dánae, foi morto por Megapente, filho de Preto, devido à morte do pai deste. Tratando-se de uma simples entrada numa lista não é dado qualquer detalhe adicional, sendo-nos impossível saber o que se terá passado.

João Malalas, um autor tardio e especialmente conhecido pelos mitos estranhos que fez chegar aos nossos dias, conta-nos que um dia Perseu defrontou em combate um idoso Cefeu, pai de Andrómeda. Dada a sua idade esta segunda figura já não conseguia ver, pelo que quando o herói usou a cabeça de Medusa para o transformar em pedra, o famoso artifício, provavelmente pela primeira vez, falhou. Face a uma tão invulgar falha Perseu decidiu verificar o que se passava, olhando então para a famosa cabeça e assim falecendo.

 

Face a estas duas versões tão divergentes devemos ter em conta que a segunda só é mencionada já no século VI d.C., enquanto que a primeira quase nada nos deixa perceber sobre a morte do herói, como ela tinha lugar no tempo da Grécia Antiga, apesar de ser indubitavelmente mais antiga que a anterior. Se o episódio de Perseu e da sua mais famosa opositora já era conhecido desde tempos muito antigos, em que já aparecia bem atestado na arte, a literatura durante mais de 500 anos nunca menciona o destino final da figura, sendo provável que o herói se tenha limitado a desaparecer, sem qualquer razão para tal.

O mito de Demogorgon

O mito de Demogorgon é o de uma figura de alguma importância na literatura do Renascimento e em alguns rituais mágicos da Antiguidade, mas que, curiosamente, é muito pouco mencionada nos textos mais antigos, surgindo só e exclusivamente num comentário à Tebaida de Estácio, no qual é dito apenas que Demogorgon se tratava, supostamente, de um deus supremo da Mitologia Grega.

 

É esse papel divino ou demoníaco que os textos mais recentes, como os de Boccaccio ou de Milton, dão a Demogorgon, mas sem que pareça ter existido, pelo menos hoje acessível para nós, um verdadeiro mito associado a este nome. E porquê? Segundo diversos estudiosos dos nossos dias, é possível que a palavra “Demogorgon” tenha resultado de uma leitura incorrecta de um nome original, possivelmente de uma figura como o Demiurgo que nos chegou nos textos de Platão – ele sim, um deus supremo, que muitos textos filosóficos até nos referem!

“Elogio a Helena”, de Górgias, e as razões do rapto de Helena

Trata-se do mesmo Górgias que aparece num dos diálogos de Platão o suposto compositor deste elogio a Helena de Tróia, mas a que se deviam estas suas linhas neste Elogio a Helena? Essencialmente ele pretendia mostrar que Helena não tinha qualquer culpa de ter sido raptada. Ele não dizia, como o fez Estesícoro alguns séculos antes, que a figura nunca tinha sido raptada. Foi-o, isso é indiscutível para este autor. Mostra é que se a esposa de Menelau foi levada, isso se deveu a pelo menos uma de quatro causas: amor, persuasão, rapto pela força ou influência divina.

 

É dessas quatro causas que falam, de uma forma breve, as linhas deste texto de Górgias e os argumentos que utiliza são puramente lógicos, tão lógicos que merecem ser postos a descoberto. Infelizmente, os “Poemas Cíprios”, onde o episódio tomava lugar, estão hoje perdidos, pelo que não sabemos de que forma Páris acabava por conseguir levar Helena consigo de volta para Tróia, mas se pensarmos por algum tempo facilmente somos capazes de concluir que as quatro possíveis causas deste autor fazem todo o sentido. Se ela se apaixonou pelo filho de Príamo, estava a ir-se embora não porque o queria fazer mas porque a paixão a conduzia a isso. Se este a convenceu por palavras, foi a sua capacidade retórica, mais do que um desejo real de Helena, que a levou a fugir com ele. Se a filha de Leda foi levada à força evidentemente que nada podia fazer. Em último caso, se foram os deuses a causar todo o episódio nenhum dos seus intervenientes teria qualquer tipo de influência real, levando a que nenhum deles pudesse ser culpado pelo sucedido.

 

Não se pretende aqui imitar Górgias, quem estiver interessado nos argumentos que utilizava poderá apenas ir ler o texto mencionado acima. O que se pretende mostrar é que seja qual for o caminho que levou ao rapto de Helena, esta figura pouca influência tinha no resultado final. Não sabemos, repito, como tomava lugar este episódio nos poemas mais antigos, mas o autor deste texto, que nos escrevia no século IV a.C. sabia-o (veja-se que num outro dos seus textos também defendia Palamedes, figura de relevo nos mesmos poemas), tendo apresentado esta defesa, como não poderia deixar de ser, com base no que aí sucedia. Sabemos, portanto, que Helena não era a culpada da sua ausência da casa de Menelau, pelo menos não para este autor. Se, no entanto, era ela a causadora de toda a guerra, isso já é outra questão ligeiramente diferente.

O curioso mito de Rifeu

O mito de Rifeu, apesar de curioso, não é muito conhecido. Este herói era, como nos diz a Eneida, um troiano extremamente justo, mas que ainda assim foi morto aquando da conquista de Tróia. O poema de Virgílio só nos diz isso, é até provável que a história até tenha sido inventada por esse autor, MAS é precisamente aqui que começa a parte curiosa do mito. Ao falar dessa figura, no segundo canto da sua obra, o autor diz que os deuses pouco valor deram à justiça da figura… mas séculos mais tarde, Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, coloca então esse troiano no Paraíso, enquanto deixou de fora desse local figuras como Cícero ou Platão. O que os antigos deuses rejeitaram, o Deus do Cristianismo acolheu!

 

A este Rifeu também João de Barros atribuía a fundação de uma nova Tróia, próxima de Setúbal, mas essas histórias ficam para outro dia, como prometido a uma leitora.