O mito de Palamedes e o de Náuplio

Palamedes é, pelo menos hoje em dia, um dos heróis menos conhecidos da Guerra de Tróia. Homero dedica-lhe zero palavras, uma ausência que João Tzetzes justificou dizendo que essas obras não queriam dizer mal dos Gregos, mas indo ao que importa, a história do próprio herói…

 

Era filho de Náuplio (já lá iremos), e foi ele quem descobriu o esquema que Odisseu tinha urdido para escapar a toda a guerra. Quando este segundo se estava a fingir de louco, Palamedes colocou um jovem Telémaco em frente de um arado (ou, segundo outras versões menos famosas, ameaçou-o com uma espada) e o pai viu-se obrigado a revelar a sua sanidade, sendo obrigado a juntar-se ao contingente aqueu, mas não sem alguma inimizade perante o seu opositor.

Depois, já durante a guerra de Tróia, Palamedes foi vítima de um vingativo esquema de Odisseu, o que acabou por o matar. O que se passou, mais precisamente, depende das versões do mito – ou foi afogado, ou viu-se acusado de uma (falsa) traição, … – mas é indiscutível que não sobreviveu até aos episódios relatados no início da Ilíada, com pelo menos um autor a dizer que a raiva de Aquiles se devia também à morte deste seu amigo, como já cá foi relatado anteriormente.

 

Falemos, agora, de Náuplio. Depois do seu filho ter sido morto em Tróia, ele ainda tentou que o culpado fosse penalizado, mas ninguém mostrou qualquer tipo de solidariedade para com a sua dor. Então, também ele decidiu vingar-se – tentou insurgir as mulheres dos gregos contra os seus maridos ausentes (dois casos famosos são os das esposas de Agamémnon e de Diomedes, mas pelo menos uma versão diz que foi ele que levou os pretendentes de Penélope a Ítaca) e, quando estes já voltavam de Tróia para suas casas, acendeu uma tocha durante uma tempestade, fingindo tratar-se de um porto seguro e conduzindo assim muitos dos navegadores para as suas mortes.

 

Existe um pequeno elemento a adicionar sobre a primeira destas figuras, Palamedes. Se este mito até nos poderia parece menor, são vastas as menções na literatura da Antiguidade às invenções do herói. Para dar alguns exemplos que nos foram chegando, diz-se então que ele inventou os números, pesos, medidas, a Astronomia, algumas letras do alfabeto grego e também alguns jogos (como os dados, que os heróis gregos depois usaram para se distrair durante os seus tempos livres em Tróia).

Édipo e a vingança da Esfinge – a que se devia ela?

O mito de Édipo já cá foi falado antes (aqui), mas raras são as fontes que referem o porquê do ataque da Esfinge à cidade de Tebas. Segundo, porém, um escólio onde nos é contado parte dos antigos poemas épicos sobre este tema, existia uma razão para o ataque do invulgar monstro – Laio, rei de Tebas e pai de Édipo, tinha-se envolvido com outro homem (no contexto da história, esta seria a primeira de todas as relações homossexuais), e então Hera, enquanto deusa do casamento, enviou a Esfinge para vingar esse “inovação”, se lhe podemos chamar tal.

 

É difícil saber até que ponto esta informação, atribuída a um “Pisandro”, representava a visão original do mito. Sabemos, isso sim, é que se a Esfinge, e o seu episódio com Édipo, até é mencionado pelos mais diversos autores, ao mesmo tempo poucos são os que referem o porquê dessa presença, sendo esta opinião tão boa como qualquer outra que nos tenha chegado.

A querela de Aquiles e Ulisses

A querela de Aquiles e Ulisses

O grande tema da Ilíada é, como se sabe, a cólera de Aquiles, que ocorre na sequência de uma querela deste herói com Agamémnon. É famoso esse episódio, mas a Odisseia, no seu livro VIII (vv.75-85?), também faz uma pequena referência a uma outra zanga do filho de Tétis, desta vez com Ulisses (ou Odisseu, ou o que lhe queiramos chamar). Não nos é contado o que se terá passado, excepto que o episódio tomou lugar durante um sacrifício, e que Agamémnon já antes tinha recebido um oráculo que predizia essa ocorrência. Mas afinal, o que aconteceu na querela de Aquiles e Ulisses?

 

Como é costume, estas linhas não estariam a ser escritas se não houvesse algo para acrescentar. Se o autor dos Poemas Homéricos nunca nos conta o que se passou, já um escólio presente nos textos dá-nos algum conteúdo adicional; de acordo com essa fonte menos conhecida, esta era uma zanga que tinha ocorrido aquando de uma discussão sobre a forma como Tróia devia ser tomada. Por um lado, Aquiles argumentava que a força seria suficiente, por outro Odisseu pôs-se em favor de uma conquista recorrendo a subterfúgios.

 

Não sabemos quem saiu vitorioso, ou sequer a fonte que continha este episódio, mas, pensado na trama de toda a guerra podemos constatar que, de alguma forma, este é um confronto cujas repercussões vão sendo vistas aqui e ali; pense-se até que, se a Ilíada é o poema de Aquiles e de Heitor, o que mais a popula são confrontos guerreiros, já a Odisseia é uma versificação dos muitos esquemas de Odisseu. E como correu a guerra para ambos? Se, na primeira destas obras, são as forças guerreiras que imperam, numa sequência que, muito provavelmente, terminava com a morte de Aquiles, é após esse momento que a figura do outro Aqueu se parece começar a tornar mais importante, e acaba até por ser um dos planos do marido de Penélope, a construção do cavalo de madeira, que leva à conquista da cidade de Príamo.

 

Poderia repetir, novamente, que desconhecemos quem saiu vitorioso, mas o que é certo é que, em termos práticos, foi a sugestão do opositor do Pelida que levou à conquista de Tróia. Qualquer que tenha sido o desenrolar do obscuro debate, o vencedor aquando do término da guerra foi, indubitavelmente, Odisseu.

Uma pequena história de Sócrates

Sócrates, imortalizado nas linhas de Platão, é uma figura muitíssimo bem conhecida na Filosofia, mas, ao longo de toda a literatura da Antiguidade, existem momentos em que outras faces da mesma figura são reveladas. Estrabão, ao referir a Batalha de Délio, coloca então Sócrates do lado dos vencidos, e diz que este, após ter perdido o cavalo, encontrou Xenofonte caído, e transportou-o às costas para fora de combate. Muitos outros autores referem a presença do (futuro) filósofo nessa batalha, mas são momentos como estes que nos permitem constatar que existe um outro Sócrates antes do filósofo.

 

Alguns autores mencionam, por exemplo, que esta figura trabalhou na estatuária, tendo criado umas estátuas das Graças que estavam na Acrópole de Atenas, mas nem todas essas afirmações são igualmente credíveis. Se a presença da figura na batalha aqui referida até aparece bem atestada, outros elementos (como o das estátuas) nem sempre têm o mesmo valor, devendo ser vistos, muitas vezes, com alguma prudência.

Mito de Erisictão e de Mestra

Erisictão era um rei que mandou destruir um bosque consagrado a Deméter, deusa da agricultura. Então, esta castigou-o com um apetite infindável, que o rei nunca conseguia saciar. Eventualmente, esgotou todos os seus recursos, mas continuava sempre com fome. Então, decidiu vender a sua filha, Mestra, por diversas vezes, para poder comprar mais comida. Porém, esta filha sempre retornava a casa, transformando-se em diversos animais e escapando de quem a tinha adquirido, uma mágica capacidade que lhe tinha sido dado por Poseidon, rei dos mares e seu antigo amante. O mito termina com Erisictão, numa derradeira refeição, a devorar-se a si próprio.

 

Muitas poderiam ser as ilações a retirar deste mito, mas, num nível de leitura mais superficial, pode apontar-se a necessidade de respeito pelos deuses, e uma, sempre actual, necessidade de alguma contenção no aproveitamento dos recursos naturais. O mito fala-nos de um bosque, mas, associado à figura de Deméter, o local afectado também poderia tratar-se de um campo de cultivo, que, quando destruído, levava, de uma forma muito directa, à fome das populações, como levou à do próprio Erisictão. Claro que a fome desse rei era, no mito, sobrenatural e insaciável, mas algo parecido até poderá passar-se com cada um de nós, se decidirmos desrespeitar a natureza. Este é, portanto, um mito hoje tão actual como quando foi escrito, há já muitos séculos, e cuja lição subjacente jamais devemos esquecer.